sexta-feira, 30 de julho de 2010

Welfare queens 2

O texto do João Vasco sobre a a falta de empatia da direita em relação aos mais pobres ou mais lentos ou menos agressivos ou menos afortunados, está excelente e eu subscrevo-o completamente, mas acho importante adicionar um pormenor, que acho que ajuda a perceber como é que o apito infrasónico de Reagan foi ouvido com tanta clareza por tantos americanos: a religião.

Os calvinistas (como os ideólogos do Opus Dei) acreditam que os ricos são ricos porque são abençoados por Deus e que Deus ajuda os que se ajudam a si próprios. Os ricos são portanto ricos porque “trabalharam duro e fizeram as escolhas certas”. Decorre directamente daqui que os pobres são pobres porque são estúpidos, preguiçosos, ou as duas coisas: "fizeram as escolhas erradas".

E esta é a justificação moral das pessoas que são incapazes de sentir empatia pelos outros. Esta atitude, que muitas vezes roça a sociopatia, baseia-se normalmente numa combinação simplória (embora não menos perigosa) de ignorância e egoísmo infantil. Muitos dos textos do blog referido pelo João não são mais do que birras infantis em que se misturam numa sopa de emoções mal definidas coisas sérias e coisas triviais, factos e opiniões, verdades e mentiras.

A América de Reagan já existia muito antes de ele ser eleito. Reagan era um actor falhado, medianamente inteligente, intelectualmente preguiçoso e snob, que serviu brilhantemente de porta-voz ao cartel de gangsters que manda na América.

A retórica desta direita tonta e simplista criou o clima que permitiu aos ricos roubarem os pobres sem problemas. Esta retórica pode ser irritante mas é acima de tudo triste, patética em alguns casos, porque defende os interesses dos que exploram quem a escreve e imprime. Do ponto de vista dos gansgters das finanças e da indústria tem uma função importantíssima: a ideologia é a cortina de fumo que torna os que exploram invisíveis aos explorados.

Estes jornalistas e os políticos que eles elogiam têm frequentemente pouco a ganhar: um emprego, um ordenado, um convite para uma festa, um envelope, um favor, uma migalha dos gangsters cujos interesses eles protegem.

Mas a parte mais triste e mais patética destes textos e destes blogs é que as questões de liberdade, de cidadadia, de democracia e de justiça, que estão associadas à proposta dos cheques ensino (aludidos no texto referido pelo João) nunca são abordadas de um ponto de vista intelectual, substituídas por slogans políticos simplistas, fora de contexto, longe de qualquer discussão séria e medianamente inteligente.