sábado, 22 de outubro de 2011

Salários e competitividade

Este texto de João Ferreira do Amaral merece ser citado na íntegra. Os destaques a negrito são meus:

«Recorrentemente, alguns economistas estrangeiros e portugueses vêm sugerir uma descida de salários nominais como forma da nossa economia ganhar, ou melhor, recuperar a competitividade externa que tem perdido desde meados dos anos noventa.

O problema de se fazerem afirmações como estas é que elas se referem a um assunto muito sério, que afecta de forma directa o rendimento de milhões de famílias e que, portanto exigiriam à partida uma fundamentação económica clara. O justificado alarme público que tais declarações provocam imporia, com efeito, que quem as faz demonstrasse com cálculos credíveis a justeza da sua proposta.

Do nosso ponto de vista, a proposta de redução salarial no sentido de melhorar a competitividade não tem qualquer fundamento técnico-económico sólido e revela que quem a sugere não fez um mínimo de cálculos sérios sobre o assunto.

Tentámos, por isso avaliar em que medida se justificaria uma redução salarial nominal para obtermos uma melhoria da competitividade. Para isso, como base na matriz de relações inter-industriais de 2005 (fluxos nacionais) calculámos o conteúdo em salários - conteúdo directo e indirecto (este último através das matérias-primas e outros fornecimentos que o sector exportador consome) - do sector exportador. E chegámos à conclusão que esse conteúdo é de cerca de 33%, ou seja, se os salários diminuírem (ou aumentarem) 10% os preços das exportações, tudo o resto se mantendo constante, caem (ou sobem) 3,3%. O que é que isto significa? Significa que a descida de salários é um instrumento particularmente ineficaz para melhorar a competitividade externa. Por exemplo, para se atingir uma melhoria de 20% na competitividade externa os salários teriam de descer 60%!

Porque é que isto sucede? Por um a razão evidente: é que o conteúdo directo e indirecto em importações das exportações portuguesas é muito elevado (cerca de 40%, de que uma parte importante tem a ver com o petróleo) pelo que só os restantes 60% do valor das exportações são repartidos entre salários e rendimentos do capital.

E, note-se, nem sequer argumentamos com outros efeitos da descida salarial claramente inaceitáveis, como seja o seu impacte na solvência das famílias que recebem rendimentos salariais, as quais veriam os seus rendimentos descer ao mesmo tempo que as dívidas que contraíram se manteriam no mesmo valor.

A nossa conclusão é a de que quem advoga uma descida geral dos salários nominais para melhorar a competitividade externa teria toda a vantagem em fazer algumas contas

11 comentários :

  1. O Prof. João Ferreira do Amaral é um dos economistas portugueses que mais admiro. Mas parece-me que há uma parcela que falta nas conta que apresenta. Não basta relacionar o valor de mão-de-obra nacional incorporado nas exportações para aferir a interferência dos salários na nossa competitividade. Tem que somar também o seu peso nas importações que fazemos.

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  2. No fim do dia o problema é esta mentalidade americana de as pessoas falarem por slogans, sem pesarem as consequências das medidas que advogam. Estas ideias absolutamente anormais e orwelianas: os impostos debilitam o crescimento económico, ou outras cavalidades semelhantes, são axiomas de fé, como a virgindade da Nossa Senhora, desmentidos pela realidade TODOS os dias. As empresas em NYC pagam MUITO MAIS impostos que as empresas em Syracuse, NY, e Syracuse está a morrer e NYC continua a crescer.

    O neo-liberalismo é uma religião, e uma religião muito boçal, sem sofisticação teórica nenhuma.

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  3. Um dia escrevo aqui a verdade sobre Milton Friedman, esse boçal cuja ideologia era odiar os pobres e que encontrou aliados nos cleptocratas do Chile e dos EUA.

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  4. Nuno Gaspar:

    «Tem que somar também o seu peso nas importações que fazemos.»

    Peço-lhe favor de explicar melhor isto. Em que medida é que os salários afectam a competitividade externa via importações?

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  5. JV,
    O que é que não entendes? Se os salários são demasiado altos para aquilo que produzimos e as empresas não conseguem competir com as suas congéneres estrangeiras, estas fecham, os trabalhadores vão inscrever-se para receber o fundo de desemprego e o que elas produziam passa a ser importado. Qual é a dúvida? Não é isso que tem acontecido em larga escala?

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  6. Nuno Gaspar,

    Se era a isso te referias, não há qualquer omissão por parte de João Ferreira do Amaral naquilo que escreve.

    Aquilo que João Ferreira do Amaral escreve é que os salários afectam pouco a competitividade das nossas exportações. Ora o que descreves não corresponde a um factor que diminua a competitividade das exportações que não tenha sido considerado. Quando muito, corresponderia a um factor que diminua a competitividade da produção nacional face às importações, que é uma questão diferente.

    Sobre essa questão podemos especular que os nossos salários são excessivos, e uma diminuição pode aumentar significativamente a competitividade, mas novamente será uma especulação sem fundamento empírico, e que pode ser demonstrada falsa como a anterior.


    E quanto ao que «tem acontecido» por cá, tem acontecido em todo o mundo desenvolvido. As fronteiras estão abertas para países como a China onde os sindicatos são reprimidos pelo governo, onde há crianças e adultos a trabalhar nas fábricas com horários escravos. Uma diminuição dos nossos salários será realmente eficaz a evitar que a nossa produção seja substituída por estas importações? Só se quisermos os nossos trabalhadores a competir com estes a respeito de qual tolera melhor a escravatura.
    Por isso, imagino que esta via para aumentar a competitividade também seja altamente ineficaz. Agora é aguardar as contas, para que isto seja mais fundamentado que o palpite oposto.

    O que parece evidente é que a forma desejável de fazer face a estas importações seria abrir as fronteiras apenas caso se verificassem algumas condições - sustentabilidade ambiental, garantia de que condições de saúde e segurança mínimas aos trabalhadores envolvidos na produção, um número máximo de horas de trabalho semanais, e a garantia de que não existem crianças envolvidas na produção. Sem que este tipo de condições se verifiquem, deveriam existir tarifas alfandegárias - tanto maiores quanto mais distante estivesse o país em causa do seu cumprimento.
    Na UE faz sentido que estas barreiras sejam inexistentes, porque existe um conjunto comum de condições de produção que são semelhantes. De resto, esta deveria ser a forma de proteger a produção nacional, ao mesmo tempo que se contribui para um mundo mais justo.

    Os Ingleses fizeram isso mesmo - aliaram a defesa dos seus interesses económicos à defesa de um mundo mais justo - quando penalizavam as importações de toda a produção externa que envolvesse escravos (depois de eles próprios terem ilegalizado a escravatura).

    Nós deveríamos fazer o mesmo, e vez de caminharmos no sentido de sermos nós a permitir a escravidão.

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  7. "...a competitividade da produção nacional face às importações, que é uma questão diferente."

    Ah é? Então qual é a diferença entre exportar muito e importar ainda mais ou importar pouco e exportar ainda menos?

    "As fronteiras estão abertas para países como a China"

    Os dados não confirmam o que dizes, João Vasco. 75% das nossa importações provêem da União Europeia. Apenas 5% da Ásia.

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  8. JV, o Reino Unido fez isso quando näo haviam empresas inglesas radicadas no estrangeiro onde a escravidäo fosse permitida. QUANDO ou PORQUE, eis a questäo.

    De qualquer modo, o resultado final foi o melhor: forçar à adopçäo do comportamento justo.

    Hoje em dia a China detém mäo-de-obra ao preço da uva mijona e 50% da dívida externa. Säo eles a ditar as leis. E as corporaçöes agradecem porque o "bottom line diminui"... logo mais lucros!

    O RUdI,S,eIdN de 2011 opös-se à Taxa Tobin Financeira "du Barroso" porque é sede da maior praça financeira da UE...

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  9. NG, näo é pelos salários. Os produtos alemäes chegam aos supermercados portugueses mais baratos que aqueles feitos em Portugal. Logo por aí se vê que a questäo fulcral näo é nos salários. Será no investimento em tecnologia e investigaçäo?

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  10. "näo é pelos salários"

    Pois não. É pelo que eles produzem.

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  11. Nuno Gaspar,

    «Ah é? Então qual é a diferença entre exportar muito e importar ainda mais ou importar pouco e exportar ainda menos? »

    A diferença é que as contas a que o texto se refere não estão incompletas.

    Tu podias desejar que além da influência dos salários na competitividade das nossas exportações, fosse calculada também a sua influência na nossa produção em geral. Eu também desejo. Só que aquilo que foi calculado não o foi de forma incompleta.

    «Os dados não confirmam o que dizes, João Vasco. 75% das nossa importações provêem da União Europeia. Apenas 5% da Ásia.»

    Isso não contradiz a minha afirmação. Se 75% das empresas que fecham correspondem a deslocalizações para a Europa, e as outras 5% para a Ásia, aí sim isso tornaria quase irrelevante o fenómeno a que aludi. Mas parece que não, que as importações asiáticas, por pequena que seja a contribuição, tem sido crescente e que é esse crescimento que tem levado ao fecho de algumas empresas nossas, notoriamente no sector têxtil.


    Maquiavel,

    Pois!

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