quarta-feira, 23 de maio de 2012

Obviamente

Miguel Relvas não é um ministro qualquer. Acumula pastas de mediação: assuntos parlamentares e autarquias, futebol e comunicação social. Presumivelmente, todos os poderes fácticos do país se pelam pelo seu número de telefone e por uma conversa de corredor com este pequeno Richelieu.

Admito que inicialmente a investigação do “Público” sobre as ligações entre Silva Carvalho e Miguel Relvas me pareceu inócua. Todos recebemos emails não solicitados, e a megalomania do ex-SIED torna crível que se posicionasse para novo chefe de todas as pides. O caso mudou de figura quando eu soube que Relvas pressionou uma jornalista para não publicar: só o faz quem teme. E a situação tornou-se insuportável quando li que Relvas ameaçou “divulgar, na internet, dados da vida privada da jornalista”, aparentemente em dois telefonemas separados. Conclusão: ou os jornalistas do “Público” são mentirosos ou Relvas se comporta como um tiranete da Luanda colonial (ou pós-colonial). Mas juntando que Silva Carvalho armazenava ficheiros com “aspectos da vida privada e orientação sexual” de figuras públicas, acrescenta-se a suspeita de que Relvas se cevou na pocilga dos serviços secretos.

Ter momentos de exasperação com gestos e frases desapropriadas é humano (aconteceu a Manuel Pinho e demitiu-se). Os dias passam e Relvas não esclarece cabalmente o caso. A opção mais digna que lhe resta é a demissão.

(Publicado originalmente no i.)