sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cavaco e Alegre, ou o homem-estátua e a mudança necessária

No dia 23 de Janeiro de 2011, vamos escolher se queremos mais cinco anos de Cavaco, ou se queremos mudar. A única hipótese viável de mudança é Manuel Alegre.

Cavaco Silva fez na terça-feira um discurso vazio e monocórdico, típico de alguém que nunca correu riscos, também não quer arriscar desta vez, e vai fazer o número do homem-estátua durante os próximos três meses. Em campanha, limitar-se-à a passear a sua presidencial pessoa, com ou sem bolo-rei na boca, sem se comprometer com nada e insinuando sempre que se não fossem os «avisos» dele «isto estaria muito pior». Não assumirá a sua parte de responsabilidade nos nossos problemas actuais, e não explicará se pensa que a nossa relação com a União Europeia tem que ser repensada, se suspeitava ou não que os seus amigos Dias Loureiro e Oliveira e Costa metiam ao bolso o dinheiro do BPN, ou se enviou Fernando Lima à Avenida de Roma de dossiê na mão para plantar uma notícia falsa num jornal.
Historicamente, os presidentes reeleitos são sempre mais activistas do que no primeiro mandato. Cavaco entre 2011 e 2016 estará à vontade para desinibir a sua faceta autoritária e conservadora, e não é por acaso que a direita mais clerical desistiu discretamente do seu candidato alternativo. Cavaco poderá exercer com leveza todos os poderes que lhe pesavam no primeiro mandato, dos vetos presidenciais à «magistratura activa» que já promete, contra a «magistratura de influência» habitualmente associada ao cargo presidencial. E, se Passos ganhar umas quaisquer legislativas em 2011, a direita terá todo o poder, da Presidência às autarquias, passando pelo Parlamento e pela Madeira.

Manuel Alegre, pelo contrário, não esconde o que pensa. Assume, compromete-se, conhecemos o que pensa e o que faria. O que é um defeito e uma qualidade. Uma qualidade porque a cidadania democrática passa justamente por votarmos em políticos que disseram o que fariam e farão o que disseram, e não em personagens opacos que escondem o que pensam e farão. Um defeito porque o que fez e disse nos cinco anos desde a última presidencial lhe criaram resistências na esquerda do BE e na direita do PS.
Portugal necessita de uma mudança. Com novos protagonistas políticos. Já defendi, e mantenho-o, que o PS não deveria apresentar José Sócrates nas próximas legislativas. E, na raiz da crise, está uma União Europeia que não pode continuar a funcionar com um Parlamento Europeu sem iniciativa política, Tratados blindados a políticas sociais, um Banco Central Europeu que empresta dinheiro aos bancos mas não aos Estados, e uma Comissão Europeia exclusivamente nomeada pelos grandes Estados. Manuel Alegre é o único político de relevo nacional que tem mantido um discurso de crítica moderada e construtiva da União Europeia, e alguém que num momento de crise garante mais apego ao Estado social do que qualquer José Sócrates.

Na eleição presidencial, poderá ficar tudo na mesma. Mas o que é necessário é mudança.