terça-feira, 25 de outubro de 2011

Compreender a Dívida Pública



A origem desta crise explicada às criancinhas ou o essencial de que não falam Camilos, Salgados e Medinas.

11 comentários :

  1. Se bem que concorde com a conclusão final, há coisas que não gosto nesta explicação.

    Por exemplo, fala-se nas dívidas que as empresas e o estado têm à banca como se fossem responsabilidade única dos bancos e não um negócio acordado por ambos com vantagens para ambas as partes.

    Por exemplo, é verdade que as empresas estão muito endividadas, mas presume-se que os seus gestores contraíram tal dívida porque a rentabilidade dos projectos em que investiram o dinheiro era superior aos juros que teriam de pagar pelo mesmo. Assim, estão melhor hoje endividadas do que estariam se não tivessem contraído qualquer empréstimo.

    E os mesmo se aplica ao estado que tenha um eleitorado atento. Se está endividado é porque o eleitorado concluiu que apostar na educação, ou no incentivo ao turismo, ou em infra-estruturas de transporte, ou nisto ou naquilo era algo que valia mais do que os juros pagos por esse investimento.
    E se o eleitorado fez um julgamento errado, a culpa não é dos bancos. Aliás, em Portugal foi a esquerda quem mais defendeu a tese de que o grau de endividamento de Portugal não era excessivo. Não lhe nego a razão nessa tese, visto que o que aconteceu não se deveu ao elevado endividamento, mas sim à crise de 2008, à total desregulamentação dos mercados financeiros.

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  2. Mas o que é interessante é a substituição das "torneiras". Esses investimentos todos com a "torneira" dos bancos ficam mais exposto à arbitrariedade da banca e dos mercados.

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  3. O problema da «torneira» da banca é que com o sistema de reserva fraccionário, enquanto a «água» não «evapora», a criação de moeda constitui uma tributação sobre todos aqueles que detêm moeda, e a tributação só deve caber ao estado, não a privados.

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  4. O vídeo está muito fraquinho. A saber:

    1 - Diz-se que os bancos comerciais fazem dinheiro com as taxas de juro. Em rigor, quando eles usam fundos alheios não fazem dinheiro com as taxas de juro mas sim com o bid-ask spread que aplicam às taxas de juro. A forma grosseira como este assunto é referido no vídeo é perniciosa e desonesta.

    Exemplo: se um banco emprestar dinheiro a outro banco (mercado monetário interbancário), tem duas hipóteses: i) utiliza capital próprio; ou ii) utiliza capital alheio. No caso i) a rendibilidade desse investimento é a taxa de juro de venda de fundos acordada, mas no caso ii) a rendibilidade é a diferença entre a taxa de juro de venda e a taxa de juro de compra (taxa de juro que o banco paga por usar capital alheio, seja ele do banco central, de bancos comerciais, ou de entidades não-financeiras)! O mesmo acontece quando um banco empresta dinheiro a uma entidade não-financeira, com a diferença de que nesta situação as margens comerciais são maiores do que as praticadas no mercado monetário interbancário. Os motivos para isto são vários, sendo o principal: tipicamente o risco de crédito de um banco é sempre inferior do risco de crédito de uma instituição não-financeira.

    De notar que um particular, ou uma empresa, também participa neste mercado monetário. Quando se deposita dinheiro num banco está-se a vender fundos ao banco, e quando se contrai um crédito está-se a comprar fundos do banco. No limite, se se for um particular com uma quantidade significativa de capital pode-se mesmo negociar taxas de juro especiais, ou seja, pode-se vender fundos ao banco de forma personalizada. O mesmo pode ocorrer quando se compra.

    A este nível, a única diferença conceptual entre uma instituição não-financeira (um empresa ou um particular) e uma instituição financeira provém dos preços que uma e outra conseguem obter. As instituições financeiras podem comprar e vender fundos aos bancos centrais, sendo as taxas de compra e venda do banco central as taxas base que depois são propagadas por todos os mercados monetários.


    2 - A alavancagem dos bancos comerciais percebe-se assim. Admitindo que os bancos são obrigados a manter uma razão entre créditos (=C) e depósitos+capital próprio (=DC)

    T = C / DC

    e que toda a moeda que sai como crédito volta a entrar como depósito, então a quantidade de moeda em circulação cresce por um factor:

    1 + T + T^2 + ... = (1 - T)^(-1).

    Seja (1-T) a taxa de encaixe. Portanto, se os bancos forem obrigados a ter uma taxa de encaixe de 100 %, a quantidade de moeda em circulação não cresce. Se, por exemplo, estes forem obrigados a ter uma taxa de encaixe de 50 %, a quantidade de moeda em circulação duplicará.

    Isto não é necessariamente um problema. É uma espécie de impressão de moeda por parte de bancos comerciais. Em último caso, o banco central poderá injectar a moeda nos bancos (vendendo fundos barato), efectivamente imprimindo moeda. O problema surge quando o aumento de moeda em circulação não é acompanhado por um aumento em bens produzidos. Neste caso, está-se a imprimir moeda desvalorizando-a. Assim, ainda neste caso, quem detenha capital está efectivamente a ser prejudicado pelos consumistas, uma vez que o capital perde valor em favor do consumo que não é acompanhado de produção. De notar que "ter capital" significa "diferir o consumo". Se o capital numa certa moeda poder ser criado sempre que dê jeito aos consumistas, ninguém quererá manter o capital naquela moeda.

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  5. Correcção: "poder se criado" -> "puder ser criado".

    Continução:

    3 - Mostrar a dívida pública absolute não faz sentido. Se se olhar para a dívida pública por unidade do PIB o crescimento não é assim tão acentuado como se mostra no vídeo. O vídeo é desonesto. Mesmo que o vídeo possa ter razão em um ou outro ponto, acaba por fazer um mau serviço por subestimar a inteligência das pessoas e recorrer a argumentos errados -- para além de argumentos perniciosos e ultra-simplificadores.

    4 - O crescimento da dívida pública por unidade do PIB não é inevitável como é dito no vídeo.

    5 - Quanto às soluções: não sei. Acho que está um prémio Nobel à espera de quem saiba ;)

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  6. Caro ttdsxo,

    Não sou especialista na matéria e gostei das suas explicações, que agradeço e para mim fizeram sentido.

    Mas não concordo inteiramente com os seus argumentos. Não me parece que o vídeo seja assim tão fraquinho ou simplista, acho que levanta pontos importantes, ainda que esteja incompleto.

    Os seus pontos 1 e 2 são mostrados no vídeo, de forma simples e sem equações.
    Naturalmente que os bancos ganham com os juros, ainda que seja com o diferencial dos juros a que 'compram' e 'vendem' o dinheiro - penso que é o tal 'bid-ask spread' que referiu. Isto não invalida o que o vídeo afirma.
    Quanto à alavancagem, o vídeo também a demonstra, bem como a desvalorização da moeda pela inflação e os empréstimos do banco central aos bancos privados. Se bem percebi, o empréstimo barato de emrgência que referiu é o que tem sucedido entre o BCE e os bancos portugueses, por exemplo.
    O vídeo não defende o fim deste esquema de 'emissão de moeda' pelos bancos privados, nem o regresso exclusivo do empréstimo directo pelos bancos centrais aos estados. Parece-me que advoga uma solução intermédia.

    Em relação à dívida, concordo que não se deve falar do valor absoluto. Mas esse é justamente o discurso vigente quando se fala de dívida!
    Por exemplo, na recente discussão sobre a dívida da Madeira não vi referido o crescimento do PIB madeirense. Tenho a sensação que o aumento da dívida em relação ao crescimento do PIB é muito mais favorável na Madeira do que no total nacional.
    Em suma, a dívida não é má se houver crescimento.

    Para concluir, segundo sei a maioria da dívida dos países europeus é intra-europeia, i.e. entre os estados, bancos europeus e BCE. Se tivéssemos uma verdadeira União Europeia, económica e monetária, não faria sentido contabilizar essas dívidas, nem os saldos comerciais intra-europeus. Por 'milagre', grande parte da dívida desapareceria...
    Aliás, penso que é neste sentido que vai o perdão de dívida à Grécia, partilhado entre as instituições europeias e os privados.

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  7. « O crescimento da dívida pública por unidade do PIB não é inevitável como é dito no vídeo.»

    Nestes filmes contra o sistema de reservas fraccionário (money as Debt, por exemplo) vejo sempre esta falha.

    Há sempre a ideia de que a dívida é resultado inevitável do sistema de reservas fraccionário; que é sempre algo de nefasto; chegando às vezes aos extremos de se alegar que a dívida é superior à riqueza existente (o que é necessariamente falso...) ou que é responsável pelas dificuldades das pessoas comuns e pelos problemas ambientais.

    Parece que quem contrai as dívidas é uma vítima indefesa dos bancos malvados e não um agente responsável que pode tirar vantagens significativas do seu empréstimo.

    O mal que o sistema de reserva fraccionário causa não é para o credor nem o devedor, é para qualquer detentor de moeda que não esteja envolvido na transacção. Só o estado deveria ter o direito de o tributar através da criação de moeda.

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  8. concordo com o ttdsxo, o video é fraquinho,e acrescento: é o vigésimo nono filme que me parece uma cópia reformatada do zeitgeist, já que repete muitos dos erros que este comete.

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  9. O vídeo parece-me didáctico. A maior parte das pessoas não pensa nestas questões. E mete o dedo na ferida: o que se criou através dos créditos fraccionados foi uma espécie de espiral inflacionista. Aumentou-se o «dinheiro» existente sem aumentar a riqueza.

    O filme falha, realmente, por não propor soluções. Mas isso, honestamente, ainda não vi ninguém fazer. A não ser, como se diz mais acima, a «grande fusão»: a dívida intra-europeia deixar de ser dívida.

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  10. Ricardo,

    Aumentar a moeda sem aumentar a riqueza não é necessariamente mau em si. Se for o estado a aumentar pouco a moeda, acaba por ser uma forma de tributação sobre toda a moeda em circulação, sem fugas ao fisco nem um aparato próprio para efectuar a cobrança. E tendo em conta que existe um atraso na forma como a economia reage ao aumento de moeda (os efeitos da obtenção de receita estão diferidos face aos efeitos da sua «cobrança») ele pode ser usado como uma ferramenta para «estabilizar» a economia, atenuando as crises a custo de também refrear um crescimento muito rápido.

    O único problema é quando os dividendos dessa «tributação» são dados aos privados envolvidos nos empréstimos, e não ao estado.

    De qualquer forma, ter criado moeda nesta fase de crise foi óptimo. Não foi claramente suficiente para lidar com ela, mas certamente terá atenuado os seus efeitos. Poderia ter ocorrido uma espiral deflaccionária se o BCE tivesse subido muito mais os juros, e aí não sei o que teria acontecido...

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