segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

E, às zero horas do dia 31 de Dezembro...

  • «A TSF sabe que Cavaco Silva promulgou o [Orçamento de Estado de 2013] durante o fim-de-semana para ser publicado esta segunda-feira em Diário da República e entrar em vigor no dia 1 de janeiro de 2013» (TSF).
Que grande coragem!

domingo, 30 de dezembro de 2012

E a Laura também é a mesma?

  • «Pedro Passos Coelho recusou que o ‘Pedro’ que assinou a mensagem de Natal na sua página pessoal no Facebook e o 1.º ministro "digam coisas diferentes."» (CM)
Continua sem se saber se a «Laura» que assinou uma mensagem na página do político «Pedro» autorizou que o seu nome fosse utilizado.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O fascínio pelos «técnicos»

Há muito que em Portugal há um enorme fascínio pelos «técnicos». Vem pelo menos desde o Salazar (o pseudo-«mago das Finanças»), passou pelo Cavaco (não o actual, mas o que foi PM) e chegou aos Medinas Carreiras que nos entram em casa todos os dias.

O episódio Artur Baptista da Silva é um lado mau do fascínio pelos «técnicos» de economia e finanças. Os  tais «doutores» e «professores» que são os únicos autorizados/respeitados para nos falarem de dívidas e défices, juros e PIBs, impostos e salários (incluindo os que pagamos e os que nos são depositados na conta). Retiram à política o que é da política, porque o que dizem é exclusivamente/puramente/tecnicamente «técnico». E é suposto ouvirmos e calarmos, desde que falem com desembaraço e convicção, até ao dia em que se descubra que, bem... afinal não era um «técnico» verdadeiro.

O lado péssimo do fascínio pelos técnicos é aceitarmos tão facilmente que «técnicos» não eleitos sejam ministros. Por exemplo, ministros das Finanças: se a wikipédia não me engana, foram quase todos, desde   1975, professores catedráticos. Algo que não critico, note-se: nada tenho (antes pelo contrário) contra o reconhecimento académico de quem (estou em crer que na maioria dos casos) tinha e tem efectivo mérito académico. O problema é termo-nos habituado a que uma ou várias das pastas do governo da República sejam entregues a cidadãos que antes da nomeação governamental nunca tinham concorrido a eleições, respondido a perguntas, sido escrutinados pelos media. É uma prática profundamente anti-republicana, anti-democrática e mais específica de Portugal do que se pensa, que alguém chegue a um alto cargo sem uma carreira política prévia: o normal é os ministros dos governos do Reino Unido, da França e da Alemanha terem sido eleitos (deputados ou senadores ou...) na eleição anterior. E é assim que deve ser, e é assim que deveria ser em Portugal também.


Vítor Gaspar e Artur Baptista da Silva: duas faces do mesmo luso fascínio.

Falta o resto

Acho muito bem que o Canal Parlamento passe a estar disponível para quem tem TDT. Agora fica a faltar o resto: a RTP Informação, e a RTP Memória, e a RTP Internacional... Se é serviço público, é para todos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ó Vasco, olhe que não consta que eles aceitem garrafas de whisky

Vasco Pulido Valente, Público, 16/12:
Na Quadratura do Círculo, António Costa, António Lobo Xavier e Pacheco Pereira, sob a moderação muda de um funcionário da SIC, resolveram discutir algumas declarações da dra. Isabel Jonet e o "Banco Alimentar" a que ela preside. (...) Quanto à dra. Isabel Jonet, (...) suspeito que ganhou apoios para o Banco Alimentar. A Quadratura do Círculo irritou muito boa gente. Confesso que me irritou a mim e que decidi logo ajudar com regularidade essa extraordinária empresa.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Compilação incompleta de ataques à Liberdade

Desde que sigo política no nosso país nunca observei um ataque tão agressivo e sistemático à Liberdade como aquele que é perpetrado pelo actual Governo.

A esse respeito, gostaria de deixar aqui referências a alguns dos episódios de que me recordo. Encorajo o leitor a usar o espaço dos comentários para lembrar algumas situações de que me tenha esquecido.

Começo por uma ocorrência muito recente, relativa à violação do Regimento da Assembleia, que foi descrita pela deputada Isabel Moreira do PS nos seguintes termos: «Nunca aconteceu na história da AR. Eis a democracia parlamentar desfeita.». O deputado do PCP Miguel Tiago, a este respeito, afirmou que «A Direita PSD/CDS começam a ganhar tiques muito óbvios de prepotência, de captores da democracia e do funcionamento do Regime. [...] O Regimento da Assembleia foi pura e simplesmente violado abertamente.»

Relembro também a relação problemática que este Governo mantém com a Liberdade de imprensa, desde o episódio mais simbólico da agressão a um repórter de imagem por parte de um segurança de Pedro Passos Coelho, até ao caso mais substantivo e sério de censura de um programa de rádio ("Este tempo") devido a críticas ao regime Angolano, passando pela situação verdadeiramente inadmissível de ameaça a uma então jornalista do jornal Público (além das pressões ao próprio jornal, Miguel Relvas terá ameaçado a jornalista Maria José Oliveira dizendo que publicaria de forma anónima informações sobre a sua vida pessoal).
Sobre a RTP, Nuno Santos alegou que a sua demissão foi o culminar de uma «cilada», um derradeiro ataque do Governo à Liberdade de informação: «Trabalhar com inteira liberdade e total independência não é um detalhe desprezível nestes tempos incertos para o jornalismo e no clima que se vive na empresa e no país». Sobre este episódio suspeito que levou à mudança da direcção de informação na RTP, vale a pena atentar nesta recolha documentada de alguns factos pertinentes.

O Governo tem tomado também um posicionamento de pendor autoritário face às questões da video-vigilância, a começar pela forma como manietou a Comissão Nacional de Protecção de Dados, preferindo contornar as garantias que esta Comissão visava estabelecer, evitando inclusivamente consultá-la quanto à legislação nesta matéria. Mais ainda, optou por obrigar os novos estabelecimentos comerciais a instalar, no prazo de cinco anos, equipamento de video-vigilância, uma medida coerciva que irá na prática criar uma «renda» para as empresas que vendem este tipo de equipamento.

As prioridades orçamentais do Governo também dão razões para preocupação. Apesar de toda a contenção de despesas de que ouvimos falar, poucos parecem saber que, de acordo com o Orçamento de Estado para 2013, «A despesa total consolidada do Programa da Defesa em 2013, ascende a 2.188,4 M€, o que reflete um acréscimo de 14,1%», e isto já depois do Ministro da Defesa ter anunciado um reforço de 4000 militares em 2012.
No que diz respeito à Administração Interna, a SIS também tem usufruído de alguma generosidade no plano orçamental - como o Ricardo Alves questionou neste blogue: «De acordo com o Correio da Manhã de 2008, o SIS terá 270 pides. Segundo o Jornal de Notícias de 2011, serão 600 pides. A acreditar na imprensa desta semana, estes espiões terão ao seu dispor 144 automóveis. Portanto, será algures entre um automóvel para cada dois funcionários e um automóvel para cada quatro funcionários. "Gordura do Estado"?»

Por outro lado, os serviços secretos têm estado envolvidos em alguns escândalos, sendo o mais conhecido aquele protagonizado por Silva Carvalho, a respeito da venda de informações privadas e secretas à Ongoing. Este episódio foi mais tarde complementado pela revelação das relações entre Silva Carvalho e Miguel Relvas, que terão permitido ao segundo fazer as ameaças a Maria José Oliveira acima mencionadas. É grave que os elementos responsáveis pelas denúncias dos crimes de seus colegas contra a República tenham sido exonerados. E é difícil manter a tranquilidade sabendo que o nº 2 do SIS vai trabalhar para a China, tendo em conta tudo o que se passou.

O Governo parece também sentir-se ameaçado pelos movimentos sociais contestatários, e em resposta as forças da autoridade têm-se mostrado dispostas a contornar a lei para inibir este tipo de actividade, recorrendo se necessário à intimidação. Quando quatro (ou oito, consoante a versão) elementos do "Movimento Sem Emprego" tentaram distribuir panfletos sobre as acções da sua associação à porta do Centro de Emprego do Conde de Redondo, a polícia pediu a identificação dos elementos, notificando e acusando uma das participantes de «crime de desobediência e por ter convocado uma manifestação sem autorização». A PSP alegou que perante a lei «duas pessoas já fazem uma manifestação», e que uma manifestação é definida como sendo o «ajuntamento em lugar público de duas ou mais pessoas com consciência de explicitar uma mensagem dirigida a terceiros» - uma definição tão abrangente que incluirá qualquer pedido de grupo num restaurante.
Sobre a perseguição a vários activistas como Paula Montez, já tinha escrito neste blogue, e mais não tenho a acrescentar.


Por último, três manifestações ocorridas nos últimos 14 meses merecem aqui referência.

Começo por relembrar os confrontos entre polícias infiltrados na manifestação de 29 de Novembro de 2011 e agentes do Corpo de Intervenção, um indício forte e preocupante - entre outros - de que os primeiros eram efectivamente «agentes provocadores».

Também no que diz respeito a manifestações, lembro o que se passou a 22 de Março de 2012, quando dois jornalistas (da Lusa e da Agência France Press) foram violentamente agredidos pelas forças da autoridade - o fotógrafo da Agência Lusa foi levado para o Hospital de S. José com vários ferimentos na cabeça. Outros inocentes (inclusivamente uma turista francesa) foram agredidos nesse dia.

Sobre a manifestação mais recente, dia 14 de Novembro de 2012, volto a pedir atenção às denúncias de Garcia Pereira, bem como a esta análise (documentada) sobre os eventos desse dia pois, além de relatarem vários factos preocupantes, dão indícios fortes de que existiam agentes policiais entre o grupo de pessoas que apedrejava a polícia. Bem mais fortes que estas imagens.


[Texto editado para corrigir um lapso quanto ao nome da jornalista alegadamente ameaçada por Miguel Relvas - agradeço ao Luís Humberto Teixeira a chamada de atenção]

domingo, 23 de dezembro de 2012

Amor Cristão e o Espírito do Natal

Li hoje que na semana passada o Papa benzeu a porta-voz do parlamento do Uganda, a senhora Rebecca Kadaga, que está a tentar implementar a pena de morte para a homossexualidade no país dela, e aproveitou a ocasião para declarar que o casamento gay é "un'offesa contro la verita della persona umana e una ferita grave inflita alla giustizia e alla pace."  Uma ferida contra a justiça e a paz.  Não percebi se ele está a pensar em guerra, mas é interessante ver esta organização moribunda atirar-se assim ao pescoço dos homossexuais com tanta energia e tanto ódio, sabendo já que perdeu esta causa. 

A homofobia vai a caminho do panteão das derrotas da ICAR, juntamente com o fascismo, o analfabetismo, o Index, o trabalho infantil, a contracepção, a anestesia epidural, etc., e o mais que os dicursos do papa podem aspirar é uma ou duas dúzias de crimes de ódio sobre a comunidade gay.  Uma consolação magra para quem costumava queimar os judeus!

sábado, 22 de dezembro de 2012

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O salazarista que se esconde no armário

Sempre ouvi toda a esquerda (e alguma direita democrática) referir-se à «guerra colonial». Aqueles que procuram uma expressão neutra usam «guerra d'África» (exemplo clássico, o Presidente Jorge Sampaio na inauguração do monumento aos mortos nessa guerra). Apenas a direita saudosista e cripto-salazarista ainda fala em «guerra do ultramar». Descubra neste linque qual é a expressão usada por Passos Coelho.

O que é que os cientistas nos dizem sobre o Aquecimento Global?

«O  padrão-ouro da ciência é a literatura sujeita a revisão por pares. Se existe discordância entre cientistas baseada não na opinião mas em evidências sólidas, ela será encontrada na literatura sujeita a revisão por pares»

O autor desta frase que traduzi é James Lawrence Powell, um cientista nomeado por Reagan e Bush (pai) para o Painel Científico Nacional dos EUA.
Outra coisa que  James Powell fez foi ler 13950 artigos que contivessem os termos «global climate change» ou «global warming» no tópico, de acordo com a «Web of Science», descontando artigos de revisão ou materiais editoriais. Para cada um destes artigos, verificou se o artigo rejeitava a actividade humana enquanto causa para o aquecimento global, ou alegava alguma explicação alternativa. Os seus resultados foram os seguintes:


Em 13950 artigos sujeitos a revisão por pares, 24 rejeitavam causas humanas para o aquecimento global.

Bom, mas este estudo em si não se trata de um artigo publicado num jornal com revisão por pares. É verdade, mas Naomi Oreskes fez um estudo semelhante e publicou os resultados. Como o artigo dela apenas está acessível para quem assina a Science, deixo aqui um capítulo que escreveu onde falou sobre os seus resultados. No caso dos artigos identificados por Naomi Oreskes, 0% rejeitam uma causa humana para o aquecimento global.

Em resposta à pergunta do título: os cientistas dizem-nos que o aquecimento global está a acontecer, e a actividade humana tem um papel importante.

Já agora, quantos anos mais durará o Polo Norte? Já existem movimentações político-estratégicas que partem do princípio de que não durará muito. Não admira:

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Como se fala do Natal às crianças católicas?

Por esta altura levanta-se sempre a questão de como lidar com a época natalícia e as crianças numa família ateia. Está implícita a ideia de que o Natal como o vivemos hoje, não é uma construção social que mistura conceitos e valores de variadíssimas fontes, mas algo tirado a papel químico do Novo Testamento.
Pelo menos uma vez, eu gostaria de saber como se explica às crianças católicas, uma tradição de origem pagã, onde eles celebram o nascimento de alguém que não nasceu nesta altura do ano, onde há um consumismo desenfreado, onde a figura central é o tal "velho de barbas que distribui prendas aos meninos que se portam bem", e nem a própria data de celebração  tem algo de cristão?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mais ataques ao estado de direito

Ainda dizendo respeito ao que se passou na manifestação de dia 14 de Novembro:



Quem tiver tempo e disponibilidade deve ver também este vídeo, que apesar de tudo não me parece tão persuasivo como o testemunho apresentado acima.

Acusações levianas e sinais preocupantes

Porque conheço o suficiente a Paula Montez para ter toda a confiança no relato que faz, partilho-o (destacando algumas partes a negrito) com os leitores.
Parece-me que há situações que começam a atingir contornos sinistros:

«“Peço a quem tiver imagens minhas na manifestação de 14 de Novembro (ou noutra manifestação qualquer) a tirar fotografias que as envie a fim de constituírem prova neste processo. Obrigada pela vossa solidariedade.“
Esta semana recebi um telefonema no meu telemóvel de uma funcionária do DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) para me convocar para prestar declarações por ter sido “denunciada” por actos supostamente praticados por mim na manifestação do dia da greve geral de 14 de Novembro em São Bento. Quis saber qual a denúncia que recaía sobre a minha pessoa e a senhora do outro lado da linha referiu, para meu grande espanto, que eu tinha sido denunciada por cometer “ofensas à integridade física da PSP”. 

A primeira questão a saber é como conseguiram obter o número do meu telemóvel cujo contrato nem sequer está em meu nome. A segunda questão é saber como posso ter sido denunciada por um crime que não cometi e por actos que não pratiquei.

Ontem apresentei-me no DIAP acompanhada de um advogado. Foi-me lido o auto de denúncia e mostradas imagens captadas na manifestação. As imagens todas elas de má qualidade e inconclusivas, mostram-me de braço no ar com um objecto na mão que os “denunciantes” referiram ser pedras. Na verdade o objecto que tenho na mão é nada mais do que a minha máquina fotográfica que costumo elevar devido à minha estatura ser baixa para captar imagens, como sempre tenho feito em todas as manifestações e protestos onde vou. Nas legendas das várias imagens captadas aparecem aberrações do tipo: “acessório”, assinalando-se com um círculo, pendurada na mochila, uma máscara dos Anonymous; o meu barrete de lã colorido é indicado como sendo um capuz (lá vem o estigma dos “perigosos encapuçados”); até a cor da roupa, preta, aparece referida (!); além disso, na foto de qualidade duvidosa, onde se vê o meu braço erguido segurando o tal objecto (máquina fotográfica) pode-se ler na legenda que arremessei à polícia cerca de 20 pedras ou outros objectos… 

Agora pergunto eu: se a PSP me identificou a arremessar 20 pedras e a colocar em causa a sua integridade física, por que não fui eu detida logo ali? Por que não fui de imediato impedida de mandar mais projécteis que pudessem atentar contra os agentes? Sim, como é possível ter sido vista a atirar coisas, contarem uma a uma as cerca de 20 pedras que eu não atirei, mas que alguém afirma ter-me visto atirar, e deixarem-me à solta para atirar mais?

Colocada perante estas “provas” e com base nesta absurda acusação fui constituída arguida com “termo de identidade e residência”, tendo agora que arranjar forma de me defender.

Como é evidente trata-se de uma perseguição por parte da PSP a pessoas que estiveram naquela manifestação. Faço notar que nem sequer fui das pessoas detidas para identificação, estou sim a ser vítima de uma orquestração por parte da PSP que visa lançar uma perseguição política a pessoas que eles supõem ser os mais activos na contestação, pessoas que costumam ir às manifestações, fotografar, passar informação nas redes sociais (o meu perfil de Facebook lá continua bloqueado a funcionar a meio gás, sem a possibilidade de comentar vai para um mês).

Enfim, tal como antes já tinha previsto, no dia 14 de Novembro começou uma intencional e persecutória caça às bruxas e desde então não param de acontecer fenómenos sobrenaturais em democracia: identificam-se pessoas em imagens duvidosas, denunciam-se situações que não aconteceram, subvertem-se imagens dúbias e de qualidade duvidosa para servirem de prova a acusações infundadas, usam-se telemóveis pessoais para enviar convocatórias do DIAP e hoje aconteceu mais uma situação inédita: um telemóvel de um amigo com quem eu estava tocou; qual o nosso espanto era eu a ligar do meu telemóvel e a chamada apareceu registada no TM dele como sendo minha, mas o meu telemóvel estava ali mesmo à mão, bloqueado, sem registo de nenhuma chamada efectuada… isto para além dos estalidos em certas conversas telefónicas.
Todos os que me conhecem sabem que não sou pessoa para andar a atirar pedras à polícia, que sempre defendi a estratégia da não violência, da desobediência civil e da resistência pacífica. Que em todas as manifestações me movimento de um lado para o outro a captar imagens e que muitas vezes me vejo obrigada a erguer o braço para fotografar acima da minha estatura. Não há ninguém que me reconheça ou possa apontar como sendo violenta ou capaz de andar a arremessar objectos em manifestações, por muito que considere que a violência com que o sistema nos ataca nos nossos direitos e nas nossas liberdades - e agora também acometendo contra a integridade física de todos quantos estávamos naquela praça - possa gerar a revolta e a reacção das pessoas.

A situação não é nova, nem a sinistra estratégia: no dia 5 de Outubro o Ricardo Castelo Branco foi detido e alvo de idêntico processo de acusação, também através de imagens dúbias e da mentira de dois denunciantes (mal) amanhados pela PSP, acusado de atirar garrafas à polícia, mesmo com um braço engessado e outro braço segurando uma máquina fotográfica. Com coragem e determinação levou o caso às últimas consequências até por fim ser ilibado. 

Por tudo isto decidi tornar pública esta absurda acusação e peço a todas e a todos vós que divulguem este caso. Pela minha parte vou fazê-lo por todos os meios ao meu dispor, incluindo a comunicação social. Hoje sou eu a visada mas qualquer um pode vir a ser o próximo a ser alvo de falsas denúncias e acusações. O que sempre mais me empolgou e indignou são as situações de repressão, perseguição e de injustiça. A verdade é mais forte e há de vencer todas as calúnias.
Peço a quem tiver imagens minhas na manifestação de 14 de Novembro (ou noutra manifestação qualquer) a tirar fotografias que as envie a fim de constituírem prova neste processo. Obrigada pela vossa solidariedade.»

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As manifestações, quem as enquadra e o «sistema»

(Via anarco-ciclista.)

China recruta espião português

O nº2 do SIS vai «trabalhar» para a China. Tudo calmo: como se sabe, nenhum honrado espião ou ex-espião português seria capaz de vender «informações». O Silva Carvalho foi um caso isolado. Isoladíssimo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Tiroteios nas escolas e capitalismo selvagem

Esta manhã passei os olhos pelos jornais europeus e como sempre fiquei convencido que a maioria dos europeus não percebe uma coisa fundamental sobre a América: aqui tudo é um negócio e em todos os negócios o único objectivo é maximizar o lucro.

Por exemplo, o programa de Bush "no child left behind" só tinha (e tem) que ver com os lucros das empresas que administram os testes.  A educação dos americanos é outra história.  O Partido Republicano, aliás, é contra a educação dos americanos e desde os anos oitenta tem financiado uma campanha global contra os professores.  Este ano o programa do Partido Republicano do Texas contém um parágrafo que diz o seguinte:

Knowledge-Based Education – We oppose the teaching of Higher Order Thinking Skills (HOTS) (values clarification), critical thinking skills and similar programs that are simply a relabeling of Outcome-Based Education (OBE) (mastery learning) which focus on behavior modification and have the purpose of challenging the student’s fixed beliefs and undermining parental authority.

As armas são também um negócio - de 11 mil milhões de dólares por ano - e os 16 tiroteios que este ano já mataram 88 pessoas são uma externalidade sem importância para a indústria.  A máquina de propaganda dos patrões começou a controlar os senadores e os congressistas ontem, um a um, para que não se metam a fazer comentários emocionados no rescaldo desta tragédia que mais tarde lhes custem dinheiro e talvez o emprego.

Desde 2005 a National Rifle Association (NRA) canalizou quase 40 milhões de dólares dos produtores em propaganda e Obama tem implementado continuamente legislação que desregulamenta a venda, posse e uso de armas nos EUA.  A minha universidade tem um grupo de estudantes plantados numa banca todos os dias, a distribuirem folhetos de propaganda para que a universidade ceda perante as pressões de Rick Perry e autorize o porte de armas nas salas de aulas.  Eu perguntei a uma anormal que me deu um folheto como é que se sabe quem é que começou um tiroteio dez segundos depois de ele começar e ela respondeu-me, muito direitinha, com os olhos fechados: "The bad guy is the one who is shooting in all directions."

O lucro é o único valor moral dos americanos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O governo somos nós

Entrei nesta coisa do facebook e adoro estar em contacto com os meus amigos de há muitos anos, mas horrorizam-me e repugnam-me todos os dias as ladainhas sobre a corrupção do governo e as afirmações saudosas e desgraçadas d' "o Salazar é que era" e d' "a Nossa Senhora é que nos guia".

Ora eu acho que o Salazar era um anormal e um crápula, a Nossa Senhora não existe e o problema de Portugal não são os governos:  são os portugueses.  O governo somos nós.  Estes energúmenos foram todos eleitos e reeleitos.

Hoje um amigo meu meteu um artigo - acho que d'O Público - de uma jornalista muito suspirosa a dizer que os cientistas se vão embora porque não há apoios, etc.

Eu fugi de Portugal há quase 15 anos, mas não foi por causa do governo nem dos políticos:  foi por causa dos portugueses.  Fugi de ser maltratado, desautorizado e humilhado: por exemplo, o homem das facturas fazia-me esperar em pé, no corredor do IPPAR, horas a fio e eu ouvia-o através da porta a calhandrar ao telefone.  Uns dez anos mais tarde encontrei o meu ex-chefe e ele disse-me que o centro do qual eu tinha fugido tinha implodido "por minha culpa":  "desde que eu tinha saído ele nunca mais tinha conseguido que se fizesse nada!"

Fugi porque me fartei de ouvir dizer que tinha de ter respeitinho pelos chefes.  Eram uma data deles, parece que todos importantíssimos.  O IPPAR era um antro de irresponsabilidade e desperdício, onde a pequena corrupção imperava e era a alegria dos calhandreiros.  O desgraçado que recebia uma percentagem das compras e que toda a gente sabia quem era, o que tinha um arranjinho com a garagem onde mudavam o óleo aos carros, o que arranjou um emprego para o sobrinho, que veio da tropa, coitadinho e que - eu vi - no primeiro dia de trabalho desatou a fazer fotocópias "para a prima" e a telefonar "para o estrangeiro".  Os que achavam que o estado lhes pagava mal e iam para a praia de manhã a partir de Maio.  Os chefes que chegavam ao meio dia e iam almoçar e voltavam às quatro.  O desprezo total e absoluto pelos prazos, pelos cidadãos, pelos empreiteiros e pelo património.  Os melindres e as retaliações contra quem se queixava.  As facções.  O tribalismo.  As honras ofendidas de quem era apanhado com a boca na botija.  As vinganças contra quem identificava os problemas.

Os portugueses estão-se nas tintas uns para os outros e não acreditam num modelo de sociedade democrática, em que a responsabilidade é de todos.  E o governo...  aqueles desgraçados que aparecem na televisão - são portugueses.  Roubam mais do que a maioria porque têm acesso a mais dinheiro e baldam-se mais porque podem.


Um antropólogo chamado George Foster escreveu um artigo nos anos sessenta que explicava que em certas sociedades rurais as pessoas têm um sentido do "bem" como uma coisa finita e limitada, que não cresce e portanto cada vez que é consumido se reduz.  Para estas pessoas torna-se mais importante que ninguém goze do que que haja uma repartição equitativa do bem.  O sucesso é um crime e a mobilidade social uma ameaça.  Trabalhar, cooperar e tornar o "bem" numa coisa que cresce e pode ser partilhada, está fora de questão.  São estas pessoas que podem passar anos sem fazer nada mas se levantam às quatro da manhã, se organizam e colaboram com uma energia prodigiosa cada vez que alguém tenta fazer alguma coisa.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Esquizofrenia governativa

No espaço de poucas horas, tivemos 3 exemplos da esquizofrenia em que caiu este governo. E não são detalhes a constar numa portaria, são decisões de fundo em áreas fundamentais.
  1. Depois de "sim, queremos as condições da Grécia", "seria péssimo termos as condições da Grécia, entenderam-nos mal", ontem voltámos ao "queremos as condições da Grécia".
  2. Primeiro havia espaço para receitas na educação, depois não haveria "co-pagamentos", hoje já "há margem para explorar co-financiamento das famílias".
  3. Houve um grupo de trabalho governativo há meses para decidir o futuro da TVI, cujas ideias já nem me lembro. Há meses acabava-se com um canal.  Esta semana, 49% da RTP vão ser vendidos a privados.
Estamos entregues à bicharada.

A virgem meretriz

Graças à intervenção do Anjo Gabriel a Virgem Maria concebeu sem pecado original. Dois mil anos depois, em Portugal, há uma meretriz sem pecados, virgem mais virgem não há. Mas sabe-se que a meretriz tinha dormido com o PS, com Cavaco, com banqueiros, tinha saltado do ministério das finanças, depois de um mandato desastroso, para o frenesim das fundações, dos conselhos de administração de empresas, de associações imobiliárias, etc., enfim o habitual bónus para os medíocres que passam pelos governos. Num fenómeno de amnésia coletiva esta meretriz batida conquistou o estatuto de virgem à força do apedrejamento mediático de todos os pecadores que cruzavam a sua mira. Para a meretriz um suspeito era um culpado e reclamava o seu encarceramento para o dia de ontem. Espero que agora seja fiel ao seu discurso. Depois das fortes suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais de que é alvo, as jaulas da penitenciária estão à sua disposição.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Liberalismo e videovigilância

Miguel Macedo é realmente um ministro especial: não apenas tem sido responsável pelas repressões mais violentas de manifestações desde os anos 80, como se assumiu como o grande promotor da videovigilância. Ontem, soube-se algo sobre a videovigilância que não afecta apenas o liberalismo político (direito dos cidadãos à privacidade), mas também o liberalismo económico (criação de «rendas» a partir de negócios privados, diminuindo efectivamente a margem de lucro do comércio).
Atente-se na pérola: «a instalação de câmaras de vigilância será obrigatória para todos os novos estabelecimentos como farmácias, gasolineiras, lojas de arte, ourivesarias e casas de jogo. Para os actuais estabelecimentos haverá um prazo de cinco anos para colocar as câmaras».
Note-se bem: não serão os proprietários de estações de serviço ou farmácias a decidirem, por eles próprios, se querem ou não ter videovigilância. Não têm autonomia para ponderar o risco de assalto e o custo da instalação e manutenção: não, népias, nada disso. O governo mandou, eles obedecem: pagam.
Sendo malicioso, lanço uma suspeita: de quem será a(s) empresa(s) beneficiária(s) desta lei? E será que algum assessor ou secretário de Estado sairá directamente do actual governo para uma dessas empresas? E será um acaso que hoje na TV se ouça a propósito de cada assalto: «não tinha câmara de videovigilância instalada...»?

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A verdade sobre o ensino secundário privado

Aquilo que muita gente já sabia e que já tinha sido objecto de muitas denúncias que o ministério continua a ignorar. Isto é um escândalo, não há outra forma de classificar isto. Mas tudo o que se diz sobre a empresa GPS não se fica por aqui, há atividades e práticas bem mais graves do que é aqui descrito e que têm vindo a ser denunciadas por aqueles que conhecem melhor a empresa.
Esta reportagem é também para os idiotas úteis que andaram a apoiar as manifestações contra o corte nos apoios às escolas privadas. Hoje, alguns deles estão no governo, outros são conselheiros de estado.  




A seguir a 1929, veio 1939

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Revista de blogues (3/12/2012)

  • «Acusar todos os políticos de desonestos é hábito dos políticos que não ocupam cargos e dos demagogos que, fingindo não ser políticos, pretendem ser considerados honestos
    Os ataques moralistas ao carácter dos políticos, indiferentes a opções que, por vezes, os críticos não têm preparação para analisar, não passam de demagogia, que afasta os mais capazes e lança o labéu sobre os mais honestos e dedicados servidores públicos. 
    A ética republicana obriga-nos a distinguir o comportamento crapuloso dos que levaram à falência o BPN dos que tomaram opções, eventualmente erradas, de boa fé, e que cabe aos eleitores julgar em atos eleitorais. 
    Dizer que Passos Coelho é corrupto é uma calúnia de quem, sem provas, pretende ser visto, por contraste, como honesto. Acusá-lo de extremista, reacionário e incompetente é um juízo de valor abundantemente comprovado. Avaliá-lo como um homem perigoso, cuja permanência no Governo pode tornar irreversível a nossa queda no abismo, é, mais do que um direito, um dever cívico com o qual devemos ser consequentes. 
    Em princípio, um governo deveria cumprir uma legislatura e, só aí, submeter-se de novo ao veredicto do eleitorado mas, quando as medidas tomadas contrariam as promessas e as decisões afetam gravemente a vida dos portugueses, devem as manifestações públicas e todas as formas legais de luta mostrar aos governantes a porta de saída. Pode ser pior, para o nosso futuro, a manutenção deste Governo do que a sua substituição. 
    É nestas alturas, perante a gravidade e irreversibilidade democrática de decisões lesivas que se sente a necessidade de um presidente da República. Bem o precisávamos.» (Carlos Esperança)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Isto explica mesmo muito

Em mais um fim de semana de "Banco Alimentar", ou lá como aquela coisa se chama (a propósito do qual vezes sem conta se repetiu recentemente a banda desenhada que aqui publico), prefiro chamar a atenção para mais esta parangona, que não é tão inofensiva como parece. Para além de revelar que António Costa é neste momento o único político que a direita realmente teme, é muito elucidativa da forma de "pensar" e ver a sociedade por parte da gentinha que nos (des)governa. A este respeito vale a pena ler por completo este texto de Luís Gaspar, do qual deixo aqui alguns destaques:
Na cabeça desta gente, um pobre é, basicamente, um tipo que tem tudo o que o rico tem, mas tudo o que tem é um bocadinho pior (...). Na cabeça desta gente, há uma linha integralmente contínua que separa o rico do pobre, uma régua onde a distância entre toda a gente pode ser medida numa unidade monetária homogeneizante (ou seja, não há classes, há indivíduos). É sobre esta régua continua que a senhora Jonet queria fazer alinhar os pobres: fazê-los transitar da extremidade mais rica para uma mais consistente com a sua riqueza (é tudo um processo de re-ajustamento horizontal: ninguém cai, é só andar um bocadinho para o lado). É também esta a régua, aliás, subjacente aos modelos económicos que estão por detrás dos "processos de reajustamento" baseados na deflação doméstica que os austeritários impõem sobre o país. (...) Como é óbvio, a pobreza é disruptiva, não é contínua. A fome, a vulnerabilidade, a humilhação, a privação, são condições que determinam o rumo da própria vida, não se limitam a torná-la mais difícil ou menos agradável. Um pobre não tem carro, muitas vezes não tem casa, não faz escolhas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O The New York Times, é bem sabido, é dominado pelos comunistas e pela CGTP

Recomendo o visionamento deste álbum de fotografias de Portugal publicado pelo The New York Times, e compará-lo com os comentários (nada ideológicos!) de José Manuel Fernandes, um dos mentores do atual governo, para nos apercebermos do grau de autismo a que a direita liberal chegou. Em Portugal, José Manuel Fernandes foi diretor do Público (recorde-se); nos EUA, talvez encontrasse emprego na FOX News.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mitos da crise II - a culpa é dos mediterrânicos que são corruptos, preguiçosos, morenos,...

Alguns mediterrânicos rancorosos, e outros tantos nórdicos orgulhosos da sua superioridade, apontam alguns traços culturais do Sul como causa da crise actual. Seja a corrupção, a preguiça, a fuga fiscal, a indisciplina fiscal, a dolce vita, a falta de profissionalismo, os maus políticos, a ineficiência económica, a má qualidade institucional, as reformas prematuras, os reduzidos horários de trabalho, etc. há teorias para todos os gostos. O facto de os países terem todos rebentado ao mesmo tempo, parece ser uma coincidência sem qualquer significado para os adeptos desta(s) teoria(s). 
Na verdade há muitas variáveis (históricas, sociais, económicas) que estão correlacionadas nos PIIGS, e que torna difícil a distinção entre correlação e causalidade.
E se houvesse um país, em tudo semelhante aos PIIGS, mas que não estivesse preso no Euro? Existe. Existe a Turquia, certamente pior em termos de corrupção, fuga fiscal, e todas esses pecados mediterrânicos, com uma economia altamente dependente da UE (que representa metade do comércio externo), mas fora do Euro. E o que aconteceu à Turquia desde a crise financeira de 2007-2008?
O seu PIB sofreu uma quebra como qualquer outro país, mas a economia recuperou logo. A dívida pública, que em 2007 era mais alta que a espanhola e a irlandesa, está hoje mais baixa do que então.
A saúde económica turca mostra que é difícil arranjar uma explicação para a crise, que não passe por problemas sistémicos do Euro.
Fonte: AMECO (Comissão Europeia)

Mais um passo para um estado

A Palestina já é membro observador da ONU.

Um governo tão clerical

É uma ideia de loucos: para financiar bancos, passarmos a pagar pela frequência da escolaridade obrigatória na escola pública. Como muitas ideias terroristas que vêm deste governo, pode ser que seja abandonada daqui a meia hora por troca com outra que assuste menos. De qualquer modo, é elucidativo ver quem a apoia: o inevitável Bacelar Gouveia e Braga da Cruz, ou seja, as caridosas almas católicas.

É verdade: alguém sabe o que é feito daquele rapaz que sabe agradar à esquerda ingénua e populista, o Januário «Dom» Ferreira?

Revista de blogues (29/11/2012)

  • «(...) O que leva o governo e a maioria que o suporta a aprovar um Orçamento irrealista? Não demorou muito para percebermos: a inevitável derrapagem orçamental será a base de justificação para a já anunciada ‘refundação do Estado Social’. (...) Na realidade, não há verdadeira alternativa ao Orçamento aprovado que não passe pela redução da única despesa que pode ser cortada sem efeitos recessivos e com benefício na libertação de recursos para o investimento e a criação de emprego: os juros da dívida pública. Os juros da dívida representam 9% da despesa e 4,3% do PIB, quase todo o défice previsto para 2013. Um corte de 1% nos juros vale dois mil milhões de euros. Seria possível diminuir a despesa em quatro mil milhões na despesa (como agora se estima ser necessário) com base num corte de 2% juros. Esse é aproximadamente o valor que os fundos europeus nos cobram acima da taxa a que esses fundos obtêm os seus empréstimos. (...)» (Congresso Democrático das Alternativas)
Ou seja: vamos destruir o Estado social para financiar os bancos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O aquecimento global não pára

Com crise ou sem ela, o aquecimento global continua. Bem sei que muitos consideram que é alarmista a preocupação que existe entre os climatólogos e a sociedade face a um assunto em relação ao qual existem mais dúvidas que certezas. Nada mais errado: a sociedade tem pecado por inacção e não por alarmismo, e as previsões dos climatólogos têm pecado por conservadoras.

Já que é impossível que evitemos esta situação, face à falta de vontade política e apoio popular para implementar as medidas apropriadas, espero que daqui a umas décadas seja claro quem é que teve a lucidez de identificar o aquecimento global um problema fundamental, e quem é que insistiu na inacção catastrófica que vai marcar a resposta da humanidade a este desafio.

A minha posição é clara: as pessoas queixam-se que a electricidade é cara, mas é excessivamente barata, pois os impactos ambientais devidamente calculados deviam fazer parte do preço. Há negociatas duvidosas que inflaccionam o preço, mas, mesmo sem a sua influência, um custo sustentável da energia seria superior.
As pessoas queixam-se que a gasolina é cara, mas é excessivamente barata. Bem sei que o conluio entre as empresas abastecedoras em Portugal é parte da razão, mas os impostos sobre o consumo de produtos petrolíferos deveria ser superior.
E toda a produção industrial que resulte na emissão de gases que provocam o efeito de estufa deveria ser ainda mais severamente taxada. O custo de vida iria subir, mas isso seria uma forma mais racional de responder a este problema.
Numa situação de crise, onde os preços actuais já têm um impacto perverso sobre a qualidade de vida das pessoas, a braços com menos rendimento, esta é uma posição impopular - mas defendo-a sem hesitações, e infelizmente estou confiante que o tempo me dará razão.

Relvas e a informação na RTP

Recordando a história (via Arrastão):
O segundo caso é este: Nuno Santos foi vítima de uma cilada para colocar a Direcção de Informação (DI) da RTP ao serviço do governo. O assunto ficara esclarecido com o Conselho de Redacção, a Comissão de Trabalhadores e o "director-geral" Luís Marinho (entre aspas porque o cargo continua ilegal), e, através deste, com a administração. Apesar disso, o caso foi reavivado três dias depois pelo "director-geral" e pela administração. Porquê? A meu ver, o "director-geral", o ministro Relvas, e o seu homem na administração, Alberto da Ponte, aproveitaram o caso para desgastar Santos, que vinha a desenvolver uma informação mais independente do poder político, desagradando a Relvas e relvistas na RTP. Apesar de esclarecido o assunto, os relvistas, pensando melhor, concluíram que podiam explorar o caso. Santos, percebendo a cilada, demitiu-se. Foi uma cabala própria dos mais ruins regimes de propaganda, autoritarismo e desinformação. O resto é fumaça, como o inquérito sumário e pré-decidido, tipo pré-25 de Abril, que Ponte mandou fazer. Ponte, cuja capacidade de gestão ainda não se viu, politicamente provou a sua submissão ao ministro Relvas.
Qual é o desenvolvimento mais recente? Paulo Ferreira é o novo diretor de informação da RTP. Quem é Paulo Ferreira, perguntarão alguns leitores? Respondo eu: foi, entre outras coisas, diretor e responsável do Dia D, um suplemento do Público durante a direção de José Manuel Fernandes. E o que era o Dia D? Podem ver aqui e aqui, para terem uma ideia daquilo em que se vai tornar a informação da RTP.

Uma «unidade secreta» na PSP?

Estamos sempre a aprender: segundo o Público, o famoso pedido de imagens à RTP foi feito por um «Núcleo de Informações da PSP, uma unidade de natureza secreta integrada na Unidade Especial de Polícia com base em Belas». Ignoram-se as atribuições deste grupo, que existirá «há pouco mais de uma década». (Desde Guterres? Ou desde o início do governo de Durão Barroso, que tomou posse em Abril de 2002?) Ignora-se também que legitimidade tem para dar ordens à RTP.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Da «abstenção violenta» à oposição mansa

Um PS em sintonia com a maioria da população e com a rua faria todos os possíveis para combater este OE 2013 e apressar a queda do governo. Não é essa a orientação política de Seguro.

O Estado Social dos outros é um luxo

Tem havido uma atitude clara da direita de criticar o tamanho do Estado Social no que toca aos gastos supostamente excessivos, associando-o assim ao défice, à dívida pública, à crise. Nas últimas semanas, a refundação (foi esta a palavra, não foi?), aka emagrecimento, do Estado Social tem sido apresentado como solução para todos os nossos males.
O Eurostat publicou hoje um relatório sobre o peso do Estado Social na economia (em % do PIB), e fica claro que nos países mais atingidos pela crise do Euro, o peso do Estado Social está abaixo da média.

Média UE27: 26.1% (2007) - 29.6% (2009)
Irlanda:   18.9 - 27.4
Grécia:    24.8 - 28.0
Espanha: 20.7 - 25.3
Chipre:    18.2 - 21.1
Portugal: 23.9 - 27.0

A Irlanda passa a média em 2010, mas esse número tem pouca relevância quando sabemos que é a exceção e não a regra: trata-se de um país num ano muito específico, com a economia destruída e com um desemprego anormalmente elevado.
A atitude da direita é um claro aproveitamento do desespero provado pela crise, para se alcançar aquilo que não se consegue em tempos normais. Gato escondido com rabo de fora...

domingo, 25 de novembro de 2012

Leitura de 25 de Novembro

Porque hoje é o 37º aniversário, recomendo «Primeiro Fazem-se Plenários e Depois é que se Cumprem as Ordens», da historiadora Raquel Varela. Essencialmente, é o ponto de vista da extrema esquerda: o PCP no 25 de Novembro só mandou as pessoas para casa, não tinha qualquer golpe de Estado «preparado», toda e qualquer acção foi estritamente defensiva, no fundo traiu a classe operária. Mais: o PCP desde Julho que tentava reparar o erro que cometera ao apoiar alguma iniciativas dos mais radicais (caso República, ocupações...) e do próprio PCP («unicidade sindical») que haviam afastado o PS e os moderados do MFA. As provas documentais apresentadas de que a estratégia do PCP era a recomposição da «unidade da esquerda» são relevantes(*). Todavia, a própria autora assume implicitamente que o PCP nunca tentou isolar a esquerda revolucionária (fora pronunciamentos verbais) e explicitamente que o período analisado inclui o episódio da FUR, pouco «enquadrável» nessa estratégia. Argumenta, com alguma razão, que se havia golpe preparado do PCP e militares afectos, então foi estranhamente mal preparado (mas poderia responder-se-lhe que em todas as revoluções há muitos que faltam à chamada na hora H).

Não se retire do parágrafo acima que «compro» a tese oposta (a da revolução PCPista em marcha a partir de Tancos evitada por valorosos «democratas» que, entendeu-se rapidamente, queriam mesmo era fuzilar uns tantos «comunas»). Pelo contrário, até acho que, por estranho que hoje pareça, a tese de que o PCP andou a reboque (ou quase...) da extrema-esquerda deste Março de 1975, e que ficou «entalado» no V Provisório e depois até Novembro, inclusivamente nos acontecimentos de 25, é a que andará mais próxima da verdade.

E não tenho qualquer dúvida que o 25 de Novembro deu muito jeito ao actual «arco da governabilidade» (aí fundado) e à tal «extrema-esquerda» (salva de si própria). Realmente só não deu jeito ao PCP...

Palestina e Israel - a desproporção de vítimas


Às vezes uma imagem vale mil palavras.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pessoas estranhas

O Director de Informação da RTP demitiu-se. A Administração diz que «responsáveis da Direcção de Informação facultaram a elementos estranhos à empresa, nas instalações da RTP, a visualização de imagens dos incidentes verificados após a manifestação em frente à Assembleia da República, no dia da greve geral». Nuno Santos, o ex-director, nega... ou quase: diz que «nenhuma imagem saiu das instalações da RTP» e que «[não autorizou] de forma expressa ou velada a cópia de quaisquer imagens». E demite-se, o que autoriza que se conclua que se não deixou que as imagens «saíssem» da RTP, pelo menos deixou que as «pessoas estranhas» as «vizualizassem».

O assunto interno da RTP é fácil: houve quebra de confiança, logo demitiu-se. Siga.

Resta a questão de saber quem eram as tais «pessoas estranhas». Ora, «a PSP pediu à RTP brutos das imagens recolhidas junto ao parlamento, material que a estação não fornece (...) as imagens que passaram na edição da RTP e RTP informação, do domínio público, foram enviadas à polícia ao final do dia». A PSP não teria interesse em «vizualizar» imagens sem ficar com as respectivas «cópias»: porque sem as «cópias» não poderia haver procedimento judicial. Haverá um serviço do Estado interessado em «visualizar», mas que dispensa as cópias porque não inicia procedimentos judiciais? Que guarda apenas a «informação» da vizualização?

2+2=...

Mitos da crise I

É raro o dia em que não se ouve baboseiras sobre a crise da Zona Euro. Não me refiro a opiniões de que discordo, mas de afirmações falsas. Já era tempo de lhes dedicar uma série de posts. 
Nada melhor do que dedicar o primeiro post ao Gaspar, Vítor Gaspar. Apesar de não o dizer explicitamente, ele associa a crise à falta de controlo da dívida pública em "alguns países".
Aqui fica a dívida pública dos PIIGS desde 2000, dados da Comissão Europeia:

O que se vê não é um falta de controlo, mas uma descida sustentada que ocorreu todos os anos sem exceção até à crise.

E se Berlim quisesse que Atenas deixasse o Euro pelo seu próprio pé

De todas as hipóteses que se podem levantar numa psicanálise à atitude de Berlim na crise do Euro, é a única que ainda me faz sentido. E cada vez mais.
Todas as outras teorias, como afirmar que Berlim quer acima de tudo fazer dinheiro, ou salvar a sua banca, ou ajudar altruisticamente a Grécia, etc. em nada explicam o porquê da insistência numa receita que só tem agravado a situação e a sustentabilidade da dívida grega, nem porque Berlim dá constantemente uma no cravo e outra na ferradura.

O que se passou ontem à noite, com o Eurogrupo a voltar a adiar o pagamento de uma tranche de 31 mil milhões que já deveria ter sido feito em Setembro, mesmo depois de Atenas ter aceitado cortar 13 mil milhões nos gastos do Estado (ao pé disto, os nossos 4 mil parecem uma brincadeira), foi um vergonhoso puxar do tapete a quem em Atenas defende que a solução passa pela troika. Dificilmente reconquistarão alguma credibilidade.
O percurso parece traçado.

Censos 2011: um milhão de portugueses não católicos

Ao responder aos censos de 2011 (os resultados foram ontem divulgados) quase um milhão de portugueses (maiores de 15 anos) se declararam não católicos: 615 mil assumiram-se «sem religião» (eram 343 mil em 2001) e 348 mil declararam seguir outras religiões que não a católica (eram 216 mil em 2001). Existem ainda 745 mil que se negaram a responder (787 mil em 2001). O número de católicos declarados como tal ao censo mudou pouco: diminuiu de 7,35 milhões para 7,28 milhões.

Em percentagem, os «sem religião» subiram de 3,9% para 6,8%, os de outras religiões de 2,5% para 3,9%, enquanto os católicos desceram de 85% para 81% (os que se recusam a responder pouco variaram, de 9% para 8,3%). Duas tendências crescentes: a dos que não têm religião e a dos que seguem religiões não católicas (entre os quais os grupos mais importantes são os 57 mil «ortodoxos», os 76 mil «protestantes» e os 163 mil que identificaram a sua religião como «outra cristã»). Pode afirmar-se seguramente que existe um aumento da secularização e da diversidade religiosa.
O gráfico mostra apenas a evolução dos três grupos minoritários (a coluna católica seria muito maior). Não será abusivo extrapolar que, a manterem-se as tendências actuais, o número de portugueses sem religião (declarados ao censo) ultrapassará um milhão no censo de 2021, ano em que os portugueses de outras religiões poderão ser meio milhão.

(Poupem-me ao «Portugal esmagadoramente católico»...)

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Na ICAR estas coisas não se votam?

A igreja anglicana recusou hoje, numa votação renhida (faltaram seis votos para os necessários dois terços), que as mulheres (que já podem ser «padresas») possam ser «bispas».

Só uma questão aos católicos portugueses: quando é que uma questão destas irá a votos (votos, democracia, assim mesmo) na igreja católica romana?

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

domingo, 18 de novembro de 2012

Perspectivas

O sonho de Sá Carneiro é um pesadelo: um presidente que é o primeiro que não tenta sê-lo «de todos os portugueses», um governo que com a desculpa da intervenção externa realiza um programa revanchista e extremista, uma maioria que assina por baixo, um PS anestesiado e uma esquerda radical guetizada.

A situação política actual só mudará nos seguintes cenários.

  1. Acontece um segundo resgate antes do Verão, e Cavaco nomeia um novo primeiro ministro (Ferreira Leite?) à frente de um governo de «tecnocratas», com ou sem apoio do PS;
  2. O CDS deixa-se de fitas e sai do governo, passando ao apoio parlamentar (o que não duraria muito tempo);
  3. O PSD tem uma derrota estrondosa nas autárquicas de Outubro de 2013, precipitando uma revolta interna e novas eleições;
  4. Uma entidade externa «demite» Passos Coelho e Gaspar por manifesta incompetência (talvez isso tenha acontecido com Papandreou, fez agora um ano), empurrando Cavaco para o cenário 1.
Na ausência de qualquer um destes cenários, temos pela frente ainda mais dois anos e meio de empobrecimento generalizado, subserviência à Alemanha e violência policial.

Polícia bom, polícia mau

  • «Brigadas infiltradas entre manifestantes esperaram, em vão, que o Corpo de Intervenção cercasse agressores e lhes permitisse detenções cirúrgicas, escreve o 'Correio da Manhã'. De acordo com este jornal, o treino policial para intervenção em conflitos urbanos pressupunha que o Corpo da Intervenção da PSP, ao ser apedrejado à frente do Parlamento, tivesse em poucos minutos formado um cerco à dezena de agressores. Tal teria permitido que os agentes da PSP à civil, no meio dos manifestantes, efetuassem detenções cirúrgicas. Segundo o 'Correio da Manhã', o facto desta manobra tática não ter avançado, por decisão do Comando de Lisboa, causou desconforto junto de responsáveis policiais.» (Diário de Notícias)
Desafio o leitor a deixar a sua opinião na caixa de comentários:
  1. A culpa foi do «Comando de Lisboa», que não deu ordem para fazer as prisões;
  2. A culpa foi das «brigadas»(sic) de infiltrados, que não quiseram fazer as prisões;
  3. A culpa foi do CI, que só queria era dar porrada;
  4. A PSP e o CI são tão incompetentes que não se sabem coordenar;
  5. Esta notícia saiu (no «Correio da Manhã»...) só para baralhar o debate.

sábado, 17 de novembro de 2012

O milagre económico alemão?

A Alemanha tem sido apresentada como uma economia exemplar pela sua pujança, em contraste com o Sul preguiçoso e irreformável. Há contudo que meter as coisas em contexto.
Desde o início do Euro até a crise, de 1999 a 2008, a Alemanha violou frequentemente os limites das finanças públicas estabelecidos em Maastricht, chegando à crise com um nível de dívida pública equivalente ao português. A Alemanha era uma das economias anémicas da Europa (como Itália e Portugal), com um fraco crescimento de 1,6% ao ano. Nesse período a UE cresceu a 2,4% e a Zona Euro a 2,2% (sem a Alemanha em ambos os casos).
A crise inverte esta tendência. De 2009 a 2013 prevê-se um crescimento de 2,2% na Alemanha, bem acima dos 0,2% na Zona Euro e 0,6% na UE. E é difícil não associar esta inversão súbita ao desenrolar da crise. É difícil não pensar na velha queixa dos empresários alemães sobre a falta de jovens com elevadas qualificações numa sociedade envelhecida como a alemã, pensar no elevadíssimo desemprego jovem no Sul, e nas políticas ativas do governo alemão para atrair os tais jovens qualificados. É difícil não ligar o modo com a sua chanceler tem aparecido como a commander-in-chief de toda a Europa, e os enormes fluxos de capitais em direção à Alemanha em busca de alguma estabilidade no meio do pânico - fluxos esses tão grandes que levam a Alemanha a ter taxas de juros mais baixas que a sua vizinha Holanda, apesar de ter o dobro da dívida pública desta (82% contra 45% do PIB). É difícil não pensar na facilidade que há hoje na Alemanha em encontrar financiamento para qualquer investimento, quando até as taxas de juros nominais da dívida pública são negativas.
Não estou a afirmar que Berlim tenha intuitos obscuros na sua condução da crise - tanto que esta também a atinge - mas há que perceber que a Alemanha que nos mostram hoje, é como é, graças à crise.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Revista de blogues (15/11/2012)

  • «(...) Quando, às 17.30, me apercebi que nada pararia uma minoria de idiotas, abandonei o local. Muitos decidiram ficar, mantendo a devida distância dos desordeiros, sem que, como vimos mais tarde, isso os livrasse de ser vítimas da violência policial. Era certa a injustiça: a enorme coragem que tantos trabalhadores portugueses mostraram, ao correr o risco de fazer greve (muitos deles precários e em risco de perderem o emprego) e ao perder um dia de salário que tanta falta lhes faria, seria esmagada pelas imagens de violência que sempre têm a preferência dos media. (...) Disse o ministro que as provocações - que existiram - eram obra de "meia dúzia de profissionais da desordem". Se eram meia dúzia (facilmente identificável depois de uma hora e meia de tensão), porque assistimos a uma carga policial indiscriminada, que varreu, com uma violência inusitada e arbitrária, tudo o que estava à frente? Porque foram agredidos centenas de manifestantes pacíficos, só porque estavam no caminho, naquilo que, segundo a Associação Sindical da PSP foi a "maior carga policial desde 1990"? (...) Como é possível que tenham sido detidas dezenas de pessoas no Cais do Sodré e noutros locais da cidade, sem que nada tivessem feito a não ser fugir de uma horda de polícias em fúria e aparentemente com rédea solta para bater em tudo o que mexesse? Entre os detidos e os agredidos estava muita gente que, estando tão longe de São Bento, nem sequer tinha estado na manifestação ou sabia o que se passava. Como é possível que dezenas e dezenas de pessoas tenham sido detidas em Monsanto e na Boa Hora sem sequer lhes tenha sido permitido qualquer contacto com advogados, como se o País estivesse em Estado de Sítio e a lei da República tivesse sido abolida? (...) O ministro da Administração Interna garantiu que, ao contrário do que foi escrito em vários órgãos de informação, não havia agentes infiltrados na manifestação, a promover os desacatos para excitar os mais excitáveis e justificar esta intervenção. Fico-me por aqui: sei o que vi antes de me vir embora. E os agentes infiltrados começam a ser cada vez mais fáceis de identificar. Já uma vez o ministro desmentiu uma notícia semelhante que depois ficou provada. (...)» (Daniel Oliveira)

Isto não foi um «excesso»


Segundo o presidente da República, afirmar que houve excessos na repressão policial de ontem à noite «só pode ser um insulto à polícia». Portanto, na presidencial apreciação, o que a fotografia mostra não é um excesso. É a «louvável» consequência de «não haver tolerância possível» para «pessoas apostadas na destruição, apostadas na violência, que querem destruir a sociedade», como será (na opinião de Cavaco) o caso da idosa da fotografia.

Subsidio-dependência

Combustíveis fósseis subsidiados em 523 mil milhões de dólares, diz-nos o Diário Económico.

É raro que os liberais com maior acesso aos meios de comunicação social abordem este problema, seja nos EUA (que pagam mais de 80% deste valor), seja noutros países que contribuem para estes valores perfeitamente absurdos. E o escândalo e indignação que estes valores impressionantes mereceriam de um liberal coerente não seriam inconsequentes, pois pessoas de ideologias muito distintas que abarcam grande parte do espectro ideológico sentem igual aversão a estes subsídios. Esta seria uma causa comum, que com publicidade suficiente alcançaria uma fatia muito significativa (certamente maioritária) do eleitorado. Algumas sondagens revelam uma aversão a estes subsídios na ordem dos 70%.

Mas isso nunca acontece. Mais facilmente podemos ouvir críticas quanto aos custos do ITER, que pretende resolver o problema energético de forma sustentável e economicamente viável, e que ao longo do seu programa a 35 anos custará 915 vezes menos que os subsídios à indústria fóssil durante esse período. Porque é que isso acontecerá?

Os interesses dos mais poderosos conseguem efectivamente condicionar o debate público. Sugiro a todos os leitores que se consideram liberais que prestem alguma atenção a este caso escandaloso de subsídio-dependência.  Um mínimo de coerência e informação assim o exigem.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A violência gera violência

A violência da polícia gera a violência dos manifestantes. A violência dos manifestantes gera a violência dos polícias. E desta espiral só se sairia se existissem tribunais que condenassem uns e outros, ou um governo ou um presidente que fossem capazes de serenar os ânimos (não existem).

Os media de amanhã culparão os trinta jovens de cara tapada pela violência policial (e Miguel Macedo fê-lo há poucos minutos). Já escrevi muitas vezes que não compreendo que se tape a cara quando se está a defender direitos de cidadania em democracia. Mas o facto de estes jovens aparecerem na primeira linha das manifestações, aparentemente sem qualquer enquadramento político, mostra como a situação se está a degradar rapidamente. Se ainda existissem FP's-25, daqui a duas semanas estariam a pôr bombas. Mas não há: a manifestação de hoje tornou-se violenta quando a CGTP abandonou o local e o único partido de que se via bandeira era o MAS. Todavia, erram os que culpam unicamente os caras-tapadas: muito possivelmente, os infiltrados(*) do SIS e da PSP foram relevantes no desencadear da violência. E disso pouco se fala, apesar de esse papel estar comprovado e assumido desde o início deste governo.

Na greve geral de hoje avançou-se mais um pouco numa escalada descendente que não augura nada de bom.




O Estado Social está para lá das nossas possibilidades

Os moços (políticos de direita, comentadores, jornalistas e afins) que andam por aí a dar como adquirido que o Estado Social vive acima das nossas possibilidades, parecem um pai que depois de convencer o filho a deixar o emprego, refila com ele por não ter dinheiro para pagar o empréstimo da mota.
Fico na dúvida se esta gente é parva e não percebe que com 16% de desemprego, há 16% da população activa que é uma despesa para o Estado em vez de ser uma receita, ou se nos estão a tomar por parvos para conseguirem em tempo de crise o que não conseguem em tempos normais, a redução do Estado Social. A primeira parece-me mais plausível.

Entretanto o Eurostat divulgou hoje os 5 países da UE onde a indústria mais caiu foram exactamente os 5 PIIGS. Dados os desequilíbrios comerciais e quebra do produto nos PIIGS, este será dos índices a mais ter em conta. A sensatez da actual política europeia está portanto à vista.

Em frente, para trás!

Há um certo conceito de Estado, que se julgava enterrado nos tempos medievais, que faz o seu caminho com este governo. É menos do que o Estado mínimo, é um Estado que apenas retém as funções pré-iluministas de polícia, exército, espionagem e «justiça» (mas só para a plebe). Que gasta dinheiro em vigilância, mas não em saúde e educação. Que aumenta em 10% polícias ao mesmo tempo que anuncia o fim do Estado social. E quando o povo se revoltar... haverá a polícia privada dos senhores feudais, ao redor dos seus condomínios privados...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Greve é também não fazer trabalhar os outros

Fazer greve não é só não trabalhar. É também não fazer trabalhar os outros. Não comprar. Não andar de transportes públicos. Não meter os filhos na escola. Não gastar.

Eu sei, pode parecer pouco. Até ridículo. Mas convém pensar nisto numa época em que o trabalho já não é o que era. Em que se desequilibrou de tal modo a relação de forças entre capital e trabalho que se tornou facílimo despedir ou até manter presos trabalhadores sem contrato ou sem salário fixo (e trabalhadores que nem sequer são reconhecidos como tal). Em que o sub-emprego e o emprego parcial são a condição do precariado. E em que, infelizmente, os sindicatos e os media se focam naquela minoria de 11% que trabalha directamente para o Estado.

Sobre o Bloco


Estive nesta convenção pela Moção B, a moção dinamizada pelo João Madeira, Daniel Oliveira, Adelino Fortunato, entre outros. Tal como eles não me revi na forma como foi escolhida a atual coordenação do BE.  A minha crítica estende-se ainda à forma como o Bloco tem gerido as suas alianças, por um lado de uma forma muito desconfiada com a esquerda mais moderada (socialistas que não aderiram à terceira via, independentes, etc.) e por outro demasiado condescendente com os ataques dos partidos comunistas do GUE e com as suas políticas de tolerância a ditaduras abjetas (Coreia, China, Angola, etc.). Em suma, cada vez que as táticas e as práticas do Bloco se assemelham ao que de menos interessante tem o PCP, afastamos simpatias e potenciais aderentes.
Com 85 delegados eleitos e apenas 80 presentes, conseguimos 110 votos (~ 25%) para a Mesa Nacional e mais de 120 para a Comissão de Direitos. Não foi nada mau. Tendo surgido muito tardiamente, o movimento que se iniciou com a Moção B deixou no ar um forte potencial contagiante a muitos aderentes da Moção A. 
O discurso final do João Semedo foi inteligente e tomou em conta muitas das nossas críticas. Ainda bem.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O endividualismo em todo o seu esplendor

"Entre 1990 e 2010, construiu-se uma casa a cada seis minutos em Portugal", diz Manuel Maria Carrilho, mal citado no "Público" mas corrigido nos comentários do Jugular. A propósito, o mais notável no texto do João Pinto e Castro (além do patente desprezo pela filosofia) é o reagir como se, independentemente do lapso original, não fosse evidente que há casas a mais em Portugal (e tanta gente para morar nelas e sem poder!).

sábado, 10 de novembro de 2012

O BE não passa disto

  • «Empurrem por favor o PS para a esquerda (...) João Semedo rejeitou hoje um governo de esquerda com o PS» (João Semedo).
  • «Não nascemos para ser gueto (...) sabemos que a pureza não faz maioria (...) O BE deve ter “os dois pés na esquerda” (...) quando o Bloco cresceu mais foi quando se demarcou mais do centro (...) entende que o crescimento do partido, com vista à formação de um governo, está longe do centro político» (Joana Mortágua).
  • «Recusou (...) a ideia de que o seu partido está acantonado e sublinhou que a culpa da falta de convergências à esquerda é do PS e do PCP» (Pedro Filipe Soares).

Revista de blogues (10/11/2012)

  • «Em 2011 as campanhas de recolha em supermercados contribuíram apenas com 10% do valor dos produtos recolhidos pelo Banco Alimentar de Lisboa. A indústria agro-alimentar, reciclando os seus excedentes, doou 43%. A reciclagem de excedentes da UE contribuiu com 22%. O Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (de novo, os excedentes) doou 11%. As retiradas de fruta pelo IFAP (ainda os excedentes) renderam 6%. Ou seja, ao todo, o escoamento de excedentes correspondeu a 82% do valor dos produtos distribuídos.
  • O Banco Alimentar precisa das campanhas de recolha em supermercados por boas razões de marketing e ao fazê-lo mantém ocupados os escuteiros e toda a rede de voluntários ligada à Igreja Católica, que enquanto estão à porta dos supermercados a estender-nos os saquinhos estão a contribuir à sua maneira para o bem comum e a ajudar-nos a - como em todos os actos de caridade - aliviar as consciências sem resolver nenhum problema estrutural. (...) o core business do Banco Alimentar não é a nossa caridade, é evitar o escândalo da destruição de produtos alimentares no nosso país e na nossa Europa. (...)» (Paulo Pedroso)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Schäuble e Vichy

A Reuters conta-nos há poucos minutos que o governo alemão encomendou um estudo interno, pedindo recomendações para a política económica interna francesa.
Não contentes com a domesticação de vários países do Sul, Berlim quer mandar bitaites para Paris também.
Schäuble deveria saber - mas claramente não sabe - que o equilíbrio no eixo Paris-Berlim é sagrado para a estabilidade europeia, e foi ele que nos permitiu o mais longo período de paz e prosperidade na Europa ocidental.
Citando o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão Joschka Fischer, "seria uma tragédia e uma ironia se a Alemanha reunificada voltasse a arruinar a ordem europeia por uma terceira vez".

"Sandwiche" com manteiga: um verdadeiro luxo!

Hoje lembrei-me disto  (a partir dos 3:50).
 

Com amigos destes...

Há um ano e meio escrevi "Pobre Europa controlada pelos egoísmos nacionais tacanhos de direita, onde cabe ao "demónio" do FMI defender Portugal".
Hoje, não me restam dúvidas de que entre o BCE, a Comissão Europeia, o Governo português e o FMI, este último é a única instituição para a qual os portugueses (e gregos, espanhóis, etc.) ainda podem olhar com alguma esperança. Indícios disso aparecem todos os dias:

- JNeg: Schäuble critica abertura de Lagarde para suavizar austeridade
- Público: FMI alerta que austeridade pode tornar-se “socialmente insustentável” 
- Guardian: To make matters worse, there is a deepening argument between the IMF and the Europeans over the merits of austerity and whether the policies being pursued are the right ones. 
The IMF has been pressing the Europeans to accept an official writedown of Greek debt, OSI, but this is strongly resisted by the Germans and the ECB in Frankfurt. 
Triste sina.

«Portugal não é um país de Merkel»

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um desafio à Chanceler Merkel

Sou subscritor da carta «Um desafio à Chanceler Merkel» reproduzida mais abaixo. Quem a quiser assinar deve fazê-lo até sexta-feira às 11 horas, aqui.
  • «Exmª Srª Chanceler Merkel,

    Escrevemos-lhe em antecipação à sua visita oficial a Portugal no próximo dia 12 de Novembro. No programa dessa visita há uma oportunidade perdida: a Srª Chanceler vai falar com quem já concorda com as suas políticas. E mais ninguém.

    Julgamos poder afirmar que a maioria dos portugueses discorda das suas políticas e poderia ter consigo uma conversa honesta e para si instrutiva acerca do que se está a passar no nosso País e na Europa.

    Uma das primeiras coisas que lhe poderíamos explicar é como Portugal perdeu, só no último ano, 22 mil milhões de euros em depósitos bancários — mais do que aquilo que agora é obrigado a cortar em despesas sociais. Mas há mais: em transferências de capitais, Portugal perdeu pelo menos 70 mil milhões de euros desde o início da crise. Se este número faz lembrar alguma coisa é porque ele é praticamente igual ao montante do resgate ao nosso país. O que isto significa é que a insolvência de Portugal é, em primeiro lugar, o resultado das insuficiências das lideranças europeias e de gravíssimos defeitos na construção da moeda única.

    Portugal tinha à partida problemas e insuficiências. Os cidadãos portugueses sabem disso melhor do que ninguém. É por isso que lhe podemos dizer: as políticas atuais agravam os nossos problemas e impedem-nos de os resolver. Quanto mais prolongadas estas medidas de austeridade forem, mais irreversíveis serão os seus efeitos negativos. É por saberem isso, por verem isso no seu quotidiano, que os portugueses estão angustiados e indignados. Talvez no seu breve percurso por Portugal possa ver que muitos de nós pusemos panos negros nas nossas janelas. A razão é muito simples: estamos de luto.

    Estamos de luto pelo nosso País. A Srª Chanceler virá entregar a cem jovens portugueses bolsas de estudo na Alemanha. Deveria saber a Srª Chanceler que os portugueses vêem como uma tragédia que a nossa juventude, a geração mais formada da nossa história, em que tanto investimos e de que tanto orgulho temos, esteja a abandonar em massa o nosso país por causa das políticas que a Srª Chanceler foi impondo. Esta sua ação é vista como mais um incentivo para a fuga de cérebros, de que tanto precisamos para a reconstrução do nosso país. A maioria dos portugueses não entende como é possível que não se procure criar condições para que os milhares de jovens licenciados que fogem de Portugal todos os anos queiram voltar para ficar. Tal como também se vive aqui como uma provocação a Srª Chanceler vir acompanhada de empresários alemães, com o propósito de fazerem negócios proveitosos para o seu país, mas desastrosos para o nosso que vê todos os dias nas notícias o seu património a ser privatizado para lucro de todos menos do povo português.

    E estamos de luto também pela Europa. O grau de distanciamento e recriminação entre os povos e os países da União é estarrecedor, tendo em conta a trágica história do nosso continente. Desafiamo-la a reconhecer, Srª Chanceler, que cometeu um grave erro ao ter recorrido a generalizações enganadoras sobre os povos do Sul da Europa — ao mesmo tempo que condenamos as expressões de sentimento anti-alemão que mancham o discurso público, onde quer que apareçam. As nossas nações europeias, todas elas históricas, são diversas entre si mas iguais em dignidade. Todas devem ser respeitadas e todas têm um papel a desempenhar na União.

    Cara Srª Chanceler, esta loucura deve parar. A Europa volta a estar dividida ao meio, não por uma cortina de ferro, mas por uma cortina de incompreensão, de inflexibilidade e de irrazoabilidade. Estamos disponíveis, enquanto seus concidadãos europeus, a abrir um verdadeiro debate transparente e participado sobre a saída desta crise e o nosso futuro comum, para que possamos fazer na nossa Europa uma União mais democrática, mais responsável, mais fraterna — e com mais futuro.

    Mude o programa da sua visita a Portugal. Fale com quem não concorda consigo. Use esta visita como um momento de aprendizagem. Use a aprendizagem para mudar de rumo.

    Com os nossos cordiais cumprimentos,»