sábado, 26 de maio de 2012

Estupidez

Who needs astrology? The wise man gets by on fortune cookies
Edward Abbey

Estou regalado (não encontro outra palavra) a ler o livro delicioso de Avital Ronell "Stupidity". Um livro balsâmico para quem vive na Confederação há 14 anos, isolado entre conservadores.

Os meus amigos portugueses estão-me sempre a lembrar que Portugal está cheio de conservadores - o José Manuel Fernandes, o César das Neves, os membros do blog Insurgente, etc. - mas não percebem que aí os conservadores estão diluídos, que há livrarias e que a cultura e o saber são respeitados (excepto nos corredores do governo).

Aqui é diferente. Impera a estupidez em todas as formas, das mais benignas às mais tóxicas, e não há um referêncial. O livro de Ronell é sobretudo divertido quando descreve a estupidez que é rápida (os pobres são pobres porque fizeram as escolhas erradas, o FDR era comunista, os ateus são todos criminosos em potência porque não têm medo do Inferno, Obama é nigeriano, os muçulmanos são terroristas...), a estupidez que pensa (a dos senadores que vendem o país aos ricos), a estupidez que não consegue estabelecer relações organizadas entre causas e efeitos (a política fiscal e a crise), a estupidez que é aprendida (os africanos são bons nos desportos e maus em matemática)... Ronell apresenta o catálogo completo num inglês inteligente e divertido, culto, sensível e cheio de ironias. Um livro que faz companhia a quem vive no Texas, onde toda a gente vê a FOX.

Os texanos vêem a FOX de manhã e depois metem-se no carro e ouvem os "talk shows" que são ainda mais estúpidos e mais primários e mais infantis e mais rurais e mais odiosos do que a FOX. Esta gente - boa, como a maioria das pessoas em todo o mundo - vive num mundo virtual (criado por quatro ou cinco magnatas dos media: Rupert Murdoch, Mark Mays, etc.) cheio de perigos e de inimigos, e absorve as opiniões fabricadas por "maketers" em "think tanks" financiados por um pequeno grupo de multimilionários, todos fascistas, por necessidade ou vocação. O resultado é esta atitude anti-intelectual radical, que recusa com um ódio supersticioso tudo o que não é imediato, que pensa por slogans, que odeia nomes e rótulos de uma forma pavloviana e que recusa totalmente o debate de ideias. Parte dos meus alunos abandona a sala de aulas regularmente, quando eu falo de Darwin, por exemplo.  E votam todos porque o movimento evangélico está mais bem organizado do que o KGB da antiga URSS.