sábado, 29 de outubro de 2011

A privatização do mundo

Eu acho que as poucas décadas de democracia e prosperidade que a Europa viveu a seguir à segunda guerra mundial são uma anomalia da história e não podiam durar. Sobretudo porque a democracia e a liberdade e a justiça social que as democracias parlamentares do norte da Europa gozaram foram gozadas às costas dos ricos.

Durante as duas ou três gerações que a festa durou a classe alta foi obrigada a pagar impostos e a aceitar os interesses da maioria, pela primeira vez em 12 mil anos. Ninguém achou piada, mas como muitos tinham apostado no Hitler e no Mussolini e no Halifax e no Pétain e no Pio XII, foram forçados a atravessar o deserto. Nos anos setenta, como era de esperar, os ricos reorganizaram-se para ultrapassarem as desventuras da segunda guerra (os Bilderbergs e o WWF, por exemplo, são parte de um esforço vastíssimo dessa reorganização).

E foi neste contexto que há mais ou menos 30 anos que os políticos (e os jornalistas) que aceitaram viver debaixo da mesa dos ricos desataram a dizer mal da política, a sabotar a democracia social e a repetir convulsivamente a mentira de os privados fazerem mais e melhor do que as administrações públicas.

As razões dos ricos são simples e fáceis de perceber: do ponto de vista deles, quanto mais dinheiro tiverem melhor. Não porque consigam gastá-lo - não conseguem - mas por poder e por vaidade, para fazer inveja aos amigos e para viverem acima da lei, como sempre viveram.

As razões dos políticos (e dos jornalistas) também são fáceis de entender: viver debaixo da mesa dos ricos é melhor que viver numa meritocracia. O Barroso nunca teria o que tem se não fosse um sabujo dos ricos.

As razões dos pobres que votam na direita também são óbvias e o Luis Buñuel explicou-as eloquentemente no filme "Viridiana": os miseráveis têm tendência para serem miseráveis. Aqui nos EUA são os miseráveis que estão sempre a falar das pessoas que "são um fardo para as outras". Este é o argumento dos pobres: em princípio são contra ajudar os outros. Verem os outros a viverem melhor, mesmo que também ganhem com isso, é-lhes insuportável.

No fim do dia, só a classe média é que tem alguma coisa a perder, e a classe média está sempre ocupada com os resultados da bola, ou os dramas da telenovela. Não há nada mais fácil do que escandalizá-los com os slogans dos pro-vidas e dos anti-gays, ou aterrorizá-los com os perigos diversos que os pasquins repugnantes que se publicam - como o Público ou o Correiro da Manhã - alardeiam quotidianamente - dantes era o perigo amarelo, depois eram os comunistas a comerem crianças (que comiam, como se sabe, mas não vem aqui ao caso), agora é o islão...

Todos os dias vejo aqui as secretárias do meu departamento, profissionais excelentes e incansáveis, a trabalhar horas extraordinárias sem receberem nem mais um cêntimo, sem aumentos nem perpectiva deles até 2015, a saberem que os administradores ganham entre $250k a $500k por ano e se aumentam todos os anos, e a defenderem o governador crápula que nomeou esta casta de cleptocratas.

Se calhar temos o que merecemos: a Médis e o PPD e o Cavaco e o Alberto João Jardim e o José Manuel Fernandes...