quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A tenaz que aperta Alegre

No extremo esquerdo da esquerda, Manuel Alegre é acusado de ser o candidato de Sócrates. No extremo direito da esquerda, Alegre é acusado de ser o candidato de Louçã. De um lado, dizem-lhe que «[não entende] que sem se demarcar do governo Sócrates não tem qualquer hipótese de vencer as eleições». Do outro, que «apostou tudo na derrota do PS e num significativo crescimento eleitoral do Bloco».

Nada há aqui de surpreendente. O bloqueio histórico da esquerda portuguesa é a «cortina de ferro» entre os derrotados e os vencedores do 25 de Novembro. Uns ficaram confinados ao protesto, os outros alternam com a direita no governo. Mas não tem que continuar a ser assim, ao nível da política partidária. A «guerra fria» já acabou. E, principalmente, não deve ser assim numa eleição presidencial. Nesta eleição não está em causa a maior ou menor proximidade entre Alegre e o PS ou entre Alegre e o BE. Está em causa, isso sim, sabermos se seria melhor Presidente do que um Cavaco Silva que representa o erro estratégico do seguidismo europeu, as aves de rapina do neoliberalismo, a anestesiação forçada da política e o manobrismo de bastidores. Alegre pode ser a mudança que é necessária para um relacionamento menos complexado com a UE, uma gestão da crise do euro que não se faça atacando os serviços públicos, e uma política em que o debate se faz em público e não se esconde atrás de tabus e bolos-rei.

Que os sectários dos dois extremos da esquerda façam fogo cruzado sobre Alegre demonstra que não entenderam que escolhas os próximos anos trarão.