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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Helena não sabe

Helena Matos, coitadinha, não sabe distinguir:
a) um espaço de debate com vários intervenientes de um espaço de opinião pessoal e sem contraditório;
b) (mais importante) um espaço na televisão por subscrição de um espaço na televisão em canal aberto (eu dir-lhe-ia para comparar as audiências, mas esses números devem ser muito complicados para a cabecinha dela).

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dez anos


Neste blogue não se costumam assinalar aniversários. Mas hoje faz dez anos que foi publicado o primeiro post deste blogue. Uma época tão remota que nesse dia Jorge Sampaio era Presidente, Santana Lopes Primeiro Ministro e Karol Wojtyla papa dos católicos. O Facebook era um ilustre desconhecido e o Twitter nem existia. Eu escrevia sozinho por aqui e haveria de passar mais de um ano antes da primeira colectivização do blogue.

E dura, e dura, e dura...

domingo, 9 de novembro de 2014

Revista de blogues (9/11/2014)

  • «(...) Uma diferença importante entre o islão e as outras religiões com mais aderentes é o seu livro sagrado. A Bíblia, os Vedas e os Sutras são compilações de textos muito diversos, de fontes diferentes e que os crentes aceitam como relatos inspirados mas que podem ser interpretados com alguma flexibilidade. Em contraste, o Corão é um texto muito mais uniforme, conciso e coerente e que os muçulmanos assumem como sendo uma recitação da palavra divina. Não tem partes que se possa descartar como alegóricas ou metafóricas nem se dá a grandes interpretações. Por exemplo, 4:89 expõe claramente como se deve lidar com quem abandona a fé: «Anseiam (os hipócritas) que renegueis, como renegaram eles, para que sejais todos iguais. Não tomeis a nenhum deles por confidente, até que tenham migrado pela causa de Deus. Porém, se se rebelarem, capturai-os então, matai-os, onde quer que os acheis, e não tomeis a nenhum deles por confidente nem por socorredor.»(3) No Antigo Testamento também há exemplos deste género, mas enquanto cristãos podem invocar que o Novo Testamento se sobrepõe ao antigo e judeus podem interpretar tais trechos como relatos históricos de práticas que já não se aplicam, para um muçulmano é muito mais difícil descartar as ordens do Corão enquanto mantém a fé neste livro como registo das palavras do seu deus.
  • Esta diferença tem consequências práticas. Não é certamente coincidência que os 23 países que punem explicitamente a apostasia como um crime estejam entre os 49 países de maioria muçulmana. Dos outros países, sejam seculares ou dominados por outras religiões, nenhum considera a apostasia um crime. A razão mais plausível não parece ser económica ou social. Parece ser a de que o islão tem um texto sagrado que é aceite como a palavra directa de Deus onde está explícito que se deve matar quem se rebelar contra esta religião.
  • Outra diferença importante é a vida e o legado do fundador da religião. Jesus pregou, rezou, ensinou e foi crucificado. Buda pregou, jejuou, ensinou e abandonou o seu corpo. Maomé unificou as tribos de Medina e conquistou Meca com um exército que depois enviou para destruir todos os templos das outras religiões na península arábica. Nos hadiths é-lhe atribuída a ordem de que «Quem quer que abandone a sua religião Islâmica, então matai-o»(4). Consumou o seu casamento com Aisha quando esta tinha nove ou dez anos (5). E assim por diante. Um muçulmano não pode descartar estas coisas como um cristão faz com as barbaridades do Antigo Testamento porque trata-se do Profeta, a peça central da sua religião. É tão difícil a um muçulmano condenar inequivocamente estas práticas pela barbaridade que são como seria a um cristão admitir que a história da ressurreição é fictícia. (...)» (Ludwig Krippahl)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ajuda ao Vítor Cunha

Podem os leitores mesmos fazer o favor de seguirem este link e verificarem. Ao longo de todo o texto de Francisco Louçã eu só vi duas gralhas: "austeriry" e "may" com minúscula (esta última até escapou ao nosso homem do lápis azul, perdão, vermelho). Além disso há de facto um erro ("renowned" em vez de "renamed" - obrigado ao Vasco Barreto). Tudo o resto são questões de estilo, de que pode gostar-se ou não mas não pode dizer-se que estejam erradas. Francisco Louçã tem uma vasta obra publicada em inglês; foi orador de muitas conferências em inglês; mas não vamos tirar a alegria a esta criatura de ter corrigido um professor universitário do Bloco de Esquerda. Só foi azar, no texto em português, ter escrito "Inicialmente tentei a correcção mas, é demasiado tarde para isso." (sic), com uma colocação de vírgulas, essa sim, objetivamente errada. (Parece que cometeu outros erros em inglês no texto-graçola que escreveu a seguir, mas confesso que nem me apeteceu perder mais tempo a lê-lo.) Uma vez mais, os textos da autoria deste indivíduo definem tão bem quem ele é...

domingo, 16 de março de 2014

Post perfeitamente inútil

É só para dizer que daqui a um ano menos uma semana este blogue terá completado dez voltas em torno do Sol.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Não é uma questão de opção política: é mesmo uma questão de jornalismo!

A propósito deste artigo do Daniel Oliveira sobre mais uma manchete do Correio da Manhã (cuja leitura recomendo): para a Lúcia Gomes, mais importante do que a verdade dos factos (que é a missão do bom jornalismo) é a "opção política". Daqui devemos concluir que, se a "opção política" não for a mesma da Lúcia, valem manchetes e perseguições como as do Correio da Manhã. Significativo.

domingo, 17 de novembro de 2013

As comadres zangaram-se

A entrevista de Fernando Moreira de Sá, cuja leitura atenta recomendo, é um dos acontecimentos políticos mais relevantes do ano. O Aventar, um coletivo de diversos autores cujo único aspeto em comum, quando foi criado, era uma oposição férrea a José Sócrates, Mário Soares e a "Lisboa", não foi contemplado com nenhuma sinecura, conforme reconhece o "consultor de comunicação" Moreira de Sá na referida entrevista que, obviamente despeitado, deu. Mas no Aventar, faça-se o que se fizer, diga-se o que se disser, desde que seja anti José Sócrates, Mário Soares e "Lisboa", tudo está bem. Tudo continua na mesma. Ou não?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Revista de blogues (25/7/2013)

  • «(...) Só voltei a pensar nos fiéis defuntos, há poucos anos, quando soube do interesse autárquico por eles. Os fiéis defuntos adicionam 5% do ordenado do PR ao de vários edis e deles dependem as dotações orçamentais das juntas de freguesia e o nível do salário dos seus elementos. Sem a sua persistente permanência nos cadernos eleitorais, e nos censos populacionais, eram muitos os que só tinham a perder e apenas beneficiava o erário público que, por ser público, serve para benefício privado. Os fiéis defuntos merecem que as associações autárquicas lhes mandem rezar a missa.» (Carlos Esperança)

sábado, 13 de julho de 2013

Revista de blogues (13/7/2013)

  • «Deu-se há dias a primeira manifestação organizado pelo sindicato do governo. Não foi na rua, nem na Assembleia (nas galerias), nem às portas duma fábrica ou empresa, nem a cantar a Grândola, foi numa igreja durante uma missa. Não sei o que pensa o novo Patriarca, ou a Igreja, mas assistir à primeira manifestação pública do sindicato do governo durante uma missa coloca-lhe o dilema da lembrança de Cerejeira, presumo que lembrança muito mal vinda. Ele há cada uma, ir manifestar-se para uma Igreja durante uma missa, com dezenas de guarda-costas cá fora, é um penoso retrato do nosso sindicalismo governamental. No entanto, tem uma enorme vantagem sobre os grevistas da CGTP e da UGT, não perdem o salário de um dia de trabalho. (...)» (José Pacheco Pereira)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Ceausescu de Campanhã (um texto que não cheguei a escrever)

Henrique Pousão, "Casa rústica em Campanhã", MNSR

O texto seria a propósito deste outro, no Jugular, e da leviandade com que nele se sugeria que uma povoação de 15 000 pessoas "não deveria existir": deveria estar integrada numa grande cidade como Coimbra. A fazer lembrar os realojamentos em massa promovidos na Roménia de Ceausescu.
Na altura desloquei-me ao Museu Soares dos Reis, no Porto, e fotografei a pintura de Henrique Pousão na figura, testemunho das origens do João, autor do texto do Jugular em questão e de muitos outros. A minha ideia seria ilustrar que tal proposta não vinha da cabeça de um lisboeta. (Pela blogosfera choveram respostas ao texto do João com a acusação fácil de que o autor era "de Lisboa". Nada mais injusto para o João, natural de Campanhã e adepto do FC Porto. E já agora nada mais injusto para os lisboetas.)
Na altura não tive tempo de escrever a resposta ao João, e como acontece tantas vezes na blogosfera, o assunto saiu da ordem do dia. Mas desde então o João passou a ser, para mim, carinhosamente (acreditem: carinhosamente), o "Ceausescu de Campanhã".
Não sei se o João acharia grande piada à alcunha. Escrevi no mesmo blogue que ele (o "Cinco Dias", na altura uma deliciosa manta de retalhos) durante quase um ano. O João saiu na altura da cisão que deu origem ao Jugular, e pouco depois saí eu. Tenho o prazer de conhecer e ser amigo de uma grande parte dos autores do Jugular, e sempre achei que chegaria o dia em que conheceria o João. Em que lhe diria que para mim, desde aquele texto sobre os "fanáticos da ruralidade", ele era o "Ceausescu de Campanha". Tinha a esperança de que talvez ele achasse graça. De que talvez até ficássemos amigos. Mas não pude fazer nada disto, e infelizmente não poderei mais fazê-lo, uma vez que o João faleceu hoje. Tenho pena de não o ter feito, mas tenho ainda mais pena de não poder continuar a lê-lo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Revista de blogues (13/6/2013)

  • «Foi ontem conhecida a decisão do Tribunal de Coimbra sobre o chamado “caso dos CTT”. Um dos arguidos – pelo menos – foi condenado em pena de prisão cuja execução ficou suspensa, ficando essa suspensão subordinada ao cumprimento do dever de entregar a duas instituições de solidariedade social uma contribuição monetária de determinado valor. Tal subordinação é inquestionavelmente permitida pelo disposto nos artigos 50 e 51 do Código Penal. O que já é contestável é a escolha feita pelo Tribunal das instituições beneficiárias dessa contribuição monetária: a “Casa de Formação Cristã da Rainha Santa Isabel” e a “Obra do Frei Gil”. Não se duvida de que ambas se dedicam também a obras caritativas. Mas a verdade é que a primeira, como o seu nome indica, tem como principal objetivo “a formação cristã” (leia-se “católica”). Quanto à segunda, informa o “Google” que um dos seus fins é “proteger a família, zelando pelo culto dos padroeiros da Ordem Dominicana”. Não se compreende que, sendo Portugal um Estado laico, um órgão de soberania obrigue um cidadão a subsidiar a “formação cristã” e o “culto dos padroeiros da Ordem Dominicana”.» (António Horta Pinto)

sábado, 8 de junho de 2013

Revista de blogues (8/6/2013)

  • «(...) Os incidentes na Turquia foram despoletados por um protesto contra a construção de um projecto imobiliário na praça Taksim, que levaria à destruição do parque Gezi. O que começou com menos de uma centena de pessoas, acabou com praticamente todo o país envolvido. No entanto, Taksim parece ter sido apenas a gota de água. (...) Afinal de contas, qual é o problema das hospedeiras de bordo andarem de lábios e unhas pintadas durante o serviço? Ou de se venderem bebidas alcoólicas a menos de 100 metros de uma mesquita? Ou desde quando é que manifestações públicas de afecto são consideradas imorais? Há sempre um momento em que o copo fica cheio. Tão cheio que basta um protesto inócuo contra um projecto imobiliário para acender o rastilho de um Bósforo incandescente. Curioso é que o primeiro-ministro, Recep Erdogan, tem sido democraticamente eleito. Desde 2003, partido (AKP) agora com maioria parlamentar. Depois dos protestos, onde fica a legitimidade? Somos todos turcos. Uns mais do que outros, é certo. A avaliar pela última manifestação de 1 de Junho do movimento "Que se lixe a Troika", que coincidia com outras a nível nacional e internacional, Portugal está no bom caminho. Aguenta-se tudo neste país. Dizia uma mulher entrevistada por um canal de televisão que Passos Coelho, ao ver as imagens da Alameda, só podia estar rir-se do resultado. É verdade. Até um dia aparecer um qualquer projecto imobiliário que transborde o copo nacional.» (Pedro Figueiredo)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Revista de blogues (27/5/2013)

  • «(...) A proposta de lei, que tinha como primeira signatária a deputada do PS Isabel Moreira, foi aprovada por 99 votos a favor, 94 contra, e nove abstenções. Os maiores grupos parlamentares, do PSD e do PS, bem como o do CDS, “deram” liberdade de voto aos seus deputados (...) O resultado foi uma surpresa. Sou de opinião que o mero facto de assim ter sido valoriza a democracia representativa e o parlamentarismo. Faz uma diferença significativa que o resultado final de um processo legislativo não seja completamente previsível só pela contagem de cabeças nos grupos parlamentares. É bom que em Portugal possa ter acontecido ganhar uma proposta de esquerda numa legislatura em que há maioria absoluta de direita. Um dia talvez venha a suceder o contrário, e talvez eu não goste tanto do resultado, mas gostarei do processo. Porque ele dignifica o trabalho dos deputados e leva os cidadãos a estarem mais atentos ao que se passa no parlamento. Também aqui é importante que a política se adeque aos tempos. Não são os partidos que “dão” liberdade de voto aos deputados. São os deputados que têm esse dever constitucional, e a obrigação de dar um cunho de independência e autonomia ao trabalho que fazem. Se as estruturas partidárias aprenderem, de uma forma geral, a não impedir esse processo e até a promovê-lo, estarão a dar razões para que os cidadãos se reconciliem com a democracia representativa.» (Rui Tavares)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Revista de blogues (24/5/2013)


  • «(...) Então aí vai um resumo para quem estiver interessado.

    Assunção Esteves pediu uma voz mais forte ao governo na Europa e fez uma intervenção muito crítica da situação actual, no que foi acompanhada por vários outros conselheiros que classificaram negativamente o governo de Passos Coelho, tendo alguns deles pedido expressamente a sua demissão.

    Uma das posições mais veementes foi a do presidente do Tribunal Constitucional, que aproveitou a ocasião para responder às críticas do primeiro-ministro às decisões daquele tribunal quanto ao OE2013, sublinhando que são as leis que têm de se adaptar à Constituição, e não a Constituição que tem de se adaptar às leis, e avisando que o TC não se deixará condicionar em futuras análises de legalidade dos orçamentos.

    Já quanto ao sacrossanto tema do consenso nacional, a discussão foi muito acesa e foram vários os conselheiros que afirmaram que ele não existe, nem quanto ao presente nem quanto ao futuro – sobretudo Mário Soares, Manuel Alegre e Jorge Sampaio –, tendo este último considerado que o tempo de negociação e de compromisso já passou (Aleluia!).

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Bater o punho" 2

O assunto do dia tem sido o "Prós e Contras" de segunda feira, nomeadamente a parte resumida no vídeo acima: a interpelação do "empreendedor" de 16 anos (!) por parte da Raquel Varela. O que mais me espanta é haver, à esquerda, quem não se aperceba de que um empresário responsável tem necessariamente que saber responder às questões que a Raquel colocou. Saberá o empreendedor Martim o que é um sindicato? Se fosse confrontado com uma comissão de trabalhadores, saberia o que responder? Não faz mal nenhum o "menino" ter uma noção das consequências do seu "empreendedorismo", algo que pelos vistos ele não tem. Eu não sou contra o empreendedorismo, mas os empreendedores (ou empresários, como lhes queiram chamar) têm uma responsabilidade social. Enquanto não estiverem conscientes dela, não devem exercer essa atividade. Por essa ordem de ideias, o menino de 16 anos já pode votar? Comprar álcool? Conduzir um carro? Pelos vistos os meninos de 16 anos não servem se se tratar de discutir as relações laborais do país, mas servem para "arregaçar as mangas" e acabar com a crise. Nada disto parece importar para o Sérgio Lavos e o Daniel Oliveira.
Já à direita surge a acusação habitual de que a esquerda supostamente defende que mais vale estar desempregado do que ser mal pago (neste caso receber o salário mínimo). Eu defendo que mais vale um trabalho do que estar desempregado, dentro de certas circunstâncias. Uma delas é que obviamente esse trabalho não seja uma exploração. Seguramente a generalização de uma política de salários baixos e desproteção social não é para mim aceitável. Se se prescindir do salário mínimo, como pretende a direita, a favor da "empregabilidade", é meio caminho andado para o regresso à escravatura. Neste assunto, de facto, existe todo um abismo moral. E - mantenho - um empresário tem de saber discutir isto. Senão, que volte para a escola, que é onde um jovem de 16 anos deve estar com a escolaridade obrigatória até ao 12º. Ainda sou do tempo em que a esquerda era contra o trabalho infantil.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A última do "mata mouros"

O vice-presidente da bancada do PSD e candidato à câmara de Gaia, na hora de comemorar mais um título de futebol do seu clube, escreveu o que a imagem documenta, e que tem sido amplamente relatado.
Sobre este acontecimento, gostaria de fazer os seguintes comentários:
Adeptos de outros clubes que não o FC Porto há-os em todo o país, e também no concelho a que CAA se candidata. Por outro lado há (eu conheço vários) adeptos do FC Porto que não se revêem nem um bocadinho neste "tweet". De um ponto de vista puramente eleitoral, foi uma péssima atitude. É o menos importante (para quem não é de Gaia), mas é o que mais dá vontade de rir.
Verdadeiramente graves são dois aspetos. O primeiro: em pleno séc. XXI usar-se o termo "magrebino" como se algo depreciativo se tratasse (não nos esqueçamos de que CAA é um firme defensor de Israel). O segundo: CAA é um deputado da nação, pelo que é grave que incite a ódios regionais.
Finalmente, ninguém parece já recordar-se disto, mas este episódio nem é assim tão surpreendente se nos recordarmos que CAA já foi coautor de um blogue intitulado Mata-mouros.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Revista de blogues (30/4/2013)

  • «(...) Se pensarmos bem nas coisas como elas são, de facto uma empresa pode ter bastante mais liquidez para investir e crescer se simplesmente deixar de pagar aos seus trabalhadores. Vamos lá ver: os trabalhadores devem pensar no bem-estar da empresa que faz o favor de lhes dar trabalho (...). Podem muito bem abdicar dos seus ordenados para manter as máquinas em funcionamento. Apenas com tal sacrifício e abnegação da massa colaboradora poderão as empresas continuar a distribuir dividendos pelos seus accionistas no final do ano. (....) Quando os trabalhadores da empresa onde eu estava decidiram fazer greve para protestar por dois meses de salário em atraso, foram acusados de serem traidores para baixo. Com toda a razão, pois claro. Se tivéssemos continuado a trabalhar, resistindo à vil tentação de recebermos um ordenado pelo nosso trabalho, a empresa teria tido muito mais flexibilidade para manter uma frota de automóveis topo de gama ao serviço dos administradores e os accionistas teriam recebido mais pelo seu hercúleo esforço. Fomos, na realidade, gente mesquinha, que apenas queria a desgraça da empresa. Onde já se viu, exigirmos receber pelo trabalho produzido? (...) indigna não é a entrevista na qual o inspector-geral do trabalho defende a criminalização do atraso no pagamento de salários. Indigno é haver patrões que acham que podem gerir as suas contas particulares e as dos accionistas com os salários dos trabalhadores. (...)» (Sérgio Lavos)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Revista de blogues (15/4/2013)

  • «Um princípio republicano que me é particularmente caro resume-se nisto: a política é um serviço, não é uma profissão. Também porque o leninismo (em circunstâncias históricas que até o admitiam) criou a figura do revolucionário profissional, e a manteve, muitos países acabaram em monarquias norte-coreanas. Entre nós mais que uma profissão transformou-se numa carreira, com jota-iniciação e passagem a sénior deputado ou autarca, com a agravante de nos partidos do arco se ir rodando pelo poder empresarial, que não busca nos políticos talentos mas mero tráfico de influências. O anedótico episódio dos presidentes de câmara que querem mudar de concelho porque lhes limitaram os mandatos chega a ser caricato. É certo que o mal vem detrás, não faz qualquer sentido o típico pára-quedismo que admite aterragens em concelhos onde nunca se viveu, aproveitando normalmente famas mediáticas. Mais um tribunal acaba de mandar Luís Filipe Menezes ganhar a vida noutro lado (que diabo, o homem até é médico, não fica desempregado), e a falta de clarificação da AR promete enriquecer o luso-anedotário; dificilmente o assunto será resolvido a tempo de, na altura da legalização das candidaturas e no curto prazo em que cada juiz as valida, haver jurisprudência nacional. A insistência do PSD neste caso já brada aos céus. Como Passos Coelho se vai afirmando um reputado especialista em bodes expiatórios e calimerismos puros e duros, e não vendo nenhum ex-autarca do PSD no desemprego ou na emigração, começo a desconfiar que a insistência em seabras, menezes a até ribaus, tem um fito: chegar à noite das eleições e choramingar que a pesada e inevitável derrota eleitoral que se avizinha é culpa dos tribunais. Então se chegar ao Constitucional, vai ser um festival de lágrimas. (...)» (João José Cardoso)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Revista de blogues (5/4/2013)

  • «(...) o que fazer a alguém que é acusado dos crimes de abuso de poder, violação de segredo de Estado e de acesso indevido a dados pessoais? Pois bem: integrá-lo nos funcionários da Presidência do Conselho de Ministros. Que mais poderia ser? Talvez mais isto: pô-lo ao nível salarial anterior e pagar-lhe os vencimentos que não auferiu entretanto. Nada mais? Eu sugeriria os pés lavados com água de malvas pelos portugueses espiados ilegalmente, pelo jornalista que teve as suas comunicações violadas, pelo cidadão que teve o azar de casar com uma ex-mulher de um espião lusitano, pela jornalista que viu a sua vida pessoal devassada. Mais alguma coisa? Uma petição às avessas para saber o que pretende de nós Jorge Silva Carvalho, o espião que teve reuniões de negócios com Miguel Relvas, para esquecimento deste no parlamento. Sim, eu sei. Vão dizer que o ex-espião tinha de ser reintegrado ao abrigo de uma lei já antiga, de 007 — 2007, quero dizer — que permite a um espião pedir a exoneração e a reintegração ao mesmo tempo, possibilitando, entre uma coisa e outra, uma incursão de carreira no privado — para o qual antes se tinham passado informações. Para que deveriam dar satisfações aos cidadãos os dois autores do despacho de reintegração, Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar? Bem, talvez para nos dizer se o trabalho do ex-espião e agora funcionário público vai ter algum tipo de precauções, algum tipo de restrições? Talvez para nos dar conta da possibilidade de um processo disciplinar, agora que Silva Carvalho voltou? Talvez para nos explicar com que interpretação se permite a reintegração de alguém que está acusado de violar a lei no seu posto anterior? (...)» (Rui Tavares)