quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Semântica do trabalho

O sempre interessante Miguel Madeira referiu um texto do Nuno Ramos de Almeida ao qual eu não prestei a atenção que deveria ter prestado. Na altura pareceu-me mais uma discussão académica para a qual eu não teria grande paciência, mas é muito mais do que isso. Escreve o Nuno:
A reivindicação de um trabalho liberto da alienação, em que o produtor é dono inteligente do seu esforço, é um objectivo político essêncial. Mas isso não se confunde com a liquidação do trabalho e com a instauração de um mirífico subsídio universal que parece ser a única reivindicação prática das correntes autonomistas. (...) Às vezes parece-me que o movimento autonomista consegue ver pouco para além dos muros das faculdades e tende a querer resolver a questão do trabalho pela atribuição de uma espécie de bolsa de investigação a toda a população.
Eu felicito o Nuno por ter conseguido explicar, com concisão, através da crítica ao "movimento autonomista", o que Odorico Paraguaçú entendia por "esquerda cervejista", como eu referi aqui (num texto que vem novamente a propósito).
Entende o Miguel Madeira que a diferença entre "desalienação" e "abolição" do trabalho é somente uma questão de semântica. Até pode ser que seja, mas é uma distinção da maior importância (a semântica também pode ser importante). Com efeito, o Miguel escreveu que, para um comunista, o trabalho seria o que "realizava plenamente o homem", e pretende equiparar esse objetivo ao da "Internacional Situacionista" e das correntes autonomistas, normalmente vistos como "antitrabalho", baseado num suposto significado diferente de "trabalho" para comunistas e autonomistas. Chegados aqui, creio que o Miguel está a ser simplista. É que, bem mais essencial que o significado de trabalho, parece-me (embora este também seja importante), é o significado
de "realização plena". Para o comunismo, a realização nunca é plena se for só de um indivíduo: tem de ser a realização de toda a sociedade. Para o comunista, assim, o trabalho será algo que se destina principalmente ao bem comum, e só depois deste viria eventualmente o trabalho destinado ao indivíduo, em contraste com o autonomista, para quem deveria sempre prevalecer o trabalho destinado ao indivíduo, algo "que fazemos porque gostamos", usando as palavras do Miguel. Se isto for mesmo assim, gostaria de saber quem limpa as retretes dos autonomistas. Será que o autonomista gosta de limpar retretes (deve ser único no mundo)? Ou será que quem lhas limpa é a empregada doméstica? Fico curioso.