sábado, 23 de outubro de 2010

Sugestões onde cortar

No passado mês de Julho estive numa conferência na Argentina. A Argentina, que saiu de uma crise profunda causada por políticas ultraliberais através de um governo de centro-esquerda com políticas keynesianas, poderia servir de exemplo em muita coisa para Portugal. Quero só dar este exemplo.
Na tal conferência argentina, na qual participaram muitos dos melhores especialistas mundiais da especialidade, a inscrição era gratuita. Os materiais de apoio essenciais estavam lá: havia os intervalos para café, crachás para identificação dos participantes e pouco mais. Claro que tinha que haver subsídio (nestes caso necessariamente público) para cobrir as despesas com os convidados, mas não havia um único gasto supérfluo.
Há quinze dias participei numa outra conferência, desta vez em Portugal. Os convidados não tinham comparação com os da Argentina (eram muito menos conhecidos). No entanto, a inscrição não era gratuita. Tal pode não parecer um problema à partida, não fosse muitos dos potenciais participantes e agentes da ciência que se faz em Portugal serem... bolseiros. Que é como quem diz, não terem esse instrumento maravilhoso de que os funcionários públicos contratados dispõem, chamado "ajudas de custo". Um bolseiro poderia ir à conferência na Argentina, mas teria muito mais dificuldade em Portugal.
Para que servia então a inscrição na conferência portuguesa? Para pagar aos melhores oradores do mundo não era... Era mais provável que fosse para pagar os materiais inúteis que eram disponibilizados aos participantes. A esferográfica, o bloco, o mapa da cidade são normais. Mas alguém quer mais um saco para computador portátil? E um souvenir patusco, magnético, para colar no frigorífico? Reparem bem nestes exemplos (o saco e a lembrança), e nas indústrias a eles associadas. O dinheiro fácil que fazem (obviamente estes materiais não são gratuitos). Estas despesas surgem associadas à conferência porque a esmagadora maioria dos seus participantes tem ajudas de custo (e na realidade nem repara muito no preço de inscrição para a conferência). Sabe-se que é esse o caso. E conta-se com isso - há uma indústria (dos brindes inúteis das conferências portuguesas) que vive das ajudas de custo. Ou seja, vive indiretamente do Estado.
Esta pode ser uma medida radical, e que não poderia ser tomada sem outro tipo de contrapartidas, mas, de qualquer maneira, não deixo genericamente de as sugerir: antes de se cortar nos salários dos funcionários públicos, poderia começar-se por acabar com as ajudas de custo e com os parasitas que vivem às custas delas.

7 comentários :

  1. Então mas... aumentar o consumo público numa altura de contração da procura, é do mais keynesiano que há.
    Estás portanto contra as políticas keynesianas que defendes na introdução?

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  2. e como se vai à ARGENTINA com uma bolsa?

    é que eu nunca fui à Argentina e depois de 91 trabalhei com tantos que devo ter quarto de graça

    agora só preciso da viagem pelo mesmo valor....

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  3. se a crítica é válida a solução falha ao lado do alvo. as ajudas de custo servem, também, para financiar deslocações aos mais diversos congressos e encontros científicos, parte normal da vida de investigação. sem os mesmos ninguém poderia ir a lado nenhum (e é indiferente se a fonte é o departamento, o plurianual do centro, ou o projecto individual, tudo acaba a financiar com base nas ajudas de custo --- inclusivé o financiamento a... bolseiros!).

    para acabar com este género de más práticas parece-me bastante mais razoável que os participantes recusem este género de "brindes". quando as organizações ficarem com caixotes cheios de material inútil poderão pensar duas vezes antes de decidir repetir a experiência numa conferência futura.

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  4. Aventesma, depois de ter escrito o texto apercebi-me de que uma frase nele poderia originar essa confusão. Onde se lê "Um bolseiro poderia ir à conferência na Argentina, mas teria muito mais dificuldade em Portugal" deve ler-se "Um bolseiro argentino poderia ir à conferência na Argentina, mas um bolseiro português teria muito mais dificuldade em Portugal." De resto é esta a comparação que faz sentido. Compreendido?

    Miguel, eu não sei nada de economia, mas não creio que keynesianismo seja a promoção do desperdício. Tu achas que sim? Essa não é uma posição política? (De qualquer maneira fiquei muito bem impressionado com a Argentina e o seu governo.)

    R Schiappa, começo por pedir desculpa por te considerar muito menos conhecido que os participantes na conferência argentina (eu era um deles - mas não era para levares a mal :)). Agora a sério, não sei se recusaste o teu inútil saco e o teu inútil brinde, mas o que propões não vai resolver nada. Os organizadores encolhem os ombros e continuam a impingir brindes inúteis da próxima vez. Julguei que isso tivesse ficado claro: o problema é que tal não lhes sai do bolso, ou se sai sai tanto como ao vulgar homem da rua. Não acho indiferente se a fonte é o departamento, o plurianual do centro, ou o projeto individual. De qualquer maneira as ajudas de custo (que tanto criticaste nos juízes, se bem te recordas) são como as deduções fiscais: podem ter aspetos positivos, mas era melhor (mais transparente) acabar com elas de todo. Se bem que, repito, seria indispensável encontrar uma alternativa mais responsabilizadora.

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  5. que grande confusão vai na tua cabeça: acabas com as ajudas de custo para viagens científicas (aliás, as únicas que aqui existem) e decapitas uma importante parte do teu suposto trabalho! isto não é de forma alguma comparável a ajudas de custo para ter casa ou fazer borlas nos transportes e no cinema: nunca critiquei qualquer tipo de ajuda de custo para uma pessoa poder fazer o seu trabalho! finalmente, eu não sei a que conferências costumas ir, mas brindes et al tratam-se claramente de espécies em vias de extinção...

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  6. Em todas as conferências há coisas mais-ou-menos inúteis que são distribuídas. A começar pelo banquete da conferência.

    A solução passa muito simplesmente por as autoridades que concedem a ajuda de custo verificarem se essa ajuda tem um valor demasiadamente elevado. É tão simples quanto isso.

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  7. O problema, Ricardo, é que as ajudas de custo não são só para motivos científicos. São... para nós. Mas são muito mais gerais na função pública. Eu tornava-as muito mais restritas. (Agora é claro que não defendo que passemos a pagar as idas a congressos do nosso salário.) E também restringiria neste caso o financiamento público a congressos. Bastava passar a apresentar recibos à FCT. Com que cara a organização de um congresso passaria a justificar os brindes inúteis?

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