domingo, 5 de dezembro de 2010

Wikileaks: o futuro da democracia global

Atribui-se a Bismarck a frase «as leis são como as salsichas, é melhor não as ver a serem feitas».

E, todavia. Todos gostamos de saber o que comemos, como gostamos de saber o que os governos fazem em nosso nome, com o dinheiro dos nossos impostos. Alguns de nós até acham, veja-se lá o radicalismo, que temos o direito de saber o que comemos e o que pagamos.

A wikileaks colocou em acesso público a correspondência diplomática dos EUA durante um período de alguns poucos anos. Entre as revelações relevantes, a enorme hostilidade entre os Estados islâmicos sunitas e o Irão, maior do que alguma vez vi descrito na imprensa «de referência»; o presidente do Iémen a autorizar os EUA a atacarem o seu próprio povo, mesmo quando matam civis (incluindo crianças), e oferecendo-se para dizer que é ele quem ordena os ataques («we'll continue saying the bombs are ours, not yours»); os EUA a pressionarem o poder judicial espanhol para não investigar crimes de sangue (com a vergonhosa cooperação do PGR espanhol); pressões semelhantes sobre a Alemanha; espionagem da ONU, incluindo o secretário-geral Ban Ki-moon, ordenada por Hillary Clinton ela própria (até dados «biométricos» eles queriam); detalhes sobre como alguns Estados do leste da Europa, em particular a Rússia, são máfias com bandeira de Estado; que os sauditas, grandes aliados de Portugal (e dos EUA) continuam os principais financiadores das Al-Qaedas; e que a Turquia é uma confusão perigosa.

(Também há detalhes sobre um líder magrebino que vive em união de facto com uma loura ucraniana,  a qual não curou as fobias do senhor; e um líder latino que promove «orgias». Mas isso não é política; é coscuvilhice e não me interessa.)

O que me interessa é que a wikileaks significa, quer o reconheçam ou não, o início de uma nova era.

Há vinte anos, para fazer o que o senhor Assange fez, seria necessário arrombar uma embaixada dos EUA e passar meia dúzia de horas a carregar caixotes com papéis para um camião do tamanho de um TIR. E depois seria necessário encontrar um jornal suficientemente independente (ou louco), e/ou entrar em compromissos com o partido X para assegurar a publicitação das descobertas. Mesmo assim, seria uma publicitação limitada.

Hoje em dia, basta uma pen de 15€ e um minuto para descarregar tudo de um qualquer computador USA numa embaixada ignota, e depois mandar um email para alguém que garanta o anonimato da fonte. O mundo saberá.
  • «O wonder! How many goodly creatures are there here!
    How beauteous mankind is!
    O brave new world!
    That has such people in it!
    »
O mundo mudou muito, e vai mudar mais. A internet foi o início de uma cidadania global cujas consequências ninguém consegue antever. Os políticos não gostam, e a classe jornalística também não. Deixaram de poder trocar um bloqueio de informação agora, por um exclusivo depois. Não admira que no twitter e na blogosfera apareçam personagens altaneiras a assobiar para o lado enquanto atestam a «irrelevância» dos wikileaks. O jogo mudou, e não é fácil reconhecê-lo.

A «irrelevante» wikileaks anda a migrar de servidor em servidor. Foi expulsa pela amazon (que merece um boicote). A paypal travou-lhe as doações. (Não percebo porque fazem isto tudo se «toda a gente» já sabia tudo. Como também não percebo por que razão os jornalistas altaneiros não nos deram as noticias antes da wikileaks, se já as sabiam.) Entretanto, os americanos no Iraque têm o acesso ao wikileaks dificultado. E até às notícias sobre o caso. A biblioteca do congresso bloqueou o acesso ao site «maldito». A Universidade de Columbia avisa os seus alunos de que podem não conseguir emprego se comentarem o assunto no Facebook ou no Twitter (Orwell, acorda, eles voltaram). E saltam as ameaças de morte a Julian Assange.

Ser cidadão implica acreditarmos na nossa capacidade de formarmos a nossa opinião sem mediadores jornalísticos ou políticos. À hora a que escrevo, jornais «de referência» ainda acusam Assange de «violação» (sexual). Na blogo-esfera, já se sabe que apenas se negou a usar preservativos (sem consenso). Este é só um exemplo de como as manipulações dos media institucionais serão cada vez mais difíceis de manter num mundo em que a verdade está ao alcance de um clique.

A batalha pelo direito da wikileaks a publicitar os telegramas «privados» do governo mais poderoso do planeta (desde quando os governos têm vida privada?), é um passo significativo no sentido de uma cidadania em que a sociedade civil não pede autorização aos governos e aos seus «mediadores» oficiosos (os media tradicionais) para formar a sua opinião. Uma sociedade civil sem filtros dos «mediocratas» e que se marimba nos tabus dos poderes económicos e de outros feudos que sobrevivem nas democracias é o pior pesadelo do que resta de autoritarismo e totalitarismo neste planeta.

Ergamos o nosso copo a Julian Assange. Sejam quais forem os seus motivos, podemos vir a dever-lhe muito. Para começar, cidadãos informados daquilo de que as salsichas são feitas. E que podem não gostar.