domingo, 13 de março de 2011

Os avestruzes do fanatismo e os avestruzes do conformismo

Começo por agradecer aos organizadores da manifestação de ontem por terem conseguido transformar a «geração rasca» em «geração à rasca». Durante duas décadas, a minha geração foi designada de «rasca» por causa dos excessos de uma manif e devido a um editorial de Vicente Jorge Silva alegadamente desfigurado por uma gralha.

Como o Miguel Carvalho, tenho ambivalências perante manifestações com objectivos tão difusos, e sem uma organização estruturada. Mas é muito significativo que tenha sido justamente a ausência de partidos e sindicatos que tenha permitido uma mobilização impressionante. Assim como, é evidente, o viver-se a maior crise social desde os anos 80.

A manifestação deve ser tomada por aquilo que foi: um protesto essencialmente de esquerda nos símbolos adoptados e nas pessoas presentes, contra as consequências sociais da crise económica, e desencadeado pelas frustrações do precariado. E a principal questão a enfrentar é essa: desde os anos 80, multiplicaram-se as variadas formas de fazer trabalhar as pessoas sem lhes garantir um emprego: os recibos verdes, os contratos a prazo, as empresas de trabalho temporário, os estágios com e sem remuneração, até as bolsas. É óptimo para as empresas, é bom para os governos, mas é péssimo para as pessoas. Não permite que os indivíduos consigam ter perspectivas de vida estruturada, com continuidade laboral. Não mata tanto como o desemprego, mas mói, e muito.

Os partidos do arco governativo, que são os principais responsáveis por esta situação, não manifestam qualquer interesse em a alterar. Sócrates, ontem, sentiu-se obrigado a manifestar «compreensão» pelo protesto. Mas, nas medidas que elencou em defesa própria, não fez qualquer referência aos problemas laborais na origem desse mesmo protesto, o que não sei se terá sido uma confissão de impotência para alterar as regras do jogo, ou um sinal do seu desinteresse ideológico pelo sentido da manifestação.

Há dois tipos de avestruzes nas reacções à manifestação: os avestruzes do fanatismo ideológico e os do conformismo situacionista. Os primeiros, reconheça-se-lhes a honestidade, são a favor de mais e maior precariedade. Escravatura, para eles, é ter um emprego de longo prazo. Que dezenas de milhares de pessoas gritem na rua o exacto contrário não belisca o seu dogmatismo neoliberal. Os segundos, de esquerda mas incapazes do mais pequeno acto que possa ser entendido como crítica ao socrático governo, murmuram que «não há alternativa» e que são «meninos mimados» os que se queixam. A esses, gostaria de perguntar se a sociedade ideal em que gostariam de viver é uma em que virtualmente ninguém com menos de 35 anos tem um emprego estável? É que a situação não está a melhorar, e não é ignorando os sintomas que se trata a doença.

15 comentários :

  1. recupero o que comentei no post anterior: existem, sem dúvida, muitos problemas para/por resolver. mas não me parece que se tenham juntado 200 mil conscientes de um caminho ou de uma solução; tu próprio reconheces a clara falta de objectivo (sem falar numa manifestação que era contra alguma coisa e não realmente a favor de nada).

    e acho que um dos problemas por resolver é o imobilismo: quantas pessoas procuram não um emprego, mas um emprego no bairro onde vivem? quantas pessoas procuram emprego fora do país, ou sequer já trabalharam no estrangeiro? quantas estão dispostas a mostrar espírito empreendedor, criar os seus próprios postos de trabalho? tantos tão descontentes e com tanta aparente qualidade poderiam dar um contributo bem mais útil ao país criando novas e melhores empresas!

    repito: muita coisa está mal e vai ficar pior. mas este género de queixume do fado é um peditório que não conta com a minha simpatia.

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  2. ricardo,
    se a solução é as pessoas irem trabalhar para o estrangeiro, então é porque abdicámos de esperar que haja soluções em Portugal. É porque abdicámos de acreditar que este país pode funcionar. A UE não é os EUA e nunca será: as pessoas nos EUA podem mudar de emprego de uma costa à outra, mas não têm diferentes línguas, diferentes culturas, diferentes sistemas de segurança social, e diferentes sistemas políticos. E, além disso, não querem.

    Quanto ao sermos todos empresários, é só uma utopia...

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  3. acerca do empreendorismo: não me passa pela cabeça criticar a ideia, obviamente, mas penso que, numa altura de retração da economia, estes sejam os piores tempos para uma pessoa começar um negócio. talvez serviços/produtos direcionados ao mercado da crise façam sentido mas isso limita muito o campo de atividade.

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  4. ricardo: se a UE não caminhar para ser mais como os EU, então estamos a abdicar da europa, que se vai tornar num continente marginal num par de décadas.

    ricardo e dorean: se ninguém se quer mexer para fazer nada por causa dos "riscos", então sem dúvida tudo o que lhes resta são manifs a pedir que alguém lhes resolva os problemas. mas essa falta de proactividade apenas merece ser recompensada com o imobilismo do próprio sistema...

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  5. ricardo,
    podemos discutir as soluções: o código do trabalho, a prazo, tem que ser alterado; e deveria haver incentivos fiscais para as empresas que não abusam dos recibos verdes e da «rotatividade» dos colaboradores.

    Mas o primeiro passo para discutir soluções é assumir que há um problema (era esse o principal objectivo da manifestação, parece-me). E para ti parece que não há problema. Queres mesmo viver numa sociedade (mesmo que seja a nível europeu) em que não há estabilidade laboral antes dos 40?

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  6. Ricardo S.,

    pelas razões que o Ricardo A. aponta, a demografia da emigração é dominada pelos extremos profissionais: os muito qualificados/especializados e os nada qualificados/especializados. acho que a maioria dos que se manifestaram não pertence a nenhum dos grupos.

    dentro do espaço nacional, toda a razão. uma, entre muitas razões, para que metade da população resida à volta de lisboa ou porto.

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  7. ricardo: parece que nem a primeira linha do meu primeiro comentário leste. assim é difícil...

    dorean: a própria merkel já anunciou que a alemanha precisa de muita mão de obra na categoria da dos manifestantes...

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  8. Ricardo S.,
    certo que a economia não parou e até há empresas a começar a sua atividade neste momento, "enquanto falamos".
    mas hás de convir que, sem capitais próprios, um tipo cheio de boas ideias vendíveis e com montes de contatos, tem ainda de pedir empréstimo ou pedir v.c..
    acontece que nesta altura do campeonato, nem bancos nem v.cs. estão muito aventureiros.

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  9. "a própria merkel já anunciou que a alemanha precisa de muita mão de obra na categoria da dos manifestantes..."

    a merkel é tótó.
    vai aqui ver: http://jobs.justlanded.com/en/Germany/1

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  10. "em que não há estabilidade laboral antes dos 40?"

    E depois dos 40? Passa a haver?

    Como podem existir empregos estáveis com empresas precárias e até com um estado precário?

    "Quanto ao sermos todos empresários, é só uma utopia.."

    Não se trata de sermos todos empresários. Trata-se de não ser hostil para com quem tem iniciativas e de não as tentar submergir com sucata legal, fiscal, trabalhista, ambiental, nacional e europeia. Com a actual represa burocrática, só um tonto ou quem é dono de negócios monopolizados pode ter coragem de investir. Ou quem investe com o dinheiro que não é seu.

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  11. Ricardo Schiappa, perdoe-me, mas a sua argumentação não passa de conversa tipo taxista. Ah e tal, não querem trabalhar, vão mas é trabalhar em vez de se manifestarem, querem empregos para a vida (a propósito, qual é o mal nisso?), ao pé de casa (e qual é o mal nisso?). Nunca pensei que alguém supostamente de esquerda caísse neste tipo de argumentário, mas lá está, o amor é cego, e o Schiappa ainda anda apaixonado pelo Sócrates.
    A questão é muito simples: aquilo por que se protesta é contra a precariedade, ou antes, contra uma situação em que passou a ser a regra, quase em exclusivo, das relações laborais em Portugal. Não se trata de querer ter um emprego ao pé de casa: trata-se de querer ter um emprego que permita a uma pessoa ter uma perspectiva "normal" da sua vida futura: que tenha mais ou menos a ver com aquilo por que se especializou, que lhe permita sair de casa dos pais, juntar-se ou casar, ter filhos. Todas essas coisas aparentemente tão banais tornaram-se hoje em dia verdadeiros luxos neste país. E sim, é suposto que as pessoas aspirem a ficar no seu país (pelo menos as que assim o desejam). Eu por exemplo, apesar de adorar viajar, não tenho espírito nenhum de emigrante, gosto de viver em Portugal, da maneira como os portugueses vivem, e já dou por mim a ponderar emigrar; o que, a concretizar-se farei a contragosto. Fui protestar no sábado porque o meu país não está a cumprir para comigo aquilo que se espera de um país que supostamente pertence ao mundo desenvolvido, e não está a cumprir com outros que sacrificaram muito das suas vidas para que o país supostamente agora pertença ao mundo desenvolvido. Não se trata de ter o emprego ideal: trata-se de conseguir, aos trinta e tal anos, visualizar um futuro minimamente decente em Portugal; outra vez utilizando o meu exemplo, até gostava de ter filhos e acho um bocado chato ainda não o poder fazer. Depois, ainda sou acusado pelos taxistas, perdão, pelos Schiappas desta vida, de ser eu o principal responsável por isto, por querer o emprego ideal, por não ir trabalhar para a Suiça, por não aceitar como normalíssimo ter de trabalhar a recibos verdes, ou por não ser um herói do sacrifício e do trabalho que não queira ter dois trabalhos, trabalhar 14 horas por dia e não ter folgas (em suma, ser um escravo), porque no século XXI os modelos a seguir são os dos campeões do sacrifício, que perdem a sua vida toda para conseguir subir na vida, e não se queixam, não vem para a rua, apesar de saberem que os ricos não contribuem como deviam para aguentar o edifício do Estado e que são os que trabalham que aguentam com tudo, não se queixam: trabalham mais. Fazem empresas, apesar de não saberem muito bem como, já que os bancos não lhes emprestam dinheiro e não conseguirem poupar sem descer à condição do escravo acima descrita. Mas fazem empresas, não se queixam. Não sabem que foi para isto que se fez a Europa e o estado social? Para que se torne regra regressar à situação do século XIX em pleno século XXI, toda a gente achar isso normal, e ainda elogiar os que, em vez de ir para a rua protestar, tem 2 ou 3 trabalhos e nenhum tempo livre para poder ficar com as migalhinhas que sobram?

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  12. ninguém com mais de 40 tem um emprego estável depois de despedido
    ou exonerado por falência

    desde a queda do couto mineiro do Pejão

    ou de outros afundamentos da indústria têxtil nos anos 80

    e ninguém se preocupou muito com os velhos trabalhadores sem reciclagem

    eram velhos esperassem 10 ou 20 anos e chegavam à reforma

    vosmecês só têm de esperar 30

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  13. logo querem ter tempo para ir à discoteca, tempo para foder
    caminha ao pé do trabalho

    não querem dormir em quartos mal-cheirosos, emigrar e ter tudo aquilo que 6mil milhões de pessoas nunca tiveram

    e 2 milhões de portugas que trabalharam de sol a sol para ter reformas de 200 euros ou menos

    também nunca tiveram

    não querem ser escravos

    querem ser donos de escravos?

    andar à Gandaia em Lisboa
    pode render 30 a 50 euros por noite

    ao fim de um mês são 1000 euros
    a 1200 euros

    alguém se quer dar ao trabalho
    ou ser magarefe ou padeiro às 3 da matina

    dá cabo da vida social?

    há que fazer escolhas

    havia um gajo na cidade universitária

    que limpava os restos de papel e de metal que eram deitados fora pelas reprografias
    apanhava umas 7 tones de papel por mês a 8$ o quilo
    56contos e uns 500kilos de metal

    cobre alumínio ferro tirava ai mais uns 20 e tal contos

    era desprezado pelos outros
    sujar as mãos em Portugal não dá status

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  14. olha, andré, pá, eu estava aqui a pensar se te respondia com a mesma falta de educação, assim tipo de taxista para varredor de esgotos, se é que já te promoveram, para te dizer para não fazeres figura de parvo totalitário de quem se julga dono da esquerda ao achares que sequer sabes o que se passa na minha cabeça, ou que podes dar palpites sobre as minhas opiniões políticas presentes ou futuras baseadas nas passadas (o que, não sendo uma tarefa assim tão difícil, para ti parece estar fora do alcance), mas depois achei que realmente ir por esse caminho de ataque ad hominem só mesmo para quem não tem qualquer ponta de capacidade argumentativa e, já que argumentos não tens, também não sou eu que te os vou dar. safa-te.

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