sábado, 1 de outubro de 2011

A crueldade e os animais

Acho que a maioria dos textos que se escrevem (desde há muitos anos) contra as corridas de toiros são geralmente justos e razoáveis. Mas os argumentos a favor das corridas também não me chocam.

Tudo somado, julgo que todos concordamos que a moral é uma coisa geográfica, demográfica e social, e que às vezes é difícil estabelecer a verdade sobre um assunto. Isto não quer dizer que não devamos ter opiniões fortes. Mas quer dizer que temos de persuadir os outros antes de desatarmos a proibir coisas ou a perseguir modos de vida que existem há muitos anos.

Somos todos prisioneiros da nossa cultura e às vezes é-nos difícil aceitar certas coisas, que no entanto são perfeitamente normais para os outros. Outras vezes não. Por exemplo: a esmagadora maioria das pessoas acha mais civilizada uma sociedade em que a maioria não mete as minorias no forno, do que uma sociedade em que a maioria mete os vizinhos em campos de concentração por serem gay, ou deficientes, ou por o nome deles acabar em "berg". Por isso, os neo-nazis do New Apostolic Reformation são quase unanimemente desprezados na Europa e nos EUA, e eu não me admirava se um dia fossem proibidos na Europa.

Mas noutros assuntos as coisas são mais difíceis. Aqui os pró-vidas metem-se à porta das clínicas a insultar e a aterrorizar quem lá vai comprar a pílula. E depois vão dançar à porta da prisão, em Huntsville, cada vez que o Rick Perry manda matar mais um desgraçado. Do outro lado da rua, os "liberais" manifestam-se contra a pena de morte e votam pela manutenção do direito ao aborto. E ambos têm razões morais fortíssimas para defender estas posições, opostas, muitas vezes dentro da mesma família. Há anos uma mulher (horrível, na minha opinião) perguntava-me: "Como é que tu podes ter pena de um criminoso que matou uma pessoa e não ter pena de um pobre feto, que não fez mal a ninguém?"

Parece-me estas coisas só se resolvem quando há massa crítica. Como no caso das lutas de cães. Outras não se resolvem. Aqui no Texas todas as famílias têm gatos e arrancam-lhes as unhas, castram-nos e fecham-nos em casa sozinhos o dia inteiro, a verem pássaros pela janela, impotentes, desgraçados, eunucos. Ou fazem coisas inacreditáveis aos cães e prolongam-lhes a vida com quimioterapia e deixam-nos arrastarem-se pela casa, cheios de dores, incontinentes, meses ou anos a fio.

Não sei se a maioria das pessoas faz ideia das condições em que a carne de vaca é criada, pelo menos aqui no Texas: os novilhos enterrados em esterco a vida inteira, sem se poderem mexer, e abatidos aos molhos, em matadouros horríveis, aterrorizados com o cheio do sangue dos que foram primeiro, horas a fio, num sofrimento muito mais violento do que o dos toiros de morte.

Claro que as corridas de toiros são um espetáculo medieval e cruel. Mas e os bairros de lata?