sexta-feira, 28 de maio de 2010

O problema deste governo...

...é reconhecer que o PSD tinha razão.

Antes das eleições havia dois programas em confronto. Sei que é complicado chamar "programa" às propostas do PSD, mas todos sabem qual era a prioridade de Manuela Ferreira Leite: o combate à dívida. Alegava que estamos sobreendividados, e queria a reavaliação das obras públicas. Perante uma situação destas, sabemos o que faria: basta consultar o PEC III.

Os portugueses preferiram o programa do PS. Sócrates orgulhava-se da sensibilidade social em criar um apoio extraordinário para os desempregados; afirmava que o investimento não deveria parar, que essa seria a saída para a crise; alegava que perante uma recessão como aquele que o país tinha atravessado não haveria pior altura para apertar o cinto.

Depois, alega que o mundo mudou em 15 dias, e quer cumprir o programa alheio. Diz hoje sobre o subsídio de desemprego aquilo que Manuela Ferreira Leite dizia antes das eleições. O problema disto é que não parece senão o reconhecimento cabal de que afinal ela e o PSD tinham toda a razão. Ela estava muito à frente, antecipando os problemas que haveriam de "mudar o mundo" poucos meses depois. Com a sua vitória, parece, os mercados teriam acalmado muito mais cedo, sabendo que o país tinha eleito alguém que tinha a redução da dívida como a sua prioridade principal.

Sócrates poderia ter feito algo diferente. Diferenciação do IMI para imóveis de luxo, impostos sobre grandes fortunas, 50% de IRS para um novo escalão a criar, fim do paraíso fiscal na Madeira, nova taxa de IVA sobre bens de luxo, e por aí fora. Com uma maioria de esquerda no parlamento, e uma crise que o governo alega ser exógena, não haveria melhor oportunidade para passar estas medidas. Não teria Passos Coelho de braço dado, mas poderia dizer «discordo» quando este último, em nome do PSD, dissesse «eu bem te avisei».