terça-feira, 3 de abril de 2012

Trabalho: sindicalismo e representação

Na última greve geral, a fractura no movimento laboral português ficou clara nos incidentes entre CGTP e Precários Inflexíveis. A divisão resulta da incapacidade do sindicalismo «tradicional» (CGTP e UGT) em representar segmentos laborais muito importantes (e de serem diferentes as culturas organizativas e políticas «por trás» desses movimentos).

Devo dizer que não critiquei nem publicitei a última greve geral, porque considero a greve uma arma imprescindível de luta dos trabalhadores, mas muito desvalorizada pelas próprias modificações nas condições laborais de quem não é funcionário público ou aparentado. As greves gerais, cada vez mais, são greves dos transportes públicos, das escolas públicas, das grandes empresas públicas, semi-públicas ou ex-públicas, quando as piores condições de trabalho existem justamente no sector privado. Os sindicatos «tradicionais» têm falhado em representar fenómenos que já nem novos são, mas que cada vez afectam uma proporção maior (e maior ainda entre os jovens) dos trabalhadores: os recibos verdes e a precariedade, as empresas de trabalho temporário e os call centers, não ter salário fixo e ser pago à hora, ser despedido na hora. Eu sei, grande parte das novas condições laborais escapam às categorias habituais do trabalho. E lamento dizê-lo, mas uma organização tão respeitável como a CGTP aparece mais facilmente mobilizada para defender os direitos dos funcionários públicos (caso típico, o protagonismo da FENPROF) do que em representar aquilo a que já chamei a «Geração SEF». A greve, para muitos que trabalham no privado, já está interiorizada como um privilégio de funcionários públicos. Registe-se portanto, para a posteridade, que foi uma grande vitória da última greve geral haver adesão significativa em call centers.

Movimentos como os «Precários Inflexíveis», sendo em si louváveis e preenchendo uma lacuna de representação, creio que ganhariam, no entanto, em se aproximar mais do modo de funcionar do sindicalismo tradicional. Sim, com cartões e quotas, estatutos e representantes eleitos. É que organizações sem estrutura directiva clara são pouco transparentes e suspeitas (justa ou injustamente) de pouco democráticas. O mesmo é válido para o Movimento Sem Emprego.

Que fique bem claro: não estou a minimizar nem a desvalorizar o importante trabalho sindical, para-sindical ou político realizado por qualquer uma das organizações mencionadas acima e respectivos dirigentes ou activistas. Escrevo esta nota porque me preocupa que as piores condições laborais do mercado de trabalho passem um bocado «ao lado» do sindicalismo tradicional, e que as novas organizações não se «profissionalizem». O trabalho já não é o que era, e há que retirar as devidas conclusões.


Adenda: eu sei, a CGTP co-optar os Precários Inflexíveis mas não os «Sem Emprego» significa que há possibilidades de colaboração (?) entre PCP e BE, mas não com a Ruptura/FER. Mas isso pouco me interessa aqui.