quinta-feira, 10 de março de 2011

Não só os transportes públicos devem ser subsidiados como é inteiramente expectável que as empresas de transporte público dêem prejuízo

Discordo de quem discorda dos subsídios aos transportes públicos, como parece ser o caso do Miguel.
As políticas que pretendem implementar um dado comportamento não podem partir do pressuposto (largamente contrariado pela experiência quotidiana) de que as pessoas são boazinhas ou responsáveis. Pode-se esperar que, um dia, uma população muito educada decida prescindir do uso quotidiano do carro (sempre que existirem transportes públicos) pelo custo que tal acarreta em combustíveis, dependência energética, emissão de gases poluentes... Para o cidadão médio isso não quer dizer nada: é sempre com os outros. Pode-se esperar que um dia o mesmo cidadão compreenda o prejuízo social e a perda de tempo que constituem os engarrafamentos, mas ele acha mais confortável e sinal de um certo status fazer as viagens em carro próprio, e quanto a isso da perda de tempo, não se perde tempo num carro: vai-se ouvindo rádio sentado, e os atrasos devidos ao trânsito são socialmente bem aceites. Pode-se esperar, finalmente, que ele compreenda que os engarrafamentos são causados pelo excesso de tráfego automóvel, e que tal é incomportável, mas ele pensará que a culpa é sempre do governo e das câmaras que não constroem mais estradas e túneis.
Não se pode esperar que as pessoas sejam boazinhas ou responsáveis, pelo que se queremos que a generalidade da sociedade adote um determinado comportamento ou se governa por decreto ou se lhes (nos) vai ao bolso (eu prefiro a segunda opção). Tal como se demonstra que o aumento do petróleo (e a introdução de portagens em certas SCUTs) levou a um aumento da utilização dos transportes públicos, creio que ninguém contestará que a diminuição ou cessação da comparticipação dos preços dos transportes públicos, por si só, como propõe o Miguel, levará à diminuição do uso dos mesmos e ao aumento do transporte privado.

Das quatro razões apresentadas pelo Miguel, a 3) e a 4) não têm nada a ver com transportes públicos. Discordo da razão 2) por não reconhecer ao Miguel nem a ninguém o direito de julgar o que são “comportamentos desejáveis” relativamente ao aluguer de casas (a maior parte dos portugueses prefere comprar casa própria no subúrbio de grandes cidades a alugá-la no centro, e acho que fazem muito bem). Discordo do ponto 1) por ser parcial: se o interior pobre subsidia o transporte público das grandes cidades (as pessoas que os usam não são muito mais ricas que as do interior), as cidades subsidiam o interior numa porção de infraestruturas que à partida são muito mais caras e menos rentáveis de construir e manter que nas cidades. Seja a distribuição de correio, eletricidade, água e telefone, sejam escolas e hospitais (mesmo apesar dos recentes encerramentos). Por mim, tais subsídios deveriam ser estendidos a mais cidades e não só a Lisboa e Porto; a única diminuição da contribuição estatal que eu admitiria (e provavelmente faz mesmo algum sentido) seria se fosse substituída, no mesmo montante, por uma contribuição municipal, paga por cada autarquia através dos respetivos munícipes.