quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Pontos e vírgulas num manifesto

A social-democracia europeia, atada de pés e mãos pelos sacrossantos «critérios de Maastricht» e adormecida pelas «terceiras vias», renunciou nas duas últimas décadas a enfrentar decisivamente a escalada das oligarquias financeiras. Poucos destoaram, e nesses poucos deve destacar-se Manuel Alegre. É significativo e positivo que Mário Soares, rodeado por outras figuras do PS, acorde agora para o que está a acontecer. Mais vale tarde do que nunca.

No Manifesto hoje divulgado, denuncia-se «a imposição da política de privatizações a efectuar num calendário adverso e que não percebe que certas empresas públicas têm uma importância estratégica fundamental para a soberania (...) o recuo civilizacional na prestação de serviços públicos essenciais, em particular na saúde, educação, protecção social e dignidade no trabalho». Está certíssimo. Mas já se esboça um programa da esquerda democrática para sair da crise, que passa pela promoção do crescimento económico (e re-industrialização da Europa), emissão de dívida pelo BCE e imposição da taxa Tobin. O Manifesto é omisso quanto a essas soluções. Aliás, é completamente omisso quanto a soluções. Embora Mário Soares seja muito pertinente, por exemplo, quando pede uma União Europeia que seja uma «associação voluntária de Estados iguais»: os Estados ditos «periféricos» têm que abandonar a sua subordinação ao merkozismo.

Finalmente, não posso deixar de considerar lamentável a evocação da «Igreja» como ponto de apoio. Reconhecer autoridade política, num momento de crise económica, à «Igreja» (citada assim, como se só houvesse uma, a católica e mais nenhuma) é conferir-lhe legitimidade para outras intervenções no futuro. Vale a pena?