sexta-feira, 30 de julho de 2010

Welfare queens

Para que Reagan conseguisse criar nos EUA as enormes diferenças sociais que hoje existem, tornando uma sociedade próspera com elevada qualidade de vida numa das mais violentas e desiguais das sociedades ricas, precisou de mudar as mentalidades. Era importante destruir o sentimento de solidariedade entre os que não são ricos, colocando a classe média contra os mais pobres, fazendo-os sentir-se explorados por aqueles que menos têm.

Isto não parece tarefa fácil. Os valores marxistas levam a generalidade das pessoas a sentir-se exploradas pelos mais ricos, e parece natural que muitos aceitem estes valores, mesmo que eu discorde deles. Mas fazer as pessoas sentir-se exploradas pelos mais pobres? Por quem menos tem? Isso parece ainda mais estranho, ainda mais difícil.

Uma boa maneira de destruir a empatia e o sentimento de solidariedade que existe entre as pessoas, é acentuar as suas diferenças. Há quem diga que Reagan usou o «racismo apito para cães»: um discurso que não pode ser objectivamente identificado como racista, mas que nas pessoas mais racistas provoca um acentuar do ódio racial, e que as leva a sentir que o autor do discurso partilha a sua visão racista, mas não o pode afirmar publicamente. Eu não sei se Reagan fez isso ou não, precisaria de conhecer melhor os seus discursos para julgar por mim.

Existe outra maneira de o fazer: criar uma realidade paralela, através da propaganda, de repetição de exemplos enganadores, da omissão de factos, uma realidade onde os pobres vivem à tripa forra, com enorme abundância e poder. Reagan repetiu várias vezes a história de uma mulher que viveria da segurança social, teria oito nomes, acesso a comida gratuita e saúde gratuita, e um rendimento de 150 000$. E se Louçã não consegue com o exemplo de Vale e Azevedo inflamar o ódio contra os ricos, Reagan certamente conseguiu, com esta alegação de fraude, e outras do tipo, destruir em grande medida o sentimento de solidariedade entre a classe média e a classe baixa, que tantos dividendos deu à classe média.
As consequências: desde então, quer a economia dos EUA esteja saudável ou não, os rendimentos da classe média não sobem. Não tinham parado de subir nas décadas anteriores.

Entre as minhas leituras em Portugal, o melhor exemplo disto são os textos de Helena Matos no Blasfémias. Devo dizer que foi este que inspirou o presente texto.
Nele os mais pobres, os mais desprotegidos, com menos acesso à justiça, com menos noção dos seus direitos, são afinal o contrário: «gritam muito e invocam discriminações e traumas vários que lhes garantem a compreensão de muitas assistentes sociais e animadores culturais». Em Portugal, é-nos dito, os problemas não se colocam se vivemos nas "franjas". Que sorte têm os pobres!

Não. A falta de solidariedade entre a classe média e quem menos tem não é apenas indecente. É contrária aos interesses da classe média. Se queremos viver numa sociedade com qualidade de vida, onde exista coesão em vez de medo, onde exista solidariedade em vez de racismo, onde exista menos criminalidade e mais decência, mais equidade e prosperidade entre todos, temos de rejeitar estas visões alienantes da realidade.

Não são os mais pobres aqueles que mais têm e podem: é o contrário.