domingo, 21 de março de 2010

As responsabilidades e a fuga

O mito central do cristianismo pode ser lido como uma alegoria sobre a transferência de responsabilidades. Segundo a interpretação mais difundida, Jesus Cristo teria morrido pelos «pecados» da humanidade inteira, «pecados» que não cometera e pelos quais não era responsável. Obviamente, os «pecados» incluem desde comportamentos inócuos e até banalizados na nossa civilização (como relações sexuais consentidas entre adultos), até actos que serão sempre crime em todas as sociedades (como o homicídio). Há duas formas diferentes de encarar o sacrifício crístico: ou se o entende como um heróico exemplo a seguir, e portanto deve-se assumir a responsabilidade pelos próprios actos e até pelos de outrém (e estar disponível para sofrer as consequências), ou pelo contrário transferem-se as responsabilidades para uma entidade transcendente («Cristo morreu por nós, e só a Deus prestamos contas»).

Ratzinger publicou ontem o seu documento sobre os abusos sexuais cometidos por padres irlandeses. A «imprensa amiga» tenta convencer-nos de que «assumiu a responsabilidade». Nada mais falso: Ratzinger nada disse, por exemplo, sobre a carta que ele próprio escreveu em 2001, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a exigir o «segredo clerical» para as denúncias de abuso sexual de menores dentro da ICAR. Nessa época, não recomendava a colaboração com tribunais civis. Também não assumiu, que eu saiba, a responsabilidade por um caso em que teve responsabilidade directa: o acolhimento de um padre pedófilo em Munique quando aí era arcebispo.


Os católicos dir-me-ão que o seu Papa exorta (agora...) à «cooperação» com os tribunais civis. É verdade, e é um passo católico no sentido da civilização. Mas ele próprio poderia dar o exemplo, e não o faz. Enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, presume-se que terá tido conhecimento de muitos casos de abuso sexual. Sobre os quais, que se saiba, ainda não «cooperou» com as autoridades civis. Poderia seguir o exemplo de Cristo, e sacrificar-se sofrendo as consequências, mas prestando à vítimas uma ajuda efectiva. Pelo contrário, prefere uma «oração» pela ICAR na Irlanda, a qual, do ponto de vista das vítimas, me parece que não serve rigorosamente para nada.

Ratzinger perdeu também uma oportunidade para reflectir sobre a desproporção de abusadores de menores entre os sacerdotes, por comparação com a população masculina em geral. Como indicam os números avançados pelo Ludwig Krippahl, 4% dos padres (nos EUA) serão abusadores. Poderá estar ao alcance de Ratzinger alterar uma das possíveis causas para esta elevada taxa de pedofilia entre os sacerdotes católicos: o celibato. Não é um dogma de fé, e há padres católicos casados (padres católicos ex-protestantes, entre outros casos). Como até alguns padres assumem, o voto de castidade é contra natura. E pode potenciar ou exacerbar comportamentos anómalos. Ratzinger poderia também reflectir sobre a possível existência de uma cultura de abuso sexual nos seminários e nos colégios internos exclusivamente masculinos, transmitida de geração em geração. Saberá mais sobre isso do que eu, mas nada disse.

Globalmente, Ratzinger não faz o sacrifício heróico de assumir a responsabilidade perante a justiça terrestre pelos crimes do seu clero, e aconselha vítimas de abusos sexuais cometidos por padres cristãos a identificarem-se com Cristo, recomendando-lhes orações (ou seja, transfere a justiça para o «Céu»). O que pode ser visto como um exercício de fuga às responsabilidades, e até de requintado cinismo.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

11 comentários :

  1. Parece-me que Ratzinger tomou uma atitude completamente diferente da do passado porque já não tem outra saída.

    Seja como for, não me parece que a abolição do celibato vá evitar eficientemente os abusos senão por diluição das percentagens - a entrada de homens que de outra forma nunca escolheriam o sacerdócio traria, na melhor das hipóteses, o nº de abusos ao nível da sociedade em geral.

    A chave é abrir as instituições onde se cuida de crianças ao escrutínio público. A transparência e avaliação externa são essenciais para o combate ao abuso e é justamente a sua ausência que facilita o acesso de pedófilos a essas instituições. Istso é verdade para orfanatos católicos e para a Casa Pia.

    PS: Já tentei comentar várias vezes mas por alguma razão os comentários não apareceram...

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  2. Francisco,
    o voto de castidade *não* é uma coisa normal. E produz comportamentos anormais - fatalmente. Acabar com o celibato ajudaria a tornar o clero católico mais normal.

    P.S. Não entendo porque é os teus comentários não apareceram. É a primeira vez que apareceu essa queixa.

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  3. Verdade. A castidade é uma perversão doentia, mas acho que o problema dos padres católicos não é a castidade. Toda a gente sabe histórias de padres com amantes, com filhos, com mulher e filhos, etc. O problema é, acho eu, o poder desmedido que a ICAR tem para abafar escândalos e conseguir tratamentos de excepção. Agora na Irlanda são os contribuintes - e não a ICAR - quem vai pagar as indemnizações devidas aos milhares de vítimas dos abusos, sexuais e outros, perpetrados pelos energúmenos daquela organização.

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  4. Concordo com o Filipe Castro, com a excepção da sua classificação atribuida à castidade. Uma perversão doentia? Quem escolhe, de livre vontade, adulto, levar uma vida de castidade é um doente perverso?

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  5. O problema não são os padres que têm mulher e filhos. Esses até serão relativamente normais - «relativamente» porque também fogem às responsabilidades ao não assumir a paternidade, etc. O problema são mesmo os padres que tentam ser coerentes com o voto de castidade - que é impossível de cumprir por 98% dos homens. Esses acabam por cair em perversões.

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  6. Ricardo,

    Concordo que a castidade talvez dê origem a tensões que depois se tornam difíceis de controlar e nessa perspectiva é provável que propiciem abusos - mas acho difícil que esses abusos tenham como alvo preferencialmente crianças sem que o abusador seja pedófilo à partida. Um padre não pedófilo com problemas com o seu celibato procuraria, penso, outras formas de resolver essa tensão antes de violar uma criança.

    Seja como for, se houvesse supervisão nas instituições, os pedófilos teriam bastante menos hipóteses. Para além disso, o encobrimento sistemático foi parte do crime.

    E sabe-se que a pedofilia leva a traumas que muitas vezes leva a que crianças abusadas se tornem abusadores em adultas. Quantos dos abusadores não terão sido já abusados em crianças? Quantas dessas crianças terão permanecido na comunidade e ingressado em seminários posteriormente?

    (Quanto aos comentários, apenas quis alertar para as susceptibilidades do blogger na eventualidade de aparecer uma chuva de comentários todos iguais...)

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  7. Francisco,
    não sei o que é «ser pedófilo à partida». O que eu sei é que há pessoas que abusam sexualmente de menores. E que são quase todas homens. Quanto às causas, podemos discutir muito. O ter tido problemas semelhantes quando menor será uma das causas.

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  8. Quero dizer que não é o celibato o factor extremo que leva um homem a decidir abusar de uma criança mais facilmente. É simplesmente a pedofilia.

    Ou seja, suspeito que o factor de risco de abuso de uma criança por parte de um não-pedófilo seja muito fracamente aumentado pelo celibato.

    E também concordo quanto à discussão sobre as causas. As propostas avançadas no post do Ludwig parecem-me razoáveis: os pedófilos talvez procurem o sacerdócio pelo maior acesso não supervisionado a menores. Isso seria, então, verdade para outras profissões o que é confirmado pelo que se passou na Casa Pia.

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  9. Desculpem-me insistir, mas 900 anos de prática DUVIDOSA não fazem uma anormalidade normal! O celibato é uma perversão, um pecado contra a natureza, um crime contra 450 milhões de anos de evolução!

    Não me dêem música! Vão ler o Santo Agostinho!

    Aqui nos EUA há uma data de mentirosos que dizem que não sentem atracção sexual por mulheres por quem não estejam apaixonados. São TODOS uns mentirosos sem vergonha!! E quem me diz que é possível ser-se feliz e ter-se uma vida sexual miserável está a mentir. Ou não é normal. Ou nunca passou fome. Ponto final.

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  10. "O celibato é uma perversão, um pecado contra a natureza, um crime contra 450 milhões de anos de evolução!"

    Esta frase poderia estar noutro tipo de blog. Bastaria mudar a palavra "celibato" por "homossexualidade". Esquisito, não é?

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