quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A violência gera violência

A violência da polícia gera a violência dos manifestantes. A violência dos manifestantes gera a violência dos polícias. E desta espiral só se sairia se existissem tribunais que condenassem uns e outros, ou um governo ou um presidente que fossem capazes de serenar os ânimos (não existem).

Os media de amanhã culparão os trinta jovens de cara tapada pela violência policial (e Miguel Macedo fê-lo há poucos minutos). Já escrevi muitas vezes que não compreendo que se tape a cara quando se está a defender direitos de cidadania em democracia. Mas o facto de estes jovens aparecerem na primeira linha das manifestações, aparentemente sem qualquer enquadramento político, mostra como a situação se está a degradar rapidamente. Se ainda existissem FP's-25, daqui a duas semanas estariam a pôr bombas. Mas não há: a manifestação de hoje tornou-se violenta quando a CGTP abandonou o local e o único partido de que se via bandeira era o MAS. Todavia, erram os que culpam unicamente os caras-tapadas: muito possivelmente, os infiltrados(*) do SIS e da PSP foram relevantes no desencadear da violência. E disso pouco se fala, apesar de esse papel estar comprovado e assumido desde o início deste governo.

Na greve geral de hoje avançou-se mais um pouco numa escalada descendente que não augura nada de bom.




(*) «Havia agentes infiltrados na multidão, confirmou ao PÚBLICO fonte policial» (ver aqui, nota das 18h18m).

(Adenda) Dois factos muito significativos: nem a maioria dos manifestantes isolou a minoria violenta, nem a polícia isolou os violentos entre os manifestantes. São dois factos que mostram como a polarização está aí.

9 comentários :

  1. na tua adenda, o mais importante do ponto de vista operacional.
    não acho que seja desejável ser a multidão a autopoliciar-se.
    a intervenção deveria vir da polícia, é para isso que ela existe: deter quem tenciona por em causa a segurança dos demais cidadãos (bem-entendido, isso não é missão para os descerebrados do corpo de intervenção).

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    1. Não estou a ver bem como é que a polícia poderia ter isolado "os violentos entre os manifestantes". Como é que a polícia o poderia fazer sem intervir na manifestação, penetrando no meio da multidão e dispersando-a (como de facto acabou por fazer)?

      Em compensação, concebo perfeitamente que os manifestantes pudessem ter isolado "a minoria violenta". E não compreendo por que não o fizeram. Na medida em que não o fizeram nem o tentaram fazer, os manifestantes são responsáveis pelo que ocorreu.

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    2. Luís Lavoura, ainda sobre o seu primeiro ponto.

      a) Os paisanos retiraram da manifestação minutos antes da carga;

      b) A polícia disparou petardos no exacto momento em que iniciou a carga, provocando fumo e confusão.

      Portanto, a intenção não era prender os violentos. Era mesmo limpar a praça.

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    3. Finalmente, Luís Lavoura: porque é que os manifestantes não isolaram a minoria violenta?

      1) Sabe-se que enquanto a CGTP lá esteve não houve desacatos.

      2) Sabe-se (leia o Daniel Oliveira, entre outros) que alguns tentaram convencer os violentos a pararem de atirar pedras, tendo depois abandonado o local, como o fizera a CGTP.

      Mesmo assim, muita gente permaneceu na praça. No meu entender, podemos dividi-los em três grupos.

      a) Os que condenam a violência e ou não tinham desistido de convencer os caras tapadas a pararem, ou não queriam que esses fossem os únicos a ficar na praça.

      b) Os que não condenam totalmente a violência (mesmo que não participem) e não se importavam de estar ali a correr o risco que correram.

      c) Os que não compreenderam o risco que corriam ou não lhe ligaram importância.

      Em qualquer dos casos, os caras tapadas parecem-me, em muitas filmagens, estar relativamente isolados do resto da multidão. Teria sido fácil a vinte paisanos isolá-los. Não o quiseram: a polícia escolheu a violência.

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    4. Se o Lavoura näo está a ver, vá ao oftalmologista.
      Ou se calhar seria preferível ir directamente ao psiquiatra.

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  2. Destaco o seu primeiro parágrafo, nomeadamente a primeira frase.

    Ainda bem que a li, dado que quando ontem vi as imagens (que poderão muito bem ter sido deturpadas pelo canal do estado e pelos outros dois privados) pareceu-me ver a polícia de intervenção parada nas escadas de acesso à Assembleia da República, insultada vezes sem conta e alvejada por pedras da calçada, pedir aos manifestantes para dispersarem... estivesse ou não o senhor a provocar desacatos. A partir daí, a atitude das forças policiais foi a correcta. Eu pago para haver contentores do lixo direitos e não queimados, ou pago para as ruas estarem calcetadas e não com terra ou lama, porventura paguei e estou a pagar um empréstimo a um carro para o ter estacionado à porta de casa sem ninguém, por piada e um qualquer atraso mental me partir os vidros e espelhos retrovisores.

    A sua frase é muito bonita, mas se há alguém que provocou alguém esse alguém não estava de capacete e viseira.

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    1. Queixe-se à polícia pelos contentores do lixo queimados e pelos carros vandalizados: se tivessem gerido a situação com mais inteligência, isso não teria acontecido (ou teria tido uma expressão menor).

      E lembre-se que a polícia também é paga por nós (e com aumento esta semana): são nossos empregados.

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  3. Luís Lavoura,
    tendo a polícia infiltrados que não eram provocadores, teria bem identificados, ao fim de hora e meia, os vinte elementos violentos. Bastaria esses paisanos terem-nos rodeado e isolado, dando tempo ao corpo de intervenção para avançar.

    A opção da polícia não foi essa, foi bater em toda a gente indiscriminadamente.

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