domingo, 25 de novembro de 2012

Leitura de 25 de Novembro

Porque hoje é o 37º aniversário, recomendo «Primeiro Fazem-se Plenários e Depois é que se Cumprem as Ordens», da historiadora Raquel Varela. Essencialmente, é o ponto de vista da extrema esquerda: o PCP no 25 de Novembro só mandou as pessoas para casa, não tinha qualquer golpe de Estado «preparado», toda e qualquer acção foi estritamente defensiva, no fundo traiu a classe operária. Mais: o PCP desde Julho que tentava reparar o erro que cometera ao apoiar alguma iniciativas dos mais radicais (caso República, ocupações...) e do próprio PCP («unicidade sindical») que haviam afastado o PS e os moderados do MFA. As provas documentais apresentadas de que a estratégia do PCP era a recomposição da «unidade da esquerda» são relevantes(*). Todavia, a própria autora assume implicitamente que o PCP nunca tentou isolar a esquerda revolucionária (fora pronunciamentos verbais) e explicitamente que o período analisado inclui o episódio da FUR, pouco «enquadrável» nessa estratégia. Argumenta, com alguma razão, que se havia golpe preparado do PCP e militares afectos, então foi estranhamente mal preparado (mas poderia responder-se-lhe que em todas as revoluções há muitos que faltam à chamada na hora H).

Não se retire do parágrafo acima que «compro» a tese oposta (a da revolução PCPista em marcha a partir de Tancos evitada por valorosos «democratas» que, entendeu-se rapidamente, queriam mesmo era fuzilar uns tantos «comunas»). Pelo contrário, até acho que, por estranho que hoje pareça, a tese de que o PCP andou a reboque (ou quase...) da extrema-esquerda deste Março de 1975, e que ficou «entalado» no V Provisório e depois até Novembro, inclusivamente nos acontecimentos de 25, é a que andará mais próxima da verdade.

E não tenho qualquer dúvida que o 25 de Novembro deu muito jeito ao actual «arco da governabilidade» (aí fundado) e à tal «extrema-esquerda» (salva de si própria). Realmente só não deu jeito ao PCP...



(*) E ainda hoje se anda nisso, não é? Uma razão para todos os anos voltarmos ao tema...

4 comentários :

  1. Fui ver, mas desisti rapidamente: nenhum daqueles governos foi de coligação partidária, um perfeito anacronismo se tivermos em conta que partido só existia um.
    Estou de acordo contigo: o PCP sabia perfeitamente que não podia tomar o poder, e muito simplesmente no 25N fez o mesmo que o Otelo: evitou uma guerra civil mais que derrotada à partida.

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    1. Explica lá melhor de que governos estás a falar.
      Que eu saiba, todos os governos provisórios (até os V e VI) tinham elementos de todos os partidos.

      Há um "pormaior" no meio de isto tudo: as eleiçöes de 25/4/75 foram para a Assembleia Constituinte, e näo para o Governo. Näo obstante, o sr. faminto-de-poder Mário Soares pös-se logo aos berros que "ganhei as eleiçöes, logo, quero governar" no que foi barrado (e muito bem, seguindo o programa do MFA) pelo 1.o Ministro: é daí que vem a campanha de colar Vasco Gonçalves ao PCP. No seguimento dessa legítima recusa, o Ministro sem Pasta Mário Soares fez birra e mandou os ministros do PS saírem do IV Governo Provisório, no que foi acompanhado pelo PSD e CDS, precipitando o Veräo Quente.

      Quanto ao papel tradicionalmente atribuído ao PCP no 25 de Novembro, cada vez mais me convenço que foi a tentativa final de Mário Soares de ilegalizar o PCP, já que o novo 1.o Ministro Pinheiro de Azavedo foi na mesma buscar ministros ao PCP (Veiga de Oliveira). Tendo o PCP tido apenas 13% dos votos (1/3 dos do PS), qual o seu interesse em provocar uma revoluçäo com täo poucos apoiantes, arriscando-se a perder os poucos ministros que tinha?
      Mais: se o PCP estivesse por detrás da intentona, como querem fazer crer os partidos do "arco governativo", entäo porque é que näo foi ilegalizado? Pois...

      Entretanto, a História deu razäo ao "Vasco maluco", porque Mário Soares era incompetente para (1.o) Ministro além de falso democrata.

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  2. "Realmente só não deu jeito ao PCP..." e esta frase resume tudo.

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  3. Não estou certo mas talvez Henrique Raposo(no artigo de 24 de novembro 2012 no expresso)tenha razão quando aponta para estratégia do ps de Soares(velha forma de dividir para reinar) o facto de o partido comunista não ter sido ilegalizado naquela altura pós verão quente de 75(podem procurar o artigo,eu no entanto só encontro links através do expresso o qual cobra para leitura digital).Aliás,podemos perguntar também porque é que o pcp foi o unico partido comunista a sobreviver(na sua forma ortodoxa e sovietica)na Europa após a queda do muro,será apenas por interesse do próprio pcp?Dá que pensar não?

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