quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma terra com amos - a internacional islamista

O Renato Teixeira do Cinco Dias, após uma sucessão de posts provocatórios incensando variados líderes islamofascistas, dignou-se explicar o seu apoio (teórico) à «Resistência Islâmica». Este debate tem também acontecido aqui no nosso blogue, por exemplo nesta caixa de comentários.
Como eu previra, a motivação principal dos defensores do islamofascismo é o combate ao imperialismo (estado-unidense, claro, porque não há outro): verificando que a questão israelo-palestiniana se eterniza, que os EUA estão no Afeganistão e no Iraque, e que o Irão desafia o «Ocidente», uma certa parte da esquerda decide que, perante um combate tão avassaladoramente importante como a «resistência» ao imperialismo dos EUA, toda a ideologia e acções islamistas podem ser ignoradas, e que vale a pena alinhar com fascistas de persuasão islâmica.

Há um par de reparos que vale a pena fazer. E depois, há um cenário a considerar.

Primeiro reparo: o mundo não gira à volta dos EUA. O que significa, por um lado, que há outros imperialismos para além do norte-americano, e por outro, que muito do que acontece no mundo islâmico se deve a razões locais.

Por exemplo: a ascensão dos talibã deve-se muito mais ao ISI e ao imperialismo paquistanês (e às madraças Deobandi) do que à CIA e ao imperialismo estado-unidense. E mesmo na fase mujahedin da guerra no Afeganistão, o papel dos EUA é sobrestimado: foi nessa época que as actuais redes islamistas (incluindo a Al-Qaeda) se forjaram com dinheiro saudita e do Golfo (oferecido voluntariamente, por solidariedade islâmica, e não por pró-americanismo), com campos de treino e bases de recrutamento (abençoadas por clérigos islâmicos), e com voluntários vindos do Paquistão e de todo o mundo árabe para combater o «comunismo ateu» (sublinhe-se: voluntários e não mercenários). Não querer ver isto, e insistir em que os movimentos islamofascistas são uma mera «reacção» ao «imperialismo ocidental», ou que a Al-Qaeda é uma criação da CIA (como insistem alguns), é subestimar a inteligência dos povos árabes ou asiáticos, a sua capacidade de ter motivações próprias, e, pior ainda, não entender o mundo em que vivemos.

Outro reparo: apoiar a causa palestiniana quando a OLP tinha a primazia, e visava uma democracia laica juntando israelitas e palestinos, não é bem a mesma coisa do que apoiar a Palestina autónoma quando esta é dominada pelo Hamas, que deseja varrer Israel do mapa. E nem todos os povos se «fascizam» na oposição ao imperialismo dos EUA (a América Latina está cheia de exemplos do contrário).

Finalmente: algures nos comentários, fui acusado de «não passar da primeira linha». Seja. Passemos para o cenário de última linha.

Imaginemos. Imaginemos que um dia a formidável aliança entre islamofascistas e meia dúzia de marxistas-leninistas (o parceiro menor, dado que a relação de forças é essa) derrota os EUA. Ou seja: a OTAN é escorraçada do Afeganistão e os talibã regressam ao poder; uma qualquer aliança xiíta toma o poder em dois terços do Iraque, pondo em fuga para o Curdistão as tropas americanas; e o Hamas expulsa os judeus de Israel, com o apoio do Irão e da sua bomba. Nesse mundo de maravilha, coberto de verde, que pensam os islamo-esquerdistas que acontecerá às mulheres e aos homens desses países? Cantarão a «Internacional» enquanto judeus, cristãos, ateus e homossexuais são enforcados, e enquanto o uso do véu se torna obrigatório para as mulheres? Se a cantarem, será melhor mudar a letra. O sonho islamofascista não é «uma terra sem amos». Eu diria que é mesmo «uma terra com amos». Faz toda a diferença.