quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Recordar a monarquia...

“– Muita pobreza por aqui, muita pobreza! Dizia o bom abade – Ó Dias, mais este bocadinho de asa!
– Muita pobreza, mas muita preguiça – considerou duramente o padre Natário. Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar padre-nossos pelas portas. – Súcia de mariolas! – resumiu.
– Deixe lá, padre Natário, deixe lá! – disse o abade – Olhe que há pobreza deveras. Por aqui há famílias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão ervas.
– Então que diabo querias tu que eles comessem? – exclamou o cónego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão. – Querias que comessem peru? Cada um como quem é!
O bom abade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estômago, e disse com afecto:
– A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.
– Ai, filhos! – acudiu o Libaninho num tom choroso – se houvesse só pobrezinhos isto era o Reininho dos Céus!
O padre Amaro considerou com gravidade:
– É bom que haja quem tenha cabedais para legados pios, edificações de capelas...
– A propriedade devia estar na mão da Igreja – interrompeu Natário, com autoridade.
O cónego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:
– Para o esplendor do culto e propagação da fé.”

Eça de Queiroz

6 comentários :

  1. Viva,

    Divulguem, por favor!

    No próximo dia 10, Domingo, Lisboa manifestar-se-á contra a Pena de Morte, juntando-se assim ao conjunto de cidades de todo o mundo onde será lembrado o 8º Dia Mundial contra a Pena de Morte. Apela-se à participação e divulgação deste evento.

    10-10-2010
    17:30h
    Largo de Camões (Lisboa)

    Todos vestidos de preto contra a pena de morte!

    Mais info, cartaz e sticker para o blog no link abaixo:
    http://www.facebook.com/event.php?eid=155343071164720

    Trata-se de uma iniciativa conjunta da ATTAC, Colectivo Mumia Abua-Jamal, Comité de Solidariedade com a Palestina, Não Te Prives, SOS Racismo, Panteras Rosa, Pobreza Zero Precários Inflexíveis e Solidariedade Imigrante.

    ResponderEliminar
  2. come-se pão de bolota senhor....queremos conduto

    e a guarda disparou
    e a carnificina começou e terminou
    sem aparecer nos jornais
    que a república portuguesa tem uma imprensa onde estão arquivados alvitres, ideias, propostas e críticas, em número mais que suficiente para se salvarem dez países do tamanho do nosso

    infelizmente não tem espaço para um morto e dez feridos duma greve de ceifeiros, compreende-se pois que quando O Dia me bateu à porta a título de ter criticado a república das cidades mas não dos campos, fiquei grato à honra que me faziam, mas scéptico a respeito dos resultados

    Não vejo a grande crise em Portugal.Vejo progresso lento, desordenado e entrecortado,e não me admiro,nem me aflijo.
    Milagrosa seria, a meu ver, a existência de uma evolução gradual e contínua duma república que em quási nada se distingue da monarquia moribunda que sufocou

    Julho de 1924

    ResponderEliminar
  3. não é Eça mas também escreveu nos jornais....
    uns excertos
    a fome, os famintos e os esfomeados
    são personagens distintos

    há os que vão aos caixotes e os que vão às caixas

    reduzir a realidade da monarquia a um parágrafo
    é reduzir a república a uma linha

    ResponderEliminar
  4. Eu não tenho é tempo, senão podia transcrever milhares de páginas sobre a monarquia: o Eça, o Ramalho, o Antero... ou leia os livros de história sobre o taliban D. Miguel, ou as histórias tresloucadas da Dona Maria, ou o desprezo do D. Carlos pelo país e pelos súbditos, o analfabetismo, a pobreza, o colonialismo inglês, os complexos de inferioridade, se quiser vá até ao século XVIII e leia sobre as angústias do marquês de Pombal perante uma aristocracia suja, burra, ignorante e caceteira, que se recusava a aprender o abecedário...

    ResponderEliminar
  5. Filipe Castro disse...
    Eu não tenho é tempo


    vejamos se nos comprendemos

    a culpa não é de um sistema
    a fome a miséria resultam de todo um povo
    e de um sistema de vida
    seja monarquia ou república tanto faz

    e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte.

    E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração."

    Mario Vargas Llosa

    compreendido?
    isenção deve existir
    perante sistemas pretéritos
    assim como perante os césares loucos
    registados pelos historiadores
    que sonhavam com a romana república

    E nas palavras de um pequeno grande homem António Ferro, que também agigantou anões e diminuiu gigantes...
    aplica-se a todos os grandes pequenos humanos
    contrasensos de grandes almas em pequenos corpos

    desejamos para lograrmos a rara felicidade de não alcançar...
    se acaso o nosso desejo se realiza, longe de sermos felizes, sentimo-nos prejudicados, roubados, com um sonho a menos.

    todos os homens são almas gémeas mesquinhas corruptas altruístas assassinas e santas
    é essa a marca do homem

    ResponderEliminar
  6. Filipe Castro disse...
    Eu não tenho é tempo

    vi muitos que perderam o último tempo que tinham

    vi-os escorrer pelas areias

    acreditar que um sistema supera outro
    ou que um Cavaco eleito respeita mais o povo que o Dom pela graça de Deus que os desprezava

    são ilusões

    se o Bin-laden republicano
    e o D.Miguel monárquico
    aspiravam a sistemas similares
    tal deve-se à sua natureza como seres humanos

    e só parcialmente aos regimes que almejavam implantar

    seja a república islâmica
    ou a monarquia grega ou egípcia

    os malogros dependem dos homens
    que as dirigem
    mas também dos povos que aceitam o mando

    quanto aos frades armados de D.Miguel
    e aos cortejos de funcionários famintos que abandoram Lisboa aos liberais

    e ao povo em armas que na serra algarvia espoliou aqueles que lhes tinham roubado o pão

    há milhões de páginas
    e o exército de D.Pedro liberal requisitou mais fome no Algarve
    que o absolutista Miguel

    e em Portugal não há disso...há escravos, há egoístas,há indiferentes, há pândegos em grande quantidade e há uma minoria buliçosa que se destaca desta multidão de inertes, se apodera dos seus direitos desprezados e das suas riquezas mal defendidas
    Agostinho de Campos
    isto resume tudo

    ResponderEliminar

As mensagens puramente insultuosas, publicitárias, em calão ou que impeçam um debate construtivo poderão ser apagadas.