quarta-feira, 16 de março de 2011

Os apoiantes do PCP e do governo são tão parecidos...

Foto de Daniel Rocha ("Público")

Parece inegável que as manifestações de sábado passado constituíram um sucesso: por todo o país, no conjunto, foram provavelmente as maiores desde o PREC. Mas não foram um sucesso somente em termos de adesão: trouxeram definitivamente a precariedade para a ordem do dia. Nas próximas eleições legislativas, nenhum partido ou candidato a primeiro ministro poderá furtar-se a este tema: será provavelmente o assunto principal de campanha. E isto por si só é uma grande vitória.
O objetivo, plenamente conseguido, era só este: demonstrar que este problema é compreensivelmente uma das principais preocupações dos portugueses. A partir de agora, sim, vai começar o debate de ideias sobre como lidar com este problema.
Infelizmente, não me parece que os partidos políticos à esquerda, excetuando talvez o Bloco, estejam a compreender verdadeiramente o alcance de tudo o que se passou no sábado.
Do lado do PCP, todo este protesto é olhado com desconfiança, por não ter partido dos setores habituais, ligados (e por vezes controlados) por este partido. É claro que o PCP não deixa de saudar os manifestantes, mas desconfia deles por não participarem nas suas iniciativas. Do tipo “os malandros manifestaram-se no sábado passado, mas na manifestação da CGTP do próximo sábado só vêm os do costume”. Na blogosfera há vários exemplos de militantes e apoiantes do PCP que o afirmam explicitamente, como aqui e aqui.
Do lado do governo, é natural que haja algum desconforto e relutância. Uma manifestação, de certa forma, é sempre contra quem detém o poder, embora esta não fosse explicitamente uma manifestação contra o governo. Não teria ficado mal ao PS ter-se pronunciado sobre a mesma, de uma forma moderada, obviamente sem entrar em confronto com o governo. Afinal, o eleitorado base do PS revê-se, de uma forma creio que esmagadora, na manifestação. O estar a fingir que nada se passou (ou, pior ainda, a fazer graçolas de gosto duvidoso) revela um divórcio entre o PS e a sua base natural de apoio, e isso não augura nada de bom.
Não deixa de ser curioso que ambos os partidos, que divergem em tanta coisa, encarem a manifestação com a mesma desconfiança: por escapar ao seu controlo. Mais ainda no caso do PS: por não querer aceitar que lhe façam críticas. Mas não é essa a crítica mais habitual que se faz ao PCP? Não digo que os partidos devessem ter aderido à manifestação; agora, não deveriam fingir que nada se passou.
É notável que a maior manifestação desde o PREC não tenha sido convocada por nenhum partido, estando à margem deles. De certeza que o apoio explícito de um desses partidos só a enfraqueceria e levaria ao afastamento de muitos participantes. Não quero com isto alinhar num discurso bota-abaixo anti-partidos, que nunca foi o meu e que sempre me causou repugnância. Mas a verdade é que os dois partidos tradicionais da esquerda portuguesa estão fechados sobre si mesmos. Este atavismo é um dos maiores problemas da esquerda portuguesa, como eu não me canso de denunciar (por exemplo, aqui). Anteriormente queixava-me de estes partidos viverem de costas voltadas um para o outro (e a culpa é de ambos). Com as reações que vejo à manifestação da parte deles e ao sucesso que esta foi, apesar deles, ou por causa de eles lá não estarem, receio que estes partidos estejam de costas voltadas para uma grande parte da sociedade (daí o descontentamento do “povo de esquerda”). Se estes partidos continuarem assim (principalmente o PS), receio que passem uma grande travessia no deserto e que, por falta de comparência à esquerda, o poder acabe naturalmente à direita.