sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Esquerda e as ditaduras comunistas - II

Quando a direita quer alegar que qualquer medida de esquerda, radical ou moderada, está destinada ao fracasso, é frequente puxar da carta das ditaduras de esquerda. "Qualquer redistribuição é má, veja-se como estão hoje as ditaduras ou ex-ditaduras comunistas (Rússia, Cuba, Angola) a comparar com os países capitalistas como os EUA, a UE, etc..."

É verdade que com frequência o comunismo veio a degenerar em ditaduras opressivas, e a meu ver a frequência com que tal aconteceu não se deve a um «azar» de conjunturas difíceis, mas sim a problemas estruturais na própria ideologia comunista. Um comunista discordará, mas eu vejo as coisas desta forma e é também por isso que não sou comunista.

Ainda assim devo dizer que a comparação é extremamente enganadora e injusta. Tomemos o caso da Rússia. Comparar a Rússia com os EUA em termos dos efeitos do comunismo na sociedade é enganador, precisamente porque são sociedades diferentes, com recursos diferentes, populações diferentes, histórias diferentes. A Rússia era bem mais pobre que os EUA no tempo dos czares, e não estava nem perto de ser uma super-potência mundial.

O que seria correcto, e exequível, em termos da comparação entre o Estalinismo e o Capitalismo Selvagem, seria comparar a Rússia Comunista com a Rússia Capitalista que nasceu em 1992. Mas essa comparação não é tão favorável às críticas de direita: de acordo com o Banco Mundial, o número de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza passou de 2 milhões para 74 milhões (cerca de metade da população). Em 1996 25% dos russos estava abaixo do limiar da miséria (inferior ao da pobreza). E se o consumo de álcool e a taxa de suicídio duplicaram desde o fim do comunismo para o mandato de Ielsin, a comparação torna-se menos simpática. Se a emigração da Rússia foi de tal ordem que em 4 anos a população russa diminuiu em 6,6 milhões; se durante os mandatos de Boris Ielsin o PIB diminuiu cerca de 20%, e só as políticas dirigistas do sinistro Putin voltaram a fazer o PIB aumentar; o argumento perde alguma força.

O mesmo se aplica a Cuba. Se em vez de ser comparada aos EUA fosse comparada a outras ilhas semelhantes mas não comunistas - como o Haiti, ali mesmo ao lado - o argumento perderia sentido. A comparação poderia até sugerir o contrário do pretendido...

Em África, a mesma coisa se aplica. Podemos comparar Angola com os países desenvolvidos e dizer que o Capitalismo é bem melhor que o Comunismo. Mas faria sentido comparar os países comunistas de África com os outros países Africanos, e aí o argumento perderia novamente o seu sumo.

Podemos olhar para o mundo e ver a correlação entre ditaduras comunistas e pobreza. Mas concluir que é a primeira que causa a segunda e não o oposto - como faz a direita - esbarra no facto de nenhum país à partida rico se ter tornado comunista e ficado pobre em consequência disso.
Só países pobres se tornaram comunistas, e se primeiro a Rússia e depois a China se tornaram super-potências económicas sob estas ditaduras, o oposto nunca aconteceu: nunca nenhum país rico se tornou pobre devido ao comunismo, porque nunca nenhum país rico se tornou comunista em primeiro lugar.

Reitero que não defendo o comunismo. Mesmo verificando que dificilmente traz mais pobreza e miséria às populações do que o Capitalismo Selvagem (pelo contrário), a verdade é que traz opressão, violência, atropelos vários à liberdade e aos direitos humanos.

A meu ver, entre ambos os extremos existem uma série de alternativas moderadas, razoáveis, compatíveis com alguma prosperidade e respeito pelas instituições democráticas e pelos direitos humanos. A esmagadora maioria da população não se revê em nenhum dos extremos, pelo que é uma asneira alegar que qualquer pessoa, de esquerda ou de direita, defende o(s) respectivo(s) extremo(s), e avaliar as políticas moderadas por essa bitola.

3 comentários :

  1. O Le Pen foi buscar votantes directamente ao Partido Comunista.
    É na Alemnha Oriental que os neonazis (?...) têm mais força.
    Há citações de Adolfo Hitler em que este dizia que se podia fazer dum comunista um nazi mas que tal não era possível a partir de um sozi (social-democrata).

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  2. Informação interessante, essa.

    É peciso esclarecer, no entanto, que "social democracia" corresponde ao centro-esquerda.

    Em Portugal, como o partido de centro-direita tem esse nome, isso às vezes equivoca algumas pessoas.

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  3. Prefiro a citação de Willy Brandt: "os jovens revolucionários de hoje tornar-se-ão os bons sociais democratas de amanhã". Estou farto de sectarismos.

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