quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Na morte de Emídio Rangel

Emídio Rangel também merece ser recordado pela "boca" de que como diretor de programas da SIC poderia eleger um Presidente da República. Essa frase é ofensiva nem tanto à "nação" e aos seus símbolos, mas principalmente à democracia e à república. Foi proferida com o intuito evidente de provocar o poder político e afirmar o poder económico, neste caso o poder de um grupo privado de comunicação social. A ofensiva ideológica da direita liberal pode ter começado aqui. Pelo menos aqui percebeu-se que tinha algum caminho livre.

Tinha algum caminho livre porque essa provocação não teve uma resposta à altura. Exigia-se no mínimo que o Presidente da República chamasse Pinto Balsemão a Belém e lhe exigisse explicações. Não foi esse o entendimento do Presidente da República então em funções, homem que era de "consensos" e que preferiu deixar a provocação sem resposta. Fosse o Presidente Mário Soares e de certeza que a provocação não ficaria sem resposta. Aliás, fosse o Presidente Mário Soares e nem ela teria sido proferida.

Dito isto, Rangel mudou a comunicação social em Portugal e merece as homenagens que lhe são feitas.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Os «fundos abutres» e a Argentina

A explicação dos recentes desenvolvimentos na Argentina relativos à última reestruturação:

sábado, 9 de Agosto de 2014

O Marinho é da malta, ou o perigo do discurso do "eles"

O discurso de quem se refere à classe política como "eles", como se "eles" não fossem cidadãos como o "povo", presta-se a todos os populismos. Parece que o que é válido para "eles" não é válido para "nós", que somos "nós", e não "eles". Confusos? Clarifiquemos com um excelente exemplo, uma frase exemplar de uma notável entrevista a uma personagem extraordinária:

"Salário de eurodeputado é vergonhoso, mas sou pobre, preciso do dinheiro!"

Não perceberam? É vergonhoso para "eles"! Ricos são "eles", "nós" somos pobres, e o Marinho até é um dos "nossos", pá! (E uma caraterística dos "nossos" é não terem mesmo vergonha nenhuma.)

Este discurso costuma eleger autarcas. Recentemente valeu dois deputados ao parlamento europeu. Chegará um dia ao parlamento nacional e até ao Palácio de Belém? Se depender do Marinho, sim. Ele está pronto para tudo.

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Reiniciar a internet



Com dois meses de atraso face ao início desta iniciativa, creio que ainda vale muito a pena aderir.

sábado, 2 de Agosto de 2014

E ninguém vai preso? (Yes, he should.)

  • «Fizemos muitas coisas certas, mas torturámos algumas pessoas. Fizemos coisas contrárias aos nossos valores. Quando usámos algumas técnicas de interrogatório reforçadas, técnicas que acredito e penso que qualquer pessoa honesta acredita que é tortura, atravessámos uma linha». (Barack Obama)

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Revista de imprensa (31/7/2014)

  • «A recomposição da esquerda portuguesa está na ordem do dia. Uma esquerda antiausteritária que se queira consequente não pode satisfazer-se com o papel de protesto. Por bem que cumpra esta função, se ao protesto não se seguir nenhuma mudança, se dele nada se esperar além da catarse da rua, então é justo concluir que o protesto serve sobretudo de válvula de escape ao descontentamento social, com benefício exclusivo, na ressaca do dia, para a própria política de austeridade, cuja continuidade se vê assim mais bem assegurada. (...)
  • Tornar consequentes estas vocações de protesto e de desmontagem argumentativa, exige à esquerda antiausteritária que encontre uma terceira vocação: mostrar-se alternativa credível de poder face à austeridade que nos governa. Sem esta vocação, a esquerda portuguesa, por empenhada e brilhante que seja, nulifica todos os seus esforços. E para a esquerda antiausteritária ser alternativa, é tão indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência real como é imprescindível constituírem-se veículo de um programa político. Em poucas palavras: uma alternativa política para uma política alternativa. (...)» (André Barata)

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

98% dos principais economistas mundiais concorda: os estímulos de Obama diminuíram o desemprego

Há várias versões da piada, mas a minha preferida reza que se perguntarmos algo a 10 economistas, teremos 11 versões diferentes. Ora, neste caso a piada não podia estar mais longe da realidade.
A Chicago Booth, a Business School da Universidade de Chicago (e logo quem), há anos que regularmente faz inquéritos aos principais economistas académicos das mais prestigiadas universidades, reunidos no painel IGM Forum. É uma página muito interessante de seguir, porque nos dá uma visão muito diferente da visão deturpada que nos chega pela imprensa/blogosfera.
O último inquérito perguntava o que o painel achava sobre o impacto no desemprego do programa de estímulos governamentais à economia que Obama pôs em prática em 2010. 98% (ou seja todos menos Alesina) concordam que este programa ajudou à redução do desemprego.
Mas o inquérito não se fica por aqui, e lembra que os gastos de hoje têm de ser pagos mais cedo ou mais tarde. Será que valeu a pena? Mais uma vez uma resposta quase unânime: apenas 5% acha que não valeu a pena.
Infelizmente isto nunca vai chegar à nossa direita, nem à opinião pública nacional e europeia, que vão continuar a pensar que "os economistas" estão divididos sobre os efeitos deste tipo de programas.

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

«85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo.»

Quem dera a António José Seguro ter metade da assertividade e dureza que alguma direita (mais moderada) tem quando critica o Governo de Pedro Passos Coelho.

Veja-se como exemplo este texto de José Pacheco Pereira do qual não posso deixar de destacar:

«- Insatisfeitos, pessimistas e sem esperança. 96% acham que a situação económica do país é má. [...] Ou seja, quase todos os portugueses descrêem do “milagre” económico que, com cada menos convicção, Passos Coelho, Portas e Pires de Lima propagam por todo o lado. [...] Nenhum país da Europa tem estes resultados, nem a Grécia. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas, em nenhuma circunstância
[....]
– Não acreditam em nada, nem em ninguém. Nem nos políticos, nem na política. Quase que já não acreditam na democracia. Não têm qualquer confiança no actual Governo. 85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo. Outro número “albanês”, mas bem português, acima de todos os outros na Europa. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas.

– Humilhados, maltratados, desprezados. Tratados como ricos indevidos, eles que nunca foram ricos, só quando muito remediados. Culpados de serem velhos e estarem cá a mais a atravancar os jovens que estão a “trabalhar” para eles receberem as pensões e reformas. Culpados de terem emprego, com salários e alguns direitos, e por o terem estarem a impedir os desempregados de aceitarem receber uma miséria e poderem ir para a rua a qualquer altura. Culpados de serem pobres e receberem alguns apoios sociais. Ser pobre significa ser calaceiro e não querer trabalhar. Culpados de serem professores, ou calceteiros, ou enfermeiros, ou trabalhadores de um serviço municipal, ou auxiliares de limpeza, ou técnicos de informática, ou motoristas, ou qualquer outra coisa, se estiverem na função pública. Culpados de serem “piegas”, neo-realistas, protestantes, reivindicadores, sindicalistas, incomodados, desrespeitadores da autoridade, corporativos, não yuppies, estudantes de qualquer curso “sem empregabilidade”, cultores das humanidades em vez da gestão, do marketing, e do “empreendedorismo”. Como ninguém gosta do desprezo, a não ser que seja masoquista, percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas.»

Se durante os últimos anos o líder do principal partido da oposição tivesse falado neste tom, nem Pedro Passos Coelho teria ido tão longe no seu PREC (Processo Reaccionário Em Curso), nem estariam tantos sectores do PS tão ideologicamente diferentes entre si igualmente empenhados em substituí-lo.
Agora é tarde de mais para aprender.

sábado, 26 de Julho de 2014

Presidente da República portuguesa?


Os mais jovens e menos informados não se recordarão deste senhor. António Guterres foi Primeiro-ministro entre 1995 e 2002. Deixou-nos o Rendimento Mínimo Garantido (agora RSI), a toxicodependência tratada como doença e não como crime, e o início efectivo da aposta na ciência. E fez a coisa certa em Timor (e não se imagina que Passos Coelho, para comparar com o presente, o fizesse).

Parece que agora quer ser Presidente da República. Tem esse direito, e o Alto Comissariado deu-lhe boa imprensa e muitos bons conhecimentos, sem dúvida. E alguns até diziam, já há quinze anos, que a sua atracção pelo «consenso» e pelo «diálogo» o talhavam mais para Belém do que para S. Bento. Acontece que os consensos de Guterres foram sempre pouco mais do que «arranjinhos» que duravam o tempo de um orçamento (na ausência deles, provocou dois referendos bastante oportunistas). Quanto ao diálogo, significou demasiadas vezes a cedência a lóbis. A insaciável FPF, por exemplo: a mais inútil pirotecnia de dinheiro público da 2ª República, o Euro 2004, a ele a devemos (e a um adjunto, um Sócrates ou Aristóteles ou lá como se chamava).

Se quiser realmente candidatar-se, tem garantias a dar. Para começar, se voltará a colocar o seu catolicismo acima do seu republicanismo, ele que atrasou a legalização da IVG quase uma década, preparou a Concordata dos sonhos de Policarpo e encheu o seu último governo com o género de clericais que ficariam mal numa casa civil da presidência que se seguirá a 2016. Se quiser mobilizar, terá que entender que o país evoluiu.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

O terrorismo como forma de criminalizar protestos pacíficos

Desafio qualquer leitor a ouvir os quatro minutos e trinta e três segundos do vídeo que se segue sem ficar assustado e apreensivo.

video


Aproveito a ocasião para mencionar outras tendências preocupantes no mesmo sentido: a regressão dos direitos civis, dos alicerces da Democracia.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

São todos igualmente humanos?

Pessoas mortas em guerras actualmente em curso ou muito recentes, em milhares.
  1. Somália (1991-2014): 500.
  2. Síria (2011-2014): 120.
  3. México (2006-2014): 110.
  4. Paquistão (2001-2014): 60.
  5. Afeganistão (2001-2014): 60.
  6. Iraque (2011-2014): 25,5.
  7. Líbia (2011): 17(?).
  8. Sudão (2011-2014): 7.
  9. Egipto (2013-2014): 3.
  10. Iémene (2010-2014): 2,2.
  11. Ucrânia (2014): 1,8.
  12. Israel/Palestina (2011-2014): <1.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Ainda sobre a avaliação das unidades da FCT

Reproduzo integralmente este post (CONFIRMA-SE A FRAUDE NA AVALIAÇÃO DAS UNIDADES DA FCT) do De Rerum Natura, que nos dá um infeliz corolário para toda esta «novela»:

«Depois de muitas negas não há como negar o inegável: como noticia o PÚBLICO, a FCT mandou a European Science Foundation chumbar metade das unidades de investigação em Portugal. Isto é o mesmo que num exame ser imposto ao professor que chumbe metade dos alunos, independentemente do seu desempenho. Isto é uma fraude. Uma avaliação assim não tem qualquer credibilidade. 

E a gravidade da situação chega ao caricato de, na mesma edição do PÚBLICO, Miguel Seabra dizer isto em entrevista:

PÚBLICO: Alguns investigadores têm-nos feito chegar informação de que alguns avaliadores externos anónimos deixaram transparecer nos seus relatórios que receberam indicações para baixar certas notas [por limitações de financiamento].

MIGUEL SEABRA: Isso é totalmente descabido. O processo foi conduzido pela ESF [European Science Foundation] e nem a ESF nem a FCT fariam uma coisa dessas. Não houve da parte da FCT qualquer constrangimento aos painéis, para dizer que há estas ou aquelas limitações de financiamento. Houve uma separação total entre a avaliação científica e o que vai ser posteriormente o financiamento das unidades.


"Stage 1 evaluation will result in a short list of half of the research units that will be selected to proceed to stage 2"

Que credibilidade resta a Miguel Seabra perante a comunidade científica e perante os contribuintes? Que condições tem Miguel Seabra para continuar à frente da FCT?»

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

FCT: a má avaliação dá mau nome à avaliação

Sobre a avaliação dos centros de investigação pela FCT, transcrevemos aqui mais um sensato e equilibrado artigo de José Vítor Malheiros.

A propósito da avaliação das unidades de investigação portuguesas, levada a cabo pela European Science Foundation sob contrato da FCT, tenho recebido uma grande maioria de mensagens e comentários extremamente críticos dessa avaliação, onde abundam exemplos particulares de erros dos avaliadores ou incoerências na avaliação (infelizmente muitas vezes de remetente anónimo, o que diz algo sobre o ambiente de escassa liberdade e de medo que grassa na academia portuguesa).

A par dessas recebi também alguns comentários que consideram que muita da investigação feita em Portugal é de baixa qualidade (penso que nem todos serão oriundos de falsos perfis criados por empresas de comunicação amigas do governo), que chegou o momento de separar o trigo do joio e que esta avaliação é um passo nesse sentido.

Alguns comentários:

1. Não tenho, pessoalmente, a mínima dúvida de que uma parte da investigação que se faz em Portugal é de escassa qualidade e que uma parte dos investigadores portugueses são fracos ou pior. Mas não sei dizer quantos e muito menos quais. A minha sensação pessoal, é que a maioria tem uma qualidade aceitável (quero dizer boa), mesmo em termos internacionais, mas trata-se apenas de uma sensação. E é provável que eu tenha ouvido falar sempre dos melhores. Só que, para além da minha sensação, há muitos exercícios de avaliação, alguns deles levados a cabo pela própria FCT, relativos a investigadores e a unidades de investigação, que me confortam nessa convicção (veja-se o “Diagnóstico do Sistema de Investigação e Inovação” (2013)). A investigação portuguesa ainda não ocupa lugares cimeiros nos rankings (ao contrário do que por vezes se poderia pensar, tendo em conta o entusiasmo de alguma cobertura mediática ou de alguns discursos políticos, nomeadamente de dirigentes da própria FCT) mas tem vindo a melhorar as suas posições em termos quantitativos e qualitativos e possui áreas que são internacionalmente muito robustas e com excelente reputação.

Dito isto, conheço e ouvi falar de inúmeros casos de investigadores ausentes, improdutivos ou indiferentes e até de investigadores desonestos e já me cruzei pessoalmente com alguns trabalhos de investigação cuja qualidade não passaria no crivo de um bom editor de um jornal diário. Tal como conheço as queixas de bons investigadores de bons laboratórios que se queixam de que alguns dos seus colegas “não fazem nada”.

2. Conheço igualmente a cultura nepotista, amiguista, bairrista, endogâmica e corporativista que existe em muitas organizações portuguesas e, nomeadamente, em organizações da universidade e da investigação portuguesas. A cultura da troca de favores; da mão que lava a outra e as duas a cara; do tu dás uma boa nota ao meu aluno que eu dou uma boa nota ao teu; dos concursos com um vencedor escolhido à partida; das embaixadas discretas ao ministro, aos secretários de Estado e aos presidentes da FCT em vez das discussões públicas, etc.. Como conheço a cultura dos mandarins da investigação, sempre próximos do poder e do dinheiro, eminências pardas por vocação, calados em público e sussurantes in camera, que têm à partida as avaliações garantidas e o financiamento assegurado por condições de trabalho privilegiadas.

3. Servem os pontos anteriores para sublinhar que sei que existem muitos problemas para resolver na prática da investigação portuguesa e que é necessário resolvê-los - e isto sem falar dos grandes problemas sistémicos da política científica, como são o emprego científico, a decadência dos laboratórios de estado, a investigação nas empresas, os programas estruturais, etc.

4. A correcção desta situação exige antes de mais um rigoroso processo de identificação dos problemas, o que pode ser conseguido no âmbito de um processo de avaliação das unidades de investigação. Mas é importante reflectir sobre o objectivo da avaliação. Se o objectivo da avaliação é condenar ou fechar unidades, exclui-las de participar em concursos futuros ou de beneficiar de determinados investimentos, reduzir gastos e/ou despedir pessoas, estamos a desperdiçar uma ferramenta de gestão e a desperdiçar o investimento já feito (na formação das pessoas, na criação da instituição, na criação de uma rede de contactos, em equipamentos, etc.).

A avaliação não pode ser uma expedição punitiva - e esta avaliação parece ter sido conduzida pela FCT exactamente com esse espírito. A avaliação da FCT é um instrumento de exclusão, à boa maneira da gestão empresarial neoliberal, e é, por isso, um instrumento de infusão de medo e de submissão.

A avaliação da FCT é um processo de destruição de valor (para usar uma expressão do jargão da gestão) e não parte de um processo de identificação de erros, correcção, redireccionamento e melhoramento, como deveria ser, se a FCT tivesse o devido empenho na protecção do património público que lhe compete proteger e desenvolver.

5. A questão é que a avaliação não é um substituto da gestão e, se existem problemas na investigação portuguesa, eles devem ser identificados, encarados, discutidos e resolvidos e não varridos para debaixo do tapete. A classificação de dezenas de unidades de investigação como “razoáveis” ou “insuficientes” não pode ser uma autorização para descurar a gestão do património público e para não promover a sua qualificação.

6. O principal problema com a avaliação agora feita é precisamente o facto de a sua falta de qualidade e o seu enviesamento se constituir como um obstáculo a um futuro exercício de avaliação rigoroso. Uma má avaliação dá um mau nome à avaliação e pode impedir uma boa avaliação durante anos, permitindo a subsistência no sistema de unidades ou avaliadores que deveriam de facto ser encerrados ou afastados.

Uma avaliação mal feita significa que ter uma má classificação deixa de ter qualquer custo reputacional e, por isso, não contribui para o estabelecimento de uma cultura de exigência e responsabilização.

7. A falta de transparência do processo, em particular, favorece a manutenção do clima de amiguismo e nepotismo. E não, não é o facto de se publicar documentos no site que torna automaticamente um processo transparente. Um processo é transparente quando os seus trâmites são transparentes, quando a sua racionalidade é transparente, quando as questões são respondidas pelos envolvidos de forma clara. Um processo onde uma unidade de investigação é avaliada com dados factualmente incorrectos, onde corrige na sua resposta ao avaliador esses dados incorrectos e onde esses dados incorrectos são mantidos sem explicação pelo avaliador na avaliação final não é um processo transparente, mesmo que os documentos estejam publicados online.

8. A avaliação não pode ser um instrumento para impor pela porta do cavalo opções estratégicas que nunca foram anunciadas ou discutidas, como o benefício de certas áreas científicas e tecnológicas em detrimento de outras, enviesando à partida os critérios de avaliação. Um sinal de que isso poderá ser um dos objectivos da actual avaliação é, por exemplo, a escolha de critérios e ferramentas bibliométricas que beneficiam claramente as ciências da vida (por coincidência ou não, a área de trabalho do presidente da FCT e da secretária de Estado da Ciência) em detrimento das ciências da computação, que são uma das mais competitivas áreas de investigação nacional.

9. A avaliação das unidades de investigação também não pode ter como principal objectivo libertar verbas que se pretende desviar para outras actividades. As más avaliações não podem ser um mero expediente para criar um pé-de-meia. Sabemos que a FCT reduziu os montantes que despende em bolsas e parece querer agora reduzir os seus gastos com as unidades de investigação. Se a FCT pretende criar uma almofada financeira para dedicar a uma qualquer outra actividade, deve anunciá-lo claramente e colocar essa estratégia (ou essa intenção) à discussão pública. As verbas que a FCT administra - parece ser conveniente lembrá-lo - não são propriedade da sua direcção.

10. Há quem me tenha chamado a atenção para o facto de que unidades de investigação com alguns excelentes investigadores podem ter, apesar disso, uma baixa qualidade média. É evidente que um centro de investigação com meia-dúzia de investigadores excelentes não é, por esse facto, uma unidade de excelência, mas é preciso ser cuidadoso para não deitar fora o bebé com a água do banho. Destruir um centro onde existe investigação de excelência com o argumento de que a sua média é baixa e pôr assim em causa a prossecução das actividades de excelência, é insensato e negligente. É um desperdício que o país não pode tolerar.

11. A verdadeira mania que existe na retórica da FCT com a “excelência”, com a avaliação como forma de identificar essa “excelência” e, em particular, com o recurso à avaliação quantitativa e bibliométrica como núcleo duro da avaliação merece alguns comentários. É evidente que a investigação deve usar critérios exigentes e que não devem ter lugar no sistema de investigação público profissionais incompetentes ou improdutivos. Mas daqui a considerar que se devem apenas financiar a excelência (ou a supra-excelência, seja isso o que for, porque a FCT inventou nada mais do que duas categorias acima de “excelente”) vai um passo que não se deve dar.

Imagine-se que, numa qualquer organização (numa empresa ou no sistema de saúde, por exemplo) se realiza uma exigente e rigorosa operação de avaliação e se despedem todos os trabalhadores não excelentes. É fácil imaginar o que aconteceria a essa organização. Um sistema de investigação tem forçosamente de incluir outras preocupações para além da pura excelência científica - como uma cobertura das principais áreas de investigação, a manutenção de massa crítica nas várias áreas e sub-áreas, etc. Uma selecção de futebol não se faz só com Ronaldos nem se constitui uma selecção sem uma pool alargada de jogadores de futebol. Definir, em nome da excelência, uma bitola exageradamente alta (se fosse esse o caso) destrói qualquer sistema. Pode parecer exigente mas é apenas negligente.

12. Uma das razões por que se deve ser prudente com a mania da excelência é porque um investigador não faz a mesma coisa durante toda a sua vida e pode nem sequer dedicar-se durante toda a vida à mesma área científica. Um investigador que é apenas bom numa dada função pode ser excelente noutra e vice-versa. Tomemos um exemplo prático: Miguel Seabra tem a reputação de ser um excelente investigador na sua área, mas decidiu a dada altura enveredar pela gestão da investigação, onde demonstra uma performance medíocre. É admissível que uma pessoa menos brilhante na investigação médica fosse melhor como gestor de investigação, com ganhos para todos.

13. O presidente da FCT não pode esconder-se atrás de um comunicado perante a vaga de críticas de que a sua instituição é alvo e muito menos usando argumentos de autoridade. Miguel Seabra tem de responder a todas e a cada uma das perguntas feitas e às objecções levantadas à avaliação que realizou e deve fazê-lo não numa reunião de gabinete mas de forma pública e cabal. Mais uma vez, convém lembrar que a FCT é um organismo do Estado e não um grupo de amigos de Miguel Seabra, que gere bens públicos e que tem um dever de transparência e de prestação de contas aos cidadãos.

14. Nota final: perante um processo tão lamentável como este, não é apenas a FCT que sai desacreditada. A FCT conseguiu provavelmente marcar pontos no imaginário popular contra os investigadores, na linha do “todos os beneficiários do RSI são ladrões” e do “todos os desempregados são uns calões” a que este governo nos habituou.

É por isso difícil de compreender que a comunidade científica como um todo não seja mais vigorosa na sua contestação, exigindo mais assertivamente da FCT a correcção pública dos erros cometidos e uma prática com o rigor e a transparência a que temos direito.

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Sociedade Portuguesa de Física critica avaliação da FCT

Ainda no contexto do ataque ao tecido científico nacional, deixo aqui alguns excertos da posição da Sociedade Portuguesa de Física, que pode ser lida integralmente neste texto do blogue De Rerum Natura:

«A exclusão do sistema de financiamento de cientistas com indiscutíveis provas dadas, mensuráveis bibliometricamente e com impacto na formação de novas gerações de físicos e em novos domínios de investigação, evidencia fragilidades no exercício de avaliação realizado. São aparentes várias falhas. As unidades de Física foram avaliadas por um painel generalista [...] Por outro lado, comentários apresentados em alguns relatórios de avaliação denotam falta de conhecimento da realidade local, do modo de funcionamento e financiamento das unidades de investigação em Portugal [...]. Os resultados desta primeira fase de avaliação são, em muitos casos, incompreensíveis faces aos indicadores de produtividade das unidades que a FCT publicou.
[...]
Neste contexto, com a eliminação no sistema científico português de 50% das Unidades de Investigação na área da Física, os investimentos avultados em equipamento e recursos humanos obtidos em concursos competitivos promovidos pela FCT, União Europeia e outras entidades, serão desperdiçados, dada a impossibilidade de manter em funcionamento regular as unidades sem financiamento estratégico. Estão assim em risco a investigação, a atração de jovens para área da Física e das suas aplicações, a formação graduada e pós-graduada numa área de investigação das mais pujantes em Portugal e essencial para o seu desenvolvimento científico, tecnológico e económico.»

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Revista de imprensa (14/7/2014)

  • «No fundo, o drama da esquerda partidária portuguesa é este: há uma metade que só pensa em governar; a outra metade só pensa em não governar.
  • A esquerda partidária que só pensa em governar acha que, para isso, tem de ser centrista. A esquerda que só pensa em não governar acha que, para isso, tem de ser extremista. A esquerda partidária portuguesa anda há décadas a fazer a espargata e pagou-se um preço considerável por isso. Uma parte grande da população portuguesa nunca esteve representada na governação, com tudo o que isso implica. Política não é só Parlamento, mundo sindical ou círculos de reflexão e debate. É poder, de forma decisiva, contribuir para o destino do país.

quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Mais ainda sobre o TTIP

Este excelente texto sobre o TTIP (ou ATP, como lhe chamam) é um óptimo ponto de partida para compreender a ameaça que representa.
Não posso deixar de fazer alguns destaques:

«As normas de qualidade na alimentação são também alvo das negociações. A indústria americana da carne quer que seja suprimida a regra europeia que proíbe os frangos desinfectados com cloro. Na vanguarda deste combate está o grupo Yum!, proprietário da cadeia de restauração rápida Kentucky Fried Chicken (KFC), que pode contar com a força de ataque das organizações patronais. «A União só autoriza o uso de água e de vapor sobre as carcaças», protesta a Associação Norte-Americana da Carne, enquanto um outro grupo de pressão, o Instituto Americano da Carne, lamenta a «rejeição injustificada [por Bruxelas] das carnes com aditivos beta-agonistas, como o cloridrato de ractopamina».

A ractopamina é um medicamento utilizado para aumentar o teor em carne magra dos porcos e dos bovinos. Devido aos riscos que coloca à saúde dos animais e dos consumidores, ela foi banida em cento e sessenta países, entre os quais os Estados-membros da União, a Rússia e a China. Para o fileira porcina americana, este medida de protecção constitui uma distorção da concorrência livre a que o APT deve pôr fim com carácter de urgência.»


sábado, 5 de Julho de 2014

A quem é que o "resgate" ajudou?

Muitos já se deram conta da resposta, mas é sempre positivo que, para variar, os meios de comunicação social dêem voz a quem explica a situação sem rodeios.

Aproveito e recomendo esta entrevista, da qual destaco o seguinte:

«Essa é, até agora, a vossa principal conclusão?
O “resgate” errado, que apenas salvou os investidores estrangeiros, principalmente alemães, de perderem nos maus investimentos que fizeram, mina a confiança nas instituições democráticas dos países afectados. Os Governos e os Parlamentos desses países parecem ser apenas marionetas nas mãos de desconhecidos, e não eleitos, burocratas estrangeiros. E, ou, de investidores.

O que mais o surpreendeu na situação portuguesa?
O facto de terem tido - em proporção - a maior manifestação de todos os países em crise, mas que não teve qualquer impacto… Se, na Alemanha, 10% da população saísse à rua para protestar, o que significaria uma manifestação de 8 milhões de pessoas, nenhum Governo sobreviveria a isso intacto.

Os cidadãos alemães estão conscientes do que se passa nos países da periferia?
Infelizmente, não. De modo nenhum. A maioria dos alemães acredita realmente que o seu Governo está a “ajudar” os gregos e os portugueses com “dinheiro dos contribuintes”.»

sexta-feira, 4 de Julho de 2014

A destruição do tecido científico nacional

A mais recente avaliação das unidades de investigação farsa trágica por parte da FCT está bem descrita em vários textos do blogue "De Rerum Natura".

Recomendo vivamente os seguintes:

A FCT ensandeceu

A liquidação da Ciência

O fim da Filosofia

A FCT condena metade das unidades de investigação em Portugal, e não apenas 22%

Augusto Santos Silva: Vamos indignar-nos?

Centro de Investigação em Montanha foi condenado à morte pela FCT

Posição do CIES sobre o processo de avaliação

O fim do centro de Nuno Crato

Há inconsistências graves na avaliação da FCT das unidades de investigação

Portuguese government shuts down half of the research units in the country

Ainda o Tsunami devastador que se abateu sobre a ciência portuguesa

Unidade de Estatística também eliminada

Depois existe um pequeno resumo, que não capta a enorme quantidade de incongruências e injustiças e absurdos do processo, mas permite ganhar uma noção do balanço devastador final:

«Um investigador português pôs, numa conferência internacional, a circular esta informação e está já a receber numerosas mensagens de apoio:

HELP! THE GOVERNMENT IS TRYING TO KILL SCIENCE IN PORTUGAL:
- 2014, contracts/grants for researchers reduced to 1/3
- 2015, research centres reduced by 1/2 (the others will not be funded to work)
Send solidarity messages to: mpsantos@fct.unl.pt
Thanks,  colleagues!»

sábado, 28 de Junho de 2014

Uma maioria sem medo do ridículo

  • «O projeto de resolução da maioria PSD/CDS-PP para criar o Dia Nacional do Peregrino (13 de maio) foi hoje aprovado no Parlamento (...) A resolução recomenda ao Governo a instituição do Dia do Peregrino lembrando que em Portugal “existe uma forte tradição na realização de peregrinações cristãs direccionadas para os mais variados locais de culto, com destaque para aquelas que se decorrem no Santuário de Fátima, que envolve inúmeras pessoas”. A condição de peregrino “não se esgota na intenção de caminhar direcção de um lugar sagrado”, segundo o texto, defendendo que “importa também valorizar o motivo que o levou a fazer essa jornada, determinante para a sua vida, onde muitas vezes se procura o sentido da própria existência, como um percurso interior”.» (DN, Público)

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Afinal teria sido melhor reestruturar a dívida de Portugal

E quem o diz é o FMI.

A evidência de que uma reestruturação teria sido a melhor opção para Portugal vai sendo cada vez mais persuasiva. A opção que há uns anos só recolhia o apoio da CDU e BE tornou-se mais tarde partilhada por personalidade de um largo espectro ideológico, passando por Mário Soares e chegando mesmo a Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix. Hoje o próprio FMI reconhece o erro.

No entanto, mesmo quando era uma posição minoritária e impopular, nunca foi uma posição extremista. Pelo contrário, essa posição era uma posição ampla que captava todo o universo de posições intermédias entre as duas posições extremistas: a da CGTP, POUS (e agora MAS), de não pagar um cêntimo, e a do Governo de Pedro Passos Coelho, de não deixar de pagar um cêntimo.

A política que Portugal seguiu foi uma política extremista, apesar das aparências que a impopularidade das alternativas criava. Não creio, no entanto, que se tenha tratado de um erro inocente, de "cegueira ideológica" ou algo do tipo. Os mais poderosos e influentes, cá em Portugal e lá fora, ficaram muito beneficiados por este erro estratégico crasso.

Hoje os bancos alemães podem dormir descansados, que já não serão afectados por qualquer tipo de reestruturação. A dívida que detinham está hoje nas mãos da Troika ou da nossa Segurança Social. Podem agradecer a Pedro Passos Coelho e ao XIX Governo (in?)Constitucional de Portugal. 

sábado, 21 de Junho de 2014

Não se esqueçam de obrigar também ao registo de ascendência judaica, moura ou cigana

  • «Na reforma das "secretas", um dos pontos agora aprovados passa a obrigar os agentes a inscreverem no registo de interesses eventuais ligações a entidades de natureza associativa, nomeadamente maçonarias» (Público).

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Já nem Vítor Bento alinha com a "narrativa" do governo

"O nosso principal problema não é a dívida pública, o principal problema é a dívida externa" Vítor Bento, no IDEFF esta manhã num debate sobre a crise do euro.
Depois de ouvir isto da boca do Braga de Macedo, agora o Vítor Bento. Haverá algum economista que ainda venda a lenga-lenga do governo?

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

O Felipe VI é... inconstitucional

 Constitución Española

Artículo 14

Los españoles son iguales ante la ley, sin que pueda prevalecer discriminación alguna por razón de nacimiento, raza, sexo, religión, opinión o cualquier otra condición o circunstancia personal o social.

terça-feira, 17 de Junho de 2014

Tarde demais?

  • «Se há uma crítica que podemos fazer aos socialistas em geral é que a esquerda socialista na Europa, durante muito tempo, foi demasiado complacente com os interesses financeiros globais - e com o discurso tecnocrático da União Europeia a partir de Maastricht - e foi complacente com os grandes grupos empresariais. Pagámos um preço elevado por não termos combatido de forma consistente as desigualdades. Os estados não se impuseram aos mercados e isto gerou uma situação de desconfiança dos cidadãos.» (Alberto Martins)