sexta-feira, 1 de maio de 2026

Laicidade em Portugal: do anticlericalismo ao anti-identitarismo

A construção da laicidade em Portugal – como noutros países do mundo – não é uma história linear, isenta de reveses, frustrações e surpresas. Para compreender o presente, comecemos por rever a história recente.

A laicidade era matricial no movimento republicano triunfante na revolução de 5 de Outubro de 1910, e rapidamente se lançaram os pilares de uma República laica: a substituição do ensino da doutrina cristã pela educação cívica, o registo civil, e a separação do Estado das igrejas, cessando o catolicismo de ser a religião do Estado e suprimindo o financiamento público do culto e do clero católicos. Em menos de um ano, Portugal atingiu um patamar de laicização que demorara décadas à França.

A reação estalou no golpe militar de 1926, a que se seguiu o Estado Novo salazarista, um regime de união moral com a igreja católica consagrado na Concordata de 1940, com a quase obrigatoriedade da frequência da «Religião e Moral [católica]», a proibição do divórcio aos católicos, a restituição de muitas igrejas, e generosos apoios financeiros às instituições e ao clero católicos, em particular nas colónias.

A revolução de 25 de Abril de 1974 iniciou uma democratização acompanhada de uma laicização tímida e pouco assumida: por um lado, os sectores moderados haviam tirado da queda da 1ª República a conclusão de que qualquer ataque ao privilégio católico faria ricochete; por outro, os muito ativos marxistas-leninistas tinham objetivos bem diferentes; finalmente, a dinâmica do período revolucionário acabaria por polarizar marxistas-leninistas contra o conservadorismo católico, empurrando os moderados para este último campo.

As circunstâncias impunham como urgências terminar a guerra colonial e constitucionalizar uma democracia pluralista. Em Fevereiro de 1975, o Protocolo Adicional à Concordata permitiu o divórcio aos casados pela igreja católica, mas teve o efeito secundário de manter em vigor a Concordata. Numa entrevista, o negociador do Protocolo e Ministro da Justiça do III Governo Provisório assumiu não se optar por uma «denúncia unilateral» da Concordata porque «o Programa do MFA estipula que as obrigações internacionais seriam respeitadas» e «porque isso iria ferir a sensibilidade religiosa da maioria dos portugueses»(1).

Os debates da Assembleia Constituinte, eleita a 25 de Abril de 1975, centraram-se na definição do carácter socialista do Estado (e, portanto, em questões como o peso do Estado na economia ou os direitos dos trabalhadores), mas a Constituição aprovada em Abril de 1976 estabelece os fundamentos de um Estado laico: o artigo 41º garante a «liberdade de consciência, de religião e de culto», a separação entre o Estado e as igrejas e outras comunidades religiosas, e inclui ainda uma cláusula antidiscriminação que reforça em matéria religiosa (reforço que não existe quanto à raça ou à língua, por exemplo) o princípio da igualdade do artigo 13º; o mesmo artigo defende ainda a privacidade dos cidadãos em matéria religiosa (exceção feita a inquéritos anonimizados); o artigo 43º garante a não confessionalidade do ensino. Sublinhe-se que embora não use o vocábulo «laicidade» em nenhuma das suas derivações – ao contrário do que acontece com a Constituição francesa no seu artigo 1º – a Constituição portuguesa tem realmente um conjunto de preceitos laicistas, e não refere a igreja católica – ao contrário das constituições espanhola ou italiana, respetivamente nos artigos 16º e nos artigos 7º e 8º. Infelizmente, a laicidade seria, desde a fundação desta 2ª República, garantida formalmente, mas não praticada substancialmente.

No final do século 20, a secularização da sociedade e a chegada a Portugal de igrejas evangélicas brasileiras lançou um debate que haveria de conduzir à primeira sistematização em democracia das relações do Estado com as comunidades religiosas: a Lei de Liberdade Religiosa (LLR) de 2001 e a Concordata de 2004. Dois campos se opuseram: os defensores da laicidade – que chegaram a tentar que a LLR se aplicasse à igreja católica – e os defensores do estatuto privilegiado do catolicismo, que no essencial acabaram por triunfar. Efetivamente, nos seus primeiros artigos a LLR densificou os direitos individuais em matéria de religião de uma forma laicista, mas no seu artigo 58 excluiu a igreja católica da LLR em matéria de direitos coletivos de liberdade religiosa, remetendo o seu estatuto próprio para a Concordata, que manteve o reconhecimento estatal do «Direito Canónico», o compromisso do Estado com a oferta de Educação Moral e Religiosa Católica na Escola Pública, e a «afetação permanente» para o culto católico, livre de encargos, de uma parte significativa do património monumental do Estado. Em 2009, um conjunto de Decretos-Lei sobre a assistência religiosa nos hospitais, prisões, e nas forças armadas e de segurança garantiu que, embora fosse livre o acesso de capelães de outras comunidades religiosas aos crentes confinados nessas instituições, só os capelães católicos seriam remunerados pelo Estado. Práticas clericais como a realização de cerimónias religiosas em escolas públicas, universidades ou em inaugurações de obras públicas mantêm-se até hoje, mesmo sendo ilegais pela LLR. A «Educação Moral e Religiosa», em consequência de um Acórdão de 1987 do Tribunal Constitucional, não é obrigatória salvo declaração em contrário, mas dependente de uma declaração positiva de vontade, e desde aí possível para outras comunidades religiosas (é o caso dos evangélicos históricos). À LLR seguiram-se «Concordatas» com outras comunidades religiosas: em 2015, a chamada «lei dos sefarditas», permitindo às sinagogas a instrução dos processos de aquisição de nacionalidade dos descendentes de judeus; e o acordo com a Comunidade Ismaelita, que reconheceu imunidades judiciais e isenções fiscais. Avançou-se no sentido, bem pouco republicano, de cada comunidade religiosa ter uma lei própria, o que se pode designar por desvio comunitarista. O horizonte republicano em que todos os cidadãos terão os mesmos direitos independentemente da pertença religiosa ficou mais longe.

Entretanto e em sentido contrário à evolução legislativa, a sociedade não parou de se secularizar: em 2007, os casamentos civis passaram a ser mais de metade dos novos casamentos; e em 2015, mais de metade das crianças já nasceram de pais que não estavam casados. Simultaneamente, o mesmo poder político que nunca desmontou os subsistemas clericais dentro do Estado mostrou-se sensível às alterações nos costumes: em 2007, a IVG foi legalizada após um referendo; em 2010, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado; e a morte assistida teve finalmente tentativas de legislação, atribuladas e ainda não finalizadas.

Nos anos após a pandemia, a aceleração da imigração de brasileiros evangélicos e especialmente de asiáticos muçulmanos e hindus potenciou a rápida ascensão da extrema-direita. Tal como no resto da Europa ocidental, os debates sobre as relações entre o Estado e a religião são cada vez mais marcados pela questão do Islão. A extrema-direita, intolerante com o Islão mas não com as igrejas evangélicas brasileiras (ultraconservadoras e politicamente engajadas), não apela ao cristianismo, mas à cristandade: distancia-se da hierarquia e da doutrina católicas (demasiado abertas aos imigrantes e isentas de xenofobia(2)) e exacerba a dimensão identitária da religião, bandeira de guerra contra o «Islão invasor». Um caso aparentemente anedótico, mas ilustrativo: em Fevereiro passado, um deputado de extrema-direita (como outros, próximo de grupos ultraconservadores como o Opus Dei) publicou nas suas redes sociais um vídeo indignando-se histericamente contra um muçulmano rezar no passeio junto ao edifício de um centro missionário católico. Em resposta, o centro católico emitiu um comunicado afirmando «não se rever» na mensagem do deputado, defendendo a «liberdade religiosa», e anunciando que acionara advogados para que o vídeo fosse retirado(3).

A extrema-direita tem, ao nível da propaganda, agitado as redes sociais com vídeos de cerimónias islâmicas em praças públicas, nas autarquias tem tido um sucesso invejável a travar o financiamento da construção de mesquitas, e no parlamento apresentou a proposta ruidosa, mas dificilmente exequível, de proibir o véu integral.

O inimigo atual do laicismo já não é portanto apenas o clericalismo clássico, mas também o identitarismo neocristão que pretende manter e quiçá aprofundar o privilégio tradicional do catolicismo, não por fidelidade eclesial, mas como manipulação comunitária.

A Associação República e Laicidade mantém-se orientada, há mais de duas décadas, pela defesa e promoção da liberdade de consciência, da igualdade dos cidadãos e do universalismo das leis. Num Portugal descristianizado como nunca ao nível da prática religiosa, mas crescentemente envenenado pela extrema-direita sedenta de tensões identitárias, os desafios mudaram, mas os valores que nos orientam não.


(Ricardo Alves, Espace de Libertés, 13 de Abril de 2026)

(1) Jornal República, 28/1/1975. Também em Francisco Salgado Zenha, «Por uma política de concórdia e grandeza nacional». Editora Perspectivas e Realidades (1976).

(2) «José Ornelas: não é católico quem defende discurso de ódio ou exclusão» (Público, 12 de Abril de 2026)

(3) «Missionários Espiritanos demarcam-se de publicação anti-Islão de deputado do Chega» (Rádio Renascença, 23/2/2026)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O mito da corrupção

  • «De todos os países da OCDE, Portugal é aquele onde existe uma maior divergência entre a percepção que existe da corrupção e a experiência directa do fenómeno. Portugal tem, objectivamente, baixos níveis de corrupção, traduzidos por poucos subornos em todas as áreas, forte profissionalização da burocracia e extensa digitalização dos serviços de atendimento ao público. A percepção da corrupção é sobretudo moldada por fenómenos de corrupção de topo e impunidade das elites, pelos media, pelos discursos políticos e pelos maus resultados do sistema judicial, e não pela experiência directa e quotidiana dos cidadãos. Os índices de percepção, como o CPI ou outros, acabam por ser dominados por crenças erróneas e generalizadas relativas à corrupção dos políticos, à influência exercida a alto nível, aos processos de contratação pública e às relações entre o Estado e o sector privado. Em Portugal, estas crenças são reforçadas por um padrão muito específico: a existência de muitas investigações com elevada visibilidade que contrastam com um número reduzido de conclusões claras e atempadas de processos.» (Arlindo Oliveira)

sábado, 31 de janeiro de 2026

Três tipo de moderados

 No texto anterior sobre o assunto esqueci-me daquele que poderá ser o tipo mais importante de moderado: o moderado confortável. 

Enquanto que o moderado relacional procura minimizar a distância ideológica entre a sua perspectiva e as que o rodeiam, por querer valorizar todos os pontos de vista e estar excessivamente distante do mínimo de pessoas; o moderado ancorado acredita na existência de um ponto óptimo que não corresponde ao que é prescrito por nenhuma ideologia radical, encontrando méritos e falhas nestas. Se a sociedade funcionar "bem" (entendendo bem como um estado no qual "ao longo do tempo vai existindo um aumento gradual da satisfação e bem-estar. Existe a expectativa de que a vida dos filhos será melhor que a dos avós, a convicção generalizada de que o futuro é mais desejável que o passado. Outro aspecto fundamental para falarmos em bom funcionamento da sociedade prende-se com a sustentabilidade ambiental da actividade humana: se os impactos ambientais seguem um caminho que conduz com enorme probabilidade a catástrofes económicas e humanas (já nem falo noutras formas de vida) de enorme magnitude, a sociedade não estará a funcionar bem.") o moderado ancorado estará perto do centro político, enquanto que se a sociedade estiver a funcionar "mal", o moderado ancorado terá de estar distante. 

No entanto, esta descrição de "funcionar bem" presume uma avaliação relativamente isenta sobre o resto da sociedade. Se a sociedade está a funcionar bem para algumas pessoas, elas podem - ou por não ter adequada noção da experiência vivida pelo resto da sociedade, ou por não a considerar particularmente importante para a sua avaliação - não querer mudar. Isso significa que serão contra alterações fortes, quaisquer que elas sejam, e se o status quo não corresponder à implementação de nenhuma ideologia radical, então estas pessoas serão vistas como moderadas. Estes são os "moderados confortáveis".

Claro que se a sociedade começar a funcionar pior, a quantidade de pessoas que tem a experiência individual e subjectiva dela funcionar bem vai diminuindo. Isso é outra explicação para a maior polarização: a existência de cada vez menos "moderados confortáveis"; muitos convertem-se em pessoas que querem mudar o status quo de forma cada vez mais substancial. 

Pode ser difícil distinguir entre um moderado confortável e um moderado relacional, porque pode ser socialmente mal visto negar que existam problemas sociais graves ou não querer saber da sua existência por não ser por eles afectada, pelo que os moderados confortáveis poderão ter um discurso que emula os moderados relacionais.
Dito isto (e sendo certo que isto não são categorias completamente estanques, as pessoas reais podem ter uma miríade de motivações, não necessariamente consistentes entre si, etc.) parece-me claro que existem muitos moderados relacionais genuínos, que acreditam em encontrar o "meio termo" entre as posições com que têm contacto independentemente do seu conforto ou desconforto com o status quo. E à medida que os moderados confortáveis vão minguando - com uma sociedade que vai tendo cada vez mais dificuldade em providenciar o mesmo bem-estar - cada vez se vai tornando mais certo que alguém que se apresenta com os argumentos de um moderado relacional o faz de forma genuína. 

domingo, 11 de janeiro de 2026

A extinção da CASES

Por me parecer muito relevante, aqui partilho um texto sobre desenvolvimentos que deverão preocupar todos aqueles que, como eu, acreditam que a sociedade e a economia só têm a ganhar com um sector mutualista e cooperativo forte:


«Boa noite!

Preciso da vossa atenção para algo grave que está a acontecer e que nos diz respeito a todos diretamente.

Começo por pedir desculpa pelo post extenso, mas acho necessário fazer um enquadramento do problema e do impacto.

O governo acabou há dias de aprovar a extinção da CASES - a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social. Sim, leram bem.

O governo decidiu sai da CASES e pretende passar as suas competências públicas nesta entidade para a Direcção-Geral da Segurança Social. A notícia passou despercebida a muitos no âmbito da reforma do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), aprovada no conselho de ministros de 28 de Novembro.

Isto ocorre em pleno 2025, que foi declarado enquanto o Ano Internacional das Cooperativas. A ONU declarou este ano para celebrar o cooperativismo. O mundo inteiro está a promover este modelo. E nós? Em Portugal estamos a desmantelar a única estrutura pública que o apoia. E também apoia a Economia Social onde estão as associações, mutualidades, IPSS, misericórdias, baldios, etc.

Isto não é apenas uma decisão administrativa qualquer. É a primeira vez desde o 25 de Abril de 1974 que o Estado português vai deixar de ter participação numa entidade com o fim específico de promover, gerir e fortalecer a Economia Social e o Cooperativismo.

Segundo o Governo, pretendem “evitar redundâncias” argumentando que, passados 15 anos da criação da CASES, entendem “ter sido cumprido o objetivo de aprofundar a cooperação entre o Estado e as organizações da economia social (...), encontrando-se hoje o sector da economia social consolidado e dotado de estruturas de representação capazes de assegurar, de forma autónoma, a prossecução das atribuições inicialmente cometidas à CASES”.

Percebem a gravidade? Desde a democracia. 50 anos de história a terminar. Uma conquista de Abril a desaparecer.

Portugal deveria estar a criar e reforçar o apoio ao setor da economia social, incluindo o setor cooperativo, mas este governo está aparentemente a destruí-lo.


Mas afinal, o que é a CASES, Economia Social e porque é tão importante?

Muitos de vós é infelizmente comum desconhecer o que é a CASES ou saber em concreto o que é o setor da economia social.

A CASES tem sido, desde 2010, a organização promotora da economia social em portugal. É uma Cooperativa de Interesse Público - um modelo único de parceria entre o Estado e as principais federações do setor (CNIS, Misericórdias, Mutualidades, CONFECOOP, CONFAGRI, ANIMAR).

Na prática procura promover o setor em termos de estudos, em termos de apoio jurídico a associações e cooperativas, tem servido de principal interlocutor entre as grandes organizações representativas do setor e o governo, influenciando as políticas publicas e propostas de legislação. Por exemplo dá apoio jurídico a novos projetos associativos ou cooperativos, disponibiliza formação técnica e profissional sobre gestão de instituições a dirigentes e técnicos, estava a promover a criação de um regime fiscal unificado para o setor que responda às diferentes famílias de organizações de economia social.

Quando um grupo de pessoas quer desenvolver um projeto associativo ou cooperativo é a CASES que dá apoio jurídico para se constituir legalmente, orientação sobre como funciona. No caso de optarem por criar uma cooperativa (pode ser de trabalho, de consumo, habitação), é a CASES a melhor instituição para dar apoio especializado e acesso a financiamento através do programa de apoio às cooperativas. É também a CASES que tem o papel "chato", mas que considero necessário, de validar estatutos e documentos constitutivos para certificar que a cooperativa está de facto a cumprir com os princípios cooperativos e a legislação associada, bem como receber e validar os relatórios anuais das cooperativas. Sem esta credenciação, as cooperativas não podem aceder a benefícios fiscais e apoio financeiro ou técnico do setor público e fundos comunitários.

Em 2024, foram emitidas 1.029 credenciais através da plataforma.

A CASES também produz conhecimento sobre o setor (a "conta satélite" que nos diz quanto pesa a economia social na economia e valoriza este setor), faz a demografia do setor cooperativo, gere a Plataforma Portugal Voluntário, promove estudos ligados ao setor, está ligada a redes europeias de cooperativismo e economia social, tem a Casa António Sérgio onde investe na recuperação do espólio de António Sérgio e dos seus discípulos, procurando dar a conhecê-lo ao público em geral.

São 30 pessoas que fazem este trabalho todo. Pessoas com conhecimento especializado que não se improvisa. Destas pessoas apenas 3 têm empregos públicos.

Este modelo de parceria público-social da CASES é considerado uma referência: nem é delegação total de competências ao setor privado/social (como acontece nalguns países), nem é pura administração estatal centralizada (como noutros). É uma colaboração entre Estado e as principais entidades do setor, mas com dependência recursos do Estado. É um meio-termo com as suas vantagens e desvantagens.

Estou consciente que existem instituições e pessoas que não estão satisfeitas com o trabalho desenvolvido pela CASES, resultado do reduzido número de recursos humanos disponíveis. Mas considero que a CASES reúne pessoas realmente dispostas a apoiar as várias organizações do setor e que são muito acessíveis em comparação com entidades estatais como é o caso do Instituto da Segurança Social.

E agora? O governo quer acabar com isto tudo. Passar para a Direcção-Geral da Segurança Social como se fosse a mesma coisa. Acho que a DGSS não terá capacidade para pegar nas diferentes dimensões do trabalho prosseguido pela CASES, apesar desta organização ou do setor não ser propriamente do conhecimento de todos.

O setor da Economia Social não pode ser o parente pobre da economia portuguesa. Se a decisão do governo se concretizar, será a primeira vez desde a democracia que o Estado abandona este modelo de apoio direto à economia social e ao cooperativismo. ** Simbolicamente, é uma mensagem internacional de desvalorização do modelo cooperativo precisamente quando devíamos estar a celebrá-lo com o mundo no âmbito do Ano Internacional das Cooperativas, e reforçá-lo.


O que vai acontecer agora? (E porque é uma péssima ideia)

O governo decidiu: o Estado sai da CASES. As competências vão para a DGSS - Direcção-Geral da Segurança Social.

Vamos ser claros sobre porque isto não funciona:

1. A DGSS tem experiência com as IPSS, não cooperativas

A DGSS tem experiência em regular e fiscalizar Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS), estamos a falar dos lares, centros de dia, creches, entre outras respostas sociais. Também desenvolve acordos de cooperação para o desenvolvimento destas respostas.
Mas cooperativas são outra coisa. Uma cooperativa de habitação não é uma IPSS. Uma cooperativa agrícola não é uma IPSS. Uma cooperativa de consumo como a Fruta Feia não é uma IPSS. Uma cooperativa de energia renovável não é uma IPSS. Uma cooperativa de produtores ou de trabalho não é uma IPSS, exceto se estivermos a falar do setor cooperativo de solidariedade social - mas mesmo assim o funcionamento é bastante diferente.

Têm lógicas diferentes, governação diferente, fiscalidade diferente, legislação diferente. O modelo de certificação e acompanhamento das cooperativas não é o mesmo das IPSS. Vai ser preciso aumentar equipas, vai muito provavelmente ser preciso modificar ou criar uma plataforma para credenciação de cooperativas. Pergunto na prática onde vai haver poupança?

2. A DGSS já deu provas que não entende as especificidades das cooperativas

Os relatos que chegam às organizações de cúpula, CASES e redes informais, sempre que o Instituto da Segurança Social (ISS) teve de lidar com cooperativas, mostrou que não percebe as especificidades do modelo cooperativo: a começar com a dificuldade em lidar com o principio de autogestão e a variabilidade de remunerações nas cooperativas de produtores/trabalho, a dificuldades que os dirigentes têm com os regimes contributivos, as exigências feitas às cooperativas equiparadas a IPSS considerando as normas conflituantes entre o Código Cooperativo e Regime Jurídico das IPSS.

3. A DGSS é lenta e burocrática demais para as cooperativas

O acompanhamento que a DGSS faz às IPSS é moroso, formal, pesado. Questiono se de facto funciona para instituições tradicionais com décadas de existência e estruturas consolidadas?

Mas as cooperativas, especialmente as novas, precisam de agilidade, de proximidade, de quem entenda que estás a experimentar modelos inovadores. Precisam de novo sangue, de apoio a jovens que querem criar coisas novas.

A CASES faz isso, com alguma dificuldade dada a limitação de recursos humanos. A DGSS e o ISS não me parece que esteja preparada para fazer.

4. O que vai acontecer aos programas?

Ninguém sabe. O governo não apresentou um plano. Na Assembleia Geral da CASES de 18 de Dezembro, o representante do Estado absteve-se em tudo e não respondeu a perguntas.

Um elemento da equipa técnica da CASES referiu: "Não sabemos os planos para o apoio jurídico, para o PAC, para a Formação, para o Microcrédito, para os protocolos internacionais... porque como nunca nos consultaram, nem sabem que esses programas existem."

Isto assusta-me. Vão acabar com a unica instituição que promove o cooperativismo e economia social, bem como programas que funcionam porque nem sabem que existem.

Pelo caminho, há cerca de 30 trabalhadores, a grande maioria com contratos individuais de trabalho, que não sabem qual será o seu destino e um sector que não percebe quais as intenções do Governo. Vamos perder também vários anos de conhecimento associado ao setor.


O peso real da economia social

Alguns podem pensar: "Ah, mas economia social é nicho, é marginal."

Será mesmo?

📊 Vamos analisar as estatísticas do setor:

  • 5,2% do emprego total português (2020)
  • 5,9% do emprego remunerado
  • 3,2% do PIB nacional (Valor Acrescentado Bruto)
  • Na saúde, a economia social representa 33,2% do emprego (Misericórdias, Mutualidades)

Durante a crise de 2019-2020, quando a economia "normal" encolheu -5,8%, a economia social cresceu +0,4% (VAB). Cresceu também o emprego total e remunerado no setor.

Quando há crise, quando o mercado falha, quando empresas privadas despedem e fecham, a economia social aguenta, resiste, até cresce.

O setor não é "consolidado e autónomo". É contracíclico, resiliente e estratégico. Durante crises, cresce quando a economia tradicional encolhe. É uma almofada de proteção social e económica.


Porque é que TU, individualmente, deves preocupar-te com isto?

Estima-se que existem cerca de três milhões de cooperativas em todo o mundo e pelo menos 12% das pessoas são cooperadoras e cooperadoras. - World Cooperative Monitor.

Muitas pessoas nem são conscientes que, no seu dia a dia, estão a lidar com várias entidades de economia social:

O centro de dia onde estão os teus pais ou avós. O seguro de saúde de uma mutualidade que é mais barato e justo que os das seguradoras privadas. A creche dos teus filhos a preços onde tens preços mais acessíveis. A associação cultural que organiza as festas da terra. A associação sociolaboral que te dá possibilidades de formação no setor. A associação ou clube desportivo onde fazes um desporto competitivo ou arte marcial. A cooperativa de consumo que faz a intermediação entre agricultores e os cooperadores consumidores. A cooperativa agrícola que vende produtos locais na feira. O comerciante local que está integrado numa cooperativa de comercialização para poder gerir mais facilmente a loja do teu bairro. O sindicato que te ajuda a saber os teus direitos laborais. A associação de estudantes da tua faculdade que tem um bar, promove festas para os estudantes e informa os estudantes sobre os seus direitos.

Usas economia social todos os dias e talvez nem te apercebas. É importante que exista entidades como a CASES para apoiar a criação de novas associações e cooperativas. Sem a CASES (ou equivalente): quem te ensina como fazer? Quem te dá orientação jurídica? Quem te ajuda a aceder a financiamento? Tu não és advogado especializado em cooperativas. Será que as organizações de cúpula do setor estão preparadas para fazer este papel?

O que pode acontecer se a CASES desaparecer?

Menos cooperativas novas por dificuldades de constituição e falta de apoio quando as demais entidades do estado discriminam as entidades do setor (leia-se não estão preparadas para as suas especificidades). As existentes ficam mais frágeis. Jovens com ideias cooperativas desistem porque é demasiado complicado. Na minhas perspectiva, o setor tem maior probabilidade de envelhecer, de perder vitalidade e vai encolher. E estamos a falar de setores que já são de alguma forma discriminados ou nem tanto presentes na educação, na comunicação social, etc.

E Portugal fica mais dependente de mercado privado puro e Estado. Perdemos diversidade económica. Perdemos alternativas.


O setor começou a mobilizar-se esta semana e critica o processo

Esta semana começou a circular uma carta aberta sobre estes acontecimento e ká tem 35 coletivos e 336 assinaturas individuais**. Já se pronunciaram contra os presidentes da CNIS, da União das Mutualidades Portuguesas e União das Misericórdias Portuguesas.

Tu podes assinar a carta. Se isto te preocupa, se achas que faz sentido defender a economia social, assina a carta. Pode ser feito a título pessoal.

A decisão foi comunicada publicamente antes de ser comunicada aos cooperadores e trabalhadores da CASES. Todos tomaram conhecimento pela comunicação social, passando quase despercebido no meio da reforma proposta.

Mas ainda pior! Na data em que escrevo a CASES não foi ainda formalmente informada. Na Assembleia Geral de 18 de Dezembro de 2025 (ontem), o representante do Estado absteve-se em todas as votações, não apresentou qualquer proposta concreta, não respondeu a perguntas dos cooperadores nem dos trabalhadores. As entidades cooperadoras e os funcionários aguardam um plano de transição que ainda não foi apresentado.


O que podemos (e devemos) fazer?

Como cidadãos e cidadãs, temos responsabilidade de agir:

A economia cooperativa e solidária é uma alternativa à lógica extrativista e competitiva. Os dados mostram que este modelo funciona, especialmente em momentos difíceis. Enfraquecer o apoio a este setor é enfraquecer uma alternativa económica real que beneficia toda a sociedade.

É fundamental apelar aos partidos políticos e aos grupos parlamentares para interpelarem o governo, exigirem explicações, proporem recomendações, audições parlamentares e o que for necessário para proteger o setor da economia social.

Importa também que as forças políticas se posicionem publicamente, articulem com o movimento cooperativo e juntem as suas vozes à mobilização.

E cada um de nós, individualmente?

Consciencializar. Falar sobre isto com familiares, amigos e colegas. Partilhar com redes cooperativas que conhecemos. Assinar a carta aberta. Acompanhar o que se passa. Pressionar os nossos representantes políticos.

No Ano Internacional das Cooperativas, enquanto o mundo celebra, Portugal desmantela. Todos nós que valorizamos a economia social e o cooperativismo, vamos ficar calados?

Este tema é importante. Merece atenção. Merece discussão. Merece ação.

Fontes: