quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A novela da eleição brasileira

Se alguém duvidava das enormes virtudes do presidente Lula, as dúvidas ficaram esclarecidas: só Lula levaria o Luís Rainha a citar, elogiosamente, um autor de telenovelas. Ao contrário do que Sérgio Lavos insinua, eu, que tenho o prazer de conhecer o Luís, afianço: o Luís não é elite; o Luís é um gajo do povo. Provavelmente era, como eu, espectador assíduo do Araponga, e é isso que o leva a defender as palavras rancorosas do seu coautor. Não é esse o meu caso, porém: apesar de admirar a obra teledramatúrgica (e não só) de Ferreira Gullar, não subscrevo nem um pouco o seu rancor de ex-esquerdista convertido em patrulheiro da elite (ele sim) tradicional brasileira. O Pedro Viana, colega do Luís, explica bem porquê no seu comentário.
Notável é o comentário de Miguel Serras Pereira, a quem há uns tempos chamei "esquerda cervejista" em homenagem a Odorico Paraguaçu, criação do maior dos teledramaturgistas (e colaborador de Ferreira Gullar), Alfredo Dias Gomes. "Esquerda cervejista" era uma expressão que Odorico usava para caraterizar alguma da sua oposição. Pois bem: a postagem do Luís é, toda ela, baseada em citações da entrevista de Ferreira Gullar; ora o bom do Serras Pereira começa por dizer que é um "post em cheio no alvo" para, logo a seguir, afirmar que "os tiros de Ferreira Gullar são quase todos na água!" "Esquerda cervejista", de facto, parece-me um epíteto injusto para quem, manifestamente, afirma que o seu alvo é a água... Mas não quero que Miguel Serras Pereira fique triste. É que há uma personagem de Dias Gomes que lhe assenta perfeitamente, dada a clareza do seu discurso: o professor Astromar.
Ao ler a postagem do Luís e os comentários de Serras Pereira, Vítor Dias largou um "porra, que é demais"... Se Vítor Dias me permite um conselho, sugiro-lhe que se divirta a ler o Miguel Serras Pereira como quem se diverte a assistir a uma telenovela do Dias Gomes.
Finalmente, uma recomendação ao Luís, se ele me permite. O Araponga tinha a sua graça, mas não era nem de perto nem de longe a melhor telenovela do Dias Gomes. Bem melhores eram as já citadas (e conhecidíssimas) O Bem Amado e Roque Santeiro. No contexto da eleição brasileira, porém, vale a pena destacar O Pagador de Promessas. O original, da autoria de Dias Gomes, era um filme, o único em língua portuguesa que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Em 1989, ano da primeira eleição presidencial direta brasileira, Dias Gomes adaptou O Pagador de Promessas à televisão, com referências à reforma agrária, nomeadamente através de uma personagem chamada... Lula. Valeu?

2 comentários :

  1. Isso do "elogiosamente" só se verifica mesmo na tua cabeça. Citeo a entrevista porque o Gullar (que é muito, muito, muito mais do que autor de novelas) é bastante querido de muita gente de esquerda por cá.

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  2. Luís, quando se cita um texto sem nenhuma ressalva (o teu post é só isso), parte-se do pressuposto de que o autor do post subscreve o conteúdo desse texto. Acho que qualquer pessoa pensa assim.

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