quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Museu de Marinha em perigo

Li no i que a ministra da cultura quer retirar parte do espólio do Museu de Marinha e fazer um museu da viagem, ou da mala de cartão, ou coisa que o valha. O Museu de Marinha é uma instituição com um prestígio internacional enorme, que vive da dedicação de uma equipa extraordinariamente competente, dedicada, trabalhadora, erudita e tremendamente mal paga. É indecente que a Marinha não acarinhe a carreira de investigação.

Mas o Museu de Marinha é um dos poucos museus portugueses em que se pode falar e tirar fotografias sem se ser incomodado pelos guardas. De facto, é um dos poucos museus em que os guardas são disciplinados, educados e competentes.

Talvez por isso, o Museu de Marinha é um dos poucos (ou mesmo o único) museus portugueses que dá lucro. É o museu mais visitado do país.

Ao longo das duas últimas décadas a minha experiência de trabalho com o Museu de Marinha tem sido sempre excepcional, ao contrário da minha experiência de trabalho com os serviços do Ministêrio da Cultura, que é quase sempre horrível e às vezes, como no caso da Biblioteca da Ajuda há cinco ou seis anos, é de pedir bengaladas nas costas do director. Não há qualquer sentido de serviço público no Ministério da Cultura: as relações são todas pessoalizadas e como o ministério está dividido em mandarinatos, basta fazer um inimigo em cada mandarinato para se ser ostracizado ou maltratado em cada oportunidade.

As pessoas no Museu de Marinha têm a porta sempre aberta, estão sempre prontas a ajudar com um profissionalismo raro, sem politiquices. Os directores estão sempre a pensar em objectivos, as equipas funcionam coesas e cooperam com outras instituições, focam-se em objectivos e nunca os vi serem menos bem educados e contidos nos diversos conflitos que tiveram com os cowboys do Museu Nacional de Arqueologia (que é o museu secreto, com cacos, que pega com o Museu de Marinha, não sei se já repararam, entre os Jerónimos e o Museu de Marinha...)

E agora o Ministério da Cultura quer destruir o Museu de Marinha e substituir a dedicação da equipa daquele museu excelente com a do pessoal do Ministério. Ou seja, o Ministério da Cultura quer pilhar o espólio daquele museu, em vez de trabalhar para construir um Museu dos Descobrimentos que devia ter sido pensado e construído há 50 ou 60 anos e que nunca ninguém quis fazer. Agora não haveria quase nada para lhe meter dentro. Em Portugal não há arqueologia subaquática: cada sítio arqueológico tem um arqueólogo sentado em cima há anos, que não faz nada “porque não tem apoios”, mas que revela uma energia tremenda e inesperada à menor ameaça, e se esgadanha para não deixar ninguém tocar na sua quinta.

Espero que o Ministério da Defesa tenha a coragem de defender o Museu da Marinha e não ceda à mediocridade snob e invejosa dos mandarins do Ministério da Cultura.