sábado, 31 de dezembro de 2005

O comentário do ano

O comentário mais eloquente feito neste blogue, em 2005, foi registado no dia 21 de Dezembro:
  • «Anonymous said...
    Ó pá, tanto atraso mental devia pagar imposto.
    Quarta-feira, Dezembro 21, 2005 5:21:48 PM»
O artigo que assim se comentava, usando o coloquial «Ó pá» e uma expressão vulgar muito popular, mas ao mesmo tempo insistindo numa pontuação correcta e na maiúscula no início da frase, era sobre o debate Soares-Cavaco. Eu não escrevera nada de muito inspirado, mas um indivíduo chamado João Caetano Dias deve ter ficado irritado com as minhas banalidades, pois açulou uma matilha de cães na minha direcção, os quais se divertiram a emporcalhar a minha caixa de comentários.
Peço ao João Caetano Dias que enderece ao cavaquista anónimo autor do comentário acima reproduzido os meus desejos de feliz ano novo, já que o autor dessa intervenção tão brilhante decidiu, num acto que demonstra o carácter que tem, não o assinar.
Desejo um feliz ano novo a todos, aos que reagem a gritos tribais e aos que nem por isso.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Mais Cavaco, mais instabilidade

O melhor da entrevista de Cavaco Silva ao Jornal de Notícias:
  • A mentirinha inocente sobre a decisão de se candidatar: «Foi um mergulho súbito para o que, confesso, não estava lá muito bem preparado. (...) Foi um mergulho sem preparação
  • A promessa de ser implacável com Sócrates: «A primeira tarefa que gostaria de realizar era uma conversa longa com o primeiro-ministro.»
  • A ameaça de modificar o regime na sua vertente simbólica: «A primeira cerimónia a que o próximo presidente vai presidir será a comemoração do 25 de Abril. O que diria para lembrar essa data?-Ainda não pensei nisso. No passado, assisti a discussões e até a desejos de se modificar a cerimónia do 25 de Abril».
  • O desejo de mandar em todos os sectores da política económica, até aos mais ínfimos detalhes: «Vai usar até à exaustão o poder da palavra?-Ai isso vou. Vou falar. Uma palavra-chave para mim é cooperação. Há aí candidatos que estão nervosos por eu dizer que vou cooperar com o Governo, mas até digo mais, alargarei esses estímulos e contactos à sociedade. Por exemplo, preocupam-me muito os nossos têxteis e calçado. Tenho dito, e continuarei a dizer que é uma ilusão pensar em substituir, de um momento para o outro, os têxteis por indústrias tecnologicamente avançadas. Este sector tem de ser apoiado na direcção da qualidade, na marca».
  • A vontade de desenhar o organigrama do Governo: «Podia existir um responsável do Governo que fizesse a lista de todas as empresas estrangeiras em Portugal e, de vez em quando, fosse falar com cada uma delas para tentar indagar sobre problemas com que se deparam e para antecipar algum desejo dessas empresas se irem embora, para assim o Governo tentar ajudá-las a inverter essas motivações. Tem de ser um acompanhamento com algum pormenor que deveria ser feito por um secretário de Estado especialmente dedicado a essa tarefa.
    Vai propor isso ao Governo?-Já o estou a propor aqui
  • A interpretação maximalista dos poderes presidenciais, exigindo poderes legislativos para o Presidente: «Admite sugerir legislação ao primeiro-ministro?-Nas conversações com o primeiro-ministro, se entender que existe um domínio que carece de uma lei ou que tem legislação em excesso posso trocar impressões com ele. (...) O presidente pode sugerir intervenção legislativa nalgumas áreas

sábado, 24 de dezembro de 2005

Definição minimal de terrorismo

Terrorismo: o uso, por grupos não governamentais, de meios violentos para atingir fins com os quais não simpatizamos.

Exemplos:
  1. Em 1998, o Departamento de Estado dos EUA considerava o UÇK albanês um grupo terrorista, e poucos meses depois apoiou-o militarmente;
  2. A UNITA de Savimbi era considerada terrorista pela «esquerda» (com a excepção da família Soares) enquanto Reagan lhes chamava «combatentes pela liberdade»;
  3. Ribeiro e Castro considera a Al-Qaeda terrorista, mas é melhor ninguém lhe perguntar se teve ou tem a mesma opinião sobre o MDLP.
Conclusão: os meus terroristas são os vossos «combatentes pela liberdade».

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Os sarilhos que Cavaco promete

Na sua entrevista à Atlântico, Cavaco Silva define o seu programa da forma seguinte:

  • «Eu defini seis grandes ambições. A melhoria da qualidade da nossa democracia, onde incluo também o funcionamento do sistema de justiça, a administração pública, as forças de segurança e até uma comunicação social livre, autónoma, responsável, e uma sociedade civil também autónoma e também com uma cultura ética. Depois, uma segunda ambição que consiste em reencontrar o caminho de aproximação ao nível de desenvolvimento médio da UE e da Espanha. Uma terceira, que é o aumento da qualificação dos recursos humanos, um problema que na minha opinião justifica uma mobilização quase geral dos órgãos de soberania, incluindo o Presidente da República, para tentar corrigir uma situação que é grave. Uma outra que implica a correcção do desordenamento do território, o desenvolvimento cultural, a melhoria da qualidade ambiental. As restantes são a construção de uma sociedade mais justa e mais solidária e tornar Portugal um protagonista activo e credível na cena internacional.»

Tudo isto é tão vago que poderia ser subscrito por qualquer um dos outros candidatos, incluindo Manuela Magno e até Jerónimo de Sousa. O problema está naquilo que se vai compreendendo, no resto da entrevista, sobre o modo de actuar que Cavaco se imagina.

  • «Ninguém pense que sem confiança o investimento vai ser feito, ou que os empregos vão ser criados, ou que sem confiança os capitais ficam aqui, ou que os talentos são suficientemente bem aproveitados. Eu acho que o Presidente da República pode desempenhar aqui um papel como factor de confiança e factor de credibilidade

Em primeiro lugar há isto: a ideia de que basta Cavaco ser Presidente para a «confiança» por ele irradiada gerar crescimento económico. Se algum político de esquerda dissesse que a mera «confiança» que a sua pessoa supostamente transmite é suficiente para atrair investimento ou criar emprego (já agora, para deter as marés...), seria ridicularizado, sem piedade mas merecidamente, pelos «liberais» da blogo-esfera e arredores. Sendo Cavaco o candidato mais à direita, terá que ser a esquerda a explicar o óbvio: que não basta uma pessoa ter confiança em si própria para os outros terem confiança nela, e que nenhum dos poderes do Presidente lhe permite, directamente, criar emprego ou impedir a fuga de capitais. Mas o que me deixa apreensivo são coisas destas:

  • «Acho, por experiência própria, que as reuniões entre o Presidente da República e o primeiro-ministro têm uma grande importância. E se o Presidente da República estiver bem preparado então estou certo de que o primeiro-ministro chegará lá também bem preparado, para tratar das matérias em profundidade

Traduzindo: o Presidente Cavaco entenderá as reuniões com o Primeiro Ministro como um exame universitário em que ele será o Professor e Sócrates o aluno? É que juntando isto com a célebre defesa de que «os mesmos dados levam às mesmas conclusões» (que só estaria certa se a política fosse a Física ou a Biologia), fica-se com a suspeita de que Cavaco ambiciona governar a partir de Belém por interposto Primeiro Ministro. O que promete sarilhos (conflitos e instabilidade)...

O Presidente tem poderes que são essencialmente «negativos»: vetar leis, demitir o Governo, dissolver a Assembleia da República, etc.; tem poderes propositivos praticamente nulos: enviar mensagens à Assembleia da República, organizar colóquios... Como poderia Cavaco relançar a economia e o emprego (e é isso que ele promete) com estes poderes?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Citações republicanas (4): Pierre Mendès-France

«La République doit se construire sans cesse car nous la concevons éternellement révolutionnaire, à l’encontre de l’inégalité, de l’oppression, de la misère, de la routine, des préjugés, éternellement inachevée tant qu’il reste des progrès à accomplir.»

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Christopher Hitchens: «The horrors of December in a one-party state»

«I used to harbor the quiet but fierce ambition to write just one definitive, annihilating anti-Christmas column and then find an editor sufficiently indulgent to run it every December.
(...)
What I have always hated about the month of December: the atmosphere of a one-party state. On all media and in all newspapers, endless invocations of the same repetitive theme. In all public places, from train stations to department stores, an insistent din of identical propaganda and identical music. The collectivization of gaiety and the compulsory infliction of joy. Time wasted on foolishness at one's children's schools. Vapid ecumenical messages from the president, who has more pressing things to do and who is constitutionally required to avoid any religious endorsements.
And yet none of this party-line unanimity is enough for the party's true hard-liners. The slogans must be exactly right. No "Happy Holidays" or even "Cool Yule" or a cheery Dickensian "Compliments of the season." No, all banners and chants must be specifically designated in honor of the birth of the Dear Leader and the authority of the Great Leader. By chance, the New York Times on Dec. 19 ran a story about the difficulties encountered by Christian missionaries working among North Korean defectors, including a certain Mr. Park. One missionary was quoted as saying ruefully that "he knew he had not won over Mr. Park. He knew that Christianity reminded Mr. Park, as well as other defectors, of 'North Korean ideology.' " An interesting admission, if a bit of a stretch. Let's just say that the birth of the Dear Leader is indeed celebrated as a miraculous one—accompanied, among other things, by heavenly portents and by birds singing in Korean—and that compulsory worship and compulsory adoration can indeed become a touch wearying to the spirit.
(...)
There are millions of well-appointed buildings all across the United States, most of them tax-exempt and some of them receiving state subventions, where anyone can go at any time and celebrate miraculous births and pregnant virgins all day and all night if they so desire. These places are known as "churches," and they can also force passersby to look at the displays and billboards they erect and to give ear to the bells that they ring. In addition, they can count on numberless radio and TV stations to beam their stuff all through the ether. If this is not sufficient, then god damn them. God damn them everyone.»
(Christopher Hitchens na Slate; ler na íntegra.)

O ponto de viragem?

Ou muito me engano, ou o debate de ontem foi um ponto de viragem na campanha eleitoral. Durante toda a primeira parte, Soares encostou Cavaco a um canto e sovou-o metodicamente. Durante a segunda parte, Cavaco conseguiu descomprimir os músculos faciais, mas duvido que lhe tenha servido de muito.
Mas na verdade, de política concreta pouco se ouviu ontem. O que se viu foi o esforço (inglório?) de Soares para acordar toda a gente berrando (e com uma energia surpreendente para a idade que tem) que a função presidencial não consiste em ser um super-ministro da economia ou um consultor de finanças com poderes executivos. Porque realmente ninguém, até agora, se dera ao trabalho de desmontar as promessas incumpríveis que Cavaco assina implicitamente quando fala em «difundir uma cultura de mérito e exigência» ou em ser o «irradiador da confiança e da competência». Um Presidente só tem uma ou duas formas de intervir: os discursos presidenciais (e Cavaco até reconhece pressurosamente que não é muito dotado para a fala e para a escrita...) e os congressos e seminários (que se arriscam a ser entendidos como acções de oposição aberta ao governo). Influir decisivamente no desenvolvimento do país ou nas minudências sectoriais está para além dos poderes do Presidente da República, e Cavaco tem feito de conta que não o sabe. Soares tentou explicar isto. Se teve ou não sucesso, ver-se-á nos próximos dias.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

American heroes (5.1): Robert Green Ingersoll

«A fact never went into partnership with a miracle. Truth scorns the assistance of wonders. A fact will fit every other fact in the universe, and that is how you can tell whether it is or is not a fact. A lie will not fit anything except another lie.»

(Robert Green Ingersoll)

Citações republicanas (3): Jean Jaurés

«La République c'est le droit de tout homme, quelle que soit sa croyance religieuse, à avoir sa part de la souveraineté
(Jean Jaurés, 1859-1914)

sábado, 17 de dezembro de 2005

American heroes (5): Robert Green Ingersoll

«They knew that to put God in the Constitution was to put man out. They knew that the recognition of a Deity would be seized upon by fanatics and zealots as a pretext for destroying the liberty of thought. They knew the terrible history of the church too well to place in her keeping, or in the keeping of her God, the sacred rights of man. They intended that all should have the right to worship, or not to worship; that our laws should make no distinction on account of creed. They intended to found and frame a government for man, and for man alone. They wished to preserve individuality of all; to prevent the few from governing the many, and the many form persecuting and destroying the few.»

(Robert Green Ingersoll, 1833-1899; conhecido como «o Grande Agnóstico», Ingersoll foi durante toda a vida um defensor do laicismo, da liberdade de expressão, do direito de voto das mulheres e do fim da escravatura.)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Citações republicanas (2): Albert Camus

«La démocratie, ce n'est pas la loi de la majorité, mais la protection de la minorité

(Albert Camus, 1913-1960; Carnets.)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Regresso à Pátria

Manuel Alegre usa a palavra pátria. Não me incomoda nada, porque percebo que se refere a uma comunidade de Direito, valores cívicos e interesses, historicamente consolidada, e inclusiva (ver a defesa que faz de uma lei da nacionalidade baseada no direito de solo). Aborrece-me mais o europeísmo de outros candidatos, porque (esse sim) é provinciano (imagina que lá fora tudo é melhor), ingénuo (não vê que a UE não é o fim da história) e incondicional (apoia o projecto europeu quer este seja laico ou confessional, democrático ou não).
O posicionamento desempoeirado e descomplexado de Manuel Alegre na política internacional (e é isso que a política europeia continua a ser) constitui uma grande novidade desta campanha e permanece uma das melhores razões para votar nele. Mas gostaria de ver um pouco mais de ousadia e ambição...

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Citações republicanas (1): Leon Gambetta


«Ce qui constitue la vraie démocratie, ce n'est pas de reconnaître des égaux, mais d'en faire
(Leon Gambetta, 1838-1882; avisam-se os leitores de que este blogue será ainda mais aborrecido daqui em diante...)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

American heroes (3.1): Thomas Paine

«It is for the good of nations and not for the emolument or aggrandisement of particular individuals, that government ought to be established, and that mankind are at the expense of supporting it. The defects of every government and constitution both as to principle and form, must, on a parity of reasoning, be as open to discussion as the defects of a law, and it is a duty which every man owes to society to point them out. When those defects, and the means of remedying them, are generally seen by a nation, that nation will reform its government or its constitution in the one case, as the government repealed or reformed the law in the other. The operation of government is restricted to the making and the administering of laws; but it is to a nation that the right of forming or reforming, generating or regenerating constitutions and governments belong; and consequently those subjects, as subjects of investigation, are always before a country as a matter of right, and cannot, without invading the general rights of that country, be made subjects for prosecution. On this ground I will meet Mr. Burke whenever he please.»
(Thomas Paine, no Prefácio de The Rights of Man, 1792.)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

American heroes (2.1): James Madison

«If we resort for a criterion to the different principles on which different forms of government are established, we may define a republic to be, or at least may bestow that name on, a government which derives all its powers directly or indirectly from the great body of the people, and is administered by persons holding their offices during pleasure, for a limited period, or during good behavior. It is essential to such a government that it be derived from the great body of the society, not from an inconsiderable proportion, or a favored class of it; otherwise a handful of tyrannical nobles, exercising their oppressions by a delegation of their powers, might aspire to the rank of republicans, and claim for their government the honorable title of republic. It is sufficient for such a government that the persons administering it be appointed, either directly or indirectly, by the people; and that they hold their appointments by either of the tenures just specified; otherwise every government in the United States, as well as every other popular government that has been or can be well organized or well executed, would be degraded from the republican character
(James Madison no Federalist Papers nº39, 1788.)

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Manuel Alegre e a integração dos imigrantes

«"Defendo que quem nasce aqui tem o direito de ser português, se os pais assim o quiserem", disse Manuel Alegre, durante contactos com associações das comunidades de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Brasil, numa referência à Lei da Nacionalidade em discussão na Assembleia da República.
Ressalvando que alterar a lei "não é competência do Presidente da República", o candidato quis pronunciar-se sobre o assunto, acrescentando: "Tenho o direito de me exprimir e faço-o, ao contrário de outros".
(...)
Manuel Alegre defendeu um alargamento progressivo do direito de voto concedido aos imigrantes a todos os actos eleitorais, a presença de "mais deputados destas comunidades" no Parlamento - "a multiculturalidade tem de estar presente na Assembleia da República", salientou -, tudo para evitar "fracturas sociais e urbanas" como a registada recentemente em França
Basear a nacionalidade no direito de solo (e não na ascendência) e conceder o direito de voto no princípio da residência são duas causas que me são caras. É bom que Manuel Alegre as abrace. (Já quanto à presença de deputados de origem imigrante no Parlamento, tenho algumas dúvidas quanto à sua importância; nestas coisas, a artificialidade pode ser uma armadilha.)

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Avançaram-se mais uns centímetros? Ou é só mais uma tese?

«Quem é que deu a ordem de sublevação aos pára-quedistas?
Foi a estrutura militar do PCP, que queria alterar a correlação de forças dentro da Força Aérea, forçando a nomeação de um novo chefe do Estado-Maior (CEMFA) e substituindo Morais e Silva por Costa Martins. O projecto não passava por nenhum golpe de Estado, já que eles sabiam não ter condições para isso. Na minha opinião, a ideia de que o PCP tentou tomar o poder a 25 de Novembro é um mito. O que eles queriam era mudar a correlação de forças na Força Aérea. E chegaram a chamar Rangel de Lima para ser CEMFA.
(...)
Ordem que partiu do PCP ou do SDCI?
Do que sei, a ordem partiu de Pereira Pinto e Ramiro Correia, que estavam no SDCI.
E que fez o PCP para os apoiar?
Quando viu a mobilização do adversário, percebeu que ia perder. Foi mais ou menos nessa altura, a meio da noite do dia 25, que o PCP optou por falar directamente com Costa Gomes, tentando evitar a sua ilegalização. E Costa Gomes pediu-lhes, em troca, que o PCP retirasse os civis que rodeavam as bases militares e os depósitos de armamento, o que os comunistas fizeram.
É isso que explica que Rosa Coutinho e Martins Guerreiro tenham ajudado a travar a saída dos fuzileiros?
Sim.
Mas também houve quem estivesse na Rua Castilho e se tenha transferido para o Copcon. Dá a sensação de que havia duas dinâmicas a do PCP, que negoceia, e a de alguns militares gonçalvistas que forçam os acontecimentos...
Havia pessoas que pensavam que o poder estava ao seu alcance e outras que temiam pelo futuro, se se entregassem assim, sem mais nem menos. Por isso, existiram várias dinâmicas. Mas Varela Gomes, por exemplo, aludiu sempre às dificuldades que existiam na Rua Castilho, onde foi montado um posto de comando à pressa e onde não existiam facilidades de comunicação.
Não é por isso que se mudam para o Copcon, onde existia uma estrutura?
Mas o facto de não terem um posto de comando é o que revela que o objectivo deles não era tomar o poder. Como não tinham mais nada, tentaram encostar-se ao Otelo, esperando que ele os apoiasse. Mas, para mim, a questão fundamental é a do posto de comando. Sem um comando operacional não se pode fazer nada. Isso é básico.
O Grupo dos Nove tinha um...
Tinha um posto de comando e tinham planos e missões atribuídas. Ao contrário dos gonçalvistas. Mas a dinâmica também não lhes era favorável. Nem no que respeita à Europa, nem dentro das forças armadas. É isso que os leva a actuar: recuperar a influência perdida entre militares.
Mas há ou não uma Esquerda Militar mais próxima do PCP e outra menos, que se movem em sentidos diferentes na noite de 25 para 26 de Novembro?
As pessoas que vão da Rua Castilho para o Copcon são só as pessoas que o PCP desejava já que não atrapalhassem mais. Até porque, nessa altura, já não havia nada para fazer no Copcon. Basta ver o que aconteceu com Varela Gomes. Falou para o Alfeite, convenceu um antigo camarada da Academia, mas depois apareceu o Rosa Coutinho e acabou com tudo. Tentou falar para a Marinha, mas sempre que o fazia atendia o Martins Guerreiro, que lhe desligava o telefone. Portanto...»

American heroes (1.5): Thomas Jefferson

«To talk of immaterial existences is to talk of nothings. To say that the human soul, angels, god, are immaterial, is to say they are nothings, or that there is no god, no angels, no soul. I cannot reason otherwise... without plunging into the fathomless abyss of dreams and phantasms. I am satisfied, and sufficiently occupied with the things which are, without tormenting or troubling myself about those which may indeed be, but of which I have no evidence.»

(Thomas Jefferson, numa carta a John Adams, em 1820; um parágrafo que poderia ser assinado por qualquer agnóstico.)

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Eu e a blogo-esfera (2): vantagens e desvantagens

É evidente que os blogues têm vantagens. À partida, a facilidade de edição de páginas (editar html não é para todos), que abre a possibilidade de construir uma colecção pessoal daquilo que se quiser: reflexões pessoais, fotografias de pessoas com quase toda a pele à mostra, tentativas literárias, linques para artigos que não se quer arquivar no disco rígido, fotografias de paisagens ou de amigos, canções pilhadas na internete, ou ainda uma mistura de alguns ou mesmo de todos os itens anteriores. Quem mantém um blogue porque persegue uma paixão estética ou satisfaz um impulso «colecionista» tem todo o meu respeito: no fundo, procura apenas alguma realização pessoal, escrevendo sobretudo para si e para meia dúzia de amigos.
No entanto, os blogues que chamaram a atenção dos media partem de uma intenção totalmente diferente: a de serem pequenos jornais de opinião política. É evidente que isso é também inteiramente legítimo (embora seja menos desinteressado), e pode mesmo ser inovador. O «meu» Diário Ateísta, por exemplo, tenta fornecer um serviço que, de outra forma, seria impossível obter em língua portuguesa: o mundo visto de um ponto de vista ateísta, notícias sobre as religiões ignoradas noutros media, alguma divulgação científica. A propósito, não é demais enfatizar que os jornais portugueses, quando escrevem sobre religião o fazem de um ponto de vista exclusivamente católico, e que só falam de ateísmo quando o Saramago é entrevistado. Mais: que me recorde, só existe uma coluna regular sobre ciência (a de Nuno Crato no Expresso). É essa mais-valia (trazer ao debate público informação e pontos de vista de outro modo ausentes) que me fez entrar e me faz continuar na blogo-esfera, assim como me fizera participar nos niusgrupes.
No entanto, a maior parte dos blogues com enfoque político têm uma falta de originalidade aflitiva. Limitam-se a repetir os destaques do telejornal das 20 horas, por vezes acrescido de uma opinião roubada num qualquer jornal obscuro de língua inglesa, quando poderiam trazer ao debate informação ignorada ou subestimada em Portugal. É portanto forçoso concluir que se encaram mais como um complemento às colunas de opinião dos jornais do que como uma alternativa aos media tradicionais. Significativo a este respeito é o facto de se dar grande importância aos blogues de pessoas que se tornaram conhecidas através dos media tradicionais, como o Abrupto de Pacheco Pereira ou o Causa Nossa de Vital Moreira e Ana Gomes. Pessoalmente, raramente visito o famosíssimo blogue de Pacheco Pereira, justamente porque me dá pontos de vista a que já tinha acesso através dos media tradicionais, quando o que eu procuro na internete são os pontos de vista dos excluídos desses media...
A ausência de uma procura deliberada da inovação não seria grave em si mesma, se a própria ferramenta blogue não criasse efeitos perversos que a longo prazo têm sido muito mais nocivos e que acabam por conferir à maior parte dos blogues todos os defeitos dos media tradicionais e ainda mais alguns. Mas isso fica para o próximo fascículo...

(Volumes anteriores nesta colecção: Eu e a internete, Eu e a blogo-esfera(1).)

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Entrevista imaginária com Cavaco Silva

Pergunta - Pensa que o Tratado constitucional europeu deve ser revisto?
Resposta - Finanças!
P. - E deverá haver um referendo sobre matéria europeia?
R. - Competência!
P. - E o aborto deve ser despenalizado?
R. - Economia!
P. - E acha que os homossexuais se podem casar?
R. - Tecnocracia!
P. - E adoptar?
R. - Finanças!
P. - E se houver uma guerra contra o Irão?
R. - Competência!
P. - Admite exonerar Alberto João Jardim?
R. - Economia!
P. - Empossaria um governo de frente de esquerda?
R. - Tecnocracia!
P. - Pensa convidar sacerdotes católicos para cerimónias oficiais?
R. - Finanças!
P. - Em que condições pensa reunir com o Conselho de Estado?
R. - Economia!
P. - E o centenário da República?
R. - Competência!
P. - E quanto à integração dos imigrantes?
R. - Tecnocracia!
P. - E se a regionalização for novamente proposta?
R. - Finanças!
P. - E as relações com os países lusófonos?
R. - Competência!
P. - E a situação dos idosos?
R. - Economia!
P. - E se houver uma greve complicada, ouve as pessoas em privado, em público, ou vai para fora?
R. - Tecnocracia!
P. - E se alguém de repente lhe oferecer flores?
R. - Tecnocracia!

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Linguiça, Lobo Antunes e outras divagações

Hoje liguei a TV, e por acaso acabei no RTP-N. Simultaneamente desmentindo o mito do «domínio mediático da esquerda» e traindo as obrigações de equilíbrio da televisão pública, o debate era entre dois homens de direita: António Costa Pinto e (creio que) Rui Ramos. Inevitavelmente, estavam de acordo: Cavaco Silva já ganhou a eleição presidencial, e só se cometer um qualquer erro grave a perderá.
E no entanto, estou convencido de que se enganam... Minutos depois, ao ver um telejornal, Mário Soares apareceu. No breve espaço de uma notícia, conseguiu comprar enchidos e o último livro do Lobo Antunes, e ainda, veja-se lá, falar de política.
É fácil imaginá-lo a entrar numa sala cheia de apoiantes. Deve conseguir cumprimentar todos os presentes e dar trinta segundos de atenção a cada pessoa, sempre com aquele sorriso afável, e até será capaz de trocar umas palavrinhas com cada uma. Sobre linguiça ou Lobo Antunes, tanto faz: nota-se que tem um gosto genuíno em falar com as pessoas. E é por isso que vai ganhar. Por se notar e por se sentir que é genuíno.
Não é difícil de prever que de hoje até ao dia de reflexão conseguirá aparecer todos os dias. Sempre interessando-se por algo diferente e sempre sorridente.

domingo, 20 de novembro de 2005

American heroes (1.4): Thomas Jefferson

«I have ever judged of the religion of others by their lives.... It is in our lives, and not from our words, that our religion must be read. By the same test the world must judge me. But this does not satisfy the priesthood. They must have a positive, a declared assent to all their interested absurdities. My opinion is that there would never have been an infidel, if there had never been a priest. The artificial structures they have built on the the purest of all moral systems, for the purpose of deriving from it pence and power, revolt those who think for themselves, and who read in that system only what is really there.»

(Thomas Jefferson, numa carta a Harrison Smith, em 1816.)

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Olivier Roy: «Get French or Die Trying»

«THE rioting in Paris and other French cities has led to a lot of interpretations and comments, most of them irrelevant. Many see the violence as religiously motivated, the inevitable result of unchecked immigration from Muslim countries; for others the rioters are simply acting out of vengeance at being denied their cultural heritage or a fair share in French society. But the reality is that there is nothing particularly Muslim, or even French, about the violence. Rather, we are witnessing the temporary rising up of one small part of a Western underclass culture that reaches from Paris to London to Los Angeles and beyond.
To understand why this is so, consider two solid facts we do have on the riots. First, this is a youth (and male) uprising. The rioters are generally 12 to 25 years old, and roughly half of those arrested are under 18. The adults keep away from the demonstrations: in fact, they are the first victims (it is their cars, after all, that are burning) and they want security and social services to be restored.
Yet older residents also resent what they see as the unnecessary brutality of the police toward the rioters, the merry-go-round of officials making promises that they know will be quickly forgotten, and the demonization of their communities by the news media. Second, the riots are geographically and socially very circumscribed: all are occurring in about 100 suburbs, or more precisely destitute neighborhoods known here as "cités," "quartiers" or "banlieues." There has long been a strong sense of territorial identity among the young people in these neighborhoods, who have tended to coalesce in loose gangs. The different gangs, often involved in petty delinquency, have typically been reluctant to stroll outside their territories and have vigilantly kept strangers away, be they rival gangs, police officers, firefighters or journalists.
Now, these gangs are for the most part burning their own neighborhoods and seem little interested in extending the rampage to more fashionable areas. They express simmering anger fueled by unemployment and racism. The lesson, then, is that while these riots originate in areas largely populated by immigrants of Islamic heritage, they have little to do with the wrath of a Muslim community.
France has a huge Muslim population living outside these neighborhoods - many of them, people who left them as soon as they could afford it - and they don't identify with the rioters at all. Even within the violent areas, one's local identity (sense of belonging to a particular neighborhood) prevails over larger ethnic and religious affiliation. Most of the rioters are from the second generation of immigrants, they have French citizenship, and they see themselves more as part of a modern Western urban subculture than of any Arab or African heritage.
Just look at the newspaper photographs: the young men wear the same hooded sweatshirts, listen to similar music and use slang in the same way as their counterparts in Los Angeles or Washington. (It is no accident that in French-dubbed versions of Hollywood films, African-American characters usually speak with the accent heard in the Paris banlieues).
Nobody should be surprised that efforts by the government to find "community leaders" have had little success. There are no leaders in these areas for a very simple reason: there is no community in the neighborhoods. Traditional parental control has disappeared and many Muslim families are headed by a single parent. Elders, imams and social workers have lost control. Paradoxically, the youths themselves are often the providers of local social rules, based on aggressive manhood, control of the streets, defense of a territory. Americans (and critics of America in Europe) may see in these riots echoes of the black separatism that fueled the violence in Harlem and Watts in the 1960's. But the French youths are not fighting to be recognized as a minority group, either ethnic or religious; they want to be accepted as full citizens. They have believed in the French model (individual integration through citizenship) but feel cheated because of their social and economic exclusion. Hence they destroy what they see as the tools of failed social promotion: schools, social welfare offices, gymnasiums. Disappointment leads to nihilism. For many, fighting the police is some sort of a game, and a rite of passage.
Contrary to the calls of many liberals, increased emphasis on multiculturalism and respect for other cultures in France is not the answer: this angry young population is highly deculturalized and individualized. There is no reference to Palestine or Iraq in these riots. Although these suburbs have been a recruiting field for jihadists, the fundamentalists are conspicuously absent from the violence. Muslim extremists don't share the youth agenda (from drug dealing to nightclub partying), and the youngsters reject any kind of leadership.
So what is to be done? The politicians have offered the predictable: curfews, platitudes about respect, vague promises of economic aid. But with France having entered its presidential election cycle, any hope for long-term rethinking is misplaced. In the end, we are dealing here with problems found by any culture in which inequities and cultural differences come in conflict with high ideals. Americans, for their part, should take little pleasure in France's agony - the struggle to integrate an angry underclass is one shared across the Western world
(Olivier Roy no The New York Times.)

Para que serve um Presidente?

O cidadão que leia desprevenidamente os manifestos de Cavaco Silva e Francisco Louçã arrisca-se a convencer-se de que o Presidente é o tipo que elabora o orçamento geral de Estado. Portanto, quem quer reflectir com os pés em cima de terra segura deve começar por ler as regras (a Constituição da nossa República) e seguidamente imaginar as questões que lhe importam e que certamente estarão em cima da mesa durante o próximo mandato presidencial.

A mais importante dessas questões será, na minha opinião, o destino do projecto de tratado constitucional para a Europa. Manuel Alegre tem a este respeito uma posição absolutamente clara: o Tratado deve ser refeito e submetido a referendo. E também por isso tem a minha intenção de voto.

No próximo mandato discutir-se-á também, seguramente, a despenalização da interrupção voluntária de gravidez. As ambiguidades e silêncios do candidato da direita nesta e noutras questões permitem-me arriscar uma previsão: se Cavaco Silva vencer em Janeiro, o aborto só será despenalizado após 2016. Para nada dizer de outras questões sociais, como o casamento de homossexuais: basta olhar para a Comissão de Honra de Cavaco Silva...

Por agora, ficam estas questões. Depois, haverá mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Jason Burke: «France and the Muslim myth»

«Analysts and commentators often seek to find evidence to support their well-established ideas in any given event. So while critics of the 'French social model' have gleefully seen evidence of its failure in the recent violence in France, its supporters have seen evidence of the damage done by right-wing policies in the country. But little compares with the extraordinary way in which the disturbances of the last two weeks have been hijacked by those who appear set on either finding, or creating, a 'clash of civilisations' between Islam and the West.
Take one particularly egregious example. Melanie Phillips, writing in the Daily Mail, described the riots in France as 'a French intifada, an uprising by French Muslims against the state'. I covered the intifada in Israel and Palestine and, beyond the fact that thrown stones look much the same wherever they are, saw little that resembled the Gaza Strip in the autumn of 2000 in Clichy-sous-Bois in the autumn of 2005. In the course of her article, Phillips spoke of how 'night after night, France [had] been under attack by its Muslim minority', how the country was being 'torched from Normandy to the Mediterranean', how it had 'sniffed the danger that had arisen in its midst' and quoted a little-known writer called Bat Ye'Or who is a favourite of the more unsavoury right-wing American websites and believes that the European Union is a conspiracy dedicated to creating one Muslim-dominated political entity that will comprise most of the Middle East and Europe.
Phillips also conflated Arabs (a race), and Muslims (a global religion of 1.3 billion, some devout, some not). This is dangerous nonsense, but needs to be studied.
First, the facts. According to the French intelligence services, the areas where radical Islamic ideologies have spread furthest in France have actually proved the calmest over recent weeks. Second, characterising the rioters as 'Muslim' at all is ludicrous. Most were as Westernised as you would expect third-generation immigrants to be and far more interested in soft drugs and rap than getting up for dawn prayers.
Indeed, a high proportion was of sub-Saharan African descent and not Muslim at all. Others were white and so, following Phillips's description of the darker skinned rioters as 'Arab Muslims', should presumably be referred to as 'Caucasian Christians'.
Also, it is clear that the rioters were not seeking to destroy the French state but were demanding a greater stake in it. Otherwise, there would have been many more direct confrontations with the security forces. The point the rioters made again and again was that they felt rejected by 'the Republic', not that they wanted to tear it down. With all other channels of communication blocked, they sent, literally, smoke signals instead.(...)»
(Jason Burke, no The Observer.)

American heroes (1.3): Thomas Jefferson

«If we did a good act merely from the love of God and a belief that it is pleasing to Him, whence arises the morality of the Atheist? It is idle to say, as some do, that no such thing exists. We have the same evidence of the fact as of most of those we act on, to wit: their own affirmations, and their reasonings in support of them. I have observed, indeed, generally, that while in Protestant countries the defections from the Platonic Christianity of the priests is to Deism, in Catholic countries they are to Atheism. Diderot, D'Alembert, D'Holbach, Condorcet, are known to have been among the most virtuous of men. Their virtue, then, must have had some other foundation than love of God.»

(Thomas Jefferson numa carta a Thomas Law, em 1814; é uma passagem curiosa pelo reconhecimento de que é possível ser ateu e virtuoso, o que hoje é óbvio mas à época era uma opinião rara; note-se que Jefferson dizia-se deísta ao nível da crença, e era unitário ao nível da prática religiosa.)

terça-feira, 15 de novembro de 2005

A miséria da ideologia

As clivagens obcecadamente ideológicas do debate político na blogo-esfera e fora dela enfastiam-me cada vez mais. Penso sobretudo nas guerras mesquinhas e maniqueístas que aconteceram na blogo-esfera na sequência do furacão Katrina ou dos motins nos subúrbios de Paris, mas também em artigos indigentes como o de José Pacheco Pereira no Público de quinta-feira. De súbito (e sobretudo à direita), parece que tentar compreender a realidade passou a ser visto como um luxo, e que tudo o que interessa é escolher uma trincheira. A partir desse momento, apaga-se o sentido crítico e liga-se o piloto automático.
Se se escolhe a trincheira da «direita», culpa-se o «anti-americanismo» por tudo e mais qualquer coisa, troça-se dos europeus em geral e dos franceses em particular (o que deveria ser considerado ódio de si próprio, já que somos, geograficamente, europeus e não norte-americanos), berra-se contra o «politicamente correcto» e o «multiculturalismo» (sem nunca esclarecer o entendimento desses termos) e responsabiliza-se o «estado social» e o «domínio mediático da esquerda» pela pobreza, pela violência urbana e pelo racismo. Se se escolhe a trincheira de certa «esquerda», culpa-se os EUA e o neoliberalismo por quase tudo (incluindo, por vezes, as evoluções climáticas), isentam-se os muçulmanos ou outros povos do terceiro mundo de responsabilidade ou vontade próprias, constroem-se teorias de conspiração que envolvem os média e a grande finança, etc.
Este fenómeno é particularmente visível nos estalinistas da direita. Personagens como José Pacheco Pereira, João Carlos Espada ou José Manuel Fernandes são fascinantes porque encerram em si próprios a tragédia da vida intelectual portuguesa dos últimos cinquenta anos. Explico-me: passaram do catolicismo da infância e da adolescência para o marxismo-leninismo-qualquer-coisa da juventude, e na meia-idade encontram-se num «liberalismo» tão fanático que é um autêntico estalinismo virado do avesso. O «paraíso» imaginado na infância era o católico, foi a China ou a Albânia na juventude, e é hoje o Reino Unido ou os EUA. Sente-se que defender o desempenho dos sistemas político-económicos destes países e acreditar na suprema felicidade dos seus habitantes é-lhes inseparável da escolha ideológica que fizeram. Nunca lhes passou pela cabeça que a realidade poderá ser mais complexa do que qualquer teoria, e que nenhuma torna em anjos quem a ela adere, prevê o futuro histórico ou libertará a humanidade da miséria ou da violência.
No entanto, ter uma ideologia poderia consistir apenas em sistematizar princípios éticos, incluindo as relações entre eles. (Por exemplo, o comunismo coloca a igualdade como um valor acima dos outros; o neoliberalismo considera unicamente a liberdade económica; o republicanismo o equilíbrio entre liberdade, igualdade e fraternidade; etc.) Não tem que ser uma grelha de interpretação da realidade válida em todos os lugares e em todas as épocas, ou uma teoria final sobre a natureza e as necessidades humanas e sobre uma (utópica) harmonia social. Claro que tudo isto era fornecido em pacote pelas religiões monoteístas pré-modernas, e que por isso, no século 20, se exigiu o mesmo às ideologias utópicas. (Apetece dizer que se as religiões eram heroína, as utopias são metadona.)
É evidente que os nossos primos chimpanzés também se dividem em tribos mutuamente hostis. Não tenho tanta certeza de que se afundem no pensamento dicotómico que envenena a cultura ocidental. Já marcar pontos em qualquer disputa ou ter uma mundividência padronizada poderão ser necessidades inelutáveis do ser humano. Mas o ser humano também sabe separar os campos de aplicação de cada abordagem. A ciência permite-nos concordar quanto aos factos. E o bom senso deveria ajudar-nos a olhar para a realidade social sem a incluir em disputas ideológicas mesquinhas.
Se tudo correr bem, o século 21 será tão pós-utópico como o século 20 foi pós-religioso.

American heroes (1.2): Thomas Jefferson

«Because religious belief, or non-belief, is such an important part of every person's life, freedom of religion affects every individual. State churches that use government power to support themselves and force their views on persons of other faiths undermine all our civil rights. Moreover, state support of the church tends to make the clergy unresponsive to the people and leads to corruption within religion. Erecting the "wall of separation between church and state," therefore, is absolutely essential in a free society.
We have solved ... the great and interesting question whether freedom of religion is compatible with order in government and obedience to the laws. And we have experienced the quiet as well as the comfort which results from leaving every one to profess freely and openly those principles of religion which are the inductions of his own reason and the serious convictions of his own inquiries.»
(Thomas Jefferson, numa carta aos Baptistas da Virgínia, em 1808; é a segunda vez que Jefferson usa a expressão «muro de separação»; notar ainda a referência explícita aos que «não têm crença».)

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

American heroes (1.1): Thomas Jefferson

«Believing that religion is a matter which lies solely between man and his God, that he owes account to none other for his faith or his worship, that the legitimate powers of government reach actions only, and not opinions, I contemplate with sovereign reverence that act of the whole American people which declared that their Legislature should "make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof," thus building a wall of separation between Church and State.»
(Thomas Jefferson, numa carta aos Baptistas de Danbury, em 1802; é o primeiro uso do termo «muro de separação»; notar também a citação de Espinoza.)

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Francisco Louçã proferiu a palavra que começa por «L»

«Defenderei, como sempre o fiz, o direito à diferença e o respeito pelas escolhas de vida de cada pessoa. Esse respeito é uma condição da democracia: ao Estado não compete tutelar as consciências das pessoas e é por isso que deve aceitar as opções de cada um e de cada uma na escolha da sua orientação sexual e garantir todos os direitos civis a todas as pessoas sem discriminação.
Pelo mesmo princípio, o Estado republicano é laico, não tem religião oficial nem privilegia nenhuma religião, respeitando todas no seu âmbito específico de actividade, e garante a todas as crianças o acesso ao ensino público laico.
(...)
Defendo a legalização dos imigrantes e uma nova lei de nacionalidade que seja inclusiva porque baseada no princípio jus solis, porque essas são as bases de uma acção cosmopolita que é a única resposta consistente ao desagregar da integração punitiva que é a política dos guetos e do trabalho clandestino. Defenderei os direitos civis para os imigrantes, incluindo o direito de voto em todas as eleições de âmbito nacional - eleições autárquicas, legislativas e também presidenciais. Não deve haver taxação sem representação, é a regra republicana. Se os imigrantes estão obrigados, como devem, a pagar impostos e a cumprir as leis da República, têm direito a participar em todos os actos eleitorais relevantes para a aprovação das leis e para as decisões sobre o destino a dar aos seus impostos. Essa é a democracia de responsabilidade que defendo.»
Confesso que fiquei muito bem impressionado com estes dois parágrafos de Louçã: seria capaz de assiná-los sem quaisquer «se» nem «mas». O resto do discurso enferma do mesmo defeito do manifesto de Cavaco Silva: é demasiadamente pormenorizado em questões económicas (como a Segurança Social) em que a influência do Presidente é pouca ou nenhuma.

Revista de blogues (9/11/2005)

  1. «França: integração em cinzas», por Rui Curado Silva (no Klepsýdra): um elucidativo depoimento pessoal (sem rancores nem ilusões) de alguém que conheceu na pele a violência dos subúrbios franceses.
  2. «Paris e o sobressalto (1)» e «Paris e o sobressalto (2)», por Alexandre Andrade (no umblogsobrekleist): uma desmontagem meticulosa de algumas das armadilhas intelectuais em que caíram os neoliberais francofóbicos que tão facilmente «descobriram» o que correra mal em França.
  3. «Dedicatória», por Luís Rodrigues (no Random Precision): porque esta é uma semana em que devemos lembrar aos evangelizadores que por aí andam que nem todos somos católicos.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Revista de blogues (8/11/2005)

  1. «Motins em França», por Rui Pena Pires (no Canhoto): a melhor análise que li na blogo-esfera lusa sobre os acontecimentos de França.
  2. «A Opus Dei e a candidatura de Cavaco Silva», no Geosapiens: uma chamada de atenção importante para a presença massiva do Opus Dei na candidatura de Cavaco Silva.
  3. «A visita pascal (crónica)», por Carlos Esperança (no Ponte Europa): é raro publicarem-se textos tão literários nos blogues.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Os motins na França

Não escrevi ainda, aqui no blogue, uma linha que seja sobre os motins que se registam há onze noites nos subúrbios de Paris. Porquê? Porque a situação me parece ainda pouco clara. Tenho, apesar disso, perdido tempo (é o termo correcto) lendo os blogues da nossa direita, onde este parece ter sido considerado um mero pretexto para bater no francês, no «estado social», na «esquerda», no «multiculturalismo», no «politicamente correcto» e etc. Esforços honestos para propor soluções ou sequer para tentar compreender o que se passa, é algo que não tenho visto .
Pela minha parte, após uma vista de olhos rápida pelos comunicados dos partidos e das associações da esquerda republicana francesa, realço os pontos seguintes:
  1. Há uma condenação clara da violência;
  2. Acusa-se Sarkozy de ter substituído o policiamento de proximidade pelos esquadrões de intervenção rápida, o que foi feito, aliás, por razões economicistas (ler o que diz Chevénement, ex-Ministro do Interior);
  3. Critica-se Sarkozy pelos seus deslizes verbais (o já famoso uso do delicado termo «escumalha», mas também a rapidez em acusar os jovens eletrocutados de serem «ladrões», quando não está provado que o fossem);
  4. Acusa-se ainda o Governo de ter feito cortes nos programas de emprego jovem e de apoio às associações culturais e de mediação (ver no PSF, por exemplo), ao mesmo tempo que se têm reforçado os apoios governamentais às associações islâmicas (o que permite à Gauche Républicaine tirar as conclusões que se lêem no artigo anterior);
  5. O SOS Racisme sublinha a ausência de medidas que penalizem as empresas que fazem discriminação racial no recrutamento, e recorda que os maiores prejudicados por estes motins são os habitantes dos subúrbios.

Apesar de tudo, parece-me importante sublinhar que não se trata de motins inter-étnicos como acontecem regularmente nos EUA, no Reino Unido, ou como aconteceram, em menor medida, na Holanda após a morte de Theo Van Gogh. A violência parece estar a ser dirigida preferencialmente contra a polícia e contra a propriedade, não contra as pessoas. E mesmo assim, já é o surto de violência urbana mais impressionante deste século, na Europa...

(O meu esforço para compreender os vários sentidos em que se usa a palavra «multiculturalismo» pode ser lido em «Multiculturalismo(s): identidade cultural é opressão individual».)

«Les banlieues s'enflamment: à qui profite le crime?»

«Les émeutes qui se déroulent actuellement dans les banlieues suscitent un certain malaise. Tout se passe comme si l'analyse était prise dans une véritable antinomie: celle de la compassion et de la répression. Tout se passe comme si le citoyen était sommé de prendre parti pour l'un de ces deux discours, le discours compatissant, d'une part, le discours purement répressif, d'autre part.
Le discours compatissant fait de l'émeutier une victime. La victime d'une politique inique menée par un gouvernement de droite incapable de résoudre les problèmes de banlieues. La victime de la discrimination, du chômage, de la désespérance. Le discours compatissant se penche volontiers sur les causes, et convoque l'expertise sociologique: l'émeutier, c'est le jeune désoeuvré, qui n'a pas d'autres perspectives d'avenir que le désert urbain auquel il est assigné.
L'émeute est alors perçue comme un symptôme: le symptôme d'un malaise plus profond, d'un malaise social grandissant, dont les jeunes ne sont en rien responsables. Lorsque l'on tient le discours de la compassion, on est tenté par l'indulgence, on reporte la faute sur les causes sociales. Face au discours de la compassion, majoritaire à gauche, le discours de la répression : Sarkozy en est le chantre, et est parvenu, grâce à lui, à recréer une bien improbable unité gouvernementale. Le discours de la répression s'attache moins aux causes qu'aux réponses immédiates: il faut ramener l'ordre. Il faut faire preuve de fermeté. Il faut appliquer le principe de la tolérance zéro. L'émeutier, c'est la racaille, qu'il faut nettoyer au karcher. L'émeutier, c'est la gangrène, qu'il faut traiter de façon chirurgicale. L'émeute est moins le symptôme d'un malaise social, que l'expression d'une rébellion intolérable.
Optez pour le discours de la compassion: vous serez immédiatement accusés par les tenants de la répression de laxisme et d'angélisme, vous ferez alors parti du camp de ceux qui excusent l'inexcusable. Vous serez l'ange qui fait la bête. Optez pour le discours de la répression: vous serez immédiatement taxé d'odieux fasciste, vous ferez parti du camp de ceux qui s'aveuglent à la misère sociale. Comment sortir de cette antinomie? En posant une question simple: à qui profite le crime? Donnons à cette question la traduction philosophique qui s'impose: qui a intérêt à l'état de nature? Deux figures: une figure évidente, d'abord, celle qui a droit aux feux de la rampe: la figure du petit délinquant d'un soir, qui profite de la situation de chaos de façon immédiate. Qui jouit de l'état de nature en tant que tel, parce que le désordre généralisé lui permet de donner libre cours à ses pulsions. Mais l'état de nature profite également à une autre figure, moins évidente, mais plus dangereuse, car porteuse d'un véritable projet politique. Le projet qui consiste à communautariser la société, afin de mieux livrer le corps social à l'ultralibéralisme. Or, ce programme est précisément celui de Nicolas Sarkozy. Que le projet de Nicolas Sarkozy soit ultralibéral, cela relève de l'évidence: ses liens avec le MEDEF suffisent à l'attester. Mais ce qui est moins évident, c'est la stratégie de Nicolas Sarkozy.
(...)
Pendant que les jeunes des banlieues entendront parler du prophète, Sarkozy pourra réaliser son programme ultralibéral. Lier le combat anti-social et le combat anti-laïque, telle est la stratégie. Pour mettre en œuvre cette stratégie, il suffisait de confier la gestion sociale des quartiers aux adversaires déclarés de la laïcité. D'où l'alliance objective entre les imams et Nicolas Sarkozy. Le scénario avait déjà été écrit: il suffisait de trouver les faits qui serviraient à légitimer la thèse.
La situation d'émeutes dans les banlieues, à ce titre, tombe à point nommé: pour les communautaristes religieux, à qui on ouvre les colonnes d'un grand quotidien national pour qu'ils puissent clamer à l'envi l'impuissance de la République et la toute-puissance du nom de Dieu. Et à Nicolas Sarkozy, qui est parvenu à recréer autour de lui l'unité du gouvernement. Et à gagner des points pour les présidentielles. Car Nicolas Sarkozy a, au passage, récolté quelques suffrages.
Le discours de la répression, mâtiné d'une rhétorique propre à séduire l'extrême droite, permet à Nicolas Sarkozy d'aimanter, au second tour des présidentielles, les voix qui se porteront, au premier tour, sur De Villiers et Le Pen. Car tout est désormais mis en place pour que l'extrême droite, divisée entre ces deux figures, ne passe pas la barrière du premier tour et reporte ses voix sur le chantre de la "tolérance zéro" face à la "racaille" des banlieues. Mais Nicolas Sarkozy aura également réussi l'exploit de s'assurer du soutien des dignitaires de la communauté musulmane, installés par ses soins, qui sauront sans aucun doute se rappeler du cadeau concédé par le ministre de l'Intérieur et des cultes: le projet de financement public de la construction des mosquées.
Appâter les voix des communautaristes musulmans et celles de l'extrême droite, il faut bien avouer que l'exercice était hautement périlleux. Gageons que Nicolas Sarkozy est en train de réussir cette improbable acrobatie. Pour échapper au piège qui est actuellement tendu, à savoir l'antinomie stérile entre le discours de la compassion et celui de la répression, il est urgent d'opposer à la stratégie Sarkozy celle de Jean Jaurès: il faut lier le combat social et le combat laïque.
Le modèle républicain a rarement subi une attaque d'une telle envergure: la presse internationale conclue de la situation des banlieues à l'échec du modèle d'intégration à la française. Les communautaristes musulmans distillent la thèse selon laquelle la république ne peut se passer des grands frères et des imams pour pacifier les "quartiers". Ils jouissent, en cela, à la fois de la bienveillance de Nicolas Sarkozy et de la complaisance des islamo gauchistes, qui en profitent, au passage, pour légitimer les auteurs des émeutes, transformés pour l'occasion en icônes de la révolution indigène contre l'Etat colonial.
N'en déplaise aux promoteurs de l'ultralibéralisme, n'en déplaise aux islamo gauchistes, n'en déplaise aux communautaristes religieux: on ne pourra déployer un authentique projet social pour les banlieues qu'en se réglant sur le modèle républicain. Au lieu d'éreinter la république, il convient, au contraire, de la convoquer à être à la hauteur de ses propres principes: d'œuvrer pour que la puissance publique donne aux couches populaires les moyens d'échapper à la ghettoïsation (par la réouverture des services publics, par la garantie d'un logement digne pour tous, d'une école à la hauteur de sa mission d'instruction, etc.), et, de ce fait, à la stigmatisation. La république laïque et sociale est en effet le seul modèle politique qui permet aux jeunes des banlieues d'échapper à ces deux caricatures que constituent la victime ou la racaille: d'être des citoyens.»
(Marie Perret e Nicolas Gavrilenko; retirado de um boletim de correio electrónico da Gauche Républicaine, Laïque, Ecologique et Sociale).

domingo, 6 de novembro de 2005

O «contrato presidencial» de Manuel Alegre

«Candidato-me a Presidente da República por decisão pessoal, no espírito, aliás, da Constituição. Sem apoios de aparelhos partidários. Livremente. Sou um homem da esquerda dos valores e dirijo-me a todos os portugueses que acreditam na Pátria, na liberdade e na democracia.
(...)
Porque há duas maneiras de entender a identidade de um povo: a identidade-raízes e a identidade-projecto. Portugal tem uma fortíssima identidade histórico-cultural, mas está debilitado quanto à mobilização em torno de uma vontade colectiva.
(...)
Defender a igualdade de homens e mulheres é para mim uma prioridade da organização social.
Candidato-me em defesa de uma sociedade cosmopolita e de inclusão, que saiba conjugar diversidade e cidadania, prevenindo a segmentação social e a discriminação racial.
(...)
Será que a Constituição está a ser cumprida quando há dois milhões de portugueses em estado de pobreza, mais de meio milhão de desempregados, tantas famílias sem habitação condigna, tantos atentados ao meio ambiente, tanto insucesso e abandono escolar, tantas assimetrias regionais e desequilíbrios sociais?
(...)
Quero deixar clara a minha posição: não há modernização do sistema de ensino sem escola pública de qualidade.
(...)
Neste momento sensível de crise da construção europeia, penso que um país como Portugal deve procurar estar no núcleo duro dos centros de decisão europeus, impedindo que a UE seja regida por um directório de grandes potências. Não devemos hesitar em defender os interesses nacionais. Nem arrogância, nem subserviência perante os poderes europeus. A partilha de soberanias em nada afecta, antes reforça, a identidade nacional. Não me conformo com uma visão da Europa que a reduza a um vasto mercado.
(...)
O tratado constitucional europeu deve ser refeito ou revisto de modo a simplificá-lo e permitir submetê-lo a um referendo europeu novo e geral.
(...)
Temos de tornar claro que não interpretamos o extremismo religioso como fazendo parte da cultura islâmica, com a qual temos laços de proximidade que devemos aprofundar.
(...)»

American heroes (4): William Lloyd Garrison


«He oracularly asserts, in the style of our Fourth-of-July orators, that "a great experiment is now in the making. It is the experiment of human liberty; and if it fails here, all hopes will be taken from the earth. If we cannot suceed, no nation will try again."
This wonderful "experiment" that we are now making is precisely this - to see how long we can plunder, with impunity, two millions and a half of our population; how much labor we can extort with the cart-whip, how near to a level with the brute creation we can reduce every sixth man, woman, and child in the land... "If it fails here", says Dr. B.; but IT HAS FAILED - we are not, we have never been, and while slavery exists we can never be, a free people... and we are rushing down to destruction as fast as time will allow us.»

(William Lloyd Garrison foi um dos líderes dos abolicionistas que pressionaram pela abolição da escravatura; aqui responde, em 1836, aos argumentos de Lyman Beecher, um clérigo presbiteriano.)

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Eu e a blogo-esfera (1): impressões iniciais

A primeira vez que me deparei com um weblog foi, creio eu, na Primavera de 2000. Assumo que não me apercebi imediatamente das potencialidades do formato: pareceu-me uma ferramenta de edição de páginas para preguiçosos, que provavelmente só seria útil como quadro de avisos ou algo semelhante. Subestimei, como é evidente, a vertigem da actualização diária (que é, no fundo, uma forma de fazer ou obter companhia), como subestimei a atracção contemporânea pelo efémero: poucos preferem escrever um ensaio longo por mês e colocá-lo num arquivo da web quando podem escrever bitaites de um parágrafo todos os dias. E do outro lado da interacção entre emissor e receptor, a maior parte dos usuários da inter-rede têm cinco minutos de quebra no trabalho que dedicam a olhar distraidamente para um blogue; os livros lêem-nos em casa.
Fui descobrindo progressivamente o fenómeno bloguístico ao longo do ano de 2003. No entanto, não lhe dei grande importância (nomeadamente, como comentador) até iniciar a minha colaboração num blogue (o Diário Ateísta) em Março/Maio de 2004. Posteriormente, criei o meu próprio blogue (o Esquerda Republicana) em Março de 2005.
As razões para a minha relutância em aderir rapidamente à (assim chamada) blogosfera prenderam-se principalmente com o seu hierarquismo ostensivo e com a sua hiper-mediatização nos media tradicionais (que me fez supôr, aliás correctamente, que este media já estaria «infiltrado» por alguns dos mesmos jornalistas e assessores de políticos que dominam os media, e que o usa(va)m como laboratório de teste ou como depósito de refugo). Estes dois pontos merecem ser melhor explicados.

Os formatos condicionam inevitavelmente as formas de funcionamento, como é sabido. Até então, eu participara na internete num formato de debate deliciosamente igualitário (não há que ter medo da palavra) e facilmente alternativo (no sentido de ser fácil impôr a discussão de temas ausentes dos media tradicionais): os niusgrupes. Aí, qualquer afirmação e qualquer resposta tinham o mesmo destaque e presumivelmente eram lidas, em média, pelo mesmo número de pessoas. (Pormenor importante: era impossível saber quantas pessoas estavam a ler o fórum sem participar.) Qualquer argumento apresentado que não passasse pelo crivo (factual e opinativo) das respostas e contra-respostas ficava refutado. O modo de funcionamento desses fóruns acabava assim por sancionar quem apresentava argumentos de autoridade (ou mal fundamentados) e também (a bem da confiança nos debates) os anónimos (que muitas vezes eram totalmente ignorados). Claro que o «lado de baixo» da igualdade de armas era o ambiente de quezília persistente e a violência argumentativa que fazia com que muitos recém-chegados não aguentassem mais do que um mês. As vantagens, para mim, eram duas: aperfeiçoar argumentos e debater temas que os media tradicionais desprezam.

Nos niusgrupes, não havia espaço para «personalidades», pois eram rapidamente descidas do seu pedestal e tratadas de igual para igual. Por isso, os políticos e escritores que agora têm o seu bloguezito muito conhecido e citado seriam incapazes de os frequentar. Mais importante, os maus argumentos eram destroçados rapidamente, ou contornados por uma discussão sobre outro tópico... Os blogues pareceram-me, inicialmente, uma traição a este espírito saudável e exigente.

«Educação sexual» com fotografia de crucifixo (sexualmente?) «educativo»

A fotografia acima acompanha a notícia «Educação sexual vai ter programa oficial» no Diário de Notícias de hoje.
Responda se puder, caro leitor!
A escolha de uma fotografia de uma sala de aula que ostenta um crucifixo deve-se: a) a um acaso; b) à inexistência de fotografias de salas de aula sem crucifixos; c) a uma intenção irónica.
(Quanto à notícia em si, trata-se das conclusões de mais um «grupo de estudo»; o mais interessante é terem concluído que as ONG´s devem ser afastadas do ensino da educação sexual e que é impossível «avaliar» a aprendizagem de «educação sexual»... ambos os factos deveriam ser óbvios.)

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Eu e a internete

Recordo-me de ter usado pela primeira vez a internete na Primavera de 1995. Portanto, já passaram mais de dez anos. Dez anos da minha vida e dez anos para este media.
Comecei utilizando um programa de correio electrónico chamado PINE (que ainda hoje considero do melhor que há), e nos primeiros meses lia (lia apenas) os fóruns de discussão, vulgo niusgrupes. Nessa época, o que me prendeu imediatamente foi a possibilidade de acompanhar as discussões, mesmo que bizantinas (sobretudo se bizantinas), que por aí se geravam entre pessoas sentadas em frente de ecrãs geograficamente muito distantes. Lembro-me do fascínio que me causaram as polémicas num niusgrupe da Europa de leste (seria o soc.culture.hungary? Ou o soc.culture.romania?) entre participantes que tinham visões das respectivas narrativas nacionais altamente divergentes. As potencialidades da internete, à época, foram instantaneamente óbvias: aceder a informação obscura e recôndita com facilidade, e encontrar, transnacionalmente, pessoas com os mesmos interesses temáticos. Além disso, podia manter (ou até estabelecer) contactos com pessoas das quais, de outra forma, pouco ou nada saberia.
Numa segunda fase, que correspondeu à utilização desse grande marcador geracional que foi o Netscape, descobri que qualquer um podia colocar informação permanente na rede (bastava saber uns rudimentos de html) e que podia ler todos os jornais do mundo (se tivesse tempo). Foi nessa época que comecei a interessar-me pela formação de grupos com interesses específicos (o que acontecia, por exemplo, através das listas de distribuição) e pela disseminação de informações e de pontos de vista que de outra forma não seriam divulgados. A grande vantagem da inter-rede, no fundo, era possibilitar a comunicação (sem filtros) entre aqueles que de outra forma estariam reduzidos à condição de espectadores passivos dos media tradicionais. Bastava uma linha telefónica e um computador.
Foi pelo final dos anos 90 que as instituições estatais se instalaram, muito rapidamente, na internete. E com elas os seus endereços de http. As hierarquias que se tinham mantido de fora desse interessantíssimo caos primevo, começaram a trasladar-se. O cidadão modemizado que desejava participar na conversa global continuava a ter o imeile, o niusgrupe e (nalguns casos), os saites. Foi então que, no final do século, chegaram os uéblogues...

American heroes (3): Thomas Paine

«Every national church or religion has established itself by pretending some special mission from God, communicated to certain individuals. The Jews have their Moses; the Christians their Jesus Christ, their apostles and Saints; and the Turks their Mahomet, as if the way to God were not open to every man alike.
Each of these churches show certain books, which they call revelation, or the Word of God. The Jews say that their Word of God was given by God to Moses; face to face; the Christians say that their Word of God came by divine inspiration; and the Turks say that their Word of God (the Koran) was brought by an angel from heaven. Each of these churches accuses the other of unbelief; and for my own part, I disbelieve them all.»

(O mais anticlerical dos «heróis americanos» do século18: Thomas Paine, aqui em "The Age of Reason", 1794.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

American heroes (2): James Madison

«If religion be not within cognizance of Civil Government, how can its legal establishment be said to be necessary to Civil Government? What influence in fact have ecclesiastical establishments had on Civil Society? In some instances they have been seen to erect a spiritual tyranny on the ruins of Civil authority; in many instances they have seen the upholding of the thrones of political tyranny; in no instance have they been seen the guardians of the liberty of the people. Rulers who wish to subvert the public liberty, may have found an established clergy convenient auxiliaries. A just government, instituted to secure and perpetuate it [liberty], needs them not.»

(Esta tirada do mais veemente anticlericalismo deve-se a James Madison, no "Memorial and Remonstrance against Religious Assessments", em 1784.)

domingo, 30 de outubro de 2005

Manuel Alegre no caminho certo

«"O objectivo da nossa candidatura é passar à segunda volta das eleições presidenciais e depois vencer essa segunda volta", sublinhou o vice-presidente da Assembleia da República. As declarações de Manuel Alegre foram proferidas no final da primeira reunião da sua Comissão Política, que demorou cerca de quatro horas.
(...)
"A nossa candidatura cumpriu já de forma positiva o teste de cidadania. Assenta no voluntariado e não depende de quaisquer aparelhos partidários ou grupos de interesses", sustentou, dizendo que na Comissão Política da sua candidatura "estão pessoas com percursos diferentes e provenientes de diferentes regiões".
"Esta candidatura fez já que muita gente voltasse a reencontrar o prazer da política. O nosso objectivo é servir Portugal e servir a Pátria - palavra que deve ser reaprendida a dizer com orgulho", afirmou.
»


A candidatura de Manuel Alegre tem vários aspectos positivos. Primeiro, ser uma candidatura que, quer se queira quer não, se afirma contra a vontade de todos os partidos (grandes, médios e pequenos). Segundo, poder ser a primeira expressão organizada de uma social-democracia radicalizada, genuinamente de esquerda, desde a candidatura de Salgado Zenha, há já vinte anos. Terceiro, saber recuperar um saudável sentido patriótico num momento em que os vagos sonhos europeístas só servem (conscientemente ou não) o «grande capital», o qual é, sejamos realistas, mais verdadeiramente transnacional do que qualquer proletariado. A candidatura de Manuel Alegre é portanto uma oportunidade de abrir espaço para uma esquerda que não se reveja nem no blairismo do PS, nem no estalinismo do PCP, nem no pós-modernismo do BE. Mas só vale realmente a pena se for para eleger Manuel Alegre presidente da República. Estamos todos fartos de eleições presidenciais que são meras contagens de espingardas para avaliar o peso de facções...

American heroes (1): Thomas Jefferson


«Be it enacted by the General Assembly of Virginia that no man shall be compelled to frequent or support any religious worship, place, or ministry whatsoever, nor shall be enforced, restrained, molested, or burthened in his body or goods, nor shall otherwise suffer on account of his religious opinions or belief; but that all men shall be free to profess, and by argument to maintain, their opinion in matters of religion, and that the same shall in no wise diminish, enlarge, or affect their civil capacities.»


(Constituição do Estado federado da Virgínia, 1785-86; atribui-se este «laicismo agressivo» - como diria um católico qualquer - à influência de Thomas Jefferson.)

Desfazendo os mitos sobre a República (5)

«[Sob a monarquia] o Estado tinha absorvido não só todo o direito eclesiástico mas também todo o direito divino relativo à Igreja, tendo-se chegado ao cínico desaforo de proclamar abertamente, em pleno Parlamento, com a aquiescência de todos os partidos, que não se devia estabelecer a separação entre a Igreja e o Estado, para que não se tornasse impossível continuar a dominar a Igreja.» (José Lopes Leite de Faria, bispo de Bragança, numa «Instrução Pastoral sobre o clero católico», em 1926.)

...E assim se vê como o próprio clero católico reconhecia que a situação da ICAR durante a República era de maior liberdade do que o fora durante a monarquia. Enfim, o mito depois divulgado foi exactamente o contrário: que a ICAR teria sido «perseguida» durante a República. E o mais incrível é que ainda hoje há quem acredite nisso. Inclusivamente gente muito «à esquerda»...

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Cavaco enganou-se na ocasião

Ao ouvir ontem o discurso de Cavaco Silva na apresentação do seu manifesto, tive a sensação muito nítida de que Cavaco Silva caíra num sono profundo logo após o seu famoso artigo sobre a «má moeda», do qual só acordara no início deste mês. Efectivamente, o programa apresentado ontem é tão detalhado, conjuga tantas vezes o verbo «apoiar» (seguido de coisas tão diversas como «o empreendedorismo» ou «a cultura») que a conclusão me apareceu como óbvia: Cavaco Silva acredita que ainda estamos em Fevereiro de 2005, e que disputará, em Janeiro de 2006, eleições legislativas. Portanto, enganou-se na ocasião.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

A Comissão de Honra de Cavaco Silva

António dos Santos Ramalho Eanes, General, Presidente da República (1976-86) (É o único que aparece fora da ordem alfabética: vem em primeiro lugar...)
Abdool Karim Vakil, Economista (Na condição de Presidente do Banco Efisa ou na condição de Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa?)
(...)
António Lobo Xavier, Advogado (Será alguma coisa ao dirigente do CDS?)
(...)
António M. Martins da Cruz, Embaixador (Não é o pai da Diana?)
(...)
Carlos Lopes, Maratonista Medalha de Ouro Olímpica (Que é feito do Fernando Mamede?)
(...)
Carlos Queirós, Treinador de futebol (Ai interessa-se por política?)
(...)
João Bosco Soares Mota Amaral, Jurista (Com trinta anos de dedicação permanente à política? Bah...)
(...)
João Carlos Espada, Professor universitário
(...)
João Luís César das Neves, Professor universitário
(E aí estão dois dos meus três ódios de estimação. Só fica a faltar o Boaventura, mas esse apoia o Louçã.)
(...)
João Pedro Pais, Músico (Também se interessa por política?)
(...)
José Oulman Bensaúde Carp, Empresário (Sentá-lo ao lado do Vakil.)
(...)
Manuela Teixeira, Professora do ensino secundário
(...)
Maria Fernanda Mota Pinto, Professora ensino secundário
(A primeira está aqui por ser sindicalista. E a segunda?)
(...)
Maria José Nogueira Pinto, Jurista (É alguma coisa à vereadora do CDS/PP na Câmara de Lisboa?)
(...)
Manuel Alves, Criador de moda/Manuel Campilho, Agricultor (Porque não um bailarino e um servente da construção civil?)
(...)
Nuno Gama, Estilista (Não estou a ver quem é.)
(...)
Paulo Teixeira Pinto, Gestor (Sentá-lo do outro lado do Vakil.)
(...)
Pedro Lamy, Automobilista (E um taxista, porque não um taxista?)
Pedro Lomba, Docente universitário/Pedro Paes de Vasconcellos, Professor universitário (Não sei bem qual será a diferença de estatuto, mas há uma pergunta que me mói a moleirinha: que é feito do Pacheco Pereira?)
(...)
Ricardo Sá Pinto, Futebolista/Rita Guerra, Cantora/Rita Ferro, Escritora/Rui Chancerelle de Machete, Jurista/Rui Meireles, Historiador/Rui Veloso, Músico/Rui Vieira, Engenheiro/Ruy de Carvalho, Actor (Uma sequência de profissões muito diversificada, sim senhor! Mesmo assim, continuam a faltar um pianista de jazz e um jardineiro...)
(...)
Teresa Perry Vidal, Notária/Tiago Bettencourt, Cantor dos «Toranja» (Importa-se de repetir?)
(...)
Vera Pires Coelho, Empresária/Vergílio Folhadela Moreira, Gestor/Vítor Bento, Economista/Vitor Martins, Economista (Não faço a mínima ideia quem são, mas fica muito bem fechar a lista com gente dada ao ofício da massa...)

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Dificuldades para o novo presidente polaco

A Polónia poderá ver os seus direitos de voto no Conselho Europeu suspensos, se o novo Presidente, o católico ultra-conservador Lech Kaczynski, reintroduzir a pena de morte ou se mantiver a sua feroz oposição à concessão de direitos aos homossexuais. Quem o afirma é a própria Comissão Europeia.
Confesso que, embora seja tudo menos europeísta, estou pronto a conceder que a União Europeia tem exercido uma pressão salutar na democratização dos países do leste da Europa, como este caso poderá vir a demonstrar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Revista de blogues (24/10/2005)

  1. «A longa noite polaca», por Boss, no Renas e Veados (sobre o resultado da eleição presidencial na Polónia, onde a vitória foi para um católico conservador; o artigo inclui um mapa dos resultados eleitorais que expõe uma fractura leste-oeste evidente).
  2. «Rankings», por Rui Pena Pires, no Canhoto (uma desmontagem muito oportuna da campanha a favor da escola privada que tem sido feita através das «seriações» de escolas no Público e no Expresso, e na qual pontificam ex-maoístas reciclados em conservadores como José Manuel Fernandes e João Carlos Espada).
  3. «Mais dois poemas de Camões traduzidos para caboverdeano (por José Luis Tavares)» no Blogue de Esquerda (II) (quem não acredita que leia: é mesmo Camões em caboverdeano, uma oportunidade única ou pelo menos rara!).