quarta-feira, 16 de maio de 2012

Resquícios medievais

Até ao século xviii, o Estado servia para recrutar soldados, administrar justiça, controlar a populaça e pouco mais (como, e desde sempre, cobrar impostos). Os assuntos do Estado eram do rei e seus serventuários, necessariamente impunes porque a lei não se lhes aplicava e se necessário refugiavam-se nos seus castelos.

Nos últimos 200 anos os melhores lutaram para que tudo fosse diferente. Para que o Estado pudesse cuidar de quem mais ninguém cuida desinteressadamente, para que retirasse a totalidade (ou pelo menos a generalidade) da população da miséria e da necessidade, da ignorância e das tutelas sociais.

Dos Estados modernos espera-se muito, por vezes até de mais (como acreditar que podem controlar o clima ou dar-nos emprego a todos). Mas as funções medievais do Estado, essas são hoje anacrónicas. As guerras passaram de moda e o serviço militar obrigatório acabou. Vigiar os cidadãos, ao contrário do que acontecia no tempo das inquisições, já não é tarefa nobre e sim violação dos direitos fundamentais e da lei.

Todavia, estão connosco resquícios dos tempos medievais. Numas forças armadas com gastos desproporcionados à paz que veio para ficar. Na sobrevivência de serviços secretos opacos e impunes. Na parasitagem do Estado por interesses particulares. Nos novos castelos que são os condomínios fechados. O progresso civilizacional ainda não acabou.

(Publicado originalmente no i.).