quinta-feira, 8 de julho de 2010

É censura? Sim. É grave? Há pior. Mas...

Por uma vez, não concordo com o Ludwig Krippahl. Ele acha que não há censura se uma empresa multinacional decidir encerrar uma das suas filiais por discordar dos conteúdos (e por razões, presume-se, de sensibilidade religiosa). Diz que «é uma decisão livre de uma empresa privada». Será. Mas justamente.

A censura não é sempre exercida pelo Estado ou pelas comunidades religiosas. É de censura que se trata quando uma empresa impede os seus funcionários de a criticarem em público, ou quando impede a circulação da mensagem política ou religiosa X ou Y dentro da empresa. Os jornalistas da Playboy portuguesa poderiam, se esta encerrasse (o que foi desmentido nas últimas horas), continuar a publicar combinações de barbudos e mamalhudas (sugestão para o próximo ensaio: Maomé e as 72 «virgens»). Apenas não o poderiam fazer com a marca da Playboy no cabeçalho (embora eu imagine que o Ludi os apoiasse se enveredassem por essa violação dos direitos de propriedade industrial). Mas seria censura porque uma publicação periódica fora impedida de prosseguir uma determinada linha editorial.

Não seria, evidentemente, dos casos de censura mais graves (proibir a venda seria muito pior). Continuaria a ser uma decisão privada de uma empresa privada. Mas o Ludwig deveria reflectir sobre se ainda haveria liberdade de expressão num país em que todas as empresas de comunicação social pertencessem a comunidades religiosas (ou se deixassem condicionar por elas).