sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A direita e o "Estado falhado"

O discurso do "Estado falhado" parece ser a nova narrativa da direita depois da tragédia dos incêndios. Para a direita, as funções do Estado devem resumir-se a garantir a segurança das pessoas e o direito à propriedade. Falhando um desses aspetos, não importa tudo o resto: trata-se de um "Estado falhado".
Este discurso do "Estado falhado" é bastante perigoso, mas é tremendamente eficaz, e a direita sabe isso. Foi exatamente com esse discurso, a incutir esse espírito nas pessoas, de um "Estado falhado" (que é sempre representado pelo PS) a propósito do resgate financeiro, que a direita chegou ao poder em 2011. Também foi assim em 2002 ("o país está de tanga").E, no fundo, em 1926. E é assim, a voltar a criar a mesma sensação, mesmo numa circunstância e a propósito de um evento diferente, que a direita conta voltar ao poder. Para acabar com o "Estado falhado", privatizando tudo e reduzindo o Estado à segurança. Não admira que o Observador acarinhe tanto esta ideia.

A política portuguesa e os incêndios

A propaganda do CDS de que "nunca morreram cem pessoas em incêndios quando éramos governo" é miserável. Quer o incêndio de Pedrógão, quer os de domingo passado, ocorreram fora da época alta (a "fase Charlie"). Um ocorreu ainda na Primavera. O outro já em pleno Outono. Alguma vez, durante o governo do CDS, ocorreu um Verão com quase seis meses (as ondas de calor começaram em Abril) como o que tivemos este ano? Alguma vez ocorreram 523 incêndios num dia a meio de Outubro? Se fosse num dia a meio de Agosto, com os meios todos operacionais, com certeza que os danos teriam sido bem menores. As alterações climáticas não são a causa mais geral dos incêndios em Portugal, mas a elas se devem em grande parte as tragédias que vivemos este ano.
Dizer isto não implica que o governo não tenha que assumir as suas responsabilidades (que é diferente de culpa). Quer a floresta, quer a administração interna precisam de políticas novas, e é evidente que Constança Urbano de Sousa não estava em condições de as prosseguir. Acresce a sua reação desastrosa no dia do incêndio (de quem queria mesmo sair do governo). A sua demissão era inevitável - já desde a divulgação do relatório de Pedrógão a semana passada. António Costa poderia ter sido um pouco mais lesto para evitar dar a impressão de que a saída se deve a uma exigência do Presidente. Marcelo deu-lhe tempo para isso.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Desinformação e Aquecimento Global - um exemplo prático com o gelo da Gronelândia

Num post recente sobre o aquecimento global apresentei alguns vídeos de potholer54. Nos comentários desse post o comentador JF sugeriu um vídeo com uma entrevista de Jô Soares ao climatologista Ricardo Augusto Felicio.

Ao fim dos primeiros 5 minutos não precisei de continuar a ver a entrevista. Os erros foram tantos e tão crassos que não tive qualquer interesse em continuar. Claro que quem não é especialista em climatologia poderia perfeitamente acreditar naquelas afirmações, por falta de informação e conhecimento sobre a literatura do tema e os dados empíricos. Mas esse não era obviamente o caso de Ricardo Augusto Felicio, que tem informação suficiente para ter noção dos dislates que apresenta, não estando, portanto, de boa fé.

Um dos erros mais gritantes do climatologista foi a afirmação de que o nível das águas do mar não tem aumentado (as medições desmentem o climatologista). De seguida,  afirmou que seriam precisos 20º para derreter todo o gelo da Antárctida. Como se o gelo da Gronelândia e a própria dilatação térmica da água em estado líquido não fossem também um problema gravíssimo que nos deve fazer soar os alarmes muitíssimo antes dos 20º (os 2º já seriam catastróficos).

 Quando escrevi isto mesmo em resposta ao comentador, JF afirmou:

«No ponto 3 por si redigido faz referência ao gelo na Gronelândia, e após assistir ao vídeo que sugere através do link que apresenta, podemos ter uma ideia das terríveis consequências do derretimento na Gronelândia; porém o Danmarks Meteorologiske Institut (Instituto Meteorológico da Dinamarca) comprova que desde 2012 a situação tem melhorado com o aumento da extensão do gelo e consequente renovação da mesma, o que transforma esta evidência em mais uma vitória contra a tenebrosa ameaça do aquecimento global.»

Esta resposta é particularmente impressionante, porque aparenta um conhecimento detalhado do campo científico em questão e das medições que vão sendo efectuadas. No entanto, esta resposta apenas mostra o poderoso efeito da propaganda, e a sua influência sobre algumas pessoas menos informadas. Eis o que é que o próprio Instituto Meteorológico da Dinamarca mostra:


Como se pode ver, não existe um aumento da extensão de gelo, mas uma redução. Mas nesse caso, porquê esta alegação tão específica? Certamente o JF acreditou mesmo na alegação de que o dito instituto tinha revelado um aumento da área coberta por gelo. Compreender esta confusão é compreender melhor as tácticas sujas da propaganda que manipulou pessoas como o JF a duvidar do consenso científico sobre esta matéria. Potholer54 tem um excelente vídeo sobre este assunto:



Depois de apresentar estes vídeos e estes dados, não vi mais nenhum comentário de JF sobre este assunto. Mas eu afirmei que esta confusão merecia um post, e aqui está ele. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Respostas à campanha de desinformação



Enquanto na União Europeia batemos sucessivos recordes de área ardida e mortos nos incêndios, vale a pena recordar que muita da falta de acção em relação à causa das alterações climáticas que têm provocado estas situações deve-se a uma campanha concertada de desinformação do público para que a indústria dos combustíveis fósseis continue a fazer lucros recordes.

A essa campanha de desinformação, que tenta desacreditar os cientistas e alegar que o aquecimento global não está a acontecer, potholer54 responde com vídeos curtos, acessíveis, rigorosos e convincentes. Aqui estão alguns dos mais recentes:






Post também publicado no Espaço Ágora

O Aquecimento Global no Esquerda Republicana

O aquecimento global é o tema de grande parte dos meus textos neste blogue (entre os mais recentes é capaz de corresponder a mais de metade), mas também tem sido motivo de debate com os outros autores mais participativos.

Com o Ricardo Alves a nossa discussão a este respeito é muito antiga. Lembro-me em particular do cepticismo em relação às consequências potencialmente catastróficas de uma subida de temperatura. Afinal, não é que possamos considerar "a priori" que um clima 2º superior seja catastrófico e insuportável: basta olhar para a diversidade de climas a que a humanidade se adaptou, e vemos uma amplitude de temperaturas muito superior a essa diferença.
Aquilo que respondi, na altura, é que o problema não está na "nova temperatura", mas sim na rapidez da subida. Ou seja, mesmo sem considerar o verdadeiro risco - o de uma relação de retroacção entre a temperatura e as emissões que fazem com que uma subida de 2º possa ser o início de uma subida muito superior a qual já não poderemos controlar com uma redução das emissões provenientes da actividade humana - uma subida rápida de 2º pode ser catastrófica para os seres humanos. A razão é a seguinte: a adaptação dos seres humanos ao clima de uma determinada região foi lenta e gradual: as imunidades, as infra-estruturas, as actividades económicas, etc. Se o clima muda rapidamente, não são apenas os outros seres vivos a sofrer: doenças novas propagam-se em populações que não estão preparadas, populações lidam com fenómenos meteorológicos para os quais não estão adaptadas, negócios e infra-estruturas são destruídas ou tornam-se obsoletos e desadequados, criando falências, desemprego, discrepâncias entre a oferta e a procura de mão-de-obra que escondem tragédias pessoais e humanas que não são ofuscadas pela quantidade de mortes resultantes dos primeiros problemas mencionados. Reforço que nada disto leva em conta o verdadeiro risco associado ao processo retroactivo que uma subida de 2º pode despoletar.

A razão pela qual reavivo este debate antigo, é o facto de não precisar de fazer este raciocínio no abstracto. Em Portugal temos agora um exemplo concreto.
Vejamos uma coisa: a temperatura ainda não subiu 2º, e temos de lutar para que isso nunca aconteça. Mas já subiu o suficiente para exemplificar aquilo a que me refiro. Há cerca de 20 anos os estudiosos previam que o aquecimento global tornasse a península Ibérica mais quente e seca. Com períodos de chuva mais violentos, mas mais curtos. O novo clima não é necessariamente pior, diferentes climas têm diferentes vantagens e inconvenientes. Mas Portugal estava adaptado a um clima diferente, e por isso optou por explorar o filão florestal. Eu não quero defender as escolhas que colectivamente fizemos em relação ao ordenamento do território: sei pouco sobre o assunto, e do pouco que sei parece-me que foram más escolhas. Mas não teriam sido escolhas tão desastrosas se esta subida das temperaturas não nos fizesse bater todos os recordes de área ardida e número de mortos em incêndios. Isto não foi um problema pontual. Este problema veio para ficar.
Podemos sempre alegar que os custos provocados por estes incêndios, quer em recursos económicos quer em vidas humanas, são apesar de tudo relativamente reduzidos. E face aos sacrifícios que temos de fazer para atenuar o aquecimento global, até são. O problema é que são apenas a ponta do icebergue. E se não virarmos já o leme, vamos ter uma noção mais clara dos custos de uma variação rápida da temperatura. A não linearidade do aumento dos incêndios com o aumento da temperatura mostra como nos é completamente incomportável manter uma mancha florestar com os 2º de subida de temperatura face aos níveis pré-industriais. E este é apenas um dos problemas que as alterações climáticas colocam às actividades económicas em Portugal. Como se vai adaptar a nossa produção agrícola à forma como as chuvas ficam mais esporádicas, irregulares e violentas? Como vamos lidar com a frequência adicional de fenómenos como a Ophelia? Como vamos reagir à invasão de novas doenças graves para as quais não desenvolvemos imunidades? Que outras consequências vão ter o colapso dos ecossistemas que conhecemos?

Não considerar o Aquecimento Global como um desafio civilizacional que merece a maior prioridade é uma irresponsabilidade tremenda, não apenas para com as gerações seguintes, mas para connosco próprios nos próximos 10-20 anos.

Em relação ao Filipe Moura, ele recentemente escreveu sobre como o grande problema associado ao aquecimento global é político e não científico. Não vale a pena mostrar como do ponto de vista científico não restam dúvidas sobre a realidade deste fenómeno, porque os obstáculos não são esses, alega. As pessoas sabem que o aquecimento global é uma realidade, mas não estão dispostas a fazer os sacrifícios necessários, e essa é a única questão relevante em causa.

Também vou discordar. A indústria dos combustíveis fósseis gastou milhares de milhões de dólares na criação e financiamento de think tanks e todo o tipo de peças de propaganda para criar dúvidas na população em geral em relação ao aquecimento global. Este tipo de dúvidas teve influência sobre muitas pessoas, mesmo académicos que respeito como o Prof. Rui Namorado Rosa ou, novamente, o próprio Ricardo Alves há alguns anos atrás. Este esforço de propaganda foca a questão científica fundamental: o aquecimento global é uma realidade ou não, já que o argumento político para não agir mesmo que o aquecimento global seja real parece politicamente tão fraco que nunca mereceu tantos pseudo-documentários, palestras e contra-informação.
É também por isso que na Europa e Japão, onde uma maior proporção da população está consciente da realidade do aquecimento global, têm visto reduções das suas emissões muito mais significativas que nos EUA, onde esta propaganda anti-científica tem muito mais força, e cujo Presidente anunciou o abandono unilateral do Acordo de Paris.

Por essa razão, discordo também do Filipe Moura. Sim, o Aquecimento Global tem uma dimensão política, e é por essa razão que abordo tanto o tema neste blogue político. Mas é importante rebater a propaganda daqueles que estão interessados na inacção e mostrar a ciência climática de forma acessível, rigorosa e convincente, para que a propaganda que tenta escamotear este problema tenha muito menos eficácia.

Por essa razão, vou voltar à programação habitual, ainda mais motivado (e furioso) com o aumento da frequência com que os desastres naturais relacionados com as alterações climáticas se sucedem. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Resumo das autárquicas

O poder autárquico reside essencialmente nos 308 presidentes de câmara. Mais portanto do que comparar os votos ganhos e perdidos em absoluto (em que as diferenças face a 2013 são muitíssimo pequenas), vale a pena verificar quem ganhou ou perdeu presidências de câmara.

O PS venceu em 161 câmaras, das quais duas em coligação (Felgueiras com o LIVRE e Funchal com o BE e outros). Relativamente a 2013, é um ganho líquido de onze câmaras (máximo histórico), em que se incluem câmaras suburbanas com o peso de Almada, Barreiro e Matosinhos, e uma capital de distrito (Beja). 

O PSD ficou com 98 câmaras, das quais dezanove em coligação (principalmente com o CDS). Relativamente a 2013, uma perda líquida de oito câmaras e o mínimo histórico. Teve resultados fraquíssimos em Lisboa e no Porto.

A CDU ficou com 24 câmaras, relativamente a 2013 uma perda líquida de dez câmaras (das quais nove perdidas para o PS e uma, Peniche, para independentes). Não conquistou nenhuma e ficou no seu mínimo histórico (em 2001 tivera 28).

As listas de independentes ganharam 17 câmaras, relativamente a 2013 um ganho líquido de quatro câmaras (e um máximo histórico). 


O CDS ficou com seis (mais uma), e o Juntos Pelo Povo e o Nós, Cidadãos! com uma cada.

Aumentou o número de votantes e diminuiu o número de inscritos, portanto a abstenção baixa significativamente.