sexta-feira, 13 de abril de 2012

Corruptos e autoritários

Eu discordo profundamente do «liberalismo de direita», ao ponto de ter dedicado duas séries de textos às razões pelas quais creio que essas políticas trazem maus resultados para as sociedades onde são implementadas:

«Falácias da Ética Neo-Liberal» I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX.

«Erros do Liberalismo de Direita» I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, série ainda incompleta.

No entanto, ao longo da actual governação, descobri que - apesar das alegadas convicções de Pedro Passos Coelho - ele não preside a um governo que ponha em prática as políticas e valores da «direita liberal». Lutarei politicamente contra tais políticas, mas não me revolta visceralmente que alguém que prometeu concretizá-las o faça: é o seu mandato democrático.
Aquilo que verdadeiramente me indigna é a avassaladora onda de corrupção, desperdício e ataques às liberdades democráticas que se tem vindo a verificar. Qualquer liberal - aliás, qualquer cidadão de qualquer quadrante político - deveria ver neste actual Governo uma ameaça.
Sustentei estas afirmações nestes textos em que foco a questão da corrupção e do desperdício, e nestes outros em que foco a questão dos atentados à liberdades democráticas.

E a que propósito volto eu a este assunto? Lembrei-me do tema graças a esta notícia sobre o desfecho do caso Portucale, também desta sobre as alegadas ameaças de processo disciplinar caso António Costa fosse recebido na maternidade Alfredo da Costa. Pode ser que as alegações relativas ao processo disciplinar não tenham fundamento, e pode ser que não tenha havido influência do poder executivo na decisão que envolve dirigentes do CDS, apesar do «essencial da acusação do Caso Portucale [ter sido] dado como provado», e ainda assim terem sido absolvidos todos os arguidos, mas ambas as notícias são bons pretextos para voltar a lembrar-me de um padrão que se vai repetindo, geralmente com indícios ainda mais fortes que estes.

E, a propósito de eu ter escrito o texto «Esta direita contra a Liberdade», uma ilustração tremenda daquilo que denunciei vem da nossa vizinha Espanha: «Convocar manifestações pela Internet vai dar prisão em Espanha». Não resisto a citar, de outras notícias sobre o mesmo tema, o seguinte: «Governo está a equacionar uma série de alterações ao Código Penal. A proposta anunciada hoje pretende, por exemplo, que a resistência passiva nas manifestações seja considerada como atentado à autoridade» e ainda «Alexandre de Sousa Carvalho estabelece uma analogia entre a aprovação de uma lei deste tipo e a existência de activistas icónicos. Esta lei, considera Carvalho, transformaria Martin Luther King e Ghandi em terroristas e anularia o seu poder contestatário.»

Estas ameaças têm de ser levadas a sério por todos aqueles que realmente amam a Liberdade, sejam de Esquerda ou de Direita.

7 comentários :

  1. ó filha sé neo liberal porqué que tem os numerais em romanox

    deve ser é retro-liberal

    ou paleo-liberal...

    «Falácias da Ética Neo-Liberal» I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX....sei não 69 69 69

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  2. Só um aparte, que nem tem muito a ver com o essencial do texto - uma lei dessas não anularia o poder contestatário de King ou Gandhi, porque a essência da estratégia King/Gandhi é exactamente violar a lei em massa, de forma ao Estado ser incapaz de exercer a repressão (os protestos que eles organizaram eram ilegais à luz das leis do Império Britânico ou dos estados do Sul - a ideia da "desobediência civil" é exactamente essa)

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  3. Miguel,

    No essencial tens razão, mas esse comentário sobre o Gandhi ou King continua relevante. Porquê?
    Porque nos países ocidentais durante algumas décadas a evolução das leis e mentalidades foi sendo no sentido de proteger os direitos civis, tal como o direito à manifestação, ao ponto de protestos como esses estarem mais protegidos pelas leis e pela opinião de terceiros do que quando foram realizados. Em Portugal, por exemplo, tivemos o 25 de Abril que foi quase uma ruptura no que diz respeito a essa protecção dos direitos de manifestação, mas nos outros países ocidentais (e não só) as mudanças foram no mesmo sentido.
    Mas agora caminha-se no sentido oposto, e esta alteração legislativa é um sintoma perigoso disso mesmo.
    E o pior é que se caminha no sentido oposto por ambas as vias - as leis mudam, mas as pessoas não se indignam com essa mudança. Lembrar-lhes a importância de movimentos como os os de King e Gandhi talvez não seja má ideia.

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  4. Não esperes nada dos nossos "liberais."
    O liberalismo não passa de uma fantochada criada para perpetuar os tradicionais detentores de poder e riqueza no topo da piramide social.
    Tomando como exemplo o Carlos Novais, o fulano viveria muito bem em uma monarquia teocratica desde que esta tivesse o padrão ouro. O resto dos insurgentes e dos liberais curvam a espinha aos donos. É só ver a indignação selectiva com o que se tem passado.

    Não, os nossos "liberais" são basicamente conservadores obcecados com a propriedade privada. E há liberais de dois tipos: os que sabem o que defendem e os palermas...

    De todas as maneiras é inevitável: nos proximos 10 a 15 anos, a continutarem estas politicas repressivas e regressivas dar-se-á um banho de sangue num país mais pertinho...

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    1. Sérgio,

      Várias vezes me queixo que muitos dos supostos liberais de direita são na verdade "«"liberais"»" de direita. Para mim um caso significativo foi o do Pedro Arroja no Blasfémias, que chegou a alegar que o Salazar tinha sido um exemplo de liberalismo (não estou a gozar, ele fez mesmo esta afirmação explícita em vários textos) e não existiu propriamente a indignação pela ruptura com a linha editorial que veio a acontecer quando criticou os «banqueiros judeus» revelando o seu anti-semitismo.
      A Helena Matos lá deixa umas farpas anti-imigração e diz mal «dessa gente», mas é mais subtil.

      Mas enfim, não conheço bem o Carlos Novais (escreve pouco no Vento Sueste), mas acredito que há realmente «liberais de direita» a sério. O Gabriel Silva (e o Paulo Morais?) do Blasfémias, e algumas pessoas que conheço pessoalmente. Mas realmente é difícil de compreender a ausência de revolta com estes sucessivos ataques à liberdade. Essa ausência dá alguma razão à tua tese.

      Talvez tenhas toda a razão, mas ainda não estou convencido.

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    2. Por acaso no caso do Gabriel Silva concordo contigo. Nem sei como é que ele mantém a companhia porque sempre encontrei um fundo de verdade no "diz-me com quem andas..."

      Em todo o caso não há que ter a menor dúvida que o Liberalismo é apenas uma pilula dourada que foi sendo moldado para combater intelectualmente a Social-Democracia europeia/americana.

      É mais fácil falar em liberdade do que em castas...

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