quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A requisição civil na TAP

Mesmo que não seja possível prosseguirem com a greve, a requisição civil hoje decretada por parte do governo é uma enorme vitória da parte dos trabalhadores da TAP. Uma requisição civil só faz sentido para uma empresa pública. Toda a argumentação apresentada pelo governo para justificar esta medida pode ser utilizada para justificar que o Estado controle a TAP (e muitas outras empresas privatizadas ou em vias de o serem). Esta luta merece todo o apoio.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O que é a "Esquerda"? E a "Direita"?

Muitas pessoas, geralmente com um conhecimento político pouco aprofundado, dizem que não são de "Esquerda", de "Direita", nem de "Centro". Alegam que é uma divisão simplista e redutora, ou que "o que importa é X" em que X é um valor consensual como a integridade, transparência, desenvolvimento, bem-estar, etc. Acreditam também que os partidos deviam "trabalhar em conjunto" para atingir estes objectivos.

Não é uma posição absurda ou indefensável por parte de um indivíduo, mas quase sempre é uma posição inconsistente. Neste texto quero explicar porquê.
Quero também defender que quando um partido faz essa alegação, ela é quase sempre desonesta.

Primeiro, concordo que é uma divisão simplista e redutora. Mas a complexidade de um posicionamento político teria sempre de ser simplificada e "reduzida" para ser exposta em menos de várias horas (já para não dizer "em poucas palavras").
Se os termos e conceitos "Esquerda" e "Direita" desaparecessem, teriam necessariamente de surgir outros análogos ou piores, para conseguir transmitir - mesmo que imperfeitamente - muito conteúdo em poucas palavras.

Posto isto, importa perguntar o que é que alguém quer dizer quando diz que é "de Esquerda"? O conceito é difuso, e abarca visões muito diferentes, desde as mil e uma perspectivas marxistas, até às perspectivas anarquistas, passando por perspectivas que aceitam a economia de mercado e querem fazer alterações ligeiras e graduais à sociedade onde vivemos. O que é que têm em comum?
Aquilo que a Esquerda tem em comum é encarar o nível de desigualdade que existe como um problema a resolver politicamente, ou seja: em conjunto.
Isto pode querer dizer coisas diferentes: quem considere que toda e qualquer desigualdade será sempre excessiva é de esquerda; mas quem considere que existem níveis de desigualdade aceitáveis, mas que o actual é excessivo e problemático também é de esquerda.
E se existem diferenças quanto ao objectivo, ainda mais existem quanto às formas de o atingir. Revolução? Reformas graduais? Estado social? Abolição do estado? Tudo isto são perspectivas compatíveis com convicções de esquerda.
E mesmo o termo "desigualdade" pode ter vários significados. Desigualdade de rendimentos e património? Desigualdade de oportunidades? Desigualdade política?

Se calhar o leitor está a abanar a cabeça. É possível (até provável) que considere evidente que a desigualdade que existe é um problema a resolver, mas nem por isso se considere de "Esquerda".
É compreensível: a associação que faz à "Esquerda" é aos partidos que conhece e não tanto às ideias subjacentes que unem estes e outros partidos (melhores ou piores) em todo o mundo. Esquece que o termo "nasceu" durante a Revolução Francesa para designar aqueles que se opunham às desigualdades políticas e sociais do Antigo Regime, e desde então tem estado associado ao combate às desigualdades (mesmo que por vias radicalmente diferentes). É por isso que o movimento sufragista pelo acesso das mulheres ao voto esteve associado à "Esquerda", é por isso que a luta contra os regimes de "aparteid" esteve associada à "Esquerda", e por aí fora.

Note-se também que grande parte das pessoas "de Direita" não obstarão a esta definição de "Esquerda". Muitas apresentarão argumentos e razões que justificam porque é que a desigualdade não deve ser encarada como um problema, ou porque é que quando se tenta fazer algo em comum para o resolver, só se consegue piorar a sociedade. Na verdade, vários pensadores celebrados pela "Direita" encontraram razões diferentes para se opor ao esforço colectivo de diminuir as desigualdades. Nuns casos porque - na sua perspectiva - qualquer acção colectiva neste sentido envolve necessariamente uma invasão da liberdade individual (a perspectiva do liberalismo de direita), noutros casos porque consideram que mudar as estruturas sociais (dito em tom pejorativo "fazer engenharia social") é arriscado e contra-producente (a perspectiva conservadora). Em Portugal (não sei se noutros sítios também) existem inúmeros conservadores a auto-identificar-se como liberais de direita, vá-se lá saber porquê (exemplo canónico).

Assim, é possível um indivíduo não ser de "Direita", "Esquerda" nem "Centro"? Sim. Quando pergunto a alguém "achas que deveríamos fazer algo em conjunto para diminuir as desigualdades?" essa pessoa pode responder que sim, e nesse caso será de "Esquerda", mesmo que não o saiba. Se responder que não, é importante perceber se ele acredita que as coisas estão bem como estão ("Centro") ou se acredita devem existir mudanças sociais importantes com determinados objectivos, que acabassem por aumentar as desigualdades como efeito colateral, caso em que será de "Direita".
Para não ser de "Esquerda", "Centro" ou "Direita" deverá responder a essa pergunta com um "não sei". E eu não sei se essa é uma resposta sensata (sou da opinião que não), mas sei que é uma resposta muito rara. Quase todas as pessoas que me dizem que não são de "Esquerda" ou "Direita" têm uma resposta à pergunta sobre as desigualdades que as coloca algures no espectro.

E se é difícil que uma pessoa, pelos seus valores e princípios, não esteja algures no espectro, mais difícil ainda será a um partido. Aí é uma questão de avaliar as suas propostas: têm propostas que visam diminuir desigualdades? Têm propostas que visam outros objectivos, mas que acabariam efectivamente por aumentá-las? Qual é o balanço entre elas?
Mesmo um partido que não se auto-identifique como sendo de "Esquerda" ou "Direita" é imediatamente identificado pelos outros partidos - à "Esquerda" e "Direita", e também pelos cientistas políticos, como estando num determinado ponto desse contínuo.
Dois exemplos: o PAN e o Podemos. Ambos dizem que não são de "Direita" nem de "Esquerda", mas os partidos de "Direita" consideram-nos de "Esquerda" e os partidos de "Esquerda" também.
[Afinal o Podemos assume-se como sendo um partido de esquerda, ver mais detalhes nos comentários.]

Porque é que um partido de "Esquerda" não se identificaria como tal? Precisamente porque a diminuição das desigualdades é um objectivo muito mais popular que o termo "Esquerda". Para as inúmeras pessoas que se identificam com o objectivo mas ignoram o significado de "Esquerda", e que até sentem alguma "distância afectiva" em relação ao termo (associando-o a partidos e instituições que aprenderam a desgostar, por exemplo), esta é a solução perfeita.
Infelizmente não me parece a mais honesta.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A democracia não pode ser só para o Estado

Grassa alguma agitação em Canelas (Gaia): os católicos locais não concordam com a escolha de sacerdote da hierarquia ICAResca. As circunstâncias têm zonas cinzentas e intrigas, mas a vontade da comunidade católica local (a «paróquia») parece ser unânime: querem o padre que estava e não o que veio. A hierarquia, essa, nem sequer se digna explicar a sua decisão: quer assim e os destinatários que embrulhem. O assunto já meteu até promessas de lugares no funcionalismo público para o padre «demitido», e a intervenção de uma potência estrangeira.

Eu sei que há muito quem ache que não tenho nada com isso: nem sequer sou cristão. Eu acho que sim, que tenho. Existir uma «sociedade paralela» em Portugal (refiro-me à ICAR) que é inteiramente anti-democrática, ao ponto, como se prova neste caso, de impor um sacerdote a uma comunidade que o rejeita, não é propriamente uma boa influência para o país como um todo. A democracia não é só a Assembleia da República, as autarquias e o PR. Uma sociedade só é realmente democrática quando as instituições, todas ou quase, funcionam de forma democrática. Mesmo aquelas a que só pertence quem quer. O exemplo mais discutido a esse respeito é o dos partidos, mas cabe recordar que uma associação não pode, legalmente, ser não democrática.
A ideia de igrejas (ou outras comunidades religiosas) a funcionarem de forma democrática parece com certeza exótica ao leitor português. E todavia, mesmo na Europa muitas igrejas de tradição luterana elegem quem gere a sua comunidade. É o que acontece, com especificidades, na Dinamarca e na Islândia, onde leigos elegem e são eleitos; enquanto na Suécia todos os membros da Igreja Luterana podem votar para representantes «parlamentares» ao nível da paróquia, da diocese e nacional; até o líder formal é eleito (em 2014, os suecos elegeram uma mulher). A autoridade destes representantes eleitos, geralmente, não se estende a decidir quem é padre ou bispo (embora na Suécia os bispos sejam eleitos por padres e leigos); mas a legitimidade democrática está lá e impediria uma Canelas nórdica. Ainda mais democráticas do que estas igrejas luteranas são algumas igrejas protestantes «liberais» dos EUA que elegem padres e bispos por voto directo dos leigos (após entrevistas e debates, como é normal). Tudo isto serve para lembrar que uma igreja não deixa de ser cristã (regra geral) se não mantiver a nomeação de bispos e sacerdotes autoritária e do topo para a base que é típica da ICAR.
Em resumo: acho que a agitação de Canelas se resolveria se fossem a votos. E sei que não acontecerá, porque isso seria democrático e portanto anti-católico.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não é «suicídio assistido» nem «eutanásia», é «morte assistida»

Quem tem uma doença terminal e escolhe morrer antes da dor e da degradação finais não comete suicídio nem eutanásia: suicídio é escolher a própria morte quando se está fisicamente saudável; eutanásia é ajudar a morrer outrem, e um acto que portanto remete para o médico e não para o paciente. O termo correcto será morte assistida.

Estas aborrecidas precisões terminológicas, num assunto já de si tétrico, são necessárias por ser demasiada a confusão num assunto que desafia a empatia de cada um. A situação de quem escolhe a morte assistida pode talvez ser compreendida por analogia com as mortes daqueles que saltaram em 2001 das torres em chamas do World Trade Center, após os atentados islamofascistas: aquelas pessoas já não podiam escolher entre a vida e a morte. Só podiam escolher como iriam morrer, e preferiram saltar em vez de morrerem queimadas ou intoxicadas. (Juridicamente, essas mortes foram aliás consideradas homicídios e não suicídios.)

Em boa verdade, a morte assistida sempre aconteceu em todas as épocas e culturas, mas toma outra pertinência numa época em que os cuidados médicos, felizmente, podem prolongar a vida muito para além dos trinta ou quarenta anos médios dos nossos antepassados neolíticos. Efectivamente, ser possível prolongar a vida de quem se sabe estar condenado a meses ou meras semanas de sofrimento não torna obrigatório aceitar esse sofrimento. São populares, eu sei, mundividências que glorificam o sofrimento. Será uma escolha legítima, se partir da livre consciência de cada um. Mas escolher morrer quando já não há esperança de uma vida melhor também deve ser uma escolha da livre consciência de cada um.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Agora é a vez dos "cidadãos"

Foi logo em 1254 que o "Terceiro Estado" (os cidadãos indiferenciados) participou pela primeira vez nas Cortes. A Constituição de 1822 enterrava o feudalismo e o absolutismo, dando igualdade a todos os cidadãos* (para lá do monarca). Infelizmente foi sol de pouca dura e o poder de dos cidadãos* só é reconquistado explicitamente em 1911, e definitivamente em 1975/6 para todos cidadãos maiores de idade.
Numa República Parlamentar são os cidadãos que livremente formam grupos com ideias políticas semelhantes, é da discussão interna que saem listas de cidadãos disponíveis para representar estas ideias, e são todos os cidadãos (independentemente de estarem nestes grupos ou não) que escolhem quais as listas que melhor representam a sua opinião para estas se reunirem numa assembleia de cidadãos.

Está muito na voga a ideia dos políticos e dos cidadãos serem dois compartimentos estanques, como a Nobreza o foi em tempos idos. O líder do Podemos espanhol vai ao ponto de falar na casta política (já aqui mostrei o meu desconforto com isto). Isto é apenas uma roupagem nova do velho populismo do ódio aos políticos e do "eles são todos iguais" e do "eles só pensam neles". É mais fácil e confortável lidarmos com o mundo deste modo maniqueísta, do que tentar perceber e envolver-nos no complexo processo de escolha e debate público da democracia.
Dado o êxito deste discurso populista aqui ao lado, há vários movimentos a acotovelarem-se para ocuparem este espaço em Portugal. Marinho e Pinto fala em abrir "o sistema político aos cidadãos". O Juntos Podemos (que conta com Joana Amaral Dias) quer "devolver a voz aos cidadãos" e promover uma "assembleia cidadã". Por último, e com pena minha, o Livre ao juntar-se a outros movimentos quer lançar uma "candidatura cidadã".
O que me leva à pergunta, actualmente se não são os cidadãos que têm voz, e que gerem o sistema político, quem é?

A divisão artificial entre nós e eles é uma ideia populista perigosa porque enterra mais a confiança na democracia parlamentar. É também contra-producente para os movimentos que a lançam, porque esvazia o debate e retira importância à participação em grupos de cidadãos politicamente activos (estejam eles definidos na lei como partidos ou não). Pode agradar no curto-prazo a algumas camadas populistas, mas o que acontecerá na próxima eleição em que participarem? Já não serão vistos como cidadãos, mas como membros da casta.
Não deixa de ser irónico que os três movimentos tenham como figuras mais conhecidas um actual eurodeputado, um ex-eurodeputado e uma ex-deputada.

Claro que a nossa democracia pode ser melhorada, seja em termos de participação seja em rotatividade - talvez baixando o número mínimo de assinaturas para candidaturas. Já tenho escrito que sou adepto do sistema holandês, onde a proliferação de vários partidos obriga sempre a governos de coligação (com 2, 3 ou 4 partidos), e cria uma cultura de debate e compromisso. Mas os excelentes resultados do Livre nas Europeias, e o de Rui Moreira nas autárquicas, mostram que ele está longe de ser estanque.

Nota: não tenho, e nunca tive qualquer envolvimento partidário.
*A definição de cidadãos não era tão abrangente como hoje, mas a diferenciação por classe social desaparece.

Jornal da 2 (30/11/2014)

sábado, 29 de novembro de 2014

Joseph Stiglitz defende reestruturação profunda.

Já era para ter publicado em Março uma chamada de atenção para esta notícia.
O fim do governo de Pedro Passos Coelho poderá ser uma oportunidade muito importante para tomar as medidas fundamentais que se exigem. Não podemos perder mais oportunidades.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A "presunção de inocência" é quando um cronista quiser

"Tenho todo o direito de presumir que Sócrates é culpado daquilo que o acusam", escreve no "Público" o João Miguel Tavares. No "Observador", José Manuel Fernandes escreve mais ou menos a mesma coisa. Tudo bem; e eu tenho todo o direito de afirmar que, sendo assim, ambos são cronistas parciais e engajados, e o que escrevem sobre este assunto não merece a mínima credibilidade. No caso do João Miguel, grave é ele ser cronista do "Público" e achar que "pode pouco".

sábado, 22 de novembro de 2014

Sobre Sócrates

O meu julgamento é puramente político, não é de agora e manter-se-á, aconteça o que acontecer: o primeiro governo de José Sócrates foi o melhor da nossa democracia. (Só para dar um exemplo, que hoje esteve na ordem do dia: quem acabou com as subvenções vitalícias a ex-políticos?) O resto é naturalmente com a justiça, acima da qual ninguém deve estar. Daqui a uns anos talvez estejamos a falar da Tecnoforma.

Falar-se em "crise política", não se tratando de um político no ativo, como eu já li, parece-me injustificado. Dito isto, ou de uma vez por todas se comprova que Sócrates está absoluta e inequivocamente inocente, ou creio que a sua carreira política acabou, aconteça-lhe o que lhe acontecer. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Raving

Quando passo os olhos pelos jornais - o que acontece raramente - parece-me que os europeus estão/são menos alienados que os americanos.  Pelo menos os europeus das cidades.  Estava a falar sobre este assunto com um amigo e lembrei-me de uma série de emails recentes aqui na univ., a encorajarem-nos a gravarmos as aulas.  Para poupar espaço, dizem eles: assim os alunos podem seguir as aulas de casa e a univ. poupa dinheiro em salas de aula, baixa as propinas e ainda nos dá dinheiro para o trabalho acrescido, que são mais uns trinta ou quarenta emails por dia.

Mas esta tendência para isolar as pessoas, ou pelo menos interpor uma câmera, um ecran e um censor entre os professores e os alunos (os nossos syllbi já são escrutinados por uma comissão de censores nomeada pelo governador), é aceite unanimemente pela sociedade americana.  Os americanos são pessoas eminentemente rurais e não gostam que a realidade lhes confunda as crenças.

O isolamento e a alienação são direitos reivindicados na América desde que os primeiros fundamentalistas religiosos se meteram em barcos para fugirem da Europa (cada vez mais complicada) do Humanismo e do Iluminismo.

Todos os semestres chega o dia em que eu tenho de falar em solidariedade e alienação, e todos os semestres os alunos sofrem fisicamente quando são confrontados com este assundo: a alienação como antónimo de solidariedade.  No fundo, acho que eles pressentem que a vida miserável que levam - um em cada quatro americanos toma comprimidos para a ansiedade - podia ser melhor.

Mas se eu sugiro que os impostos são a fundação da civilização e que nos países onde há mais impostos, há menos desigualdades e mais redes de segurança, e neles as pessoas são mais felizes e menos violentas...  perco-os instantaneamente.  Os olhos deles perdem a vida: há um bloqueio emocional generalizado na minha sala de aula e os cérebros dos meus alunos apagam-se todos ao mesmo tempo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Regulamentar a bruxaria...

Como vivo fora do país não sei quais é que são os limites e as intenções dos legisladores, mas em princípio acho que regulamentar a bruxaria não é má ideia.  Há muitos anos, em Lisboa, o meu chefe descobriu uns comprimidos homeopáticos "muito bons" para as alergias: "baseados no mel das abelhas!" dizia-me ele com o lenço na mão e os olhos completamente injectados.  Para aí seis meses mais tarde li um artigo sobre uma fábrica de comprimidos homeopáticos para as alérgias que tinha sido fechada porque os comprimidos estavam cheios de cortisona... 

Aqui nos EUA a indústria dos suplementos está desregulamentada e morrem pessoas todos os meses.  E as pessoas desgraçam-se sem necessidade nenhuma.  Os idiotas das injecções de vitaminas têm intoxicações perigosíssimas, os que vão às clínicas da testosterona morrem com ataques cardíacos e os das pílulas para emagrecer sofrem as misérias mais inacreditáveis.

Dito isto, julgo que a maioria dos bruxos (que agora se chamam homeopatas) e dos endireitas (que agora se chamam quiropatas, acumpuntores, etc.), ou mesmo dos videntes e dos astrólogos, não fazem mal a ninguém enquanto houver um consenso sobre a não validade das crenças que defendem.  Nesse sentido o monopólio da igreja católica sobre o pensamento mágico no Portugal do Estado Novo criou um espaço muito saudável para a descrença.  A ICAR dizia-nos que não se podia acreditar nas coisas perfeitamente dementes que as seitas e as superstições nos propunham: o Pai Natal a voar por cima de todas as chaminés do mundo à mesma hora...  por favor!  Quando "toda a gente" sabia que quem punha os presentes nos sapatinhos era o menino Jesus! 

Foi a ICAR que me fez ateu.  A mim e à maioria dos ateus que conheço.

Acho, portanto, que enquanto os bruxos e os endireitas não tentarem justificar o que fazem com argumentos pseudocientíficos, a regulamentação da produção de placebos (por exemplo) parece-me uma coisa benéfica.  Aqui nos EUA apanha-se hepatite nos suplementos alimentares. 

O que é indefensável e de uma estupidez criminosa é aceitar as medicinas alternativas como alternativas sérias à medicina.  Li há pouco um artigo dum jornalista completamente estúpido, a sugerir que os cientistas deviam ter a cabeça aberta para "ideias novas."  A homeopatia é uma ideia do século XVIII!  Quando a água, mesmo suja, era uma alternativa excelente às sangrias e às inalações de vapores de mercúrio...

A estupidez não pode, infelizmente, ser criminalizada.  Mas nunca nos devemos esquecer que estas coisas da bruxaria e da religião são sempre perigosas.  Conheci um homeopata que matou o pai com rezas e chás.  O pobre homem a precisar de antibióticos e o filho a rezar-lhe para cima...

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A proposta de Piketty

Acabei de ler recentemente «O Capital no séc XXI», livro que recomendo vivamente. A proposta do livro é ambiciosa: explicar as dinâmicas subjacentes à acumulação e distribuição de capital, a evolução de longo-prazo da desigualdade, a concentração da riqueza e o crescimento económico.
Estes debates têm estado no coração do debate político, mas os contributos da ciência económica foram até recentemente escassos (às vezes erróneos) por falta de dados históricos suficientes, ferramentas estatísticas para os analisar, e uma teoria com eles compatível.

É isto que o trabalho de Thomas Piketty vem mudar: à convicção mais ou menos assumida entre os economistas de que proporção do PIB para o factor trabalho (1 menos alfa) é aproximadamente constante no longo prazo, Piketty revela dados empíricos que mostram alterações profundas neste valor. Nas décadas que se seguiram às guerras mundiais, os países desenvolvidos viram as desigualdades diminuir ou estabilizar, e a aparente compatibilidade entre a economia de mercado e essa evolução da distribuição da riqueza levou a teoria económica - que tanto se desenvolveu nesses anos - a explicar tal compatibilidade, sem que existisse a perspectiva histórica para compreender que esses anos eram a excepção e não a regra. Thomas Piketty não só apresenta os dados que demonstram o carácter excepcional da evolução da distribuição da riqueza durante esses anos, como também desenvolve uma teoria que explica perfeitamente porque é que assim foi, e porque que é que esses anos foram a excepção e não a regra.
Efectivamente a economia de mercado conduziu a sociedades tão desiguais e tão pouco meritocráticas como as que a Europa já conheceu durante os séculos XVIII, XIX e início do século XX. Não admira, portanto, que nos países desenvolvidos as desigualdades estejam a aumentar, a mobilidade social a diminuir, e os "empreendedores" se vão transformando gradualmente em "rentistas". A teoria explica-o, os dados empíricos comprovam-no.

O livro não precisaria das cerca de 700 páginas para expor os dados e a teoria que os explica. Poucas dezenas seriam suficientes. Mas sendo a tese tão inovadora, e algo inconveniente, existe uma preocupação de que a mesma seja inatacável. Piketty faz um grande esforço para explicar cada passo, cada assumpção, e a antecipar cada crítica.
Na realidade, todas as vezes que li uma crítica ao livro de Piketty, tenho vontade de recomendar a leitura desta ou daquela página onde essa crítica foi antecipada e magistralmente refutada. Por exemplo, muitos alegam que Piketty falha ao não identificar como a criação de riqueza é hoje muito mais meritocrática do que era durante o século XIX, e até mencionam a lista Forbes e a quantidade de empreendedores que lá se encontram. Parecem não ter lido essa mesma observação no próprio livro, e até dados bem mais relevantes no mesmo sentido, e sem tantas debilidades metodológicas. Piketty não afirma que vivemos actualmente num mundo menos meritocrático que o passado vitoriano (dedica capítulos inteiros a afirmar e explicar o oposto), mas sim que ele se está a tornar mais desigual e menos meritocrático de dia para dia.

O livro termina com uma proposta política. Na realidade, ele dividido em quatro partes, três delas do foro científico, e a última do foro político. A solidez científica das teses apresentadas é tal que o livro acaba por merecer os mais inesperados elogios: desde a Economist, a Vítor Gaspar, e toda a sorte de economistas ligados à direita, muitos são unânimes: o contributo científico do trabalho de Piketty é louvável, mas as suas propostas políticas seriam contra-producentes.

Se o diagnóstico não estivesse tão bem fundamentado, certamente todos o recusariam. Não sendo o caso, muitos preferem aceitar o diagnóstico, desde que não se procure qualquer forma de tratamento. Ou às vezes dizem-se umas palavras bonitas sobre a magia da globalização e sobre como tudo correrá bem, ao arrepio daquilo que o livro demonstra com clareza.

Para mim, pelo contrário, a proposta de Piketty pareceu-me tão interessante como o resto do livro. As vantagens do imposto sobre o património (muito reduzido e progressivo) proposto por Piketty vão muito além do contributo para impedir as desigualdades extremas a que a economia de mercado pode conduzir (os impostos sobre o rendimento, mesmo progressivos, parecem atrasar a dinâmica descrita, mas não estancá-la): eles também promovem o empreendedorismo face ao "rentismo".

Estou convencido que esta pode ser a ferramenta mais importante para combater as desigualdades no século XXI: pela sua elegância e simplicidade, pela sua eficácia, pelos menores efeitos perniciosos que qualquer alternativa comparável, e pelo respeito intelectual que inspira mesmo nos seus detractores mais aguerridos, a proposta de Piketty pode realmente ser a pedra basilar de um programa progressista para o futuro.