sábado, 14 de janeiro de 2012

Mais sobre as 20h

Recentemente critiquei neste espaço uma notícia na Guardian que dava escassas informações sobre uma proposta - que me pareceu perniciosa porque exagerada - de reduzir a semana de trabalho para 20h.
Expliquei também porque considerava que a redução (moderada) das horas de trabalho me parecia uma medida no sentido correcto.

A mesma notícia é relatada pela revista i, mas de forma muito diferente:

«21 horas de trabalho pago por semana? Enquanto Portugal discute que se trabalhe meia hora a mais e por toda a Europa se fala em mudar as leis laborais, um think-tank chamado “The New Economics Foundation” organizou na London School of Economics uma conferência em defesa de uma ideia totalmente revolucionária: em nome do bem-estar da população, da diminuição da pobreza, da redução do consumo, da diminuição das emissões de dióxido de carbono ninguém deveria trabalhar mais de 21 horas por semana.

A conferência teve como base um estudo da “New Economics”. O relatório chama-se “21 horas”, mas os seus autores defendem que este número seja uma referência para “um banco de horas”.[...]

Robert Skidelski, um economista keynesiano que participou na conferência de ontem no Centro de Análise da Exclusão Social da London School of Economics, considera que o desenvolvimento da tecnologia vai diminuir o número de empregos a breve trecho. “A resposta civilizada é dividir o trabalho”, defende. Citada pelo “Guardian”, uma responsável do “New Economics”, Anna Coote, afirma que “não há prova de que com menos horas de trabalho as economias são menos bem sucedidas”. Os exemplos que dá são a Alemanha, a mais forte da economia da zona euro (cuja média semanal de horas de trabalho é das menores da zona euro) e a Holanda (outra economia forte, a que não corresponde um maior número de horas de trabalho).
[...]
Os autores do estudo assumem que “21 horas” não é uma receita, mas “uma provocação”: querem mudar os conceitos sobre tempo e trabalho e alterar o que é considerado “normal”. Têm consciência que uma semana de trabalho mais curta não é instituída de um dia para o outro (aconteceu na Inglaterra em 1974 porque não havia combustível), mas que é um bom princípio para a discussão de um modelo económico alternativo.»

A diferença entre os relatos começa logo no número de horas: 20h ou 21h? Enfim, pouco importa.

O que importa, e bastante, é o parágrafo final da notícia: os autores da proposta reconhecem o carácter excessivo da mesma. A proposta é feita como uma «provocação», uma forma de pôr as pessoas a pensar nos benefícios sociais da redução do número de horas de trabalho. É pena que a notícia na Guardian tenha omitido esta informação fundamental.

Creio que é uma provocação positiva, e este é mesmo um tema a debater. Face às recentes asneiras a este respeito, já tenho feito a minha parte.