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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A «lei dos sefarditas»: um erro histórico?

A «lei dos sefarditas» terá sido feita com algumas boas intenções: permitir que alguns descendentes de alguns judeus perseguidos pela Inquisição se tornassem portugueses. Mas transformou-se num negócio de venda da nacionalidade portuguesa e de subsídio à comunidade judaica, como explica este artigo de hoje. Efetivamente, a Comunidade Israelita do Porto cobra emolumentos de 250€ por certificar processos de aquisição de nacionalidade. Já foram concluídos mais de 30 mil processos, 90% dos quais nesta comunidade do Porto (e os restantes em Lisboa), o que dá quase sete milhões de euros em emolumentos de aquisição de nacionalidade para uma comunidade religiosa. Segundo as notícias, estarão mais uns cinquenta mil processos em andamento. Belo negócio.

O grave é que a nacionalidade portuguesa não deveria ser de base religiosa. Tão português é um judeu como um católico ou um ateu. Os descendentes dos judeus perseguidos entre os séculos 15 e 19 que vivam em Israel ou na Turquia (países de onde vem a esmagadora maioria dos pedidos) serão muito bem vindos em Portugal, por mim. Desde que queiram vir para Portugal, e não apenas terem um passaporte de conveniência que permite viajar na União Europeia e entrar sem visto em quase 160 países. Porque é isso que se está a passar: a venda do passaporte português por uma comunidade religiosa.

A lei dos sefarditas deveria ser revogada ou, no mínimo, alterada de forma a que se exigisse a residência em Portugal por uns dois anos a quem quisesse, lá está, ser português. A continuar assim, será um escândalo interminável.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Debate sobre a lei dos sefarditas

Podcast sobre a lei dos sefarditas com Ricardo Alves, Marisa Filipe e João Massena: MixCloud, outras plataformas.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A sobrevalorização do conflito israelo-palestino

As guerras matam o bom senso. É difícil, mas não consigo deixar de dizê-lo: o conflito israelo-palestino teve, no verão de 2014, uma atenção mediática (e política) exagerada. Pelas razões seguintes.
  1. Facilmente se encontra uma dúzia de conflitos, ainda em curso, onde morreram mais seres humanos. Mais: no último meio século (49 anos) menos seres humanos perderam a vida na guerra israelo-palestina do que apenas nos últimos três anos (3) na Síria, ou nos últimos dez anos (10) no Iraque (para não sair do Médio Oriente; na guerra do Congo, só entre 1998 e 2003 poderão ter morrido uns cinco milhões de pessoas, ou seja, umas duzentas vezes mais pessoas; não contam porque eram negros?). E todavia, incrivelmente, sempre que há umas trocas de rockets entre Israel e a Palestina, dizem-nos (gastando toneladas de papel de jornal e gigabytes de caracteres) de um lado que há um «genocídio» em Gaza, e do outro que «a existência de Israel está em risco». Acontece (felizmente), que os palestinos de Gaza estão muito longe da extinção e que o Hamas não tem capacidade para ocupar Israel (mais facilmente são extintos os yazidi ou os cristãos do Médio Oriente, ou o Iraque deixa de existir).
  2. É um conflito essencialmente resolvido. Nenhum outro conflito no mundo depois do final da 2ª Guerra Mundial deve ter tido tanta atenção diplomática e de entidades políticas externas (e dos media). Resultou? Sim. Hoje, a guerra israelo-palestina não se propaga para fora das fronteiras daquela região minúscula (ao contrário do que acontecia nos anos 70 e 80). Está «contida». O nível de violência local também baixou. Os israelitas e os palestinos estão satisfeitos? Não. Ambos os grupos querem terra e recursos que os outros têm, ou seja, querem resultados incompatíveis a longo prazo. A esse respeito, terão que mudar de opinião. Ou continuar como estão.
  3. É uma guerra que não é do século 21. O conflito sangrento e global a que estamos a assistir hoje no Médio Oriente e no Norte de África é entre islamofascistas e coligações de laicos democráticos (uns) ou ditatoriais (outros). O conflito israelo-palestino não encaixa facilmente nesta polarização. Sobrou da segunda metade do século 20, quando a esquerda alinhava pelos palestinos por anti-colonialismo e porque a OLP era vagamente «socialista», e a direita por Israel porque era uma democracia isolada. Este alinhamento é anacrónico quando a liderança palestina pertence aos islamistas radicais e quando já houve eleições multipartidárias em boa parte dos países do Médio Oriente e do Magrebe. Transferir o confronto esquerda-direita para este conflito deveria ser coisa do passado, mas explica em parte a atenção que ainda tem. Como em parte essa atenção resulta de envolver judeus. E também de passar-se numa terra dita «santa» (irracionalmente, muita gente acredita que o «berço» de religião e meia deveria ser um pacífico paraíso).
P.S. Escrevi o essencial deste artigo em agosto. Publico-o hoje notando que felizmente já perdeu alguma actualidade, e que nos últimos dois meses se tem reflectido mais sobre o conflito com o «Estado Islâmico». Hei-de escrever sobre o assunto.

domingo, 25 de novembro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Correlação entre religiosidade e racismo?

Segundo uma sondagem da Universidade de Tel-Aviv, 52% dos judeus (de Israel) concordam que os imigrantes africanos são «um cancro no corpo do Estado de Israel» (45% não concordam, 3% «não sabem»). Dado muito interessante da sondagem: 81,5% dos ultra-ortodoxos («haredim») concordam, 66% dos ortodoxos também, mas apenas 38% dos «judeus seculares» (o que vai desde judeus crentes mas não praticantes até ateus). Conclusão: a irracionalidade do racismo parece acompanhar (em parte) a da religiosidade. Pelo menos, no caso dos judeus israelitas.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

sábado, 24 de março de 2012

Revista de blogues (24/3/2012)

  • «sempre que escrevo neste blogue sobre algo relacionado com judeus ou israel constato que as reacções, quer nas caixas de comentários quer noutros blogues, são de dois tipos: ou de ódio mais ou menos mitigado (trazendo geralmente à colação a questão palestiniana, mas também a ideia de uma conspiração judaica global, incluindo a tese de que 'os judeus' estiveram por trás por exemplo do 11 de setembro) ou de defesa histérica, do género 'nada se pode dizer sobre os judeus, nada se compara ao sofrimento dos judeus, os judeus não podem ser comparados com ninguém', tornando blasfémia e sacrilégio sequer aventar que aquilo que sucedeu na história da europa com os judeus é apenas (apenas, sim) uma expressão particularmente virulenta do preconceito e da discriminação.

    ora eu, que não quero distinguir entre um judeu e um não judeu mais do que quero distinguir entre uma mulher e um homem, um homossexual e um heterossexual, um negro e um branco, e por aí fora -- porque considero que a ideia de tratar pessoas como 'grupo' a partir de características étnicas, de orientação sexual, de género, etc, mesmo que por motivos estratégico-políticos, naquilo a que se costuma chamar 'essencialismo estratégico', é sempre uma armadilha que reforça o preconceito -- fico sempre estupefacta ante a forma como se aceita sem discussão a ideia de que ser judeu é qualquer coisa de único, para o bem e para o mal, numa incorporação perversa, horrífica, da perseguição como identidade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O governo da "Notícias Sábado"

São dois os membros do anunciado governo que escrevem (ou escreveram até há bem pouco tempo) na revista que acompanha as edições de sábado do "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias": Francisco José Viegas (secretário de Estado da Cultura) e Álvaro Santos Pereira (ministro da Economia). Se a isto acrescentarmos outro colunista regular, o cabeça de lista do PSD em Viana do Castelo Carlos Abreu Amorim (sendo que os dois últimos só escrevem sobre temas políticos e económicos, onde fizeram durante os últimos anos a sua propaganda liberal - o primeiro escrevia sobre o que gosta: restaurantes e charutos), e dado o leque limitado de colaboradores da referida revista, bem se pode afirmar que esta é uma maioria "Notícias Sábado". Em termos de política internacional, acresce que o primeiro e o terceiro são indefetíveis de Israel, sendo que o terceiro é sempre capaz de encontrar uma justificação para as maiores patifarias, quaisquer que elas sejam, do estado judaico. Valha a presença, na coligação - vamos ver por quanto tempo... - do (já de si desequilibrado) Fernando Nobre para, pelo menos neste aspeto, equilibrar um pouco as coisas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Todas as religiões têm os seus fanáticos


A figura mais óbvia de fanático entre os judeus é o rabino Ovadia Yosef. A semana passada, teve estas palavras plenas da paz, compreensão e amor que as religiões abrâamicas espalham pelo mundo.
  • «Os goyim não-judeus só nasceram para nos servir. Sem isso, não têm lugar no mundo - só para servirem os judeus. (...) Porque são necessários os gentios? Eles vão trabalhar, arar e colher. Nós vamo-nos sentar como aristocratas e comer. (...) Com os gentios, será como com qualquer outra pessoa - eles precisam de morrer, mas Deus dar-lhes-à longevidade. Porquê? Imaginem que o nosso burro morre, perderíamos o nosso dinheiro. É o nosso servo... É por isso que têm vidas longas, para servir o Judeu.» (Ha´aretz)
Ovadia Yosef não é um rabino qualquer. É o «líder espiritual» de um partido político, o Shas, que tem quatro ministros no governo israelita. É o mesmo clérigo que defende a morte dos líderes palestinos, e que atribuiu o furacão Katrina à falta de estudo da Torá. Mas não é um louco isolado. É um homem influente. E a semi-teocracia israelita cada vez dá mais ouvidos a lunáticos como este. Portanto, não vale rir, caro leitor. Todas as religiões têm os seus fanáticos, mas uns são mais relevantes do que outros.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Gideon Levy: «A República Judaica de Israel»

  • «Remember this day. It's the day Israel changes its character. As a result, it can also change its name to the Jewish Republic of Israel, like the Islamic Republic of Iran. Granted, the loyalty oath bill that Prime Minister Benjamin Netanyahu is seeking to have passed purportedly only deals with new citizens who are not Jewish, but it affects the fate of all of us. From now on, we will be living in a new, officially approved, ethnocratic, theocratic, nationalistic and racist country. Anyone who thinks it doesn't affect him is mistaken. There is a silent majority that is accepting this with worrying apathy, as if to say: "I don't care what country I live in." Also anyone who thinks the world will continue to relate to Israel as a democracy after this law doesn't understand what it is about. It's another step that seriously harms Israel's image.» (Gideon Levy, Haaretz)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um rabino racista e instigador da violência

O rabino Ovadia Yosef é «líder espiritual» de um partido político israelita (o que em Israel é assumido, embora fosse profundamente anacrónico na Europa civilizada). Tem um longo passado de declarações controversas, que incluem dizer que «os pretos» de Nova Orleães mereceram o «tsunami»(sic) Katrina, porque não estudavam a Torá e porque Bush apoiou o desmantelamento de colonatos em Gaza. No passado, já pediu a «aniquilação» dos árabes («é proibido ter piedade deles», disse).

Esta semana, desejou publicamente a morte dos líderes palestinos. Deve ser a sua forma de contribuir para as negociações de paz e para o diálogo inter-religioso.

Haverá alguma religião abraâmica sem fanáticos instigadores da violência sectária?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

«Estrangeiros fora!»

A França expulsa ciganos, Israel expulsa imigrantes, a Florida promete fazê-lo. Por todo o mundo rico, as portas fecham-se. Mesmo os que por cá nasceram ou trabalharam podem ser expulsos, mesmo que tenham filhos ou ainda que sejam crianças. A xenofobia dos ricos está em alta.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Na sequência do desenho de André Carrilho

Um vídeo notável de Norman Finkelstein via Renato Teixeira. A ver com atenção.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A evolução das espécies

Desenho de André Carrilho publicado a 01-08-2010 no Diário de Notícias.

A impunidade de Israel explica-se pelas reações como as que assistimos a propósito desta desenho. Israel (e a "comunidade israelita") ou não se apercebem ou fingem não se aperceber do mal que causam aos outros (os palestinianos). E têm a desfaçatez de falarem em nome de "toda a gente": "toda a gente" terá ficado indignada com este desenho, segundo o sr. Carp (exceto os anti-semitas, claro). Olhe, sr. Carp: eu não fiquei. O que me indigna, e o que deveria indignar "toda a gente", é o tratamento diariamente inflingido por Israel ao povo palestiniano.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Como todas as religiões se parecem

Se és mulher, só te podes sentar na parte de trás do autocarro. Se não és ortodoxo, não entres no nosso bairro. Sejas judeu ou não, não trabalhes no Sábat senão os meus amigos fundamentalistas vão dar-te cabo do juízo ao local de trabalho. E etc. (Ver vídeo).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A ocupação é uma festa

Já toda a gente deve ter visto este vídeo. No contexto em que se passa, é perfeitamente surreal.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Papá, o que é o comunitarismo?

Não satisfeitos com terem escolas religiosas ultra-ortodoxas, que separam as suas crianças das dos odiados árabes (muçulmanos ou cristãos, cada uns com as suas escolas), e dos não menos odiados judeus secularizados (que também não são bem vindos nas escolas religiosas), os judeus askhenazis querem agora que as suas filhas não frequentem as mesmas escolas do que as filhas dos judeus sefarditas. E manifestaram-se: 100 mil pessoas em Jerusálem e 20 mil perto de Tel-Aviv, com cartazes proclamando a supremacia da Torá sobre o Supremo Tribunal.

É inevitável: a religião divide. E quando se organiza um Estado em torno da religião, tolerando ou até (é o caso de Israel) promovendo a segregação entre comunidades religiosas, acaba-se a dividir dentro das divisões, até ao delírio e ao ódio mútuo. Porque os «puros» não se misturam com os «impuros». E porque, entre os «puros», há sempre uns mais «puros» do que os outros.

Se o dia da paz entre israelitas e palestinianos continua a parecer longínquo, o dia da paz civil entre comunidades judaicas também não parece mais próximo.

sábado, 12 de junho de 2010

Aliança judaico-sunita contra xiítas

...Ou como o mundo é realmente complicado: rumores de que a Arábia Saudita terá garantido que deixa passar os bombardeiros israelitas quando forem bombardear o Irão.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Regresso a Israel

Não sei se fui compreendido: o problema principal de Israel, no momento presente, é ser um Estado que existe para proteger uma religião e não todos os seus cidadãos, independentemente das suas convicções religiosas. Enquanto continuar a tratar uma parte da população como párias, Israel dificilmente terá paz. Não se pode ser simultaneamente uma democracia laica e um Estado judeu (ou católico, ou muçulmano...). A própria administração Obama já o terá compreendido.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Israel tem direito a existir?

Pergunta-se ali. Resposta: sim, direito a existir tem. Mas, enquanto não deixar de ser um «Estado judeu», duvido que exista em paz.