sábado, 31 de julho de 2010

Perguntas que ninguém faz

Portugal precisa de uma «Unidade de Coordenação Anti-Terrorista» para quê?

Revista de blogues (31/7/2010)

  1.  «Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, põe-se em causa um candidato à presidência da República porque ele foi um resistente activo, não só mas também contra a guerra colonial, num exílio em Argel (que, garanto-vos eu, esteve longe de ser de luxo quando não foi mesmo de perigo), naquele que foi um instrumento da oposição portuguesa, absolutamente único: a Rádio Voz da Liberdade. Quantas notícias sobre o que se passava nas várias frentes de guerra não nos chegavam apenas através desse som que tentávamos, tantas vezes em vão, captar pela calada da noite, em rádios sempre mais ou menos roufenhos? Vem agora pôr-se em causa o «direito» à denúncia do que se passava em África? O «direito» à luta contra a ditadura?» (Joana Lopes)
  2. «Passos Coelho, se quer uma revisão constitucional que seja de fazer e não apenas de falar, tem bom remédio. Primeiro trate de ir a votos. Trate de fazer campanha com as suas propostas constitucionais, para saber se as pessoas as apoiam. Depois trate de ser eleito. E depois, com a maioria que tiver, faça a revisão constitucional que discutiu com o eleitorado e que a maioria parlamentar permitir. Esta proposta de revisão, porém, foi apenas para se falar. E, nesse campo, até resultou. Ela serve propósitos essencialmente táticos. O seu objetivo é marcar agenda e atrair os rivais para um debate sobre o conteúdo ideológico de algumas propostas — e fazer com que elas ganhem a legitimidade que até agora nunca tiveram.» (Rui Tavares)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Welfare queens 2

O texto do João Vasco sobre a a falta de empatia da direita em relação aos mais pobres ou mais lentos ou menos agressivos ou menos afortunados, está excelente e eu subscrevo-o completamente, mas acho importante adicionar um pormenor, que acho que ajuda a perceber como é que o apito infrasónico de Reagan foi ouvido com tanta clareza por tantos americanos: a religião.

Os calvinistas (como os ideólogos do Opus Dei) acreditam que os ricos são ricos porque são abençoados por Deus e que Deus ajuda os que se ajudam a si próprios. Os ricos são portanto ricos porque “trabalharam duro e fizeram as escolhas certas”. Decorre directamente daqui que os pobres são pobres porque são estúpidos, preguiçosos, ou as duas coisas: "fizeram as escolhas erradas".

E esta é a justificação moral das pessoas que são incapazes de sentir empatia pelos outros. Esta atitude, que muitas vezes roça a sociopatia, baseia-se normalmente numa combinação simplória (embora não menos perigosa) de ignorância e egoísmo infantil. Muitos dos textos do blog referido pelo João não são mais do que birras infantis em que se misturam numa sopa de emoções mal definidas coisas sérias e coisas triviais, factos e opiniões, verdades e mentiras.

A América de Reagan já existia muito antes de ele ser eleito. Reagan era um actor falhado, medianamente inteligente, intelectualmente preguiçoso e snob, que serviu brilhantemente de porta-voz ao cartel de gangsters que manda na América.

A retórica desta direita tonta e simplista criou o clima que permitiu aos ricos roubarem os pobres sem problemas. Esta retórica pode ser irritante mas é acima de tudo triste, patética em alguns casos, porque defende os interesses dos que exploram quem a escreve e imprime. Do ponto de vista dos gansgters das finanças e da indústria tem uma função importantíssima: a ideologia é a cortina de fumo que torna os que exploram invisíveis aos explorados.

Estes jornalistas e os políticos que eles elogiam têm frequentemente pouco a ganhar: um emprego, um ordenado, um convite para uma festa, um envelope, um favor, uma migalha dos gangsters cujos interesses eles protegem.

Mas a parte mais triste e mais patética destes textos e destes blogs é que as questões de liberdade, de cidadadia, de democracia e de justiça, que estão associadas à proposta dos cheques ensino (aludidos no texto referido pelo João) nunca são abordadas de um ponto de vista intelectual, substituídas por slogans políticos simplistas, fora de contexto, longe de qualquer discussão séria e medianamente inteligente.

Passo Coelho, segue em frente, tens cada vez menos gente!

O debate sobre a Constituição já fez sangue: o PSD caiu 10.4% nas sondagens, enquanto o PS subiu 9.2%. Por mim, Passos Coelho e a sua equipa podem continuar a publicitar a sociedade perfeita deles, a utopia neoliberal sem garantias na saúde, na educação e no emprego, com perdões para os pides e direitos constitucionais para o bastonário da ordem dos advogados e para as empresas privadas de segurança. O abismo está em frente. Continuem a caminhar.

(De qualquer modo, o PS faria bem em preparar a sucessão. Sócrates está esgotado.)

2010 poderá ser o ano mais quente registado

Dados do instituto americano National Oceanic and Atmospheric Administration mostram que o mês de Junho deste ano foi o Junho mais quente desde que se regista a temperatura média da Terra (temperatura combinada dos oceanos e dos continentes). O mesmo sucedeu com o mês de Maio, o mês de Abril e o mês de Março. Ou seja, Junho foi o quarto mês consecutivo que registou a temperatura da Terra mais alta de sempre. Junho foi também o 304º mês consecutivo cuja temperatura ultrapassou a média de temperaturas do século XX. A última vez que um mês apresentou uma temperatura média inferior à do século XX foi o mês de Fevereiro de 1985. Finalmente, se considerarmos as temperaturas médias de todos os primeiros semestres registados até hoje, o primeiro semestre de 2010 foi o mais quente de sempre. As zonas em que se registaram as temperaturas mais elevadas em relação à época foram a zona do Peru, do centro e do leste dos EUA e as extremidades leste e oeste da Ásia. Os Jogos Olímpicos de Inverno deste ano realizados em Vacouver no Canadá ocorreram quase sem neve, quase exclusivamente à custa de neve artificial. No entanto, temperaturas mais frias que o normal ocorreram no sul da China e Escandinávia e a Europa teve um Inverno entre os mais frios das últimas duas décadas.



Welfare queens

Para que Reagan conseguisse criar nos EUA as enormes diferenças sociais que hoje existem, tornando uma sociedade próspera com elevada qualidade de vida numa das mais violentas e desiguais das sociedades ricas, precisou de mudar as mentalidades. Era importante destruir o sentimento de solidariedade entre os que não são ricos, colocando a classe média contra os mais pobres, fazendo-os sentir-se explorados por aqueles que menos têm.

Isto não parece tarefa fácil. Os valores marxistas levam a generalidade das pessoas a sentir-se exploradas pelos mais ricos, e parece natural que muitos aceitem estes valores, mesmo que eu discorde deles. Mas fazer as pessoas sentir-se exploradas pelos mais pobres? Por quem menos tem? Isso parece ainda mais estranho, ainda mais difícil.

Uma boa maneira de destruir a empatia e o sentimento de solidariedade que existe entre as pessoas, é acentuar as suas diferenças. Há quem diga que Reagan usou o «racismo apito para cães»: um discurso que não pode ser objectivamente identificado como racista, mas que nas pessoas mais racistas provoca um acentuar do ódio racial, e que as leva a sentir que o autor do discurso partilha a sua visão racista, mas não o pode afirmar publicamente. Eu não sei se Reagan fez isso ou não, precisaria de conhecer melhor os seus discursos para julgar por mim.

Existe outra maneira de o fazer: criar uma realidade paralela, através da propaganda, de repetição de exemplos enganadores, da omissão de factos, uma realidade onde os pobres vivem à tripa forra, com enorme abundância e poder. Reagan repetiu várias vezes a história de uma mulher que viveria da segurança social, teria oito nomes, acesso a comida gratuita e saúde gratuita, e um rendimento de 150 000$. E se Louçã não consegue com o exemplo de Vale e Azevedo inflamar o ódio contra os ricos, Reagan certamente conseguiu, com esta alegação de fraude, e outras do tipo, destruir em grande medida o sentimento de solidariedade entre a classe média e a classe baixa, que tantos dividendos deu à classe média.
As consequências: desde então, quer a economia dos EUA esteja saudável ou não, os rendimentos da classe média não sobem. Não tinham parado de subir nas décadas anteriores.

Entre as minhas leituras em Portugal, o melhor exemplo disto são os textos de Helena Matos no Blasfémias. Devo dizer que foi este que inspirou o presente texto.
Nele os mais pobres, os mais desprotegidos, com menos acesso à justiça, com menos noção dos seus direitos, são afinal o contrário: «gritam muito e invocam discriminações e traumas vários que lhes garantem a compreensão de muitas assistentes sociais e animadores culturais». Em Portugal, é-nos dito, os problemas não se colocam se vivemos nas "franjas". Que sorte têm os pobres!

Não. A falta de solidariedade entre a classe média e quem menos tem não é apenas indecente. É contrária aos interesses da classe média. Se queremos viver numa sociedade com qualidade de vida, onde exista coesão em vez de medo, onde exista solidariedade em vez de racismo, onde exista menos criminalidade e mais decência, mais equidade e prosperidade entre todos, temos de rejeitar estas visões alienantes da realidade.

Não são os mais pobres aqueles que mais têm e podem: é o contrário.

O aquecimento global é uma realidade

Veja-se aqui e aqui.

E visto que já dura há umas tantas décadas, as explicações alternativas à teoria do efeito de estufa parecem cada vez menos plausíveis....

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O papel do Paquistão (e a ausência de debate em Portugal)

A divulgação de relatórios da guerra afegã provocou declarações do Primeiro Ministro britânico e do Presidente afegão, que poderão anunciar a mudança da atitude internacional perante o Paquistão; causou divisões nos Democratas dos EUA; e reacções no parlamento alemão.

Em Portugal, tudo calado. Ninguém discute como está a correr a guerra no Afeganistão, e nem sequer se faz sentido tratar como  um aliado o mesmo Paquistão que  sempre apoiou os talibã, enquanto se isola internacionalmente, por muito menos, o Irão. E na lusa blogo-esfera, os falcões de trazer por casa divertem-se, ao bom estilo machista, a tratar quem denuncia massacres de civis de «Paris Hilton da boa consciência pequeno-burguesa». Assim vai o debate político em Portugal.

Novos embustes de Fátima

Em Fátima, para o espectáculo de 13 de maio em que a estrela principal era Ratzinger, a organização anunciou que previa um grandioso meio milhão de pessoas. No dia 14 de maio, corrigiram: teriam estado presentes 350 mil pessoas. Agora, sabe-se que uma contagem a partir das fotografias estima o número de pessoas presentes entre 35 mil e 40 mil.

Fora concedida tolerância de ponto, para aquele dia, pelo governo «socialista» de Silva Pereira, a 740 mil pessoas.

Outras utilidades da água suja do imperialismo

Jogo de xadrez construído com garrafas de Coca-Cola (ou 7-UP ou Pepsi ou outra coisa dessas). Colónia do Sacramento, Uruguai.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Rock contra o islamismo: «Hey Ayatollah, leave those kids alone»



(Blurred Vision, 2010; sobre os autores desta versão, ler o i. Via Der Terrorist.)

A campanha suja

De Mário Soares, inventaram que teria pisado a bandeira. De Manuel Alegre, dizem agora que foi desertor. A extrema-direita não aprende, nem apresenta melhoras. Não aprende que mentir é feio, e não abandona o elogio de uma guerra que provocou a queda da sua querida ditadura. Com tanto ódio a Alegre, ainda me convencem a ir fazer campanha.

O dinheiro não é neutro

Nunca acreditei que o dinheiro fosse inteiramente neutro, e que capitalistas e CEOs se preocupassem exclusivamente com lucros e dividendos. Quem segura o livro de cheques tem ideologia, interesses pessoais (e, algumas vezes, religiosos), que fazem com que o poder económico não seja, sempre, um fim em si mesmo.

As monarquias clericais do Golfo Pérsico, suporte da ideologia global mais reaccionária do início do século 21, andam às compras em Lisboa. Estão interessadas nas empresas a privatizar (ANA, EDP, REN). Os  neoliberais militantes dirão que «no pasa nada», é só o mercado a funcionar, e tal. Ah, pois. Se os senhores dos Emirados tivessem mulheres emancipadas à frente das suas empresas, aceitaria estas situações com maior tranquilidade.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Como todas as religiões se parecem

Se és mulher, só te podes sentar na parte de trás do autocarro. Se não és ortodoxo, não entres no nosso bairro. Sejas judeu ou não, não trabalhes no Sábat senão os meus amigos fundamentalistas vão dar-te cabo do juízo ao local de trabalho. E etc. (Ver vídeo).

A responsabilidade de uns e dos outros

Mais de três anos depois da repressão fora da proporção de uma manifestação anarquista, os tribunais absolveram os envolvidos. A polícia não chegou a ser julgada.

Eric Hobsbawm: «Identity Politics and the Left»

Eric Hobsbawm sobre os perigos da política da identidade.
  • «So what does identity politics have to do with the Left? Let me state firmly what should not need restating. The political project of the Left is universalist: it is for all human beings. However we interpret the words, it isn’t liberty for shareholders or blacks, but for everybody. It isn’t equality for all members of the Garrick Club or the handicapped, but for everybody. It is not fraternity only for old Etonians or gays, but for everybody. And identity politics is essentially not for everybody but for the members of a specific group only. This is perfectly evident in the case of ethnic or nationalist movements. Zionist Jewish nationalism, whether we sympathize with it or not, is exclusively about Jews, and hang—or rather bomb—the rest. All nationalisms are. The nationalist claim that they are for everyone’s right to self-determination is bogus. That is why the Left cannot base itself on identity politics. It has a wider agenda. For the Left, Ireland was, historically, one, but only one, out of the many exploited, oppressed and victimized sets of human beings for which it fought. For the ira kind of nationalism, the Left was, and is, only one possible ally in the fight for its objectives in certain situations. In others it was ready to bid for the support of Hitler as some of its leaders did during World War ii. And this applies to every group which makes identity politics its foundation, ethnic or otherwise.» (Ler na íntegra.)

A necessidade de uma alternativa à linha do Norte

Pessoalmente não creio que o mais urgente seja um TGV Lisboa-Porto. Acho bem mais importante uma reabilitação da vergonhosa e bem necessária linha do Oeste, permitindo a criação de um intercidades que servisse localidades como Torres Vedras, Caldas da Rainha, Marinha Grande, Leiria e Figueira da Foz, complementado com serviço regional e urbano. Mas se alguém duvida da necessidade de uma ligação ferroviária Lisboa-Porto alternativa à atual linha do norte, congestionada por comboios de mercadorias e regionais, que apresente solução para casos como o descarrilamento que ocorreu a semana passada, que causou a interrupção total de serviço por quatro horas e que, durante dois dias, na zona em causa todo o serviço se fizesse recorrendo só a uma via, com todos os atrasos que isso implica. Sendo eu utente frequente de ambos os tipos de comboios e passando frequentemente nesta zona, não gostaria nada que o sucedido tivesse ocorrido comigo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O caminho da retirada

A publicação, pela Wikileaks, de seis anos de relatórios sobre a guerra no Afeganistão, não traz, que eu veja, grandes novidades. Mas tem as suas curiosidades: só cobrir um ano do mandato de Obama no poder, insistir na ligação do famigerado ISI paquistanês aos talibã, e aumentar o número de vítimas civis.

Em conjunto com o estudo publicado a semana passada pelo Washington Post sobre o custo da «guerra de informaçõezinhas», esta divulgação prepara as condições para a retirada das tropas da OTAN no Afeganistão. E para o desinvestimento na «guerra contra o Terror». Nove anos depois.

Israel, clericalismo, xenofobia, e uma violação que não o foi

Elas dançam sozinhas

Muitos estudantes da Universidade Nacional de La Plata, na província de Buenos Aires, foram vítimas dos crimes da ditadura argentina nos anos 70. Estes estudantes, e muitos outros cidadãos, eram raptados, provavelmente para serem atirados vivos de aviões. Mas desapareciam sem deixar rasto. As famílias não eram informadas. Nunca mais ninguém sabia deles.
Em frente ao Departamento de Física da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de La Plata existe o monumento da foto, aos estudantes da faculdade desaparecidos. Cada tijolo que falta representa um desses estudantes. Um deles era filho de uma das mais conhecidas “mães de Maio”. Na inauguração do monumento, a faculdade naturalmente convidou-a. Ela não compareceu, alegando que não acredita que o seu filho tenha desaparecido.

domingo, 25 de julho de 2010

Censura e liberdade de expressão

Parece-me que o Ludwig deveria distinguir censura de limitação à liberdade de expressão. Por exemplo: eu apagar comentários neste blogue ao tipo que vem para aqui vender camisolas e sapatos é censura, mas não limita a liberdade de expressão (porque ele pode ir vender os produtos dele para outro lado). O caso da Playboy também é um caso de censura, sem que resulte daí uma tremenda limitação à liberdade de expressão (o mesmo fim pode ser conseguido por outros meios).

sábado, 24 de julho de 2010

E ainda se espantam que tenha ido viver para Lanzarote?

Depois de morto, Saramago é odiado ao ponto de a Câmara Municipal do Porto se negar a dar o seu nome a uma rua.

Um consenso nacional

«Toda a gente acha que eu sou parva» (Maria Filomena Mónica, agora mesmo, na SIC Notícias).

Decepção

Isilda Pegado decidiu não se candidatar à Presidência da República.

Comentários em moderação

Os comentários passaram a estar em regime de «moderação» (raio de expressão, o termo correcto é «aprovação»), até que o senhor Ed Harris vá vender sapatos para outro lado. Peço desculpa pela interrupção.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Revista de blogues (23/7/2010)

  1. «Se a proposta dos políticos entregarem vinte por cento dos seus salários (não pagam impostos como os outros?) aos pobres viesse de qualquer outra pessoa, ninguém com o mínimo de juízo hesitaria em denunciar o mais desbragado populismo. Porquê os políticos e não todos os outros? (...) em tempo de crise cai sempre bem fazer este género de discurso. Mas como foi um bispo, tem tudo de fingir que estamos perante uma proposta digna de debate. Uma proposta tão populista como a de, por exemplo, dizer à Igreja dos pobres que deveria entregar as suas riquezas. Citando D. Carlos Azevedo, isso sim, “era um testemunho concreto”. Mais populista do que recordar que a preocupação com os pobres deveria ter feito o clero português nunca ter aceite estar isento do pagamento de impostos.» (Daniel Oliveira)
  2. «Nada contra se o apelo do bispo Carlos Azevedo for acolhido por aquelas senhoras que são deputadas independentes pelo PS, pelo dr. Cavaco Silva ou mesmo por José Manuel Pureza – é lá com eles. Mas que tal uma decisão, bem mais rápida e eficaz, no sentido de iniciar o desejado Fundo Social com 20% do rendimento anual do Santuário de Fátima? Não disponho de números, mas estou certa de que seriam arrecadados muitos, muitos euros, bem mais do que o somatório de todos os sacrifícios dos crentes de boa vontade. E os peregrinos que oferecem anéis ou compram velas estariam certamente dispostos a compreender o «desvio de fundos».» (Joana Lopes)
agora: afinal quanto custou a visita do Papa?

Passos Coelho: a direita radical e revanchista

Passos Coelho apresentou uma proposta de revisão constitucional que dizia demais, demasiado cedo: ficámos a saber não apenas o seu programa de governo, mas até o regime político que desejaria. Em parte, o passo em falso resultará de excesso de confiança, também de ânsia de polarização face ao PS. Mas evidencia compromissos ideológicos e até corporativos reveladores.

A proposta tem sido sobretudo criticada, à esquerda, pelo conteúdo ideológico neoliberal (o fim da gratuitidade dos serviços públicos essenciais, ou a ainda maior flexibilização laboral). É uma agenda política quase desconhecida no país que não lê a blogo-esfera ou certas revistas da Católica. E Passos Coelho, sem nunca ter ido a votos, quer impô-la verticalmente, pela Constituição. Ora, eu não me recordo de Manuela Ferreira Leite ter proposto algo parecido.

A revisão de PPC tem ainda outras excentricidades, que têm sido pouco comentadas, como a equiparação de certos direitos e garantias das «pessoas colectivas» aos das pessoas singulares (incluindo o «direito ao bom nome» e direitos de privacidade que são desnecessários numa actividade económica). Ou ainda a constitucionalização de direitos para as empresas privadas de segurança (Ângelo Correia é o guru do ramo), e de poderes ao bastonário da Ordem dos Advogados (quem?). Sem esquecer a supressão do artigo 292º (punição dos agentes da PIDE/DGS).

Tudo considerado, creio que se tem subestimado o facto de a «eminência parda» da actual liderança do PSD ser Ângelo Correia (responsável por episódios sangrentos de repressão policial quando «Ministro do Interior»), e de a equipa de Passos Coelho incluir algumas figuras históricas da extrema-direita dos anos 80, como Paulo Teixeira Pinto e Carlos Blanco de Morais. Com Passos Coelho, o PSD está liderado por uma direita que ainda não fez as pazes com o regime democrático. E isso vê-se cada vez melhor.

Alegre: o primado da política

  • «Não sou economista, mas tenho uma posição política sobre questões económicas, diferente da do Presidente, que tem uma visão conservadora, muito ultraliberal sobre a economia. Eu não. Tenho outra visão política, cultural e civilizacional: sou adepto de uma economia de mercado, mas acho que o mercado não é Deus. Não se pode sobrepor ao Estado, ao interesse geral ou às nações. (...) Os problemas económicos são muito importantes, mas o Presidente criou a ilusão, por ser um economista, que podia ajudar a resolver os problemas do país. Não pode, primeiro porque não governa, segundo porque a sua visão política das questão económicas não é a que melhor corresponde às necessidades do país. Segue a visão conservadora que esteve na origem da crise e que propõe soluções que vão levar às mesmas consequências. (...) O Presidente Lula, dizia-se, não sabia nada de economia, mas a verdade é que tirou 23 milhões de brasileiros da pobreza.» (Manuel Alegre em entrevista ao Público)

Os povos têm direito à auto-determinação, claro; mas, o que é um povo?

O Tribunal Internacional de Justiça declarou que a independência do Kosovo não viola o «Direito internacional». Muito bem. «Os povos têm direito à auto-determinação» é uma frase com que todos concordamos, penso eu. Só há uma pequena questão com o sujeito da frase: o que é um «povo»?

A Jugoslávia, em 19 anos, deu origem a sete Estados independentes. Outros tantos povos. Não restam, agora, argumentos racionais para negar a independência ao oitavo: a Republika Srpska. Talvez assim se resolvesse o problema da resistência, hoje reafirmada, da Sérvia ao reconhecimento do Kosovo. Enfim, depois os croatas da Bósnia poderiam querer separar-se dos muçulmanos de Sarajevo (são povos diferentes), e ainda haveria o problema dos húngaros da Voivodina, sem esquecer os povos sem homogeneidade territorial, como os ciganos. E admito que ainda haja Ruténios, esse povo eternamente esquecido.

A lista dos países europeus que não reconhecem o Kosovo é elucidativa: o Chipre (tem um povo turco no lado norte da ilha), a Eslováquia (tem um povo húngaro no sul), a Roménia (mais húngaros), e a Bulgária a Grécia (suspeitas de anti-albanismo primário); finalmente, a Espanha, porque os catalães, esses, sabem que são um povo e estão a tirar consequências.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A encenação dos feriados

As famosas Rosário Carneiro e Teresa Venda, que tão bem têm cumprido o papel de ala clerical do PS, votaram hoje sozinhas, no Parlamento, a sua famosa proposta de alteração ao calendário de feriados. Há aqui três mistérios. Primeiro: o porquê de apresentarem a proposta (para se ilibarem das tolerâncias de ponto aquando da visita do Papa?). Segundo: a razão de o PS as ter deixado a votar sozinhas (ter-se-ão fartado de as aturar?). Terceiro: que sentido faz estarem estas senhoras na bancada do PS?

Dos consensos

Desde sempre que fui um fã do "sistema parlamentar holandês", um parlamento com um grande número de partidos que força a existência de coligações governamentais. Reduz a erraticidade legislativa e governativa, força debates sérios, força consensos, obriga os partidos a cederem e a sair das masmorras ideológicas. Em Portugal, em 36 de democracia, nunca vimos as esquerdas a negociar seriamente por exemplo.
Neste sentido, não posso deixar de discordar das várias críticas que têm sido feitas ao PS e PSD por estes aprovarem medidas que contrariam as suas tomadas de posição anteriores. Se queremos que a democracia não se resuma à ditadura da maioria, leia-se maiorias absolutas, é preciso consensos e cedências. Apenas lamento que estes consensos estejam a ser construídos daquele lado.

A verdadeira face de Mel Gibson

  • «We live in a culture where the terms fascist and racist are thrown about, if anything, too easily and too frequently. Yet here is a man whose every word and deed is easily explicable once you know the single essential thing about him: He is a member of a fascist splinter group that believes it is the salvation of the Catholic Church.This schismatic crackpot sect is headed by Mel Gibson's father, Hutton Gibson, a nutty autodidact with a sideline in Holocaust denial. (...)» (Christopher Hitchens sobre Mel Gibson)

PSD fez parte de governo de extrema-esquerda

Segundo Miguel Relvas, a expressão «motivo atendível» foi usada por um «governo de extrema-esquerda», em 1975. Acontece que o Decreto-Lei nº372 A-75, de 16 de Julho, foi aprovado por um governo que incluía ministros do PPD/PSD: o IV Governo Provisório.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A (outra) Esquerda Republicana

O mundo é realmente muito estranho.

O governo de Passos Coelho

  • Primeiro Ministro: Pedro Passos Coelho
  • Vice-Primeiro Ministro, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros: Ângelo Correia
  • Ministro das Finanças: Jorge Jardim Gonçalves
  • Ministro da Presidência: Francisco José Viegas
  • Ministro da Defesa Nacional: Vasco Rato
  • Ministro da Administração Interna: Carlos Blanco de Morais
  • Ministro da Economia, Agricultura e Pescas: Miguel Paes do Amaral
  • Ministro da Justiça: Carlos Abreu Amorim
  • Ministro da Saúde e Assistência Social: Pedro Arroja
  • Ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Regionalização: Valentim Loureiro
  • Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações: Marco António Costa
  • Ministra da Educação: Helena Matos
  • Ministro da Cultura e Ciência: José Manuel Fernandes
  • Ministro dos Assuntos Parlamentares: Paulo Rangel
  • Presidente da Assembleia da República: Paulo Teixeira Pinto

Passos perdidos

Passos Coelho criou uma trapalhada tal com a sua revisão constitucional maximalista que já conseguiu dividir o seu próprio partido. Começa a parecer que todos sabemos que ele nunca será primeiro ministro, só ainda não sabemos quando é que vai perceber isso.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Do Prémio Nobel ao Prémio Lopes

"O governo que peça dinheiro emprestado e que o aplique em projectos de investimento público - se possível com fins úteis, mas isto é uma consideração secundária - para assim, criar postos de trabalho que tornarão as pessoas mais dispostas ao consumo o que levará à criação de mais emprego, etc.
A Grande Depressão nos EUA foi finalmente vencida graças a um programa maciço de obras públicas financiado por um défice estatal, conhecido pelo nome de II Guerra Mundial."
Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia de 2008 em "O Regresso da Economia da Depressão e a Actual Crise", Ed. Presença, pag. 76.

"Cortar na despesa é inexorável (...) A cru. Sem explicar nada. Ou melhor, explicando que ou é assim ou não é. Não querem, então não se faz"
Ernâni Lopes nas jornadas parlamentares do PSD

A estação parva

Sabemos que entrámos em pleno na estação parva («silly season» para os mais anglófilos), quando um líder partidário que nem sequer foi a votos consegue encher os jornais com notícias confusas, contraditórias e sensacionalistas sobre uma revisão constitucional que não está ainda no domínio público, e que não será nunca aprovada apenas com os «seus» 81 deputados.

Deixai o sr. Passos Coelho a falar sozinho. Quanto mais grita, mais se revela. Cada vez se percebe melhor por onde ele iria, se pudesse, do Estado social ao equilíbrio de poderes, da «flexibilidade» laboral ao sabão que quer passar sobre os crimes da PIDE.

A Constituição não é uma composição de adolescente, para ser riscada e corrigida a cada duas legislaturas. Em rigor, nem há necessidade gritante de mexer uma vírgula. Ou há? E porquê? Por causa de uma azia com 36 anos?

O monstro que o 11 de Setembro criou

Numa investigação detalhada, o Washington Post conta como foi expandida nos EUA, após o 11 de Setembro, a rede de espionagem/contra-espionagem, que hoje já envolverá 854 mil pessoas, das quais 30% serão contratadas por privados. Num mundo em recessão, este é um negócio onde não há crise: das 1931 empresas que trabalham no ramo, mais de um quarto terão sido formadas depois de 2001. Beneficiando, claro, de o orçamento estatal para as «informaçõezinhas» ter sido multiplicado por 21 nos últimos nove anos (há agências estatais que duplicaram o pessoal).

Os artigos do Washington Post concentram-se em criticar a redundância (não faltam «agências» e empresas que efectuam as mesmas funções) e a entropia que o sistema gera (criando «informaçãozinha» a mais, não hierarquizada, inútil). Mas pode-se questionar se este «mamute» é realmente proporcional à ameaça. Porque imagino que nem no tempo da «Guerra Fria» a espionagem estado-unidense reunisse tantas pessoas e meios. E pode-se perguntar também se faz sentido todo este investimento num país em que a assistência social, na doença e na educação, é tão pobre.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Lá vai uma, lá vão duas, três Flandres e Valónias a voar...

Sondagem dá 47% dos catalães a favor da independência; 36% contra.

Ai-ai...

  • «Marcelo Rebelo de Sousa afirmou esta noite na TVI que se o líder do PSD decidir provocar uma crise política com o chumbo no Orçamento de Estado para 2011 com objectivo de provocar eleições legislativas antecipadas "liquida a campanha de Cavaco Silva".» (Correio da Manhã)

domingo, 18 de julho de 2010

Burca: reflectir a partir da Somália

Na Somália, as milícias Al-Shabab impedem as pessoas de ouvir rádio, os homens de fazer a barba e as mulheres de sair à rua sem véu integral. Apedrejam as adúlteras e cortam as mãos aos ladrões.

Convém não esquecer isto quando se diz que proibir os véus integrais em Paris ou Bruxelas é o mesmo do que obrigar ao seu uso na Somália.

Revista de blogues (18/7/2010)

  1. «Desde o dia em que fez o seu primeiro discurso como líder do PSD, que Pedro Passos Coelho (PPC) teve uma ideia: explicar ao país da urgência de uma revisão constitucional (RC).  À falta de um discurso sólido alternativo ao do Governo, perante, imagino - não encontro outra resposta - a sua depois verificada adesão a várias medidas do Executivo, havia que acenar com uma bandeira política muito dele, muito própria, e de preferência eloquente. Desgraçadamente, por isso, quebrou-se o acordo implícito de se proceder a uma RC apenas após as eleições presidenciais.» (Jugular)
  2. «A questão é: como é que a esquerda está a perder este combate? Há dois, três anos, quando tudo começou, parecia ser possível uma viragem, mas passado este tempo todo temos uma Europa a ser puxada por uma Alemanha de direita na direcção do abismo, sem piedade dos PIGS que caíram irremediavelmente na lama. Em Portugal, um PS inexistente tirou o socialismo da gaveta e guilhotinou-o definitivamente, tornando-se num partido submetido a um culto de personalidade inusitado, sem energia para combater a maré de direita que o futuro parece trazer. E à esquerda do PS, perdeu-se o norte, entre cassetes que se repetem, assentes na força da rua, e uma condução ziguezagueando entre a crítica e o apoio ao Governo, deste modo fragilizando qualquer posição de força a que seja necessário recorrer.» (Arrastão)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sindicato da PSP critica António Capucho e MAI

  • «O Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícia (SNOP) vem manifestar o seu repúdio pelas declarações do senhor Presidente da Câmara Municipal de Cascais e outros comentadores na sequência dos incidentes na Praia do Tamariz no Estoril no dia 04 de Julho de 2010.

Banqueiros do Opus Dei condenados a «multazinhas»

Os senhores administradores do BCP (do período das «vacas gordas») foram condenados a coimas que vão de um milhão de euros (Jardim Gonçalves) a 200 mil euros (Paulo Teixeira Pinto). A soma é de 4,3 milhões de euros. É certo que também ficam «inibidos» de actividade bancária durante uns anitos (Teixeira Pinto dedica-se, agora com mais afinco, ao «entrismo» monárquico no PSD), mas não deixa de ser irrisória esta forma de administrar justiça, quando se verifica que cada um deles ganhava, em média e por ano, cerca de 3,5 milhões de euros.

Façamos uma conta rápida: se Teixeira Pinto ganhava 3,5 milhões por ano, a sua coima não chega a corresponder  a um mês de salário. É caso para dizer que nenhum crime compensa mais do que o crime de colarinho branco.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Portas anuncia moção de censura

Não há pachorra para este tipo de gincana: se Portas deseja sinceramente que Sócrates saia do governo, que apresente uma moção de censura. Com os votos do CDS, do PSD e de outro partido mais à esquerda, a coisa passa. E depois pode formar o seu estupendo governo de bloco central alargado...  com o próprio PS. (Mas não foi mais ou menos isso que ele recusou a Sócrates há apenas cinco meses?)

Histórias da nova guerra semi-fria

Tenho a maior repulsa pelo regime clerical do Irão, mas confesso a minha dificuldade em discernir se quem mente mais é o Irão ou os EUA na incrível história do físico iraniano que foi raptado pela CIA/colaborou voluntariamente com a CIA (riscar conforme a preferência).

"A REPÚBLICA MÊS A MÊS"

Ciclo de conferências na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, em Lisboa.

  • 15 de Julho, 18 horas
    Separação da Igreja e do Estado
  • 23 de Setembro, 18 horas
    A República, Ideias e Cultura
  • 28 de Outubro, 18 horas
    As Mulheres na República
  • 25 de Novembro, 18 horas
    A República e o Desenvolvimento
  • 16 de Dezembro, 18 horas
    A República e as Colónias

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Censura ou não censura

Impedir a divulgação de uma mensagem, seja de que forma for, é censura. A censura pode ser legítima: já apaguei comentários deste blogue (concretamente, insultos em calão). No caso da Playboy, seria também legítima, pois trata-se de uma entidade privada. Mas qualquer dos casos configura uma limitação à liberdade de expressão e de informação.

Creio que o meu amigo Ludwig Krippahl subestima a importância de casos como o da Playboy. Porque nem sempre a censura vem do Estado: a liberdade de informação pode inexistir por uma combinação de decisões privadas (e legítimas, sublinho). No caso das famosas caricaturas de Maomé, terá havido países em que não foram publicadas sem que os governos tivessem pressionado nesse sentido.

Como os casos de censura são como as cerejas (quando se começa nunca mais se pára...), vamos a outro: descobri hoje que, em Guimarães, num edifício que pertence e é gerido pelo Estado (o Paço dos Duques de Bragança, do Instituto dos Museus e da Conservação), foi desmontada a instalação artística que se pode apreciar (parcialmente) na fotografia de baixo.
Como é evidente, a instalação pretendia evidenciar as complacências e cumplicidades do papa Pio 12 com o nazismo (ver mais fotografias e a explicação do artista). Mas os visitantes protestaram, e o director do monumento nacional decidiu encerrar a instalação um mês mais cedo. As razões do protesto prenderam-se com a circunstância de o local da instalação ser arquitectonicamente uma capela, e com a mensagem transmitida pela instalação artística em si. Refira-se que aquele espaço não é utilizado para o culto católico nem está, portanto, «sacralizado». E que pertence ao Estado. E que o artista tem o direito de divulgar a sua opinião desta forma, para mais num museu do Estado.

No meu entender, este caso é, não apenas censura, mas uma limitação grave da liberdade artística. E, por vir de uma instituição estatal, é perfeitamente escandaloso.

Demolir o futebol (não se pode?)

Augusto Mateus avisou o Brasil  para não repetir os erros crassos que se cometeram em Portugal quando se teve a ideia cretina de organizar o Euro 2004. A título de exemplo dos elefantes brancos que ficaram espalhados pelo país na ressaca do pão e do circo, referiu o estádio de Aveiro, que custa 4 milhões de euro por ano (e que nunca enche); ou o de Coimbra (abandonado); ou o de Leiria (à venda); ou os de Braga  e Faro (deficitários). E falou em demolir os estádios que dão prejuízo (não teria sido melhor usar, literalmente, estádios provisórios?). Autêntica economia de compra-o-foguete-faz-a-festa-queima-deita-fora, mas paga pelo contribuinte.

O outro lado das festinhas dos golos, dos cachecóis e das bandeirinhas é este. Mas talvez valha a pena recordar quem foi um dos políticos que se promoveram a surfar a onda patriótico-futeboleira...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Razão pública e emoções privadas

Que as pessoas gostem de futebol, râguebi, judo ou hóquei em patins, deve ser politicamente indiferente. Há uma parte lúdica da vida sobre a qual a política não tem nada que fazer ou saber (a não ser deixar espaço para que exista).

Que as pessoas projectem relações de poder políticas no futebol (e.g., entre Estados), ou que efabulem sobre um suposto conteúdo político das tácticas e dos «estilos de jogo», é perigoso não tanto por politizar o que deveria ser politicamente indiferente, mas mais por romantizar uma indústria que a partir das emoções da bola se constrói uma imunidade à crítica.

O que interessa no futebol, politicamente, é ser uma das actividades económicas mais mafiosas da Europa actual. Os dirigentes são os seres mais corruptos e broncos que alguma vez são tratados com respeito pelos media, os jogadores são meninos mimados que provavelmente pagam menos IRS do que o mais modesto dos merceeiros, e os «torcedores» legitimam tudo isto quando abdicam da sua razão a favor de emoções que são aceitáveis na privacidade das quatro paredes, mas que se tornam perigosas quando obstaculizam qualquer crítica pública à indústria futeboleira.

E há os políticos, claro. Que geralmente tentam encostar-se às emoções colectivas que o futebol gera para terem eles próprios imunidade à crítica, e que pagam esse «encosto» com o nosso dinheiro, em estádios e urbanizações que beneficiam apenas os dirigentes corruptos e os autarcas de bandeirinha e cachecol.

Alguns blogues de esquerda (e não apenas o Arrastão e o Cinco Dias, mas principalmente o Vias de Facto) passaram as últimas semanas a dissertar sobre as emoções da bola. Seria positivo que aplicassem agora 10% dessa energia na crítica racional da indústria futeboleira. É que o monstro não morreu com o último apito do árbitro.

Revista de blogues (13/7/2010)

  1. «Os Tratados vinculam os Estados-membros e era previsível que o Tribunal de Justiça Europeu decidisse pela ilegalidade das acções com direitos especiais na PT, por violação do princípio da livre circulação de capitais. Mas o direito é também um reflexo de opções ideológicas e políticas e não uma codificação de escolhas neutras. (...) Hoje, os Estados têm menos direitos que o mercado e, consequentemente, os poderes políticos nacionais encontram-se feridos de morte, sem que exista uma entidade europeia que desempenhe as funções que no passado cabiam ao Estado. (...) O bem comum precisa de mercados livres, mas, como provam muitos exemplos pela Europa fora, requer também uma dose de proteccionismo. A menos que a Europa passe a desempenhar a função protectora que no passado desempenharam os Estados-nação. No fundo, a questão política e ideológica que não tem sido debatida.» (Pedro Adão e Silva)
  2. «Impunidade, falta de responsabilidade social, falta de ética política, empresarial e pessoal - foi no que deram as receitas da ideologia neo-liberal que prevaleceu nas últimas décadas, contaminando até a esquerda socialista democrática. E que explica a crise económica e financeira sem precedentes que a Europa e o Mundo hoje atravessam. (...) Depois do Governo ver esse interesse nacional traído por banqueiros e empresários compráveis por uns mi(ga)lhões, e de, em estado de necessidade, ter sido obrigado a accionar os direitos especiais que detinha na PT (apesar de poder antecipar a condenação pelo Tribunal Europeu de Justiça), é tempo dos socialistas portugueses pararem de fazer cedências à ruinosa lógica neo-liberal.
    É tempo de rever o programa de privatizações previsto pelo Governo, de forma a garantir posições de controlo accionista por parte do Estado em empresas ou serviços de interesse geral ou estratégico, como os CTT, a EDP, a GALP, a REN, as Águas de Portugal, a TAP, e, obviamente, a Caixa Geral de Depósitos.
    » (Ana Gomes)

A saga de Roman Polanski

E pronto. A Suiça não entrega Polanski ao comité de linchamento da Califórnia republicana porque o procurador foi estúpido demais para conseguir instruir o processo convenientemente.

O pessoal já se estava a babar com a ideia de chamar a vítima mais uma vez a depor e poder ver as fotografias, comê-la com os olhos, fazer-lhe as perguntas íntimas e repugnantes que lhe fizeram há 33 anos (agora em frente às filhas dela), lamberem-se com os pormenores e masturbarem-se às escondidas na casa de banho do tribunal.

Eu sei que eles dizem que é por causa da vítima, e da justiça, blábláblá. Mas eu conheço-os melhor: estou há 12 anos nos EUA e ainda não encontrei um puritano que não fosse um sociopata depravado e violento.

Se os puritanos da Califórnia se preocupassem com a pedofilia tinham prendido pelo menos alguns dos milhares de padres católicos que foram apanhados com a boca na botija.

A saga do petróleo no Golfo...

Parece que desta vez o petróleo parou de jorrar, mas as mentiras são tantas que já ninguém sabe se esta é mais outra aldrabice da BP. Não deve haver uma história mais triste nem mais patética que esta de vermos os adeptos mais ferozes da desregulamentação a lamuriarem-se em relação às consequências mais óbvias e imediatas da desregulamentação.

A esmagadora maioria dos idiotas que agora andam pelas televisões a chorar, com as mãos sujas de petróleo, amanhã votava outra vez na doutrina da auto-regulamentação da indústria (defendida por Bush e Tony Hayward).

O sul elege sistematicamente os políticos mais sinistros do Mundo, incluindo o Terceiro Mundo. A ausência de lógica é assim: nem afogados em petróleo os teabaggers percebem que o partido republicano (e dois terços do partido democrata) defende exclusivamente os 1% da população que acham que têm tudo a ganhar com a poluição e a injustiça social.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A "representatividade" da monarquia


Por Kroll publicado no jornal belga Le Soir.

O humor belga por ocasião da passagem da Volta à França em Bruxelas.

domingo, 11 de julho de 2010

A mais importante das coisas menos importantes

Por estes dias, nos blogues de esquerda quase só se fala de futebol.
Embora eu concorde plenamente com este texto do Nuno Ramos de Almeida – a política não é definitivamente chamada para explicar o que se passa no relvado -, é
bastante consensual que a forma de jogar das seleções reflete caraterísticas nacionais. Os exemplos são vários: a organização e o coletivo alemães, o individualismo e o improviso sul-americanos, o cinismo e o maquiavelismo italianos… Penso mesmo que as extrapolações da política para o futebol têm mais a ver com as extrapolações destas caraterísticas para a política. E no dia a dia estas caraterísticas, se não fazem a política, fazem parte da realidade internacional.
Um bom exemplo de tais extrapolações será o definir-se, como é habitual, um futebol mais baseado nos rasgos individuais como “de esquerda”, enquanto um futebol mais disciplinado taticamente seria “de direita”. Num contexto internacional, quem pratica o primeiro tipo de futebol são países emergentes como o Brasil ou a Argentina e “PIGS” como Portugal, enquanto o arquétipo de quem pratica o segundo tipo de futebol é quem dita a ordem na Europa, a Alemanha. Mas estes países, como todos os outros, já tiveram governos de esquerda e de direita, e nem por isso as suas caraterísticas mudaram. Esta distinção pode fazer sentido para altermundialistas para quem quem governa é sempre de direita, mas não creio que tenha grande utilidade prática.
Dito isto, falar-se em futebol “de esquerda” como o mais espetacular, o mais aberto, em oposição a um futebol “de direita” mais fechado e mais interessado no resultado preocupa-me pelo que indicia. Então a esquerda não está preocupada com o resultado? Só a direita é que está interessada em ganhar?

Religião


Estas são as pessoas que querem dar os códigos nucleares à dona Sarah Palin.

sábado, 10 de julho de 2010

É esquerda, é direita, é centro...

O PS dá para tudo: desde convites a Portas para entrar no governo, até dirigentes que querem alianças à esquerda, passando por outro que quer um arco PS-PSD-CDS...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Da impopularidade do neoliberalismo

Segundo uma sondagem, 64% dos portugueses consideram que o Estado «fez bem» em usar a acção dourada; só 21% consideram que «fez mal». (Via Blasfémias.)

Autoridade sem responsabilidade

E quem se lixa é o mexilhão: depois de o veículo que conduzia uma Excelência ter colidido a 120 km/h, em plena Avenida da Liberdade, com o veículo que conduzira outra Excelência, o único acusado é o motorista. A Excelência, de seu nome Mário Mendes e com as funções de «Secretário Geral da Segurança Interna», tão depressa «garante que não pediu ao motorista para acelerar», como resmunga «nada recordar» do dia do acidente e, pérola das pérolas, que «não notou excessos por parte do motorista que o conduzia». Em vez de instruir processo contra um «superpolícia» que parece um perigo público, o Ministério Público arrasta os pés e tergiversa.

(Na minha ingenuidade, pensava que quanto maior a autoridade, maior a responsabilidade. Afinal, parece que é ao contrário.)

Saúde e Educação, PSD, revisão constitucional

O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, defendeu hoje que ao contrário do que a Constituição contempla, a Educação e Saúde não podem ser tendencialmente gratuitas.

Não posso criticar Passos Coelho pela falta de frontalidade...

Revista de blogues (9/7/2010)

  1. «Começo pelo fim: o nosso casamento com a União Europeia admite divórcio. É cada dia mais evidente que a UE, ultra-capitalista, ultra-doutrinária, ultra-directório, se permite contra o pequeno País que somos todas as exacções. Que a UE tem os tribunais e os juízes que lhe convém e nada podemos contra eles, nem com eles. Conclusão: puta que os pariu, devemos encarar seriamente a possibilidade de sair da UE.» (a boiada)
  2. «Num país atrasado como Portugal, a cultura do automóvel subverteu o interesse colectivo. Em 1986, com a entrada na CEE, actual União, centenas de milhares de famílias deram o salto da carroça para o Fiat 127. Não teria mal se, em simultâneo, os sucessivos governos, autarcas de todas as cores e poderes fáticos não tivessem aproveitado o upgrade de motorização para encerrar linhas de caminho de ferro e reduzir drasticamente a rede de carreiras rodoviárias.» (Da Literatura)

Reagan, Bush, Clinton, Bush, Obama...


Desigualdade no HuffPo. Disparou com Reagan e nunca mais parou...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

É censura? Sim. É grave? Há pior. Mas...

Por uma vez, não concordo com o Ludwig Krippahl. Ele acha que não há censura se uma empresa multinacional decidir encerrar uma das suas filiais por discordar dos conteúdos (e por razões, presume-se, de sensibilidade religiosa). Diz que «é uma decisão livre de uma empresa privada». Será. Mas justamente.

A censura não é sempre exercida pelo Estado ou pelas comunidades religiosas. É de censura que se trata quando uma empresa impede os seus funcionários de a criticarem em público, ou quando impede a circulação da mensagem política ou religiosa X ou Y dentro da empresa. Os jornalistas da Playboy portuguesa poderiam, se esta encerrasse (o que foi desmentido nas últimas horas), continuar a publicar combinações de barbudos e mamalhudas (sugestão para o próximo ensaio: Maomé e as 72 «virgens»). Apenas não o poderiam fazer com a marca da Playboy no cabeçalho (embora eu imagine que o Ludi os apoiasse se enveredassem por essa violação dos direitos de propriedade industrial). Mas seria censura porque uma publicação periódica fora impedida de prosseguir uma determinada linha editorial.

Não seria, evidentemente, dos casos de censura mais graves (proibir a venda seria muito pior). Continuaria a ser uma decisão privada de uma empresa privada. Mas o Ludwig deveria reflectir sobre se ainda haveria liberdade de expressão num país em que todas as empresas de comunicação social pertencessem a comunidades religiosas (ou se deixassem condicionar por elas).

Censura

Haverá «outras questões» (não especificadas), mas a responsável da Playboy explicita as fotografias do número de homenagem a Saramago como razão para o encerramento da edição portuguesa: diz que «não aprova a capa ou as imagens da sessão fotográfica. "Não teríamos aprovado a publicação, se a tivéssemos visto antecipadamente. Como resultado, vamos rescindir o contrato com Portugal"».

Assim é: a censura pode vir de onde menos se espera. Até de uma revista conhecida internacionalmente por ter alargado as fronteiras do publicável. Mamas sim, anticlericalismo não.

A maré obscura por detrás da maré negra

A Transocean, a maior empresa de perfuração de fundos oceânicos e co-responsável pela Maré Negra da Florida, segundo este artigo do New York Times apresenta um historial assinalável de falhas de segurança (Escócia e Noruega), de suspeita de fraudes (Noruega, Brasil e EUA) e de falta de respeito pelos direitos humanos. Os EUA proíbem a operação de empresas americanas na Birmânia por questões humanitárias, no entanto a Transocean está indirectamente ligada a furos realizados neste país.
Tudo parece permitido às multinacionais envolvidas no negócio do petróleo e ainda não iniciámos o inexorável período em que este recurso vai começar a escassear rapidamente. Nessa altura o seu poderio será ainda mais reforçado.
Relembro ao leitor que a maré negra da Florida não surgiu do acaso. O futuro da exploração de petróleo passa por perfurar cada vez a maiores profundidades, comportando maiores riscos de acidente e maiores custos de extracção. A outra alternativa tem sido o processamento de areias betuminosas, também ela cara e com custos ambientais terríveis.

Concordo com Vasco Graça Moura

  • «Pode-se estar a atravessar a mais profunda das crises, podem ocorrer as piores catástrofes, podem dar-se as desgraças mais sinistras, que nada ultrapassa a importância do que vai acontecendo com clubes, treinadores, jogadores, árbitros, ligas, transferências, competições, lesões, meniscos e mais coisas assim. Ninguém pestaneja quando são referidos valores milionários. Ao contrário do que sucede quanto aos gestores das grandes empresas públicas ou privadas, não consta que alguém vocifere nos areópagos políticos ou sindicais a criticar quaisquer exageros na matéria, nem sequer que alguém exija medidas fiscais adequadas aos rendimentos astronómicos em causa.» (Vasco Graça Moura no Diário de Notícias)
Se há algo que me mete confusão no impacto mediático e social do futebol, é que por entre as horas que se passam a discutir se a bola entrou ou não entrou, se foi «fora de jogo» ou «dentro do jogo», se o Ronaldo é bom da cabeça ou só de bola, ninguém se lembre de inquirir pelas declarações de IRS dos jogadores, ou de exigir medidas que taxem adequadamente os rendimentos dos futebolistas nas suas diversas formas (salários, prémios de jogo, transferências, etc). Tantos jornalistas dedicados ao «fenómeno», horas de televisão e jornais inteiros dedicados à coisa, e não há um jornalista que se dedique a investigar se os valores declarados correspondem aos anunciados nas parangonas dos jornais? E é para não falar das lavagens de dinheiro, das situações de lenocínio e de outros crimes adjacentes a essa indústria. Ou do dinheiro deitado à rua que foi a construção de «elefantes brancos» como o estádio do Algarve.

Um livro que deve ser interessante

A biografia não autorizada de Alberto JJ parece sistematizar o percurso do único salazarista assumido que conseguiu encontrar um lugar ao sol no Portugal democrático.
  • «A autora reconstitui a vida do "Barão do Quebras-Costas" ou "Dona Branca", como era conhecido no liceu, lembra os seus elogios a Salazar no tempo da Mocidade Portuguesa e os escritos a favor da guerra colonial no jornal da ANP, a boémia em Coimbra, a ligação ao movimento separatista Flama no PREC e a ascensão ao poder com o apoio da Igreja. Recorda a situação incómoda de não ter sido o fundador do PPD/PSD na Madeira, o défice democrático, as provocações e a enorme capacidade reivindicativa que faz de Jardim uma figura incontornável da política portuguesa.»

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O triunfo dos porcos



Puyol marca contra o dirigismo e protecionismo alemães. Pelos povos do sul, em nome de uma Europa solidária. Dança, Angela Merkel, dança!

«Cuidado que vêm aí os neoliberais!»

Ao fim de cinco anos a ser a ala esquerda do neoliberalismo, José Sócrates descobre-se subitamente um defensor do «Estado Social» e até do «Estado Providência» (maiúsculas no original), e que «não contem [com ele] para pôr o neoliberalismo na Constituição». Pois não: as parcerias público-privado nos hospitais; a queda dos impostos sobre a banca; o combate à crise pelo corte de prestações sociais; a «desestatização» da escola pública; as privatizações - todas estas foram medidas neoliberais dos governos socráticos que não necessitaram de revisões na Constituição para serem aplicadas. Mas quando vê os seus ex-companheiros da JSD Portas e Coelho a carregarem no acelerador, Sócrates pisca o olho à esquerda.

Paciência. Com ele, já ninguém acredita. Com outro, que tirasse as devidas consequências ao nível das alianças partidárias, talvez.

A ocupação é uma festa

Já toda a gente deve ter visto este vídeo. No contexto em que se passa, é perfeitamente surreal.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Revista de blogues (6/7/2010)

  • «João César das Neves (JCN) não pára de nos espantar. Na sua homilia de hoje, no DN, começa por afirmar que «O casamento é a realização mais espantosa da humanidade», para logo acrescentar que é «a mais utilizada forma de transmitir a existência e a única eficaz para transmitir a civilização». Bastavam estas afirmações para divertir os leitores. Não se vê como um acto ao alcance de quaisquer idiotas possa ser a «realização mais espantosa da humanidade» e até um inimputável sabe que é a cópula, e não é o casamento, que transmite a existência.
    Não seria, aliás, de bom tom, que um casal se pusesse a transmitir a existência durante o casamento. O mais elementar respeito pelas testemunhas, convidados e conservadores do Registo Civil, além do recato a que o género humano se acostumou, não aconselha tal pressa. JCN, defensor do casamento religioso, devia ser o primeiro a aconselhar os casais a esperarem o fim da cerimónia ou a precederem-na desde que não a atrasassem.» (Carlos Esperança)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A guerra no Afeganistão parece cada vez mais fútil

Fareed Zakaria sobre os custos da guerra:
  • «"Last month alone there were more than 100 NATO troops killed in Afghanistan.," the CNN host said. "That's more than one allied death for each living Al Qaeda member in the country in just one month. "The latest estimates are that the war in Afghanistan will cost more than $100 billion in 2010 alone. That's a billion dollars for every member of Al Qaeda thought to be living in Afghanistan in one year."» (The Huffington Post)

Do «fundamentalismo erótico» ao fundamentalismo do lucro

Numa variação sobre o tema do «totalitarismo do orgasmo», César das Neves fala-nos hoje do «fundamentalismo erótico» que ameaça «extinguir a sociedade», ou até «extinguir a espécie». Entretanto, leio que uma grande empresa pública retira prémios de assiduidade às mães que amamentam.

Disse «fundamentalismo», senhor professor?

domingo, 4 de julho de 2010

Novo Sócrates?

É prematuro e exagerado dizer que «o socialismo saiu da gaveta». O Sócrates da entrevista ao El País justifica a sua decisão de accionar a célebre acção dourada/direitos especiais com argumentos «racionais e não políticos», de defesa (diz ele) de uma empresa estratégica. Mas é realmente estranho ler Sócrates a acusar a Comissão Europeia de «posições ideológicas ultraliberais contra a presença do Estado» e de «preconceito contra a posição accionista dos Estados».

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Jornalismo, falta de objectividade, tortura

E não pára...

Emprego passa de 10.8% em abril para 10.9% em maio - Eurostat. (Mas Sócrates está optimista. Que bom.)

Erros do liberalismo de direita - VIII

Ao longo desta série de textos tenho-me referido à forma como vários modelos da realidade económica apresentados por liberais de direita falham em descrevê-la, sendo portanto maus modelos.
Os modelos geralmente são simples, e até algo convincentes na sua simplicidade, mas os factos mostram claramente o seu falhanço. Note-se que não estamos a falar da diferença de valores éticos que podem separar o eleitor de esquerda do liberal de direita, estamos - repito-me - a falar no falhanço objectivo de modelos que pretendem descrever a realidade mas falham quando postos à prova, e que são, apesar disso, referidos como se fossem modelos adequados para descrever a realidade.

No entanto, tal como anunciei no segundo texto desta série, a falácia descritiva dos liberais de direita não se limita à falácia explícita relacionada com a adopção de modelos errados para a previsão do impacto económico de diferentes medidas.

Outra, mais fundamental, prende-se com o impacto da prosperidade no bem estar.

A prosperidade tem um impacto significativo no nosso bem estar, principalmente quando é escassa. Se passamos fome, se não temos acesso aos cuidados médicos mínimos, se não temos capacidade para gozar qualquer momento de lazer, um pequeno aumento na nossa riqueza corresponde a um aumento significativo da nossa qualidade de vida.
Já quando temos um rendimento elevado, um pequeno aumento na nossa riqueza (igual, em valor absoluto) corresponde a um aumento irrelevante na nossa qualidade de vida.

O rendimento médio dos cidadãos de um determinado país, de forma análoga, tem uma relação muito directa com a esperança média de vida, e mesmo com a felicidade (apenas para dar dois entre inúmeros outros indicadores de "saúde social") quando ambas são escassas. Quando estamos perante um rendimento médio significativo (como o dos cidadãos portugueses - somos um país rico) a relação entre este valor e os indicadores sociais em questão torna-se muito ténue. Quase irrelavante.

Vejam-se os gráficos:






Por outro lado, analisemos, para os países ricos, a relação entre a desigualdade de rendimentos e a esperança média de vida ou uma série de problemas sociais, desde a criminalidade aos suicídios, etc:





Estes dados são algo surpreendentes. Mesmo que fosse verdade que ao diminuir as desigualdades estaríamos necessariamente a tornar mais difícil o aumento do rendimento médio (e, como mostrei, não é o caso), essa continuaria a ser a forma mais eficaz de criar uma sociedade mais saudável, na qual as pessoas se sintam melhor.

Nos próximos textos desta série explorarei em que medida é que podemos concluír que esta correlação tem raiz numa relação causal, da desigualdade para os diversos indicadores sociais, e que outros indicadores sociais são afectados pela desigualdade, desde a criminalidade à confiança mútua, passando pela depressão, gravidez adolescente, estatuto da mulher na sociedade, etc...

PS- Os gráficos utilizados neste texto constam do livro «The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better», que recomendo vivamente.

pode não ser o presidente de todos os portugueses...

...agora dos nossos amigos bovinos...



[via Machina Speculatrix]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Conferência amanhã: «Laicidade e ensino»

Amanhã às 18h30m estarei na Biblioteca-Museu República e Resistência(*), para apresentar uma conferência sobre «Laicidade e ensino», em representação da Associação República e Laicidade.

Os leitores deste blogue serão muito bem vindos.

A soberania ou é também económica, ou não é soberania alguma

Raramente devo ter estado tão de acordo com uma decisão de José Sócrates como esta de vetar a compra da Vivo pela Telefónica. A legalidade da «acção dourada» (o portuguesismo impõe-se) poderá ser contestada nos tribunais, pela não eleita Comissão de Bruxelas ou gerar uma OPA da Telefonica sobre a PT. Seja. Numa guerra há muitas batalhas. Os fundamentalistas do mercado e os castelhanos que protestem. Esclarecem-nos. Já é tempo de definir se o Estado se deve abster totalmente de intervir na economia, até ao ponto em que um Estado democrático não seja dono de nada nem decida sobre nada, e em que não haja poder que não seja económico e privado. E é também o momento de sabermos se a União Europeia vai continuar a servir para destruir a soberania democrática.

Resultados do inquérito sobre a governação de Obama

O inquérito sobre a governação de Obama teve 59 respostas. Vinte cinco leitores (42%) acham que a governação de Obama tem sido «razoável, como esperavam», dezasseis (27%) «razoável, o que é uma desilusão», apenas oito (14%) «péssima, o que é uma desilusão» e apenas sete (12%) «excelente, como esperavam». Três leitores (5%) consideram a governação de Obama «péssima, o que é uma surpresa». As restantes opções («excelente, o que me surpreende» e «razoável, o que me surpreende») tiveram zero votos.

(Por erro, não foi incluída a opção «péssima, como eu esperava».)

Petição contra o encerramento da Biblioteca Nacional

Assina-se aqui.