sexta-feira, 27 de março de 2015

A liberdade de expressão também é para os homofóbicos e para os islamofóbicos

No Reino Unido, desde o caso Rushdie em diante que a liberdade de expressão vem sendo progressivamente limitada. «Ofender» por intermédio de um mero discurso passou a ser crime contra a ordem pública.

Aconteceu agora um caso extremo: um daqueles pregadores que andam pelas ruas a citar a Bíblia foi multado (200 libras) e obrigado a pagar indemnização e custas (1200 libras). O seu crime? Ter lido em público o Levítico, 20:13: «Quando também um homem se deitar com outro homem como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue é sobre eles». Note-se que não foi condenado por incitar ao crime (última frase) mas sim por repudiar a homossexualidade (primeira frase). O facto de o idiota em causa ser não apenas homofóbico mas também islamofóbico não ajudou.

Antes que haja comparações com o Charlie Hebdo: o fundamentalista em causa não foi morto a tiro. Foi multado. E não, não gosto do que ele diz. Mas deve ter o direito de dizê-lo, por muito que repugne ouvi-lo.


terça-feira, 24 de março de 2015

O campeão dos anti-socráticos afinal não é "engenheiro"

E eis que, na sequência, descobri o vídeo de Henrique Neto que procurava. O baile que leva de Carlos Pimenta (que nunca foi socialista) num debate em 2010 sobre política energética deveria servir para arrumar a candidatura de Neto, que só convencerá os anti-socráticos mais ferrenhos. Anti-socráticos estes que, como Neto, se não eram tornaram-se adversários de energias alternativas (eólicas e fotovoltaicas). Como também, provavelmente, do Simplex.
Mas o que me leva a partilhar aqui este vídeo nem é isso. Logo ao princípio, o moderador - justamente, Miguel Sousa Tavares - refere-se a Neto como... engenheiro! Duas vezes. E Neto não desmente. Está aqui.
Devo desta forma corrigir o que disse na parte final do texto anterior: depois disto, e porque Miguel Sousa Tavares não tem de andar a investigar a biografia de Henrique Neto, é natural que desde então passe a referir-se a ele como "engenheiro", como fez ainda hoje no Jornal da Noite da SIC. Mas o notável aqui é este pequeno pormenor. Em 2010, quando foi tratado duas vezes por "engenheiro", Henrique Neto nunca desmentiu tal tratamento (limitou-se a dizer que não era um "especialista em energia"). Anos mais tarde (em Janeiro deste ano), depois de se ter passado tudo o que é bem conhecido de todos, depois de atacar José Sócrates (a única coisa que fez, politicamente, ao longo destes últimos anos) como estando "no topo da pirâmide dos que dão cabo disto", para se demarcar ainda mais de José Sócrates (pelas razões bem conhecidas), em entrevista ao i, Henrique Neto reconhece que afinal "não tirou curso nenhum" (A entrevistadora Ana Sá Lopes refere mesmo que "faz questão de não ser tratado por doutor"). Tirem as vossas conclusões.

Miguel Sousa Tavares e a "Lista VIP"

As inenarráveis posições de Miguel Sousa Tavares defendendo a existência de uma "lista VIP" de contribuintes têm qualquer coisa de monárquico. O senhor acha mesmo que o estatuto de comentador que conquistou (e nisso não lhe tiro o mérito) atrai mais a atenção e a curiosidade sobre si (até aí é verdade). Mas acha que isto basta para justificar uma lei especial para pessoas como ele (e ainda tem o desplante de afirmar que é "para garantir a igualdade"). Quem definiria quem teria ou não direito a constar nessa tal lista não é coisa que o preocupe: a fidalguia sempre acha que a sua condição é natural e inquestionável.
E eis que, no comentário seguinte no Jornal da Noite da SIC, o mesmo Miguel Sousa Tavares se refere por várias vezes ao "engenheiro Henrique Neto". Tanto quanto eu sei (e li na entrevista que estrategicamente deu ao "i" há umas semanas atrás), Henrique Neto nunca se licenciou e sempre fez questão de o afirmar. Dizia eu: tudo isto me parece bastante monárquico.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Anticlericalismo não é islamofobia

Semanas após os atentados de Paris e Copenhaga, há três coisas que continua a ser urgente sublinhar: que os ataques não foram actos isolados, mas sim os mais recentes episódios de uma já longa (embora intermitente) guerra; que o islamismo radical, na Europa e fora dela, é o grande movimento totalitário do século 21 e a «narrativa» mais importante a seguir à crise financeira; e que a esquerda tem que saber responder ao que se está a passar.

Os grupos islamistas radicais que foram os principais responsáveis pela maior parte da violência política dos últimos quinze anos (Al-Qaeda, Estado Islâmico...) podem parecer pequenos grupos isolados. Na realidade, só na preferência estratégica pela violência são separáveis de um movimento mais amplo, o dos partidos islamistas ligados pela Irmandade Muçulmana que subiram democraticamente ao poder no Egipto e na Tunísia (temporariamente) e na faixa de Gaza. A ideologia de raiz dos islamistas que concorrem a eleições e que fazem atentados é a mesma, salafista. Em quase todos os países do Magrebe e do Médio Oriente, a iniciativa política pertence-lhes e raramente (Tunísia) uma alternativa de esquerda e laica os consegue derrotar em eleições livres. Na Europa, estão presentes de forma marginal entre os imigrantes muçulmanos. Só por distracção se pode portanto pretender que cada atentado é um caso isolado e esperar que não volte a acontecer.

A esquerda, e felizmente menos em Portugal do que noutros países, perde-se nesta questão numa colecção de equívocos sobre o islamismo radical (um catálogo em BSS): que a sua origem se deve ao imperialismo europeu e americano ou ao conflito israelo-palestiniano; ou então ao capitalismo; ou ao colonialismo e racismo europeus; e que defender a laicidade é islamofobia.

Começando pelo imperialismo europeu: sim, a Al-Qaeda, embora já ninguém o recorde, começou contra um imperialismo europeu - a ocupação soviética do Afeganistão. E a errónea invasão do Iraque em 2003 alimentou a Al-Qaeda e a sua ressaca o Estado Islâmico. Mas, face às contradições e às vistas curtas dos Estados «ocidentais», a Arábia Saudita e o Irão tiveram uma política constante e coerente de apoio ao extremismo. Aliás, até ao Verão passado o «Estado Islâmico» era financiado pelos sauditas e pelas petromonarquias do Golfo, principalmente para combater a influência iraniana/xiíta no Iraque. Somente por eurocentrismo se pode portanto argumentar que os islamistas radicais são motivados pelo «imperialismo europeu»: a luta pelo califado é uma luta interna dos países árabes entre neo-conservadores e moderados laicos, que surgiu décadas depois do fim do colonialismo. (Muito menos, e ao contrário do que querem os anti-sionistas e os pró-israelitas, se pode considerar que estes movimentos existam por causa do Estado judaico. O conflito israelo-palestino, acrescente-se, causou muito menos mortos em cinquenta anos do que as guerras da Síria ou do Iraque em dois ou três anos.)

Quanto à questão económica, a política económica dos islamistas, para além de se basear em «caridades» muitas vezes financiadas por wahabitas, é o capitalismo existente. E o seu financiamento daí vem. Pretender que seriam uma alternativa ao capitalismo ou que resultem da frustração com ele é ingenuidade.

Finalmente, muitos insistem em que a menor crítica ao Islão é um ataque aos muçulmanos, como se não houvesse diferença entre criticar ideias ou pessoas. Os mesmos, frequentemente, são capazes de dizer que «o Estado Islâmico não é islâmico» e que «não há violência motivada pela religião». É o mesmo que dizer que as Cruzadas ou a Inquisição nada tiveram que ver com o cristianismo. Mais do que nunca, é necessário repetir todas as vezes que forem necessárias que laicidade não é racismo, é o seu contrário: é tratar os muçulmanos como pessoas crescidas que devem conseguir lidar com as críticas às suas ideias, e que não devem ficar fechados numa redoma. A luta nas ruas de Paris é a mesma de Kobane e da Arábia Saudita: ser Charlie ou ser Raif Badawi significa o mesmo, porque a humanidade é só uma. Anticlericalismo não é islamofobia.


Cavaco é o homem e a sua circunstância (um Presidente seria outra coisa)

quarta-feira, 11 de março de 2015

No altar do deboche

  • «É verdade que esta geração de filhos únicos, netos únicos e sobrinhos únicos de parentes divorciados ou amancebados é herdeira de 007 e Indiana Jones, Star Trek e Star Wars, Super-Homem e Batman, falhos de matrimónio e fertilidade. É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche.» (João César das Neves)

Não aprendas com a Argélia, Passos, aprende antes com a Suécia

Passos Coelho, de visita à Argélia, declarou que «a Europa deve seguir o exemplo da Argélia no combate ao terrorismo». Sim, da Argélia: um país que mantém a pena de morte e que tem prisões secretas onde se tortura. Será este o exemplo que Passos quer seguir? Reintroduzir a pena de morte e criar prisões com tortura? Ou será que quando Passos defende «ao nível dos serviços de informação ou de inteligência (sic) uma maior cooperação» está a anunciar mais poderes para os espiões, inclusivamente o de deter pessoas? A interpretação é legítima. No mínimo, pode dizer-se que Passos não se esforçou por evitar essa leitura.

No entanto, quem quer combater o terrorismo sem ser pela via securitária tem uma alternativa: aprender com a Suécia e não com a Argélia. É que também ontem o governo sueco anunciou que vai terminar a cooperação militar com a Arábia Saudita. Como é sabido, foi do país de Meca e Medina e dos seus satélites do Golfo que saiu o dinheiro que financiou todas as redes jihadistas, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico. Isolar diplomática e militarmente a Arábia Saudita é cortar a água às raízes do islamofascismo. E o que faz o governo português quanto à Arábia Saudita? Ah, negócios (numa «relação política perfeita»).

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dez anos


Neste blogue não se costumam assinalar aniversários. Mas hoje faz dez anos que foi publicado o primeiro post deste blogue. Uma época tão remota que nesse dia Jorge Sampaio era Presidente, Santana Lopes Primeiro Ministro e Karol Wojtyla papa dos católicos. O Facebook era um ilustre desconhecido e o Twitter nem existia. Eu escrevia sozinho por aqui e haveria de passar mais de um ano antes da primeira colectivização do blogue.

E dura, e dura, e dura...

domingo, 8 de março de 2015

A Troika e a salvação dos Bancos

A ideia de que o objectivo da Troika tinha sido «salvar os Bancos» era, até recentemente uma ideia algo radical/heterodoxa.
O PCP e o BE bem podiam dizê-lo e repeti-lo, mas muitos atribuíam tal perspectiva ao seu radicalismo/marxismo.

No ano passado, outras vozes, algumas insuspeitas começaram também a dar voz a esta ideia, com particular destaque para Philippe Legrain, que foi conselheiro económico independente de Durão Barroso.





Este ano, esta perspectiva parece ter deixado de ser um tabu. O presidente do Parlamento Europeu (do grupo parlamentar S&D), bem como o director do FMI, defendem abertamente a mesma ideia.














Esta mudança é um bom sinal. Apesar de uma certa cegueira colectiva inicial, os indícios e provas foram-se acumulando de tal forma que alguns representantes de instituições-chave já preferem admitir os factos.

Suponho, talvez com algum optimismo, que esta tendência se vai manter. 

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Carácter de Pedro Passos Coelho - II

Há cerca de um mês, quando escrevi um texto sobre o carácter de Pedro Passos Coelho, ninguém sabia do recente escândalo a propósito das dívidas à segurança social. Face a essa situação, muitos mais têm posto em causa o seu carácter e integridade.

Apesar de me parecer que a gravidade de muito do que já se sabia sobre as escolhas e acções de Pedro Passos Coelho é muito superior ao que foi revelado neste episódio, não me parece uma má opção revisitar o assunto, até porque poderei aproveitar para fazer dois acrescentos.



1) No texto anterior mencionei o escândalo da Tecnoforma. Aquilo que não mencionei foi um facto que passou despercebido durante esse escândalo: a ausência da declaração de rendimentos após o fim do segundo mandato de Pedro Passos Coelho, iniciado em 1995 e que terminou a 23 de Outubro de 1999.
É verdade que Pedro Passos alega ter entregue a declaração, a qual aparentemente teria desaparecido misteriosamente. No entanto, por ter tomado contacto com o Tribunal Constitucional há vários anos atrás a propósito da consulta dessas declarações, fiquei a saber duas coisas:

  • Vários responsáveis políticos "esqueciam-se" de entregar as suas declarações, visto que a mesma lei que previa a obrigatoriedade da sua entrega não previa qualquer pena caso ela não ocorresse. 
  • As declarações estão sujeitas a um apertado crivo de segurança. Qualquer um que as consulte tem de apresentar o BI e uma série de outras informações, e naturalmente o acto de devolução fica registado. 

Perante esta situação, as alegações de Pedro Passos Coelho, que tem revelado tantas dificuldades de memória, parecem-me valer muito pouco. Tendo em conta que a verificação do suposto desaparecimento aconteceu já em Setembro, não creio que tenham sido feitas as diligências adequadas caso se suspeitasse de dolo no desaparecimento desta declaração. Pelo contrário, é a meu ver muito provável que o assunto tenha saído do radar porque a dita declaração nunca foi entregue.



2) Vale a pena rever a entrevista de Fernando Moreira de Sá à Visão. Fala da forma como a manipulação de blogues, fóruns de discussão de notícias, e espaços televisivos abertos ao público teve um papel fundamental para a fazer "chegar Passos Coelho aonde chegou", quer dentro do PSD (face a Rangel, Manuela Ferreira Leite, etc), quer no país.
Só lendo a entrevista se compreende como estas campanhas foram tão bem sucedidas por serem mais "sujas" que as dos seus adversários políticos. Aconselho sem reservas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O mau aluno


O mau aluno é aquele que não sabe quando o professor está errado.

  • «"Parece haver neste relatório da Comissão Europeia uma certa contradição entre o que são prescrições que a própria Comissão defendeu e depois os resultados que se observam". (...) Neste contexto, Passos referiu como exemplo a redução das transferências para prestações sociais ou o caso do aumento do salário mínimo nacional, criticado no ano passado pela Comissão. "Todos se recordam com certeza que no final do ano passado foi conhecido um relatório da Comissão Europeia sobre a primeira avaliação pós-programa em que anotava enorme desconforto com a decisão do Governo português em ter decidido aumentar o salário mínimo nacional (...) agora depois dessa crítica imensa que fez vem reconhecer que afinal o salário mínimo nacional não tem grande relevância para efeitos de elevação de rendimentos e combate ao risco de pobreza".» (Público)