quinta-feira, 2 de julho de 2015

A imprensa nacional e os gregos malditos

Não tenho sido o único a notar que a imprensa nacional passa uma história diferente daquela que é passada pela imprensa anglo-saxónica. Nada melhor para ilustrar isto do que os textos sobre a declaração de hoje do FMI:

Enquanto uns dizem que o FMI pede maior flexibilidade na ajuda à Grécia...

The IMF called on Thursday for Europe to grant the country “comprehensive” debt relief.
Concessions proposed by the IMF was a doubling of the maturities on Greece’s existing debts to 40 years and the inclusion of a 20-year grace period on repayments.
 
The International Monetary Fund (...) conceded that the crisis-ridden country needs (...) large-scale debt relief to create “a breathing space” and stabilise the economy.
IMF revealed a deep split with Europe as it warned that Greece’s debts were “unsustainable”.
Fund officials said they would not be prepared to put a proposal for a third Greek bailout package to the Washington-based organisation’s board unless it included both a commitment to economic reform and debt relief.
According to the IMF, Greece should have a 20-year grace period before making any debt repayments.
 
... outros dizem que aponta o dedo à Grécia
 
O Fundo Monetário Internacional (FMI) defende que se a Grécia não concretizar um conjunto de reformas precisará de um perdão de dívida (haircut).

Jornal de Negócios
O Fundo Monetário Internacional efectuou uma análise à sustentabilidade da dívida pública da Grécia, tendo concluído que será necessário um "haircut" caso o país não implemente reformas 
 
Nem tive coragem de abrir o Observador...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Lampeiros

Pacheco Pereira escreveu um texto certeiro e pertinente no Público.

É pena que tenha iniciado o texto com um devaneio sobre o vocabulário português que ainda durou uns bons quatro parágrafos. Mas logo de seguida, surge uma crítica assertiva às mentiras de Pedro Passos Coelho e outros elementos do seu governo:

« Lampeiros com a verdade, neste governo e no anterior, há muitos. Sócrates é sempre o primeiro exemplo, mas Maria Luís Albuquerque partilha com ele a mesma desenvoltura na inverdade, como se diz na Terra dos Eufemismos. E agora Passos deu um curso completo dentro da nova tese de que tudo que se diz que ele disse é um mito urbano. Não existiu. Antes, no tempo do outro, era a ”narrativa”, agora é o “mito urbano”.

Aconselhar os portugueses a emigrar? Nunca, jamais em tempo algum. Bom, talvez tenha dito aos professores, mas os professores não são portugueses inteiros. Bom, talvez tenha dito algo de parecido, mas uma coisa é ser parecido, outra é ser igual. Igual era se eu dissesse “emigrai e multiplicai-vos” e eu não disse isso. Nem ninguém no “meu governo”. Alexandre Mestre era membro do Governo? Parece que sim, secretário de Estado do Desporto e disse: "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras". Como “sair da sua zona de conforto” é uma das frases preferidas do Primeiro-ministro, e a “zona de conforto” é uma coisa maléfica e preguiçosa, vão-se embora depressa. E Relvas, o seu alter-ego e importante dirigente partidário do PSD de 2015, então ministro, não esteve com meias medidas: “é extraordinariamente positivo” “encontrar [oportunidades] fora do seu país” e ainda por cima, “pode fortalecer a sua formação”. Resumindo e concluindo: “Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante". Parece um coro grego de lampeiros.

Continuemos. A crise não atingiu os mais pobres porque “os portugueses com rendimentos mais baixos não foram objecto de cortes”, disse, lampeiro, Passos Coelho. Estou a ouvir bem? Sim, estou. Contestado pela mentirosa afirmação, ele continua a explicar que os cortes no RSI foram apenas cortes na “condição de acesso ao RSI” e um combate à fraude. A saúde? Está de vento em popa, e quem o contraria é o “socialista” que dirige um “observatório” qualquer. Sobre os cortes nos subsídios de desemprego e no complemento solidário de idosos, nem uma palavra, mas são certamente justas medidas para levarem os desempregados e os velhos a saírem da sua “zona de conforto”. Impostos? O IVA não foi aumentado em Portugal, disse Passos Coelho com firmeza. Bom, houve alterações no cabaz de produtos e serviços, mas o IVA, essa coisa conceptual e abstracta, permaneceu sem mudança, foi apenas uma parte. Então a restauração anda toda ao engano, o IVA não aumentou? E na luz, foi um erro da EDP e dos chineses? Lampeiro.

Depois há a Grécia. “Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”, “queremos a Grécia fora do euro”. O que é que disse pela voz do Presidente? Na Europa “não há excepções”. Há, e muitas. A França por exemplo, que violou o Pacto de Estabilidade. A Alemanha que fez o mesmo. 23 dos 27 países violaram as regras. Consequências? Nenhumas: foi-lhes dado mais tempo para controlar as suas finanças públicas. Mas ninguém tenha dúvidas: nunca nos passou pela cabeça empurrar a Grécia para fora do euro, até porque na Europa “não há excepções”. Lampeiros é o que eles são. Lampeiros.»

Logo de seguida, o melhor do texto: a crítica à insuportável moleza do PS (o destaque a negrito é meu):

«Este tipo de campanha eleitoral é insuportável, e suspeito que vamos ver a coligação a “bombar” este tipo de invenções sem descanso até à boca das urnas. O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a chamar “tontos” ao Syriza, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do governo, a andar a ver fábricas “inovadoras”, feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo – não tem melhor em que gastar dinheiro? – e vão longe.

Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor Primeiro-ministro ou do homem “irrevogável” dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “o senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado nenhum. Por uma razão muito simples, é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar pela borda fora os consultores de imagem e de marketing, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.

Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de rituais estandardizados da política de salão e conferência de imprensa, deixem-se de salamaleques politicamente correctos, mostrem que não querem pactuar com o mal que dizem existir e experimentem esse franc parler que tanta falta faz à política portuguesa.

Mas, para isso é preciso aquilo que falta no PS (e não só), que é uma genuína indignação com o que se está a passar. Falta a zanga, a fúria de ver Portugal como está e como pode continuar a estar. Falta a indignação que não é de falsete nem de circunstância, mas que vem do fundo e que, essa sim, arrasta multidões e dá representação aos milhões de portugueses que não se sentem representados no sistema político. Eles são apáticos ou estão apáticos? Não é bem verdade, mas se o fosse, como poderia ser de outra maneira se eles olham para os salões onde se move a política da oposição, e vêm gente acomodada com o que se passa, com medo de parecer “radical”, a debitar frases de circunstância, e que não aprenderam nada e não mudaram nada, nem estão incomodados por dentro, como é que se espera que alguém se mobilize com as sombras das sombras das sombras?

Enquanto isto não for varrido pelo bom vento fresco do mar alto, os lampeiros vão sempre ganhar. As sondagens não me admiram, a dureza e o mal são sempre mais eficazes do que o bem e muito mais eficazes do que os moles e os bonzinhos.»

quinta-feira, 18 de junho de 2015

«Trickle down economics is wrong, says IMF»

Um estudo com origem no FMI representa mais um prego no caixão da malfadada «Reagonomics». Esta notícia (de onde roubei o título deste texto) resume as conclusões.

O documento tem quase 40 páginas, mas vale a pena destacar este parágrafo: «Specifically, if the income share of the top 20 percent (the rich) increases, then GDP growth actually declines over the medium term, suggesting that the benefits do not trickle down. In contrast, an increase in the income share of the bottom 20 percent (the poor) is associated with higher GDP growth. The poor and the middle class matter the most for growth via a number of interrelated economic, social, and political channels.»

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Auto-crítica anarquista (e não só...)

No início do século XX os movimentos anarquistas tinham uma força, vitalidade e influência cultural que rivalizava com a dos movimentos comunistas. Algo se passou de lá para cá.
É esta observação e interrogação que serve de ponto de partida para «RednBlackSalamander», um cartoonista anarquista anónimo, lançar uma série de cartoons com críticas - a meu ver certeiras - aos actuais movimentos anarquistas.

É evidente que muita da perda de força e influência dos movimentos anarquistas tem causas completamente exógenas aos movimentos e às atitudes dos seus participantes. Mas também é verdade que muitas das actuais atitudes sectárias, elitistas, anti-pragmáticas e alienantes explicam parte desse enorme recuo.

Gosto particularmente destes dois cartoons:


Legenda: «Go ahead and laugh while you can, one-percenters! Someday, us American radicals will remember how to interact with people who aren't middle-class college students, and then you'll be sorry!»


Legenda: «Every angry young malcontent watching grainy 9/11 youtube videos in his basement is another one that's not out in the streets organizing against war, racism, poverty and inequality. For wasting so many perfectly good activists on your wild goose chase against the imaginary Illuminati, I have just one thing to say to you, Alex Jones: go fuck yourself with an abnormally large pine cone. If I were an oil CEO or a neocon politician, I would send you a bouquet of flowers for making the job that much easier.»

Seleccionei outros 14 cartoons, todos sobre este assunto.
No entanto, creio que as críticas se aplicam não apenas aos anarquistas, mas a vários movimentos progressistas. Pelo menos foi essa a minha experiência pessoal em Lisboa, no âmbito da «luta contra a austeridade» (e não só...) desenvolvida por vários activistas. Das poucas vezes que se adoptou uma postura razoavelmente pragmática, tolerante e consciente da realidade, foi possível ter um impacto real sobre o país (exemplo). Mas geralmente a postura era outra, e os resultados condiziam: ainda me lembro da tarde inteira que centenas de activistas perderam na Fábrica do Braço de Prata a discutir a cor do cartaz da «Primavera Global.pt».

Mas aquilo que é evidente para mim é tudo menos claro para alguns. Estes cartoons foram duramente criticados por vários anarquistas, e geralmente as próprias críticas apenas demonstram quão certeiros foram os cartoons (exemplo canónico).

Se não quiserem «acordar», os vossos adversários ideológicos agradecem.


O Presidente do seu governo

Cavaco Silva nunca prometeu ser o Presidente de todos os portugueses. E nunca o foi. Foi o presidente que ajudou a cavar a sepultura do governo anterior no discurso da sua tomada de posse. E que segurou o actual governo perante as maiores manifestações dos últimos trinta anos, no meio da maior crise social, e sem pestanejar perante uma dezena de chumbos do Tribunal Constitucional.

O discurso de ontem é mais um episódio do apoio inquebrantável de Cavaco ao seu governo, o da sua facção de sempre. As referências centrais a objectivos macroeconómicos, a menorização das dificuldades sociais, tudo embalado com os ataques aos que «só criticam» (que significativamente até poderiam ter sido proferidos quando era ele o primeiro ministro), sem distanciamento nem tentativa de empatia para os que sofreram na pele esta governação, só servem o PSD/CDS de Passos Coelho.

Seria um péssimo precedente para o futuro do cargo que Cavaco Silva interviesse ainda mais na campanha do que neste discurso de 10 de Junho. O lado bom seria tornar óbvia para todos a importância de retirar a direita de Belém em Janeiro de 2016.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Outro blogue

O meu blogue pessoal foi renovado para a minha candidatura às primárias abertas do LIVRE/Tempo de Avançar. Estão por lá os artigos mais longos que escrevi, conferências e algumas intervenções na TV.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Afinal quem quer uma Constituição ideológica?

Desde 1976 que a direita acusa a esquerda de se agarrar a uma Constituição «programática», «ideológica» e (entre os neoliberais mais lunáticos) «socialista». Agora, no ano de 2015, a direita no poder propõe uma revisão constitucional destinada a «inscrever um limite à dívida pública na Constituição». Ora, eu não defenderia que lá se colocasse o limite à taxa de desemprego; nem o escalão máximo (ou mínimo) de IRS.  Aliás, nem o PCP iria a esse ponto.

Não existe maior fanatismo ideológico na política portuguesa do que o da coligação Passos & Portas.

O princípio do fim do 11 de Setembro

A aprovação pelo Congresso dos EUA de uma lei limitando o poder dos serviços de espionagem marca o início de uma viragem histórica. É verdade que é apenas um passo na direcção certa: embora os dados de emails e chamadas telefónicas dos norte-americanos deixem de ser sistematicamente arquivados pelos espiões estatais, podem ainda ser acedidos a pedido de um tribunal especial. É pouco, mas é alguma coisa. E depois de quase quinze anos de retrocesso na privacidade dos cidadãos, as denúncias corajosas de Julian Assange e Edward Snowden permitem que a maré comece a virar.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Austeridade: um erro crasso

No passado dia 9 de Maio, o Banco de Portugal organizou uma conferência intitulada «Growth and Reform in Europe in the Wake of Economic Crisis».

A apresentação de Paul De Grauwe relembrou aquilo que já é claro para quase todos os que estão por dentro do assunto: a resposta da Europa (em particular dos países da zona euro) à crise foi patética*, absurda, monstruosa nas suas consequências. Os países europeus fora da zona euro, os EUA, e outros países ricos e desenvolvidos afectados por esta crise tiveram respostas muito mais adequadas.

A razão: a "austeridade" à escala europeia. Criou um problema de procura agregada, que levou a um "ciclo vicioso": como os estados gastaram menos e cobraram mais impostos, os rendimentos das pessoas diminuíram, o que por sua vez afastou investimento, diminuindo ainda mais a procura, e ainda mais os rendimentos, e por aí fora.

Os adeptos da austeridade à escala europeia interpretaram os problemas como sendo problemas do lado da oferta, e a crise como uma oportunidade para fazer "reformas estruturais" que supostamente aumentariam as perspectivas de crescimento de longo prazo. Paul De Grauwe mostrou que não é razoável afirmar que as "reformas estruturais" tiveram esse efeito, mas que a política "austeritária" como um todo (diminuição da procura agregada e "reformas estruturais") teve o efeito oposto, de agravar as perspectivas de crescimento.

Claro que hoje, à excepção de um extremista ou outro, já todos aqueles mais versados em economia compreendem que a austeridade à escala europeia foi um erro crasso. O problema é que politicamente se torna muito inconveniente admitir certos erros. Nesse sentido, vai-se tentado mudar de política sem que se note, o que implica manter uma grande parte das políticas erradas (e que se sabe serem erradas), só para não perder a face. É isto que Merkel está a fazer.

Muitos respondem a estas evidências alegando que a austeridade à escala europeia foi muito má, mas que era inevitável. Isso é completamente falso. Nos EUA fez-se o contrário daquilo que se fez na Europa (só agora se começa a fazer, timidamente e tarde): um programa de estímulo, que a direita muito combateu. Quando comparamos os resultados, as conclusões são muito claras.


domingo, 17 de maio de 2015

Estado Islâmico e Combatentes Ocidentais - Como reagir?

Um amigo pediu-me para divulgar este debate no próximo Sábado e, como me parece interessante e pertinente, é com prazer que o faço:


sexta-feira, 15 de maio de 2015

RBI, outros textos

Culminei a última série de textos sobre o RBI com a apresentação das razões pelas quais a defesa de uma solução deste tipo ao nível europeu seria a melhor opção.
O André Barata escreveu no Irrevogável um texto sobre este mesmo assunto, e estas questões são bastante aprofundadas. Para os leitores que se interessam por este tema, não posso deixar de recomendar sem reservas.

O Miguel Madeira também escreveu (no Vento Sueste e no Vias de Facto) sobre este assunto, pensando numa possibilidade de usar o RBI como instrumento de política monetária, pelo menos de forma esporádica quando medidas heterodoxas são necessárias.
Se bem que, logo na altura, a possibilidade de injectar liquidez desta forma me tenha parecido mais justa e elegante que o «quantitative easing», parece-me um pouco enganador chamar a isto um RBI ocasional. A meu ver, o RBI pressupõe alguma continuidade e previbilidade - afectando as decisões das pessoas em relação às suas opções profissionais.
Já a conjugação de uma reforma como a considerada na Islândia com uma ferramenta deste tipo, podia exigir injecções permanentes que dessem alguma continuidade a um rendimento deste tipo, que hipoteticamente aumentariam o controlo do Banco Central sobre a massa monetária, ajudando-o a evitar desequilíbrios. Será que neste caso já se poderia mesmo falar num RBI? Creio que sim, mas não tenho uma opinião muito informada sobre se a opção islandesa é uma boa solução (esquecendo a questão do RBI). Se forem em frente com essa reforma, estarei muito atento aos resultados.
 

quarta-feira, 13 de maio de 2015