terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Em defesa de Cavaco Silva

Não quis que Cavaco Silva fosse eleito, e apelei a que se votasse contra ele. Mas não vou assinar a petição que apela à sua demissão, nem considero que a mesma faz grande sentido.

Quando soube das notícias relativas às suas afirmações infelizes, também me indignou a desonestidade da omissão, e o alheamento da realidade do país. E por isso achei muito engraçadas as primeiras rábulas apelando à «solidariedade social» com a «situação de miséria» do presidente. Achei menos piada às segundas, e terceiras, mas compreendi que a situação estava «a pedir» tal sátira, e que era normal que a mesma ideia ocorresse a diferentes humoristas. Mas as rábulas continuaram... e continuaram... e continuaram... A piada sempre a mesma.

Depois soube da petição, e pouco depois da iniciativa de ir ao Palácio de Belém. E nesse momento, a obsessão com este momento menos feliz do Presidente já me começou a incomodar.

Incomodou-me porque está em risco a construção de uma nova PIDE e ninguém parece notar. Incomodou-me porque se delapidam os recursos do estado de forma pouco transparente ou assumidamente desonesta a uma velocidade avassaladora, e ninguém parece notar. Incomodou-me porque conhecemos mentiras bem mais sérias e substanciais que esta do presidente, e ninguém parece notar.

Faz mesmo sentido apelar à demissão de alguém por causa de umas declarações infelizes aos jornalistas, que nem sequer ocorreram no exercício das suas funções? Com tantos milhares de boas razões para apelar à demissão de tantos líderes políticos - é esta petição que faz notícia pela sua popularidade? Pode ser um indício de um protesto que começa a ultrapassar as instituições, como escreve o Ricardo Alves, mas é também um indício de como precisamos de um eleitorado mais atento e vigilante, que consiga separar o que é importante de fait divers acessórios.

Fico com vontade de dizer, e desta vez não é sátira nem ironia: tenham dó de Cavaco Silva.