sexta-feira, 4 de março de 2011

Auto-suficiência alimentar

O Estado Novo promovia em 1929 a tristemente famosa Campanha do Trigo (considerado unanimemente como o maior crime ambiental alguma vez cometido em Portugal), com o objectivo da auto-suficiência portuguesa em termos de trigo.
Salazar manteve uma orientação política fortemente rural (no mau sentido da palavra), tendo feito dela uma das suas bandeiras. Pouco importava a pobreza e as condições de trabalho, o importante era sermos honradinhos e cultivar a nossa horta com a ajuda dos bois para ganhar a nossa comidinha. Melhorias tecnológicas eram irrelevantes porque a produção alimentar não era o objectivo primordial, era sim a honra de viver pobre mas honrado.
Esta mentalidade continua bem viva hoje em dia, da esquerda à direita, mesmo que sendo em versão 2.0 (com o expoente máximo no Paulinho das Feiras) sob a forma da auto-suficiência alimentar do país. Em 2011 não deve haver nenhum país auto-suficiente em nenhum tipo de produto, mas Portugal deveria sê-lo na alimentação. E porquê a alimentação, e não a energia, os medicamentos ou outro produto essencial? Até Maria Antónia Figueiredo, presidente de um tal Observatório dos Mercados Agrícolas (um organismo público) defende que Portugal deveria ser auto-suficiente em termos de cereais.

Para lá da impossibilidade física de tal objectivo, e do crime ambiental associado, há que perguntar se esta auto-suficiência serviria para alguma coisa na situação actual de elevados preços dos produtos agrícolas, algo que o Bloco de Esquerda defendia há uns dias. Só vejo dois canais pelos quais isto poderia ajudar. Ou esta produção extra baixaria os preços mundiais, mas Portugal é demasiado pequeno para que isto possa acontecer. Ou então Portugal fecharia as fronteiras, forçando os agricultores portugueses a venderem a 10 o que do outro lado da fronteira poderiam vender a 50.
Outros problemas também surgiriam em tempos de preços mundiais baixos. No tipo de produtos em que Portugal tem desvantagens produtivas, obrigaríamos os consumidores portugueses a comprar a 10 ao produtor local o que poderiam comprar a 2 nos mercados internacionais?