quinta-feira, 10 de maio de 2012

Obama, o traidor

Cá na Europa Obama tem uma excelente imprensa. Muitos vêem nele um presidente pragmático, razoável, que procura por todos os meios realizar as suas ousadas promessas de campanha, mas que é bloqueado pelos mefistofélicos republicanos, que estão dispostos a arruinar o seu país para prejudicar Obama. É, atendendo à realidade norte-americana, um bom presidente.

Há algo de verdade nesta história: efectivamente os congressistas republicanos estão dispostos a tudo para prejudicar Obama. O seu discurso é extremista, violento, infantil, irracional.
Mas o resto é falso. Obama não é apenas um péssimo presidente: é responsável pela maior traição política que já tive oportunidade de observar.

Começo pelo «National Defense Authorization Act for Fiscal Year 2012», a lei que permite a detenção (de cidadão americanos, em território americano) por tempo indefinido, sem julgamento, apenas por decisão do poder executivo. Sim, foi Obama quem destruiu esse direito fundamental dos cidadãos de quem preside, o direito ao «devido processo» judicial. Foi ele quem deu esse passo seguro em direcção ao fascismo. Obama, o professor de direito constitucional.

E já que falamos em direitos fundamentais, lembro que o Obama de 2008, cheio de propostas arrojadas e valores decentes, defendia a protecção de «whistleblowers» (denunciantes), pelo papel importante que desempenhavam nas democracias. Mas o seu executivo decidiu fazer fazer o contrário: atacar com uma severidade sem precedentes Bradley Manning, com uma crueldade nas fronteiras da lei, que inclusivamente levou à obstrução reiterada do enviado das Nações Unidas Juan Mendez, que procurava averiguar a verdade respeito das alegações de tortura.
Quanto à wikileaks são conhecidas as pressões do Governo dos EUA sobre a VISA, a Amazon e outras instituições que tais, bem como todos os esforços para alterar as leis num ataque à privacidade de todos dirigido primeiramente à wikileaks. Nixon podia ser um «escroque», mas o caso «watergate» não acabou assim, com os denunciantes na prisão solitária, e os jornais envolvidos na denúncia perseguidos pelo governo anos depois do escândalo.

No que diz respeito à economia, lembro que Obama manteve os cortes fiscais iniciados por Bush. Obama tinha prometido acabar com eles, e na verdade nem tinha de mexer uma palha: eles expirariam em 2010 se não fossem prolongados. Tendo o partido Democrata o controlo de ambas as câmaras legislativas, e sabendo que iriam manter a maioria do Senado, Obama liderou o esforço para prolongar os cortes fiscais que havia prometido fazer desaparecer. Com implicações ao nível do défice, que resultaram em cortes orçamentais nas escolas, na reparação de infra-estruturas, nas agências ambientais, nas agências de fiscalização, etc... Tudo cortes onde a poupança sai muito cara. Criminosamente cara.

Já em relação ao orçamento da defesa, não existiram cortes significativos. Pelo contrário: continua o financiamento de projectos absurdos que demonstram o quão corrompido está o sistema. O calendário de retirada das tropas do Iraque é mais demorado que aquele proposto por Bush (apesar de resultar também da pressão do Governo iraquiano para uma retirada mais célere) - isto por parte de quem fez da vontade de retirar do Iraque uma das bandeiras de campanha. E já nem falo no Afeganistão, onde Obama efectivamente aumentou o número de tropas (veja-se qual foi uma das poucas promessas que cumpriu).
Dir-se-á que isto ocorre porque o partido de Obama já não detém a maioria da casa dos representantes. É uma fraca desculpa. Obama luta contra os progressistas do seu partido, e não contra os obstrutores do partido oposto. Por isso é que Bush, com muito menos condições políticas que Obama (que chegou a ter maioria qualificada no Senado) conseguiu implementar uma agenda muito mais transformadora. A própria inflexibilidade dos seus adversários políticos é reflexo da falta de vontade política de Obama: é uma estratégia bem ajustada a um adversário negocial excessivamente flexível.

Sobre a área da saúde, vale a pena lembrar que a esmagadora maioria dos americanos desejava a «opção pública» e não esta reforma encomendada pelas seguradoras que alargam o seu mercado e podem impor outros preços, agora que se tornou ilegal não ter seguro de saúde. Sim: a resposta de Obama para os problemas de saúde nos EUA foi dar mais benesses às seguradoras. Mas não só. A indústria farmacêutica também foi agraciada pela liderança de Obama, pela forma corajosa e forte com que ele lutou contra o seu partido para impedir que fosse concretizada uma das suas promessas de campanha.

E em relação à área do ambiente, não foi por acaso que um dos maiores desastres ambientais de sempre ocorreu no seu mandato. Se pensarmos que desde o Deepwater Horizon, as agências de fiscalização ficaram com menos recursos e poderes, e que o número de licenças de extracção para áreas protegidas/arriscadas aumentou desenfreadamente, não é preciso dizer muito mais.

Mas muito mais se poderia dizer. Em cada área da governação, desde a pressão para deixar de financiar a ACORN, ou do despedimento precipitado e populista de funcionários atacados por descontextualizações desonestas das suas palavras, até às escolhas para os postos chave da sua administração, Obama traiu a sua base eleitoral de apoio de uma forma tão profunda e revoltante, que nunca vi nada igual em política.

Não me interpretem mal: se fosse um cidadão norte-americano votaria em Obama (só votaria contra caso existisse um adversário nas primárias).
Mas isso ainda torna a sua traição mais perversa: ao deixar tantos eleitores sem escolha efectiva, ao trair as suas promessas de campanha e lutar politicamente contra quem as tenta cumprir, Obama representa as causas do descrédito cada vez mais generalizado da Democracia.
Ao menos Bush, com todas as políticas abomináveis que implementou, cumpria a vontade de parte significativa da sua base eleitoral de apoio. Obama não.

É um traidor.