terça-feira, 18 de maio de 2010

Convicção e responsabilidade, ou privado e público

Vencido mas não convencido, Cavaco Silva promulgou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas com uma mensagem azeda em que os primeiros dois terços de texto serviriam perfeitamente para justificar um veto.

Pela decisão, Cavaco merece o meu respeito e admiração. Nunca votei nele, mas não posso deixar de reconhecer que soube colocar entre parêntesis as suas convicções privadas e escolher o que será melhor para todos os cidadãos e para a vida da cidade. Faz parte da ética laica não decidir sobre questões políticas a partir de convicções religiosas, e o católico praticante Cavaco Silva soube compreender que estava derrotado e que o momento não se prestava a exibições de ultramontanismo intransigente. Espero que ele, e outros, sejam capazes, noutras ocasiões, do mesmo distanciamento face às convicções pessoais ou de putativas maiorias.

O texto da mensagem, todavia, mostra algo que os activistas LGBT ainda não compreenderam: que o preconceito contra os homossexuais (e mais contra os masculinos) não vai desaparecer no dia do primeiro casamento. Nem dez anos depois, provavelmente. As leis só alteram a sensibilidade social, quando o fazem, a longo prazo.

Ah, e parabéns aos que se vão casar. E aos que lutaram por este desfecho.

Nota final: apesar do dramatismo de algumas declarações dos últimos anos, o casamento tradicional vai sobreviver. Rigorosamente na mesma. E por isso dedico a canção que se segue aos conservadores.
(«I Will Survive», Gloria Gaynor, 1979)