domingo, 22 de abril de 2007

Publicistas e feministas

Os portugueses odeiam a expressão “politicamente correcto” e eu não percebo muito bem porquê. As pessoas passam sem pensar aos filhos os preconceitos que têm. E a ideia do “politicamente correcto” é fazer as pessoas pensarem nos preconceitos que estão a passar aos filhos: superstições, racismo, defesa do autoritarismo, sexismo, etc.

Julgo que ninguém em Portugal acredita que os homens têm os mesmos direitos que as mulheres. Não se sabe quantos homens é que batem regularmente na mulher, mas em Espanha, quando se foi ver, eram imensos. Não sei se há estatatísticas sobre salários, mas suspeito que as mulheres ganham menos e têm menos oportunidades de promoção que os homens, em circunstâncias de igualdade de expêriencia e competência (nos EUA as mulheres ganham 75% do que ganham os homens). E como não vivo em Portugal há 9 anos não sei se a mentalidade mudou sobre a sexualidade das mulheres, mas há 9 anos um homem que tivesse muitas parceiras era um herói e uma mulher que tivesse muitos parceiros era uma desgraçada sem amor próprio.

E esta paisagem não muda se não fizermos um esforço colectivo, político, para a mudar. Sobretudo quando falamos de publicidade. Se os portuguesinhos pequeninos crescerem a ver as mulheres na televisão a lavar, a dobrar, a aspirar e a passar a ferro, e depois a fazerem-se desejáveis, com o rabo ao léu…

A exploração das frustrações sexuais dos homens é uma estratégia que vende qualquer coisa (enquanto os homens forem, como diz o papa, “cabeças de casal”). Como dizia o comediante Bill Hicks, o anúncio que todos os publicistas gostavam de fazer era uma mulher lindíssima, sentada num banco; a câmara recua e vê-se que está nua da cintura para cima; a câmara recua mais e vê-se que está nua da cintura para baixo; a câmara foca na boca dela, de onde ela tira dois dedos que a câmara segue e que ela enfia no sexo enquanto atira a cabeça para trás, com uma expressão de desejo incontrolado. E depois aparece um nome de uma marca qualquer, não interessa qual: bebidas, after shaves, carros, cigarros, bicicletas, cola para as dentaduras postiças…

Reparem que nunca niguém fala numa versão deste anúncio com um homem igualmente excitado… estou a perder a audiência? :-)

7 comentários :

sabine disse...

É provável que sim, que perca audiência. E que seja tabelado de "politicanente correcto". Mas tem razão.

e-konoklasta disse...

olha a minha amiga sabine!
fui ao leveza hoje.

abraço

@filipe

não sei se é politicamente correcto mas, este post vou levá-lo, pois como sou do "outro sexo" sou suspeita e este está perfeito.

abraço


Hoje foi-me atribuído um prémio de "thinking blog" (eh! quem havia de dizer, eu não pedi nada...) e tenho de o atribuir agora a outros 5 blogs. Autorizam-me a que vous atribua o tal prémio ? Só têm de trazer o pequeno distintivo e designar outros 5 blogs. Tá ? Seja como for já está atribuído na intenção.

sabine disse...

E-konoclasta:
É sempre bem vinda ao meu blogue.Que é isso dos "thinking blog"?!

Ricardo Alves disse...

Filipe,
em primeiro lugar, os factos. (Como realmente não vives em Portugal há 9 anos, é natural que não os saibas.) A violência doméstica existe e não deve ser muito diferente, em proporção, do que acontece em Espanha. E, embora haja mais mulheres do que homens a entrar nas universidades (e a sair delas), inclusivamente no IST (pois, já lá vai o tempo da coutada...) são pior pagas nos empregos (deve ser à volta de 75%, também; não encontro o número).

Em segundo lugar, quanto ao «politicamente correcto». É uma expressão que em Portugal é utilizada exclusivamente pela direita, e sempre com sentido pejorativo. Qualquer coisa que avance num sentido igualitário ou anti-discriminação é «politicamente correcto» e isso é mau. Depois junta-se o choradinho habitual da direita, segundo o qual já não se poderia contar «anedotas de pretos», dizer que as mulheres são estúpidas, etc, e isso seria muito mau, muito opressivo, tra-la-la. (Claro que na prática contam as anedotas à vontade.)

Em terceiro lugar, a publicidade. O que desencadeou o post que eu cito mais abaixo foi um comunicado da CGTP que podes ler aqui (a imagem que lá está anda pelas ruas de Lisboa):

http://www.cgtp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=675&Itemid=106

A CGTP acha que aquela publicidade do Crazy Horse é «atentatória da dignidade das mulheres». Eu não concordo, e foi por isso que citei a rapariga que se insurje contra esse comunicado da CGTP. Primeiro, acho que as mulheres não podem estar sempre a queixar-se de que são «reduzidas» a objectos sexuais na publicidade. Isso é pior do que qualquer efeito que as imagens possam ter. Segundo, isso mete organizações como a CGTP ao lado do mais puritanos dos césares das Neves. É que, em terceiro lugar, imagens como a do Crazy Horse são imagens de poder feminino. Aquela imagem não é necessariamente uma mulher instrumentalizada pelos homens. É um retrato de como as mulheres podem instrumentalizar os homens.

e-konoklasta disse...

Quanto aos números pode dizer-se que são práticamente os mesmos. Relativamente à violência doméstica os números são muito próximos dos espanhóis.

Agora, não concordo com o Ricardo quando diz que as imagens do Crazy Horse representem a imagem de como as mulheres podem instrumentalizar os homens, embora pense que até certo ponto o seja mas num jogo ambíguo em que a instrumentalização dos homens passa, fatalmente, pela instrumentalização das mulheres, não?

Ricardo Alves disse...

Não. Quem vai ver o Crazy Horse? Essencialmente homens, que pagam (e bem...) para se babarem a olhar para mulheres que ganham bom dinheiro com isso, que não são prostitutas, e que em muitos casos até devem sentir uma ponta de vaidade por serem o centro de tantas atenções.

«Instrumentalizadas»? Vai dizer-me que a Madonna é instrumentalizada há um quarto de século? Então como será que ficou rica e teve a vida que quis?

Filipe Castro disse...

O Ricardo tem razão quando fala no puritanismo da CGTP. Lembram-se do PC nos anos 70? Havia um camarada controleiro a ver se o pessoal não se punha com posiçoes do Kama Sutra muito complicadas e portanto burguesas e decadentes. E os homem-sexuais eram expulsos do partido porque, como eram "maricas" podiam-se ir abaixo nos interrogatorios... :-)