terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os mercados e a crise político-económico-financeiro-orçamental

O Governo propõe cortes de 5% da massa salarial... e todos verificam as reações dos mercados no dia seguinte.
O PSD diz e desdiz-se, e faz tabu da aprovação... e toca de olhar para o mercado.
Os comentadores apontam para o facto de Portugal ter sido o único dos países com crise de dívida que não tinha feito cortes salariais, o que teria feito com que os mercados reagissem mal. Há quem diga agora que se o governo tivesse apresentado o PEC II (ou será o III?) antes, os mercados teriam reagido de outro modo.
Tanta atenção às reações imediatas dos mercados! O JNegócios, por exemplo, tem hoje um artigo intitulado Juros da dívida portuguesa aliviam.

Mas já alguém olhou para a reação dos mercados? Aqui ficam a evolução dos juros da dívida portuguesa (verde), irlandesa (vermelho) e espanhola (laranja) a 10 anos, nos últimos 3 meses (referência zero). O comportamento de Portugal e da Irlanda é praticamente igual, dia após dia. Desengane-se quem acha que hoje subiu ou desceu porque o Zé ou o Pedro disseram isto ou aquilo. Ou a Irlanda tem um Sócrates e um Passos Coelho a fazer exatamente o mesmo que os nossos, ou as reações de curto prazo dos mercados são independentes do que acontece no país, sendo apenas movimentos especulativos normais.

(fonte Bloomberg)

Algumas notas:
Claro que precisamos dos mercados para financiar a dívida pública e a economia, não os podemos ignorar.
Precisamos contudo que eles sejam menos influenciados erraticamente pela especulação de curto prazo, de modo a que os preços reflitam o que acontece na realidade. Alcançar isto mantendo a sua liquidez parece a quadratura do círculo infelizmente. Tempos estranhos talvez requeiram soluções estranhas, como pôr o BCE a comprar dívida soberana directamente.