terça-feira, 22 de março de 2011

Guerra na Líbia

Há três razões principais para concordar com a intervenção europeia na Líbia, mesmo mantendo a prudência e a desconfiança que qualquer guerra exige. Primeira, há mandado da ONU, o que não acontecia, por exemplo, no Cosovo ou no Iraque. Segunda, existe um pedido daqueles que se revoltaram contra o ditador, e que seriam massacrados antes do final do mês se nada fosse feito. Não se pode estar com as sublevações populares nos países árabes, criticar Cadáfi, e virar a cara quando os revoltosos são esmagados por mercenários e armamento superior. O que me leva à terceira razão: os acontecimentos no Magrebe e no Médio Oriente podem ser a maior vaga democratizante dos últimos vinte anos. Há que apoiar o potencial democrático das revoluções em curso, e não abandoná-las como as democracias europeias fizeram à Espanha republicana entre 1936 e 1939.

Dito isto, seria positivo que a liderança e o programa dos revoltosos líbios se tornasse mais claro, que a operação fosse controlada por europeus, e que não entrassem tropas terrestres estrangeiras na Líbia. Apoio aos insurrectos, sim. Invasão, não.

11 comentários :

  1. (1) Os mandados da ONU arranjam-se, como já expliquei em comentário ao post anterior. Em querendo, também se arranjava mandado da ONU para se intervir em muitos outros sítios.

    (2) É claro que os rebeldes pedem ajuda, olha que surpresa. Os guerrilheiros do Exército de Libertação do Kosovo também pediram ajuda. Qualquer um, sabendo que pode vencer a guerra se fôr ajudado, pede ajuda.

    A questão é que isto é uma violação flagrante de todas as normas do Direito Internacional. Temos uma rebelião que é um assunto puramente interno de um país. O facto de esse país suprimir essa rebelião de uma forma sanguinária não legitima que países estrangeiros intervenham.

    Eu compreendo que o Ricardo Alves goste dos rebeldes líbios (eu também gosto), mas considero que a intervenção externa, além de ser muito perigosa em termos militares e ainda mais em termos de Direito Internacional, não corresponde aos nossos interesses. Para os nossos interesses é indiferente que quem manda na Líbia seja um regime democrático ou não.

    Estou farto de guerras justas e de intervenções humanitárias, que no fim do dia acabam sempre a dar barraca. No Kosovo pôs-se no poder um grupo de contrabandistas do piorio. Na Líbia, como no Iraque, vai-se atrás do petróleo.

    ResponderEliminar
  2. Caro Ricardo,
    de acordo no essencial.
    Saudações republicanas

    msp

    ResponderEliminar
  3. Apoio aos insurrectos foi o que se fez no Afganistão

    Gastam-se menos vidas das democráticas

    e exterminam-se os infiéis petrolíferos do alto

    estranhamente não fazem o mesmo numa data de lugares

    há que apoiar os novos Karzai's que aí veêm

    num se pode deixar isto cair na anarquia

    ResponderEliminar
  4. Caro Ricardo,

    Normalmente concordo com os seus pontos de vista, mas neste caso não. Esta intervenção é feita pelas razões erradas e pelas pessoas erradas. Há um texto interessante sobre o assunto aqui:

    http://liberalconspiracy.org/2011/03/20/arguments-against-bombing-libya/

    do qual deixo alguns dos pontos principais:

    - As potências ocidentais não têm credibilidade nenhuma para fazer o que quer que seja em nome duma face "humanitária" e "democrática". A hipocrisia é tal que não se ouve falar de nenhuma acção contra os governos no Iemen, Bahrein, e Arábia Saudita, que são regimes tão despóticos como o líbio. Têm a sorte de ser aliados mais próximos dos americanos. Mesmo ignorando o passado colonial, a história recente é de apoio ocidental aos tiranos da região (Mubarak, Ben-Ali, etc). Aliás, o tão aclamado apoio da Liga Árabe é ridículo. Se isto tivesse acontecido há 3 meses, estariam a ter o apoio do Mubarak e do Ben-Ali. Os líderes ocidentais que mostram a face humanitária (hipócrita) agora são os mesmos que eram os melhores amigos do Kadhafi até há uns meses. Afinal de contas, todo este armamento que ele tem veio de algum sítio...

    - É um erro confundir estes protestos com os da Tunísia e do Egipto, que foram por uma mudança de regime e melhores condições (comida, emprego, etc). Kadhafi pode ser o homem mais detestável na Terra, mas isto tem mais de guerra civil do que de protestos. A título de exemplo, basta ver que um dos líderes dos rebeldes é Abdul Fattah Younis al-Obeidi, antigo nº 2 de Kadhafi. Sem falar que a bandeira que mostram (preta, verde e vermelha) é típica duma tribo e duma monarquia. Por isso é um erro dividir a Líbia pondo dum lado os opressores e do outros os oprimidos pacíficos, quando há claramente componentes bélicas e tribais.

    - A "no-fly zone" não me parece equivalente a todos estes bombardeamentos. Por muito bom que seja o armamento americano e ocidental, já houve e continuará a haver mortes civis. A diferença é que agora é com a aprovação da ONU, por isso não são "civis massacrados", são "danos colaterais".

    O artigo que referenciei tem outros pontos que devem ser considerados. Para mim é bastante claro que isto são os tentáculos do polvo imperialista em acção. É uma posição estratégica, num país cheio de petróleo junto a outros países cheios de petróleo, e crucial para o apoio ocidental a Israel. Falando em Israel, que comete atrocidades desumanas em Gaza há anos, nunca se ouviu a palavra "no-fly zone". Ainda ontem houve mais bombardeamentos aéreos...

    ResponderEliminar
  5. Ricardo disse ....não concordo comigo mesmo

    جلاب ملبسين ثياب عزك الله

    ResponderEliminar
  6. Eu concordo com o Ricardo. Percebo que isto é hipócrita e perigoso, mas acho que esta acção tem consequências imediatas na vida das vítimas que estavam na mira de Kadhafi.

    ResponderEliminar
  7. Luís Lavoura,
    não acho que seja indiferente que a Líbia seja ou não uma democracia. Mesmo do ponto de vista dos nossos interesses, interessa-nos que haja ali no Magrebe Estados estáveis e previsíveis. O que acontecerá, a prazo, com uma democracia.

    Quanto ao Cosovo, à época havia alternativas. A Liga Democrática do Cosovo de Ibrahim Rugova seguia uma linha pacifista e representava a maioria da população. E a «Europa» (já comandada, nessa altura, pela Alemanha) escolheu a minoria violenta representada pelos narco-guerrilheiros do UÇK.

    Na Líbia, não se passa nada de semelhante. Houve uma cisão num regime totalitário, e os revoltosos usam a bandeira pré-regime, não por ser a bandeira monárquica, ao contrário do que diz o Ricardo.

    Quanto à hipocrisia que o Ricardo refere, é verdade. Mas o pior é que se nada for feito a Arábia Saudita sentir-se-á à vontade para continuar a ocupar o Barein e a reprimir o seu povo, e o Iémen pode também cair numa guerra civil. Os tempos mudaram, e a Europa democrática tem que dar um sinal de apoio às revoltas em curso, sob risco de serem esmagadas pelos tiranos locais.

    E o petróleo: pois sim. Mas já havia negócios antes. Com algo mais democrático do que o regime actual, os líbios estarão melhor preparados para defenderem os seus interesses.

    ResponderEliminar
  8. Ricardo,

    Compreendo o seu ponto de vista, e gostava de acreditar que algo democrático vai sair daqui. Mas não é isso que a história nos ensina. O Kadhafi foi igual a si próprio nos últimos 40 anos, e os líderes que agora o bombardeiam não tiveram problema nenhum em fazer grandes negócios com ele. Daí eu não acreditar nesta súbita faceta democrática e humana. O que eu acho que vai acontecer é o Kadhafi ser deposto e no seu lugar colocar-se outro Kadhafi, com quem os americanos se sintam à vontade. Depois vão armá-lo até aos dentes e daqui a uns anos quando se fartarem voltam a invadir para criar uma democracia. Ou então criam uma pseudo-democracia como o Afeganistão, colocando um "puppet" como o Karzai.

    Quanto à bandeira, confesso que não sei muitos detalhes. Mas de acordo com a Wikipedia, é a bandeira dos Senussis, e em particular do rei Idris (que foi deposto).

    Não concordo que isto vá por travão algum na repressão que se sente no Bahrein, Yemen e Arábia Saudita. Primeiro, os media são tudo menos imparciais e não focam atenção no que é incómodo. E o critério duplo já se viu. Invasão na Líbia, telefonemas para os reis saudi e bahreini a pedir para terem calma. Isto sem falar que os revoltosos nesses sítios são muito mais populares que na Líbia, onde afinal de contas ocuparam boa parte do país (com armas). O problema é que o apoio ocidental às mudanças no Egipto e na Tunísia, virando as costas a ditadores "amigos", criou a falsa ilusão de que iriam apoiar transições para regimes mais humanos em toda a região. Mas isso nunca vai acontecer, porque são os seus interesses que estão primeiro. Aliás, basta ver o gigantesco campo de concentração em que Gaza se tornou para perceber que os americanos nunca vão pôr um mínimo de humanidade acima dos seus interesses. Não acho que os tempos tenham mudado assim tanto...

    ResponderEliminar
  9. Só agora reparei na penúltima frase do post:

    "Apoio aos insurrectos, sim."

    Esta frase está numa contradição mentirosa (é a palavra mais branda que me ocorre dizer) com o resto do post. Pois que, no resto do post o Ricardo argumenta que a atuação da NATO tem a autorização da ONU. Ora, a ONU apenas autorizou uma intervenção com o fim de proteger os civis. O Ricardo agora vem dizer-nos que a verdadeira motivação da atuação da NATO deve ser apoiar os insurretos. Ou seja, o Ricardo está a mentir: por um lado defende uma atuação para apoiar os insurretos, por outro lado afirma que tal atuação tem a cobertura da ONU, coisa que evidentemente não tem.

    ResponderEliminar
  10. Ricardo Alves,

    nada é mais previsível e estável do que uma ditadura. Se o nosso objetivo é fazer negócios com países estáveis e previsíveis (eu não penso que esse deva ser o nosso objetivo, estou só a fazer "um supônhamos"), então eu penso que o melhor é que esses países sejam ditaduras. Não há qualquer interesse para nós em que qualquer outro país seja democrático.

    "Na Líbia [... h]ouve uma cisão num regime totalitário"

    Pois isso mesmo sugere que os insurretos não são boa gente - trata-se em boa parte de pessoas que estiveram ligadas ao regime de Gadhafi.

    ResponderEliminar
  11. Já respondo aos comentários.

    Este dado pode ser interessante:

    «En mission de séduction à Paris, deux représentants de la rébellion libyenne ont promis un futur Etat "laïc et démocratique", convaincus d'une chute rapide de Kadhafi si la coalition poursuit les bombardements et si des armes sont fournies aux insurgés. (...) A quoi ressemblera l'après-Kadhafi ? "Le CNT est un Conseil de transition. Après il y aura une Assemblée chargée de rédiger une Constitution", explique Mansour Saif Al-Nasr. "Pour construire l'Etat, nous avons des cadres à l'intérieur et à l'extérieur de la Libye", ajoute-t-il, parlant de 30.000 Libyens titulaires d'un doctorat vivant en Europe, aux Etats-Unis ou dans le Golfe. "La future Libye sera un Etat démocratique et laïc", répond-il à ceux qui craignent une montée de l'islamisme. "Le peuple libyen est un peuple modéré et l'Etat ne sera pas conduit par des religieux".

    "Kadhafi a dit que nous étions d'Al-Qaïda et maintenant il menace de faire appel à Al-Qaïda contre les Occidentaux", ironise-il. Quant au pétrole, Ali Zeidan promet que "les contrats signés seront respectés" mais qu'un futur pouvoir "prendra en considération les nations qui nous ont aidés".»

    http://www.france24.com/fr/20110323-mission-a-paris-rebellion-libyenne-promet-laicite-democratie

    ResponderEliminar

As mensagens puramente insultuosas, publicitárias, em calão ou que impeçam um debate construtivo poderão ser apagadas.