quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Uma vitória Ennahda é muito (má)


O resultado das eleições tunisinas é mau. Só não é péssimo porque os islamistas do Ennahda não têm maioria absoluta. Mas a direita clerical fica com mais votos e deputados do que a esquerda laica, e mais de um terço dos deputados, o que lhe permitirá condicionar decisivamente a nova Constituição.

Dados (quase) finais: o Ennahda (islamistas) terá 39% e 85 deputados (em 217); o Congrés pour la République e o FDTL, os dois partidos social-democratas que menos hostilizaram o Ennahda, terão respectivamente 14% e 10% (31 deputados e 22); o Parti Démocrate Progressiste (a terceira facção social-democrata) tem 8% e 17 deputados; finalmente, o Pôle Démocratique Moderniste (pós-comunistas e aliados) e o Parti Communiste des Ouvriers de Tunisie (maoísta) conseguem, respectivamente, 6 e 3 deputados. A direita tunisina não clerical resume-se ao Afek (neoliberal, 5 ou 6 deputados). Há ainda uma vintena de deputados distribuídos por outros pequenos partidos e independentes, e a grande surpresa (face às sondagens): um empresário dono de canais de televisão por cabo, que consegue ficar em terceiro com 11% e uns 25 deputados.

Tirando este último epifenómeno (ou talvez não, pensemos em Berlusconi), temos na Tunísia um cenário semi-europeu, com uma esquerda quase «normal» (mas ainda mais dividida que por cá), mas uma direita muito mais clerical do que na Europa. E que venceu democraticamente. Seguir-se-á a captação de alguns dos partidos centristas pelos islamistas ou, muito pior, uma cavalgada violenta apoiada nas ruas pelos salafistas.

Se no país mais secularizado do Magrebe, e o único onde existe um verdadeiro movimento laicista, as primeiras eleições realmente democráticas do mundo árabe deram nisto, ficámos com ainda mais razões para temer o que se vai passar no Egipto. Que só pode ser pior ainda...

9 comentários :

  1. Interrogo-me se a representação do Ennahda não estará a ser inflacionada pelos resultados da imigração (onde os islamitas estão a ter resultados próximos dos 50%).

    Ao que consta, a Tunisia é dos países em que os circulos da imigração pesam mais (18 deputados em 217, contra, p.ex., os nossos 4 em 230).

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  2. direita clerical

    Por que é que classifica o Ennahda como sendo de direita?

    No Islão (tal como no judaísmo) não há, em rigor, clero. Cada muçulmano é diretamente responsável perante Deus. Não há padres para o julgar. (Isto não é bem assim no xiismo, mas no sunismo é.) Não há um clero instituído. Há apenas pessoas que são consideradas, pela sua comunidade, como mais versadas que outras - mas não se trata de um clero formal. Como tal, a expressão "clerical" não é apropriada para o Islão.

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  3. Bem, eles próprios comparam-se ao PJD turco, que por sua vez se equipara aos democratas-cristãos europeus, logo colocar o Enhada na direita, ou, pelo menos, no centro-direita, faz um certo sentido.

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  4. Luís Lavoura,
    não sei se tem lido sites/blogues/facebook/twits de tunisinos. É que todos eles classificam o Ennahda como sendo de «direita». E isto vem quer de detractores quer de apoiantes. (Alguns dos detractores falam mesmo em «extrema direita».)

    Quanto à questão do clericalismo: não a limite ao clero. O Ennahda defende que as leis civis se baseiem em textos religiosos. E este é o ponto mais importante do programa deles. Portanto, faz todo o sentido chamar-lhes «direita clerical».

    Quanto ao judaísmo não ter clero: o que é um rabi, então?

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  5. Telvez fosse mais correto "direita confessional", então (tal como aliás face à "direita religiosa" nos EUA).

    Não é uma pura questão semantica - numa religião sem um clero organizado é mais complicado (mesmo que se queira) implementar um "governo dos sacerdotes".

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  6. Uma coisa que noto por estes resultados (e que vai um bocado contra o meu primeiro comentário) - se a Tunisia usasse o método de Hondt, como em Portugal, em vez do de Hare, o Ennahda era capaz de ter para aí uns 2/3 do parlamento

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  7. Tal como o Miguel Madeira, acho que chamar "confessional" ou "religioso" ao Ennahda seria correto. "Clerical" não é porque, tal como disse e repito, "clero" é coisa que não há por aquelas paragens.

    No judaísmo, um rabino é um homem que é aceite pelos outros judeus como especialmente conhecedor da lei judaica e que, portanto, serve de guia espiritual e legal para os outros. Mas essa aceitação é crítica e pode a qualquer momento ser revogada por qualquer outro judeu, isto é, qualquer judeu é livre de pensar que um determinado rabino é mau e se está a afastar da lei e, em consequência, de ir procurar outro rabino que lhe agrade mais.

    O mesmo se passa no islamismo, no qual há muitos líderes espirituais mas qualquer muçulmano é livre de rejeitar alguns desses líderes e preferir outros.

    Ou seja, o islamismo (sunita) e o judaísmo são totalmente diferentes da Igreja Católica, a qual é organizada de forma piramidal e na qual há um clero hierárquico, e na qual todos os padres são supostos espalhar a mesma doutrina.

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  8. «Governo dos sacerdotes» é a teocracia. Como no Irão (tirando a assembleia eleita), no Tibete pré-invasão chinesa, em Israel (com tribunais religiosos que decidem quem é ou não cidadão), ou, exemplo mais puro de todos, o Estado do Vaticano. Clericalismo é um conceito mais abrangente. Clericalismo é tomar como referência conceitos religiosos na política. Como é o caso do Ennahda.

    Repito: clericalismo não é apenas a questão de sacerdotes terem poder político. Na Arábia Saudita, por exemplo, a lei religiosa é central. E eu não diria que é um «governo de sacerdotes». É uma monarquia absoluta e clerical.

    Lavoura, no judaísmo, como no Islão, há determinados actos religiosos (sacramentos) que são exclusivo de sacerdotes. Como o casamento, ou os sacramentos de recepção na infância dos judeus. Não é por não estarem ligados a uma organização vertical e centralizada como a ICAR que os imãs ou os rabinos deixam de ser clero. Parece-me que está a transformar essas confissões religiosas em «protestantismos» radicais que não são.

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  9. Miguel Madeira, o sistema eleitoral tunisino foi provavelmente escolhido para limitar os estragos daquilo que mais se temia: uma vitória esmagadora dos islamistas. Sabia-se que a oposição laica estava dividida, e os clericais unidos. (Havia um pequeno partido islamista mais radical ainda que foi impedido de concorrer; será curioso ver se agora o Ennahda mantém essa proibição.)

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