sábado, 2 de outubro de 2010

Esquerda e as ditaduras comunistas - III

É comum que, quando confrontados com uma proposta de esquerda, políticos e eleitores de direita rejeitem avaliar a proposta pelos seus méritos, alegando que, como todas as propostas de esquerda, trará pobreza e miséria, e sustentando tal alegação na comparação entre os países pobres e comunistas e os países ricos e capitalistas.

Nos textos anteriores mostrei que tal alegação não faz sentido, quer porque as ditaduras comunistas não estão associadas a uma diminuição da prosperidade dos países em que são implementadas; quer porque esse não é o projecto, a ambição e utopia declaradas da esquerda moderada (a maioria da esquerda).

Mas é possível fazer uma avaliação justa da generalidade das políticas de esquerda e de direita numa mesma sociedade. Se a Rússia já foi vítima de políticas extremistas ideologicamente opostas - o Estalinismo, e um Capitalismo mais desregulamentado que qualquer cenário que a Europa ou os EUA tenham visto - e nenhuma delas trouxe boas notícias para os Russos, seria interessante ver o que aconteceu nos EUA em termos das políticas estruturantes de esquerda (New Deal), de direita (Reagonomics), bem como as políticas conjunturais de direita e esquerda ao longo do século XX.

A esquerda alega que as suas políticas estruturantes tendem a diminuir as desigualdades. Para a esquerda, isso tem valor por si. Mas independentemente disso, uma diminuição das desigualdades corresponde a uma diminuição da criminalidade, da taxa de suicídio, da discriminação sexual e racial, a um aumento da esperança média de vida, etc... A direita, no entanto, várias vezes argumenta que as políticas estruturantes de esquerda não levam a uma diminuição das desigualdades, mas sim a uma diminuição da prosperidade.

Os seguintes dados dão razão às alegações da esquerda, e desmentem as da direita.

Veja-se a proporção do rendimento dos 10% mais ricos ao longo do século XX (acrescentei as datas do início do New Deal e do mandato de Reagan):



Veja-se agora o crescimento da economia (média móvel a 5 anos, calculada a partir dos dados do PIB encontrados aqui), ao longo do mesmo período:



É bastante claro que as políticas estruturantes da esquerda não comunista não têm um impacto perverso no crescimento económico nem no curto nem no longo prazo. Na verdade, é possível argumentar o oposto, visto que nas presidências democratas, e dando um ano de lag, a média do crescimento económico é superior; enquanto que nas presidências republicanas é a média do aumento da dívida pública que é superior.

Mas o impacto mais claro destas políticas é mesmo no que diz respeito à diminuição de desigualdades. Aí não existe disputa - o New Deal criou uma sociedade próspera, relativamente justa, com relativa equidade. As políticas estruturantes de direita, a começar em Reagan, destruíram essa (relativa) justiça, criaram uma sociedade mais desigual, com menos mobilidade social, mais desigualdade de oportunidades.

Acrescento esta comparação ilustrativa entre as administrações Clinton e Bush, excluindo até os últimos anos da administração Bush, quando a economia implodiu. Ela demonstra como uma distribuição mais equitativa do rendimento, longe prejudicar o crescimento da economia (antes pelo contrário), é absolutamente determinante para o rendimento real da maioria da população:



Isto não aconteceu só nos EUA. Na Europa houve um país onde a esquerda não comunista esteve várias décadas no poder. Não é senão justo considerar tal país como um perfeito exemplo daquilo que as políticas de esquerda moderada conseguem num país europeu. Esse país é a Suécia, um dos mais prósperos, um dos menos corruptos, um dos mais justos, um dos que tem menos criminalidade, mais esperança de vida, menos problemas sociais. Um país que está sempre nos tops (quando não é o primeiro) do desenvolvimento humano.

A esquerda não é herdeira do marxismo, porque logo desde início nem toda a esquerda foi marxista. A esquerda é herdeira sim das lutas das sufragistas, das lutas contra o absolutismo, da luta contra a escravatura, da luta contra o apartheid. E um dia, quando deixar de ser polémica (porque a esquerda vai vencer essa batalha), poderei acrescentar a discriminação pela orientação sexual a esta lista.

Assim, deixo esta sugestão ao leitor: quando pretender avaliar uma medida de esquerda pelo que a esquerda em geral alcança, e não pela medida em particular - algo que desde já desaconselho - pelo menos mantenha presentes estes factos.

5 comentários :

  1. Quatro observações muito rápidas:

    1 - A Suécia já não é de esquerda como foi em tempos. Liberalizou a educação, os mercados energéticos, mil coisas mais e, apesar de ainda se pagarem muitos impostos, é provável que os serviços públicos comecem a perder terreno. E isso não será mau, tenho a certeza que a Suécia se manterá no topo do desenvolvimento humano. Digo isto não ignorando que a igualdade que foi construída durante décadas dará um ponto de partida muito diferente de um país onde reina a desigualdade.

    2 - Os marxistas dão atenção a um ponto largamente ignorado no seu texto. Falar na Suécia é falar em mais que uma economia fechada. Foi na Suécia que apareceu a famosa IKEA. Sabe em que países estão os trabalhadores da IKEA? Quanto recebem? Que sindicatos há e que poder têm? A IKEA paga pesados impostos na Suécia, mas o que lhe pergunto é se tem a noção que os hospitais que se constroem na Suécia têm o suor de muitos povos em "desenvolvimento": em "desenvolvimento", do ponto de vista de quem, pergunto eu.

    3 - O capitalismo, ainda que regulado, está sujeito aos ciclos económicos. Não consta que os países com mais Estado, ou mais regulados, vejam a crise de uma maneira muito diferente que os mais desregulados. A zona euro estará em crise mais tempo que os EUA, por exemplo.
    Apenas a democratização (direcção) da economia permite o seu crescimento harmonioso e consciente. É falacioso dar a entender que a média geométrica entre o neoliberalismo e o comunismo dará algo saudável. A Suécia está também ela sujeita aos mercados, não consta que esteja sujeita a metade dos mercados. O caso da Islândia é um bom exemplo de Estado Social falido.

    4 - Sempre que se fala de comunismo tem de se ter presente o grande debate do período pós-revolucionário de 1917. O comunismo nunca seria alcançado naquelas fronteiras, a menos que países industrializados avançados como a Inglaterra, a França, a Alemanha ou os Estados Unidos. É o mesmo que hoje alguém achar que a Venezuela ou a Bolívia ou as duas juntas com Cuba podem ir a lado algum.

    ResponderEliminar
  2. pois seu João Vasco mas o New Deal não foi uma revolução esquerdista
    nem foi estruturante
    um país que aumentou a despesa pública para absorver com o consumo interno o que não podia exportar
    foi um remendo para evitar uma
    revolução quer de esquerda quer de direita

    essencialmente o que joga contra os sistemas desprovidos de incentivos é que geralmente levam à estagnação ou à produção sem qualidade

    poderia resultar numa sociedade em que se apagasse o passado e as memórias relativas aos sistemas anteriores

    ResponderEliminar
  3. A Islândia não foi vítima do Estado Social, mas sim da agiotagem financeira e da desregulação neo-liberal que incentivou a aquisição dos activos "tóxicos"...
    ou seja, foi vítima da ganância, não da solidariedade.

    ResponderEliminar
  4. Estes comentários são interessantes. Responder-lhes-ei com mais tempo, talvez com um post ou outro.

    ResponderEliminar
  5. Nando:

    A IKEA são duas empresas (uma tem a marca, a outra a propriedade das lojas), e para todos os efeitos é uma empresa holandesa, registada na holanda. Ups, disse empresa? Enganei-me, está registada como instituição de caridade e não paga impostos.

    Acho eu.

    ResponderEliminar

As mensagens puramente insultuosas, publicitárias, em calão ou que impeçam um debate construtivo poderão ser apagadas.