quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Lições líbias

A 1 de Setembro de 2010, José Sócrates sentou-se ao lado de Muamar Kadhafi na tribuna de honra. Celebrava-se o 41º aniversário da ditadura líbia. Os negócios (petróleo para nós e construção civil para eles) corriam bem. Kadhafi tornara-se respeitável, todos os líderes europeus o abraçavam e a CIA confiava-lhe jihadistas para torturar.

A semana passada, pouco mais de um ano após esse aniversário, os media exibiram indecorosamente imagens do mesmo Kadhafi linchado por uma multidão em fúria.

Há lições a aprender.

A diplomacia portuguesa, então liderada por Luís Amado, reagiu incomodada ao início da revolta que, sentiu-se, atrapalharia negócios. Acontece que os povos não se guiam apenas por interesses comerciais. E uma política externa que faça destes o único valor é, portanto, curta de vistas.

Teme-se agora que Paulo Portas nada tenha aprendido com os erros do antecessor. Na sua muito mediatizada visita à Líbia pareceu apenas preocupado com as relações comerciais. Permanece em silêncio face à recusa do CNT de investigar a morte de Kadhafi e dezenas de execuções sumárias de kadhafistas, e depois do anúncio de que o novo regime se baseará na sharia. O MNE francês, menos obcecado com os interesses económicos, frisou que os valores da alternância democrática e da igualdade de direitos entre homens e mulheres foram relevantes no apoio europeu à revolta. Faz diferença.

15 comentários :

  1. "os valores da alternância democrática e da igualdade de direitos entre homens e mulheres foram relevantes no apoio europeu à revolta. Faz diferença"

    Não seja cínico, Ricardo. Kosovo, Iraque e Líbia são estátuas de um mesmo monumento à hipocrisia ocidental.

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=0zvJTBXcJwM

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  2. Concordo. Os europeus e os americanos manipulam completamente os media e mandam os "jornalistas" dizer-nos o que lhes apetece esta semana. Os heróis de ontem são os vilões de amanhã; basta pisarem os calos a um oligarca qualquer, ou a um negociante de armas.

    Lembram-se da "libertação" do Kuwait? Quando é que são as eleições?

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  3. Nuno,
    está a comparar processos muito diferentes. O Cosovo foi um pretexto para atacar Milosevic; a invasão do Iraque não foi propriamente desejada pelos iraquianos; a guerra líbia foi iniciada por uma revolta dos próprios líbios. Se não entende estas diferenças, não entende o que quis dizer...

    (Quanto ao seu vídeo, parece uma peça de propaganda.)

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  4. Não é apenas propaganda: a senhora que aparece no vídeo trabalha para a televisão pública iraniana e para o Pravda. E andou acompanhada na Líbia pelo Thierry Meyssan, um dos loucos que acha que o 11 de Setembro foi uma encenação.

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  5. Ricardo,

    Não encontro diferenças. Nas três situações são invocados hipócrita e demagogicamente a necessidade de democracia e respeito por direitos humanos para justificar intervenções militares externas que permitam remover o regime que não convém a interesses ocidentais. Hipócrita e demagogicamente porque, no processo, morre, por morte violenta e escusada, muito mais gente do que durante o período julgado opressor. E porque no regime seguinte a democracia e os direitos humanos e civis são ainda menos respeitados. Acresce que, após umas sessões de fotografia fugazes, de populares com bandeirinhas e dedos em V, tomam o poder políticos ainda mais afastados dos interesses e dos valores ocidentais. Obviamente, ninguém está a defender aquelas ditaduras, mas demasiadas vezes esquecemos que os fins não justificam os meios.

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  6. Concordo com o Nuno Gaspar.

    Luís Amado fez bem em não meter Portugal nesta nojeira da guerra contra a Líbia. Paulo Portas faz bem em prosseguir a política do seu antecessor.

    Ricardo Alves é um ingénuo que vê diferenças entre o Iraque e a Líbia quando elas não existem.

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  7. Nuno,
    na Líbia estava um regime simpático ao «ocidente» (desde 2004): Cadáfi tinha aberto o seu país às empresas europeias e norte-americanas, era recebido por todos os líderes «ocidentais», e confiavam nele ao ponto das CIA´s lá mandarem alqaedistas para serem torturados. Hussein ou Milosevic eram detestados.

    Na Líbia, houve uma revolta autóctone, que aconteceu na sequência das revoltas na Tunísia e no Egipto. No Iraque não existia essa situação em 2003: o país estava estabilizado. No Cosovo de 1999 havia uma guerrilha de baixa intensidade.

    Estas são duas diferenças importantes. Outra é ter havido mandato da ONU para a intervenção na Líbia.

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  8. Ricardo,

    Invoca pormenores. A Europa, querendo ou não, está em processo de islamização, lenta mas inexoravelmente. Estas manobras político-militares erráticas e imberbes, junto com as fantasias revolucionárias de uma série de gente que as apoia, mais não fazem do que acelerar o apertar do cerco. Você e os seus colegas ateístas, ao volante de caterpillares e cilindros compressores, colaboram na terraplanagem cultural que lhes dá as boas vindas. Ainda vai ter muitas saudades de inofensivos crucifixos nas paredes. Ai vai, vai.

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  9. Nuno Gaspar,
    eu conheço muito bem o discurso alarmista-paranóico («eurabiano») que proclama que a Europa será parte de um califado daqui a 30 anos. É o discurso de Anders Breivik. O Nuno, ao resvalar para esse discurso, que não tem bases sólidas, pense bem no que faz. Breivik fez o que fez para tirar da «apatia» pessoas como o Nuno.

    Quanto à «terraplanagem»: eu sempre escrevi de forma condenatória sobre o islamismo. Não embarco é em anátemas de povos inteiros, nem acho que a democracia seja completamente impossível num país em que a religião tradicional é muçulmana.

    E não são os 41% do Ennahda que me vão desmoralizar definitivamente.

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  10. Já agora, só para eu entender: o Nuno Gaspar e o Luís Lavoura estão a defender que a Líbia, a Tunísia e o Egipto estariam melhor com as ditaduras de Cadáfi, Ben Ali e Mubarak?

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  11. "estão a defender que a Líbia, a Tunísia e o Egipto estariam melhor com as ditaduras de Cadáfi, Ben Ali e Mubarak?"

    O futuro nos irá dizer. Para já, as mulheres iraquianas e afegãs podem trocar umas impressões consigo sobre o que é melhor ou pior.

    "Breivik fez o que fez para tirar da «apatia» pessoas como o Nuno"

    Pol Pot e Estaline também fizeram o que fizeram para exterminar a religião. Você faz outras coisas com o mesmo objectivo. Acha que tem alguma coisa a ver com eles?

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  12. Propaganda da senhora? E as respostas às questöes que ela colocou? Al-Qaedistas torturados, como o novo comandante militar da Tripolitänia?

    Entäo o homem era täo odiado pelos líbios, mas täo odiado täo odiado täo odiado täo odiado täo odiado, que o enterraram no meio do deserto para näo "criarem um local de romaria" ao defunto? Quem lá iria?

    As potências que se encarregaram de "defender os civis" mataram mais civis ainda. Arrasaram bairros residenciais, eu vi e foi na imprensa e TVs ocidentais.

    O que acho chocante é nenhum país africano, democracia ou näo, petróleo ou näo, conseguir ter o IDH da Jamaria Líbia. Entäo o Sul de África a organizar Campeonatos do Mundo e afinal...

    Democracias em países muçulmanos säo possíveis, como na Turquia. Mas no país supostamente mais secular do Magrebe ganhar o Nanda com 40% foi um balde de gelo.

    Já os rebeldes "democratas" imporem a Sharia näo foi balde nenhum, foi tanta a surpresa como as medidas neolibrais do Passos, porque ditas desde o início.

    E o Yemen, pá? E o Bahrain, invadido por um país fundamentalista, pá?

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  13. Nuno,
    não é por a situação das mulheres afegãs ter sido melhor durante a ocupação soviética que eu vou começar a cantar o hino da URSS. E note que eu fui contra as guerras do Iraque e do Cosovo, e não me arrependo nada.

    Quanto ao Pol Pot e ao Estaline, não tinham por objectivo «exterminar a religião». Queriam implantar, à bruta e matando quem fosse necessário, uma sociedade comunista. A religião, para os marxistas, era um assunto secundário. Até há bastantes exemplos de colaboração entre comunistas e católicos, por exemplo na América Latina...

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  14. http://viasfacto.blogspot.com/2011/10/cruzada-dos-nescios.html

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  15. Nuno Gaspar,
    eu não celebrei (nem chorei) a morte de Cadáfi. E critiquei neste blogue a exibição do seu cadáver.

    Há uma diferença entre escolher o mal menor numa guerra e aceitar tudo o que é feito por um dos lados dessa guerra.

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