sexta-feira, 2 de julho de 2010

Erros do liberalismo de direita - VIII

Ao longo desta série de textos tenho-me referido à forma como vários modelos da realidade económica apresentados por liberais de direita falham em descrevê-la, sendo portanto maus modelos.
Os modelos geralmente são simples, e até algo convincentes na sua simplicidade, mas os factos mostram claramente o seu falhanço. Note-se que não estamos a falar da diferença de valores éticos que podem separar o eleitor de esquerda do liberal de direita, estamos - repito-me - a falar no falhanço objectivo de modelos que pretendem descrever a realidade mas falham quando postos à prova, e que são, apesar disso, referidos como se fossem modelos adequados para descrever a realidade.

No entanto, tal como anunciei no segundo texto desta série, a falácia descritiva dos liberais de direita não se limita à falácia explícita relacionada com a adopção de modelos errados para a previsão do impacto económico de diferentes medidas.

Outra, mais fundamental, prende-se com o impacto da prosperidade no bem estar.

A prosperidade tem um impacto significativo no nosso bem estar, principalmente quando é escassa. Se passamos fome, se não temos acesso aos cuidados médicos mínimos, se não temos capacidade para gozar qualquer momento de lazer, um pequeno aumento na nossa riqueza corresponde a um aumento significativo da nossa qualidade de vida.
Já quando temos um rendimento elevado, um pequeno aumento na nossa riqueza (igual, em valor absoluto) corresponde a um aumento irrelevante na nossa qualidade de vida.

O rendimento médio dos cidadãos de um determinado país, de forma análoga, tem uma relação muito directa com a esperança média de vida, e mesmo com a felicidade (apenas para dar dois entre inúmeros outros indicadores de "saúde social") quando ambas são escassas. Quando estamos perante um rendimento médio significativo (como o dos cidadãos portugueses - somos um país rico) a relação entre este valor e os indicadores sociais em questão torna-se muito ténue. Quase irrelavante.

Vejam-se os gráficos:






Por outro lado, analisemos, para os países ricos, a relação entre a desigualdade de rendimentos e a esperança média de vida ou uma série de problemas sociais, desde a criminalidade aos suicídios, etc:





Estes dados são algo surpreendentes. Mesmo que fosse verdade que ao diminuir as desigualdades estaríamos necessariamente a tornar mais difícil o aumento do rendimento médio (e, como mostrei, não é o caso), essa continuaria a ser a forma mais eficaz de criar uma sociedade mais saudável, na qual as pessoas se sintam melhor.

Nos próximos textos desta série explorarei em que medida é que podemos concluír que esta correlação tem raiz numa relação causal, da desigualdade para os diversos indicadores sociais, e que outros indicadores sociais são afectados pela desigualdade, desde a criminalidade à confiança mútua, passando pela depressão, gravidez adolescente, estatuto da mulher na sociedade, etc...

PS- Os gráficos utilizados neste texto constam do livro «The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better», que recomendo vivamente.

5 comentários :

  1. João, li o texto duas vezes, mas não percebi qual é o "erro do liberalismo de direita" em causa

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  2. No primeiro texta série tinha escrito isto em relação ao liberalismo de direita:

    «Aquilo que quero distinguir com este texto é os dois possíveis fundamentos que podem estar subjacentes à defesa desta posição ideológica:

    -Argumentos de índole ética. Alega-se que, sendo a liberdade um valor fundamental, ela está em causa quando o estado tem poder sobre a propriedade das pessoas. Assim, independentemente das consequências práticas da tributação e das funções sociais do estado, estas devem ser reduzidas à sua expressão mínima. (Hayek)

    -Argumentos de índole utilitarista. Implicitamente assume-se um ponto de vista utilitarista, e um no qual a prosperidade é uma componente central do bem estar. Depois, mostra-se como as organizações sociais onde o estado tem menos peso na economia promovem a prosperidade global. (Friedmann)»

    Explicando que esta série tenta contrapôr a segunda fundamentação e não a primeira (para essa escrevi outra série de textos) é possível dividir a segunda fundamentação em duas componentes:

    a) Políticas advogadas pelo liberalismo de direita são as que resultam em maior prosperidade

    b) maior prosperidade é uma componente central no bem estar

    (por exemplo, alega-se que se usarmos políticas de esquerda para promover a igualdade vamos a) diminuir a prosperidade e b) por consequência diminuir o bem estar generalizado)

    Os textos desta série até agora tentaram denunciar os erros da premissa a), mas este e os próximos pretendem denunciar os erros da premissa b).

    Em particular mostrando que em sociedades ricas a qualidade de vida depende muito mais da equidade que do rendimento médio.

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  3. 1. O que significa "prosperidade", "bem-estar" e "qualidade de vida"? Só pergunto porque usas uma argumentação quantitativa.

    2. Continuo sem perceber qual o "erro do liberalismo de direita". Podes dar um exemplo de uma afirmação que tenhas contrariado com a tua análise?

    3. Não estarás a misturar correlação e causalidade? Como sabes que sem "prosperidade" o "bem-estar" estaria bem pior? Falta uma análise dinâmica.
    E como sabes que é a "equidade" que está a elevar a "qualidade de vida", e não outro factor qualquer?

    p.s. desculpa o uso das aspas. com elas queria-me referir ao que eu julgo serem as tuas definições dos conceitos, e não às minhas :)

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  4. Miguel Carvalho:

    1. Se eu disser que "acredito que uma sociedade mais justa é uma sociedade onde as pessoas vivem melhor" não tenho de definir "mais justa" nem "onde as pessoas vivem melhor" porque não apresentei gráficos.

    Mas se eu disser "acredito que uma sociedade com menos criminalidade é uma sociedade onde as pessoas vivem melhor" e mostrar com um gráfico que o factor X influencia a criminalidade, então já uso argumentação quantitativa??
    Não. A parte em que falo no conceito "viver melhor" não é quantitativa. Não porque não possa ser, mas porque não precisa.

    Eu não preciso de definir com rigor "viver melhor" para que as pessoas concordem que numa sociedade com menos criminalidade se vive melhor. Podia, mas tirava o foco do texto do essencial, da informação que apresento como relevante.

    Nestes textos o conceito de "bem estar" e "qualidade de vida" não são apresentados como algo quantitativo.
    São apresentados como algo que todos valorizamos e que todos concordamos que se relacionam com outras questões, e essas sim podem ser definidas quantitativamente.

    Numa sociedade de bem estar, os seguintes indicadores tendem a ser mais elevados/reduzidos:

    -percentagem de pessoas que se consideram felizes (elevada)

    -taxa de suicídios (reduzida)

    -taxa de depressão (reduzida)

    -esperança média de vida (elevada)

    -taxa de criminalidade (reduzida)

    -taxa de homicídos (reduzida)

    -número de prisioneiros (reduzido)

    -taxa de sem abrigos (reduzida)

    etc...


    Se alguém acredita que numa sociedade com elevada criminalidade, elevado número de suicídios, baixa esperança média de vida, baixa percentagem de pessoas que se declaram felizes, etc... existe mais bem estar do que noutra em que estes indicadores revelam uma realidade oposta, óptimo para ele. Se me fosse preocupar com essa pessoa devia de facto definir estes termos de forma rigorosa.

    Mas eu estou mais preocupado com a pessoa que tem uma noção "normal" de "bem estar", mas que acredita que a prosperidade é dos factores mais importantes para conseguir este bem estar.

    Claro que agora falta definir "prosperidade".
    Quando falo em prosperidade refiro-me ao acesso a bens e serviços. O PPP per capita é um bom indicador da prosperidade da sociedade como um todo (mesmo que nela a maioria dos indivíduos não sejam prósperos).

    Aquilo que quero mostrar quantitativamente com este texto e os que se seguem, é que numa sociedade rica (e Portugal está nessa categoria) a prosperidade tem pouca relação com um bom resultado de uma série de indicadores (neste texto escolhi dois - a percentagem de pessoas que se declaram felizes e esperança média de vida, mas apresentarei outros em textos futuros).

    Sem ser quantitativamente espero que o leitor concorde que são indicadores relevante no que diz respeito ao "bem estar".

    Depois, mostro que a "equidade"* se correlaciona fortemente com este tipo de indicadores. Neste texto escolho dois exemplos, mas nos próximos usarei muitos mais.
    Quanto à correlação ter uma raiz causal, tal como descrito no texto esse é um assunto que abordarei nos próximos.


    *"equidade" pode ser definida matematicamente de formas muito diferentes: desde a razão entre a riqueza ou rendimento detida pelos X% mais ricos e X% mais pobres, até ao índice de Gini (as diferentes formas de a definir fazem pouca diferença em relação aos resultados obtidos).

    Nos gráficos apresentados em particular ela é definda como sendo a razão dos rendimentos dos 20% mais ricos e 20% mais pobres.

    (continua)

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  5. 2. O erro, como expliquei, é um erro implícito e não explícito.

    Quando Reagan diz que uma maré crescente eleva todos os barcos, está implícito que mesmo que as desigualdades aumentem, se o rendimento de cada um aumentar, todos vão ficar melhor.

    Na verdade, isso é tão razoável de assumir, que estes resultados me parecem algo surpreendentes.

    O erro está em assumir que o aumento de prosperidade é uma das estratégias mais eficazes de tornar uma sociedade rica (como a nossa) numa sociedade ainda melhor.

    Geralmente este erro consegue-se comparando sociedade pobres com sociedades ricas, mostrando assim o impacto da prosperidade numa série de indicadores, levando assim a crer que aumentos adicionais levarão a um aumento significativo da qualidade de vida.

    É este erro que pretendo denunciar.


    3. «Nos próximos textos desta série explorarei em que medida é que podemos concluír que esta correlação tem raiz numa relação causal»

    «Como sabes que sem "prosperidade" o "bem-estar" estaria bem pior?»
    Esta pergunta não entendi.

    Parece-me evidente que sem prosperidade, de todo, teríamos menos bem estar, mas eu nem sequer afirmei tal evidência, ou afirmei?

    E se tivesse afirmado, achas mesmo que deveria perder o meu tempo a demonstrá-lo? Alguém acredita que sem qualquer prosperidade uma sociedade não vive pior?

    Ok, vendo bem, há quem acredite que os caçadores recolectores não viviam pior que nós, nesta civilização tão "difícil". Mas acredito que nenhuma destas pessoas deseja de facto uma sociedade sem qualquer prosperidade.


    Eu não escrevi este texto como uma tese de doutoramento ou artigo científico, no qual justifico cada termo, e mesmo para dizer que "ter menor probabilidade de ser assaltado é bom" devo encontrar uma referência bibliográfica qualquer. Caramba, nem me dei ao trabalho de dizer onde encontrei os gráficos (mas por acaso tenho de ver se acrescento isso ao texto).

    O objectivo neste texto é divulgar dados interessantes que nos levam a questionar assunções comuns. Faz sentido centrar a antecipação de críticas e pedidos de esclarecimento nos pontos que vão ser polémicos do ponto de vista político, não do ponto de vista formal.
    São os primeiros que quero que estejam bem sustentados e adequadamente justificados, neste texto ou nos que se seguirem.

    Se alguém discordar dos meus textos porque acredita que não foi provado formalmente que uma sociedade onde existe mais equidade, mesmo que isso conduza a mais gente que se declara feliz, menos criminalidade, mais saúde, etc..., é uma sociedade melhor, visto não existir prova formal e "matemática" de que estas coisas são boas, é deixá-lo discordar.

    Politicamente é esse o tipo de sociedade que queremos construír. Há um consenso político nesse sentido.

    Os dados podem é esclarecer-nos sobre quais as melhores estratégias para atingir tais fins.

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